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3 O MARCO DA ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DIDÁTICO DA EDUCAÇÃO

3.3 Alguns limites históricos da Metodologia Crítico-Superadora para a organização

3.3.1 A centralidade do trabalho para o desenvolvimento humano

A relação entre educação e trabalho é defendida pela Metodologia Crítico-Superadora considerando as relações de trabalho na sociedade capitalista. É fato que não existe outra forma de considerar a análise da classe trabalhadora nessa sociedade se não considerarmos suas relações instituídas dentro da lógica da exploração da força de trabalho. No entanto, ao construir sua crítica o Coletivo de Autores salienta excessivamente a relação do indivíduo com o trabalho através do capital ignorando o seu sentido ontológico.

Os autores destacam que os interesses da classe burguesa consistiam na manutenção do statu quo, enquanto a luta histórica da classe trabalhadora se sustentaria em sua “[...] vontade política para tomar a direção da sociedade, construindo a hegemonia popular” (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p.24).

A situação da educação é apresentada no texto através da atuação antagônica dessas classes sociais. Segundo o Coletivo de Autores (1992) é apenas partindo das crises sociais que surgiram as pedagogias fomentadas pela criação de

um cenário que a necessidade de entender o contexto social e a função da ação humana é desenvolvido pela educação.

Nesse movimento há momentos em que se acirra o conflito, o que vem a provocar uma crise. É exatamente dessa crise que emergem as pedagogias. A pedagogia é a teoria e o método que constrói os discursos, as explicações sobre a prática social e sobre a ação dos homens na sociedade, onde se dá a educação. Por isso a pedagogia teoriza sobre educação que é uma prática social em dado momento histórico. (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p.24-25)

Partindo desse pressuposto, o processo educativo dessa metodologia tratava de uma pedagogia emergente para os autores. E a luta na qual ela se diz inserir objetivaria possibilitar que “[...] os trabalhadores possam usufruir do resultado do seu trabalho” (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p.24). Nesse cenário, os autores simplificam as relações de trabalho na sociedade. Isso pode ser entendido como uma intenção de facilitar o entendimento do leitormas por outro lado fragiliza a interpretação dos mesmos sobre os fenômenos sociais que envolvem a luta da classe trabalhadora quando se eximem de elencar as premissas centrais da relação do indivíduo com o trabalho que antecedem o modo de produção capitalista e justificam a =condição dos trabalhadores de classe explorada.

Entende-se que faltou ao Coletivo de Autores (1992) articular a apresentação da Metodologia Crítico-Superadora a um princípio fundamental dessa relação. Considera-se que se faz necessário elencar que o trabalho é o meio pelo qual se constituiu a atividade humana permitindo uma interação transformadora do individuo em sua relação com a natureza. É o trabalho que viabiliza a produção da vida humana ao ser o elemento fundamental para que o indivíduo se constitua como sujeito social das relações que estabelece ao longo de sua vida.

O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais necessários que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. É em tal grau que, ate certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem. (ENGELS, 2004, p.01)

Sendo o trabalho condição básica para a produção da riqueza humana é preciso destacar que separados da natureza o indivíduo e trabalho não conseguem produzir nada. Uma metodologia do ensino que se proponha a pensar criticamente

sua atuação precisa viabilizar o entendimento histórico de que a produção da existência humana só é possível pela atuação do indivíduo com a natureza através da atividade de trabalho.

Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defrontando-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo – braços e pernas, cabeça e mãos -, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica a sua própria natureza. (MARX, 2011, p.211)

No caso da Educação Física a relação entre o indivíduo e o trabalho reflete ainda um pressuposto fundamental para o desenvolvimento biológico do sujeito considerando que a interação humana com a natureza é materializada pela força de trabalho do indivíduo, isto é, através do dispêndio de energia corporal. Engels (2004) ao analisar o indivíduo como executor da atividade de trabalho entende que foi através do trabalho que a força de trabalho pôde ser aprimorada pelo estímulo recebido durante a execução da atividade laboral permitindo o desenvolvimento biológico do organismo.

Um dos exemplos utilizados por Engels se refere ao uso especial das mãos. Por elas serem a parte do corpo que acumulou funções variadas no trabalho como por exemplo, recolher alimentos, construir ninhos e a própria autodefesa. Esses elementos ocasionaram também o desenvolvimento da coluna vertebral. Ele afirma que “o aperfeiçoamento gradual da mão do homem e a adaptação concomitante dos pés ao andar em posição erecta exerceram indubitavelmente, em virtude da referida correlação, certa influência sobre outras partes do organismo” (ENGELS, 2004, p.03).

Com isso, a modificação corpórea da espécie primitiva até o desenvolvimento do homem fomentou ainda a necessidade de comunicação entre os pares viabilizando o desenvolvimento da linguagem articulada.

A linguagem é tão velha como a consciência: é a consciência real, prática, que existe também para outros homens e que portanto existe igualmente só para mim e, tal como a consciência, só surge com a necessidade, as exigências dos contatos com os outros homens. (MARX & ENGELS, 1970, p.36)

Uma área que atua no ambiente escolar que se diz estruturada a partir do referencial marxista precisa defender a materialidade histórica do desenvolvimento biológico pelo trabalho. A atividade de trabalho aprimorou o corpo primitivo ao torná-lo humano quando ao realizar uma atividade teleológica suscitou a necessidade do estabelecimento de relações históricas e sociais entre os pares. Essa totalidade do indivíduo enquanto ser social pelo trabalho é o princípio determinante da força de trabalho em sua função para a reprodução da vida humana.

Assim, se desenvolvia o homem, tornado sujeito do processo social do trabalho, sob a ação de duas espécies de leis: em primeiro lugar, as leis biológicas, em virtude das quais os órgãos se adaptaram as condições e as necessidades da produção; em segundo lugar as leis sócio – históricas que regiam o desenvolvimento da própria produção e os fenômenos que ela engendra. (LEONTIEV, 2004, p.281)

Ainda sobre a corporalidade e a sua relação com o aspecto social do trabalho Marx expõe que

Cada uma das relações humanas com o mundo, ver, ouvir, cheirar, degustar, sentir, pensar, intuir, perceber, querer, ser ativo, amar, enfim todos os órgãos da sua individualidade, assim como os órgãos que são imediatamente em sua força como órgãos comunitários, ıı VII ı são no seu comportamento objetivo ou no seu comportamento para com o objeto a apropriação do mesmo, a apropriação da efetividade humana; seu

comportamento para com o objeto é o acionamento da afetividade humana

(por isso ela é precisamente tão multíplice (vielfach) quanto multíples são as

determinações essenciais e atividades humanas), eficiência humana e sofrimento humano, pois o sofrimento, humanamente apreendido, é uma

autofruição do ser humano. (MARX, 2006, p.108)

Já no modo de produção capitalista o trabalho que é primordial para a produção da vida humana é organizado a fim de expropriar do trabalhador o que ele produz em sua atividade de trabalho. Isso faz com que as relações de trabalho tenham um caráter contrário ao seu sentido ontológico assim como explana a Metodologia Crítico-Superadora quando defende que a classe trabalhadora não usufrui do que produz ( COLETIVO DE AUTORES, 1992, p.24).

Desse modo, a propriedade privada dos meios de produção e as relações entre as classes estabelecidas pelo assalariamento faz com que o trabalhador se encontre em um cenário em que

A igualdade dos trabalhos humanos fica disfarçada sob a forma da igualdade dos produtos do trabalho como valores; a medida, por meio da duração, do dispêndio da força humana de trabalho, toma a forma de quantidade de valor dos produtos do trabalho; finalmente, as relações entre produtores, nas mais quais se afirma o caráter social dos seus trabalhos, assumem a força de relação social entre os produtos do trabalho. (MARX, 2011, p.94)

Na lógica capitalista o trabalho ainda é submetido a um processo denominado como alienação no qual o trabalhador forma uma consciência em si da sua condição de classe. Isso se origina pela objetivação do trabalho que se concretiza quando a mercadoria se confronta com o seu produtor e assim, tem seu valor aumentado na mesma proporção em que se desvaloriza a força de trabalho do trabalhador como sujeito de suas relações (MARX, 2006, p.80).

Isso segundo a tese da alienação de Marx (2006, p.80-81) acontece devido ao fato de que essa objetivação do trabalho consiste na efetivação do trabalho realizado que produz sua própria contradição. Isto é, quando o trabalhador aplica sua força de trabalho na produção objetiva consequentemente aumenta a sua alienação em relação a sua produção tornando o trabalhador um produto do seu trabalho. Esse processo é chamado por Marx como desefetivação do trabalhador.

O processo de alienação do trabalhador para Marx (2006, p.80-81) é estruturado através da alienação nas seguintes relações:

I. Alienação ao produto: a submissão do trabalhador a sua produção.

II. Alienação ao processo produtivo: a não efetivação da atividade de trabalho para si.

III. Alienação à natureza: o estranhamento do trabalhador em relação ao seu

meio natural.

IV. Alienação ao gênero humano: a relação de estranhamento em relação ao seu

corpo e aos seus pares.

Dessa maneira, partindo dos pressupostos teóricos sobre a relação do corpo com o trabalho em seu sentido ontológico é possível salientar os limites teóricos da Metodologia Crítico-Superadora embora consideremos que ela se sustenta em uma prerrogativa da luta de classe em defesa dos trabalhadores e ainda almeja a emancipação do aluno para um projeto político de sociedade que se aproxime dos

interesses de quem trabalha (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p.24). Todavia, o posicionamento da classe trabalhadora pressupõe a presença de uma consciência de classe para si que não se apresenta na justificativa dos autores em nenhum momento do texto. A relação ontológica do trabalho com o indivíduo e natureza tem fundamental procedência para que os professores da escola situem-se dentro de um projeto político que vise à transformação social.

Dessa relação, por exemplo, se originou o desenvolvimento físico e social do corpo mostrando a funcionalidade do corpo humano como instrumento de interação das relações sociais que o indivíduo estabelece. A liberdade de produção da vida humana a partir de um desenvolvimento biológico do instrumento de produção isto é, o corpo através das relações sociais estabelecidas ao longo da vida que é defendida por Marx (2006, p.108) nos auxilia a desmistificar a necessidade de uma metodologia de ensino para a Educação Física escolar que confronte ou até mesmo negue a reflexão sobre o desenvolvimento das aptidões físicas.

Na tentativa de superar o biológico por uma perspectiva social se propõe problematizar as relações de algumas práticas corporais dentro da sociedade capitalista. Ao ignorar o aspecto físico desconsidera a funcionalidade do desenvolvimento biológico para o indivíduo em suas relações mesmo partindo da tese de que as leis biológicas da vida humana tenham sido superadas pelas leis sociais.

Com isso, identificar historicamente o uso ideológico das práticas corporais para o capital não minimiza a necessidade histórica e humana de hábitos que ofereçam melhor qualidade de vida aos trabalhadores através da apropriação da cultura socialmente produzida cientificamente. Pelo contrário, ao nos aprofundarmos sobre a condição do trabalhador ao ser explorado na relação de compra e venda da sua força de trabalho salienta-se ainda mais essa importânciaao considerarmos os limites corporais de dispêndio de energia que os trabalhadores são submetidos por serem encarados como mercadorias pelos capitalistas.

Portanto, considera-se que uma metodologia do ensino de uma área que trabalhe com o corpo em movimento que ao ignorar a relação ontológica entre trabalho, homem e natureza quando se compreende que a ontologia dessa relação permite entender a condição de exploração que o trabalhador é submetido na sociedade capitalista. A metodologia Crítico-Superadora se afasta da base

fundamental do materialismo histórico e dialético baseando sua crítica no uso ideológico do corpo nessa sociedade que obviamente possui um sentido real nas relações capitalistas, mas não nega a necessidade social de manutenção de qualidade para o corpo trabalhador para a construção da sua emancipação política.

3.3.2 O instrumento de trabalho didático do professor de Educação Física: a cultura