FOTO 65: Propriedade do Agricultor Zé Melquíades
2. O Diálogo como metodologia
3.4 A centralidade da agroecologia neste trabalho
A Agroecologia é terra, instrumento e alma da produção, onde se plantam novas sementes do saber e do conhecimento, onde enraíza o saber no ser e na terra; é o caldeirão onde se amalgamam saberes e conhecimentos, ciências, tecnologias e práticas, artes e ofícios no forjamento de um novo paradigma produtivo (LEFF, 2002, p. 37)
Diz-se que a compreensão do que é agroecologia está em construção, em disputa. Desde uma perspectiva integradora/abordagem complexa, procura afirmar uma visão política que interroga a cultura, as técnicas produtivas e os saberes ambientais. Enquanto se alimenta dos debates sobre meio ambiente e a insustentabilidade da agricultura convencional, carrega um projeto político do oprimido/subalterno e passa a incorporar e valorizar outros saberes, para além dos limites da moderno-colonialidade. Portanto, a agroecologia tem centralidade neste trabalho, sobretudo por ser transversal em seus princípios e propostas, abordando as questões produtivas com um olhar crítico politicamente, epistemologicamente e ambientalmente.
O termo tem sido incorporado aos discursos de instituições e sujeitos diversos. Faz presença nas políticas públicas – como o recente “Plano Brasil Agroecológico”; nas universidades – através dos cursos de graduação e pós-graduação, grupos de pesquisa e extensão e encontros acadêmicos; nas “Ecovilas” e comunidades alternativas; nos sindicatos de trabalhadores rurais e organizações sociais, encorpando os argumentos dos direitos dos
agricultores e questionando os limites da agricultura baseada nos princípios da “Revolução Verde”; e, sobretudo, no cotidiano dos diversos sujeitos, lugares e territórios da agricultura –
as famílias de agricultores camponeses, as populações tradicionais, os agricultores urbanos, os assentados...
Portanto, a agroecologia se coloca como um campo transversal de conhecimento que tem como objetivo, a partir de uma crítica aos modelos hegemônicos de desenvolvimento rural, o equilíbrio entre a produção de alimentos e a conservação dos recursos naturais:
A Agroecologia é um campo de conhecimento e uma estratégia para a sustentabilidade: planeja e entende produção e conservação como uma só unidade, portanto articula os aspectos agrários e agrícolas com os ecológicos, sob um olhar ambiental mais amplo, ou socioambiental, para melhor traçar essa possibilidade. (PEREIRA, 2006, p. 101)
“A partir de sua etimologia, a agroecologia está relacionada com uma abordagem ecológica em relação à agricultura, incluindo as biointerações que ocorrem nos sistemas
agrícolas e os impactos da agricultura nos ecossistemas” (JESUS, 2005, p. 41). Assim, se
propõe a pensar a agricultura de forma integradora, interrogando temas como a produtividade agrícola e a alimentação desde um olhar sistêmico, logo, político, cultural e ambiental.
Interroga a dimensão da cultura ao revalorizar certos grupos sociais com seus modos de vida em seus territórios, diversos em suas formas de significação e apropriação da natureza, repletas de saberes. Caminha pela dimensão política ao questionar os modelos de desenvolvimento rural, a desigual estrutura fundiária brasileira e a desigualdade entre gêneros; também ao ser apropriada pelos movimentos sociais – como o caso do Movimento dos Sem-Terra28 e das tantas organizações sociais ligadas à causa camponesa; ao lutar por políticas públicas – como o PRONAF e o PAA29; e por fim, ao se engajar na luta pela soberania dos povos e trabalhadores. Caminha, ainda, pela dimensão do conhecimento, ao questionar os limites do paradigma científico moderno-colonial, propondo tecnologias alternativas e autônomas, dialogando com outros saberes (ambientais, incritos), e mesmo por estar no cotidiano dos cursos de agroecologia pelo país.
Francisco Caporal (2009, p. 11), por exemplo, a compreende como um “novo enfoque científico”, que a partir de diferentes aportes disciplinares e saberes, para além dos produzidos nas universidades, intenta “re-orientar processos produtivos e estratégias de desenvolvimento
que sejam capazes de contribuir para minimizar os impactos ambientais gerados pela agricultura convencional” ainda que, ao fazê-lo, também sugira “estratégias que possam vir a ser adotadas para um desenvolvimento socialmente mais apropriado e que preserve a
28 Borges (2007) disserta sobre o movimento de transição do MST para a agroecologia. Em suma, o movimento
percebeu que para além da luta pela terra era necessário lutar por dignidade na terra, soberania alimentar e por estratégias produtivas que sustentassem a qualidade da terra para os agricultores e suas famílias se manterem. O MST carrega, hoje, a bandeira da agroecologia, reflexo da necessidade de se criticar não só a injusta concentração fundiária no país, mas também as implicações ambientais e sociais dos formatos produtivos apoiados na “Revolução Verde”.
29 O PRONAF – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – é um programa de
disponibilização de crédito rural para os agricultores familiares e assentados. O PAA – Programa de Aquisição de Alimentos – visa gerar mecanismos de segurança alimentar através da compra direta de alimentos de agricultores familiares, assentados e populações tradicionais para uso nos restaurantes populares, hospitais e cozinhas comunitárias.
biodiversidade e a diversidade sócio-cultural”. Portanto, o autor reserva um lugar epistemológico/metodológico à agroecologia, que passa a ter, também, uma crítica e uma proposição prática e política.
No mesmo caminho, Altieri (2004) se esforça em delimitar um campo científico para a agroecologia. O faz deslocando o olhar dos recortes reducionistas da ciência moderna para o agroecossistema: “[a agroecologia] utiliza os agroecossistemas como unidade de estudo, ultrapassando a visão unidimensional – genética, agronomia, edafologia – incluindo
dimensões ecológicas, sociais e culturais” (p. 23). Este movimento metodológico acaba por
propor um olhar mais complexo para as práticas da agricultura, a partir do qual é possível
revalorizar e compreender os “sistemas agrícolas tradicionais” (p. 29).
Mais uma vez, a centralidade da agroecologia neste trabalho – ancorado no recorte de uma comunidade quilombola-camponesa – é reafirmada ao concordar com o autor que:
É possível obter, através do estudo da agricultura tradicional, informações importantes que podem ser utilizadas no desenvolvimento de estratégias agrícolas apropriadas, adequadas às necessidades, preferências e base de recursos de grupos específicos de agricultores e agroecossistemas regionais (ALTIERI, 2004, p. 26).
Portanto, a agroecologia se propõe não só a compreender os agroecossistemas, senão que a base cultural e territorial na qual eles se desenvolveram. O território – permeado por seus lugares – é a base para a compreensão dos agroecossistemas, visto como um recorte espacial que carrega um olhar próprio para o mundo, as histórias e resistências locais. É também o elemento identitário para muitos destes grupos sociais tradicionais, onde os conhecimentos foram gestados e transmitidos.
Para além, faz-nos repensar a universidade como o lugar com status de produtor de conhecimento. Faz-nos o convite à compreender os saberes que se materializam no manejo e uso dos agroecossistemas, até então rechaçados pela universidade e ciência modernas:
Ao contrário da ciência convencional, que utiliza uma forma de conhecimento atomista, mecânica, universal e monista, a Agroecologia, respeitando a diversidade ecológica e sociocultural e, portanto, outras formas de conhecimento, propugna pela necessidade de gerar um conhecimento holístico, sistêmico, contextualizador, subjetivo e pluralista, nascido a partir das culturas locais (GUZMÁN, 2001, p. 35).
Sevilla Guzmán, em outra escrita, vai além, ao afirmar que a agroecologia, ao propor uma revalorização do conhecimento tradicional sobre os agroecossistemas e sua
agrobiodiversidade, faz uma crítica ao “etnocentrismo sociocultural das ciências sociais como construção histórica europeia que centraliza sua pesquisa em uma única proposta civilizatória
que exclui de seu acervo conceitual as demais” (GUZMÁN, 2011, p. 13, tradução nossa).
Assim, a agroecologia parece endossar nossa crítica a uma história universal, do espaço desprovido de seus sujeitos e movimento. Ainda afirma Guzmán, num projeto de uma ciência
descolonizada, que a agroecologia “pretende modificar [o pensamento científico moderno-
colonial] provando a necessidade de complementar os resultados científicos agropecuários e
florestais com aquelas ‘práticas camponesas e indígenas’ que têm mostrado sua sustentabilidade histórica” (GUZMÁN, 2011, p. 13, tradução nossa).
Diante da realidade de São Pedro de Cima, comunidade quilombola que vivencia os dilemas produtivos e a subalternização histórica de sua identidade, a agroecologia emerge como um elo, capaz de questionar a íntima relação entre os formatos produtivos e a forma como seus sujeitos são compreendidos. O perverso projeto da modernização da agricultura na comunidade desproveu seus moradores da riqueza de seus saberes, enquanto os imputou uma lógica de produção dependente de insumos externos, que expõe os trabalhadores e o ambiente aos efeitos dos agrotóxicos, e ainda, é vulnerável as oscilações do mercado. Aqui, levantar a bandeira da agroecologia é apostar numa estratégia a favor da soberania alimentar30 e de um projeto alternativo de desenvolvimento rural.
Cabe-nos, por fim, apoiar em uma síntese que bem representa os sentidos da agroecologia: para muitos autores, como Petersen (2013), ela se baseia no tripé ciência,
prática social e movimento social. Desta forma, enquanto ciência se faz como “teoria crítica que elabora um questionamento radical à agricultura industrial” (p.7) e desenvolve as “bases conceituais e metodológicas para o desenvolvimento de agroecossistemas sustentáveis” (p.7);
ciência esta que se afirma na “prática social adotada explícita ou implicitamente em coerência
com a teoria agroecológica” (p. 7), mas que ganha coesão e sentido no “movimento social que
mobiliza atores envolvidos prática e teoricamente com no desenvolvimento da agroecologia” (p. 7), em “defesa da justiça social, da saúde ambiental, da soberania e segurança alimentar e nutricional, da economia solidária e ecológica, da equidade entre gêneros e de relações mais
equilibradas entre o mundo rural e as cidades” (p. 8)
30
É inevitável nos remetermos a experiência cubana com a agroecologia. Na ilha, em onze anos do trabalho do Movimento de Camponês a Camponês (MACAC), um terço dos camponeses hoje realizam seus plantios e manejos a partir das bases da agroecologia. Através de uma metodologia horizontal, do resgate de práticas da agricultura tradicional e experimentações de práticas agroecológicas, foi possível reverter o quadro de insegurança alimentar e total dependência. A agroecologia, nestes termos, parece uma estratégia a favor da soberania alimentar dos camponeses e da população do país (SOSA et. al, 2012).
Assim “a Agroecologia articula sinergicamente essas três formas de compreensão [ciência, prática social e movimento social], condensando em um todo indivisível o seu
enfoque analítico, a sua capacidade operativa e a sua incidência política” (p. 8). É assim,
também, que a universidade passa ser um ator desse tripé, envolvendo-se com o movimento agroecológico – através de ações de pesquisa, ensino e extensão – debatendo e construindo a
ciência agroecológica, valorizando as práticas e ampliando suas “fronteiras” epistemológicas
e geográficas.
Esforçamos-nos em analisar os processos produtivos de São Pedro de Cima com um duplo olhar: primeiramente, crítico aos efeitos da modernização agrícola (com base nos
modelos da “revolução verde”); mas, principalmente, por segundo, um olhar atento as
potencialidades da agroecologia, inscritas nos saberes ambientais camponeses-quilombolas, que, como vimos há pouco, são a fonte para compreender os agroecossistemas e construir um saber agroecológico. Ainda com a bandeira da “geografia em movimento” e de uma pesquisa que se embaraça nos propósitos da extensão universitária, acreditamos no devir de uma transição agroecológica em São Pedro de Cima, atentos as possibilidades de transformação da realidade destes sujeitos.
Parece-nos que os conceitos sublinhados – território e lugar – são ricas ferramentas analíticas para a compreensão dos processos em questão, promovendo um olhar para realidade que carrega um pouco de nossa trajetória teórica e conceitual. Portanto, o esforço é o de construir contribuições da geografia à agroecologia, assim como, fazer o movimento contrário, lendo as questões da geografia agrária a partir das ideias sugeridas pelos teóricos da agroecologia e os movimentos sociais e sujeitos que dela se apropriam.
Diante de tanto conteúdo geográfico, esforço teórico-conceitual que desprendemos neste capítulo, devemos apresentar, a seguir, ainda que de maneira breve, como as visões aqui construídas têm seus reflexos em nosso olhar para o mundo e nas compreensões desta pesquisa.
Empenharemos-nos, ao evocar a coletividade no próximo capítulo, em duas outras construções: (1) repensar nossa compreensão do que são as comunidades quilombolas,
inspirados na “ressemantização do termo quilombo” (RATTS, 2001); e (2) repensar nossa
compreensão sobre o campesinato, inspirados em Guzmán e Molina (2005), Mazzetto (2007), e outros autores. Nossa intenção é que a pesquisa permita que tais ideias se fundam na análise da realidade com a qual nos envolvemos.
Isto feito, começamos a nos aproximar da comunidade de São Pedro de Cima, fornecendo alguns primeiros olhares e problematizações. Passaremos, primeiro, por breves
comentários sobre a história da Zona da Mata mineira, a partir dos quais desaguaremos na realidade da comunidade e construiremos as considerações sobre as principais questões desta pesquisa.