Capítulo 2: Tempo, trabalho e relações sociais de sexo
2.3. A centralidade do tempo nas relações de poder
Analisar os múltiplos tempos da vida cotidiana também consiste, necessariamente, em refletir sobre as relações de poder envolvidas no modo como eles se configuram, nas diferentes formas de vivenciá-los, nas opções ou constrangimentos referentes a eles. Por mais que o dia de cada pessoa dure as mesmas 24 horas, os tempos de trabalho remunerado são distribuídos de maneira bastante desigual, tanto em termos de duração quanto de ritmo, intensidade e quanto à margem de decisão sobre eles. Repartem-se desigualmente também os tempos dedicados ao trabalho doméstico e familiar, ao descanso, ao lazer, aos estudos, ao cuidado de si.
Os tempos cotidianos, como vimos, não são naturais, mas construídos socialmente, de acordo com a organização social e com as trajetórias individuais. Estão sujeitos a uma série de restrições e limitações de diversas ordens. Muitas vezes, a forma como as pessoas estruturam seu tempo e decidem como usá-lo não é autônoma, mas constrangida por determinações sociais e econômicas, que dizem respeito tanto ao trabalho produtivo quanto ao reprodutivo (Dedecca, 2008). A ideia de liberdade e de autonomia muitas vezes está relacionada com a possibilidade de controlar os próprios tempos e de ter tempo para si.
O senso comum e a experiência temporal ordinária permitem ver o estreito laço que articula poder e domínio do tempo: uma vivência temporal orientada pelos outros é considerada o próprio atributo da submissão (Bessin, 1999). O tempo tem que ser
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apreendido como relação e, nesse sentido, não apenas exprime, mas também estrutura as relações de poder.
De acordo com a definição de Foucault (1979), não se deve tomar o poder como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo de um indivíduo sobre os outros, de um grupo sobre os outros, de uma classe sobre as outras:
Não é algo que se possa dividir entre aqueles que o possuem e o detêm exclusivamente e aqueles que não o possuem e lhe são submetidos. O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer esse poder e de sofrer sua ação, nunca são alvos inertes e consentidos do poder, são sempre centros de transmissão (Foucault, 1979, p. 183).
O poder, para Foucault (1998), aparece ainda como uma multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização. É um jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes, transforma essas correlações, reforça-as, inverte-as. Suas estratégias e seu esboço geral, sua cristalização institucional, tomam corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais. O poder se exerce a partir de inúmeros pontos e em meio a relações desiguais e móveis e, segundo o autor, onde há poder há resistência, porque as correlações de poder não podem existir senão em função de uma multiplicidade de pontos de resistência que representam, nas relações de poder, o papel de adversário, de alvo, de apoio, de saliência que permite a preensão.
A centralidade do tempo nas relações sociais, as quais se constituem como relações de poder, faz com que algumas delas, em especial as de classe e de sexo, sejam determinantes na configuração das temporalidades individuais e sociais. O tempo, considerado nas sociedades industrializadas um recurso escasso, raro e medido, é fundamentalmente estruturante na organização social: a possibilidade de dispor dele e o modo de ocupá-lo são maneiras de mostrar a posição no campo social (Lejealle, 2009). Nesse sentido, o tempo que se impõe como predominante em cada sociedade e que regula
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as atividades humanas, com maior ou menor grau de conflito, reflete o poder de uma classe ou grupo social que procura fazer prevalecer sua visão de mundo, expressa sobretudo em uma concepção particular do uso e do controle do tempo (Cardoso, 2009).
Ao analisar a organização do tempo social, é preciso não apenas refletir sobre a apropriação do tempo dos trabalhadores pelos patrões na esfera produtiva, mas também incorporar a apropriação do tempo na esfera reprodutiva, isto é, deter-se sobre a imbricação entre as relações sociais de sexo e de classe. Segundo Ávila (2009a), isso implica considerar que o modo diferente e desigual de se usufruir o tempo social está determinado por essas relações.
Diversos autores tratam do caráter eminentemente político dos tempos individuais e sociais (Bessin, 1999; Augusto, 1994; Araújo, 2011; Durán, 2008). Defendem a necessidade de colocar o tempo no centro do debate público, não o deixando somente na esfera individual. Nas palavras de Durán (2008), visto que o tempo – ao contrário do dinheiro – é um recurso irremediavelmente limitado, não renovável e não suscetível de desenvolvimento, a sujeição da população a um modelo de espaço/tempo ou outro tem um valor de definição política de primeira ordem.
A questão do tempo se concretiza em conflitos e dificuldades que à primeira vista parecem ser individuais ou familiares, mas na realidade são um problema coletivo, que requer medidas coletivas – isto é, políticas públicas que deem conta da sua complexidade, tanto no que diz respeito aos tempos de trabalho quanto aos da vida privada. O Estado pode ter um papel importante na regulação do tempo, mesmo no que concerne às desigualdades entre homens e mulheres no espaço doméstico.
Não se pode pensar nessa situação como se estivesse fora do controle humano, pois não há nada de inelutável nos tempos produzidos, criados pelos desenvolvimentos tecnológicos ou significados pelas regulações sociais. Não estamos condenados a uma sujeição temporal que provém de alguma fatalidade (Grossin, 1996; Tronto, 2003). Esses tempos resultam de atividades, escolhas e decisões humanas. Há uma série de medidas que poderiam interferir neles e modificá-los.
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