A luta das mulheres por sua emancipação é decisivamente uma ação contra as formas histórico sociais da opressão masculina. Nesse contexto, a luta feminista emancipatória é ao mesmo tempo pré-capitalista, mas será também uma luta sob domínio do capital e ao mesmo tempo ainda contra o capitalismo. Será, nesses termos, a luta feminista e feminina, uma luta também pós capitalista, pois o fim da sociedade de classes não significa direta e imediatamente o fim da opressão sexual e de gênero, sobre as mulheres, sobre a condição feminina. É evidente também que o fim das formas de opressão de classe, se geradoras e possibilitadoras de uma forma societal autenticamente livre, autodeterminada e emancipada, poderá possibilitar o aparecimento de condições histórico sociais nunca anteriormente vistas, e capaz de oferecer condicionantes sociais igualitárias, que permitam, aí sim, uma verdadeira existência de subjetividades diferenciadas, entre homens e mulheres, porém, aí então, autênticas e livres.
Uma sociedade que supere, ou ainda, que mitigue, os limites e as contradições do capital, será um patamar onde a possibilidade da igualdade e da diferença entre homens e mulheres, pela primeira vez se coloque em um patamar de centralidade. Enquanto as relações sociais forem mediadas pelas relações capitalistas, andro e heteronormativas, misóginas e opressoras, patriarcais, não será possível o enfrentamento, nem sequer a superação destas questões. Talvez, entretanto, não se possa começar diretamente por elas. Mas por suas estruturas concretas, cotidianas, amiúde. Nas lutas diárias, no trabalho, na esfera pública, na política partidária, nos meios de comunicação, e na educação formal; compreendidas aqui a escola e a universidade. Neste sentido, não são incompatíveis as particulares emersões de luta e resistências, por pautas
específicas, com lutas por ideais maiores, de enfrentamento e superação do modelo capitalista como um todo.
O professor Ademar Bogo, em seu texto “Identidade e luta de classes” (2010), coloca a todos em uma espécie de paradoxo, diante de uma evidente contradição, que é: cada identidade com sua própria bandeira, possivelmente não promova condições de superação do capital; porém, a superação do modelo de sociedade capitalista não se mostra possível sem a emergência destas lutas sociais particulares, não pode sequer prescindir dela. Mais ainda, a superação do capital, mesmo sendo condição necessária, não é condição suficiente para superação das diferentes formas de opressão, e em particular a opressão feminina. Sob uma lógica formal e linear de uma análise dialógica não é cognoscivel a compreensão desta relação paradoxal, mas sim, somente sob uma análise dialética. O autor entende que nas lutas sociais, como um todo, sempre encontramos grandes contingentes humanos convergentes em determinados interesses e propostas, além de comprometidos com as suas soluções e superação. As especificidades de determinadas lutas não representam necessariamente a inviabilização ou o empobrecimento de causas maiores e mais abrangentes. Para ele, ao contrário,
As lutas populares ou sindicais se constituem na escola primária da luta de classes. Elas, por serem abertas, têm a facilidade de incluir milhares de pessoas que ainda possuem pouca experiência e baixo nível de consciência. Ao lutar, a unidade política ganha forma e em torno das reivindicações imediatas se estabelece a identidade do movimento. A identidade revolucionária virá na medida em que o movimento das contradições gerais apontarem para a revolução. Logo, todos os esforços empreendidos são como pedras lançadas contra os mesmos inimigos. É o momento em que a classe se amplia e o projeto se torna consciente, ao alcance da mão de todos os sujeitos que lutam. (BOGO, 2010. p.138)
Assim, ao invés de sua negação, as lutas particulares se tornam suas formas de afirmação. A proletarização dos mais diferentes e variados grupos em interação na sociedade não surge, evidentemente, de forma pronta, espontânea e acabada. Se dão em longos e não lineares processos de crescimento, recuo, recrudescimento e amadurecimento de suas agendas. Agrupam-se, dispersam-se, dissolvem-se, fortalecem-se, e por fim, e por vezes, aglutinam-se construindo lutas maiores e mais possibilitadoras de uma efetiva transformação. Ao longo destas lutas, “há fases anteriores, quando os proletários agem de forma isolada e dispersos”, e assim, “é pela luta que os contingentes populacionais se integram às classes de acordo com
as posições que assumem” (Ibidem, p.139), constantemente em disputas, dialeticamente.
É neste sentido, que a luta das mulheres se integra, constitui, constitui-se e é constituída, pela agenda mais ampla de enfrentamento do capital. Se os “individualmente compreendidos” apenas constituem-se coletivamente na medida em que tem que manter uma luta comum contra outra coletividade, (MARX, 1982. P.117), se, de fato, nós “temos que nos emancipar a nós próprios primeiro, antes de podermos emancipar os outros” (MARX, 2009. p.41), o empoderamento feminino, frente ao capital andro e heteronormativo, patriarcal e misógino, não prescinde de suas pautas particulares, das lutas exclusivas, mas não isoladas, de todas as mulheres, como também de todos os grupos que compõe a sociedade, contra um modelo opressor e centrado no masculino.
É neste contexto que as lutas das mulheres e do movimento feminista como um todo, integra-se profundamente com o materialismo histórico. Essa foi estratégia da francesa Christine Delphy, ao relacionar as relações matrimoniais com as relações de trabalho. Ela argumentou que “the motivation for the attack on materialist feminism: the best means of defence of men113” (1980, p.98), isto é, o que motiva as críticas dirigidas ao materialismo feminista, é uma defesa nítida e bem elaborada da dominação e da opressão masculina. Delphy entende que, no patriarcado, se constrói socialmente uma heterossexualidade, elaborada como base concreta sobre a qual se constitui o matrimônio. Desta relação, necessariamente constituída por um par binário, histórica e socialmente legitimado, entre um homem e uma mulher, emerge uma relação de exploração, de trabalho doméstico, não remunerado. Mesmo se considerados nestes termos, as transformações no modelo de família tradicional, que revolveram profundamente a posição da condição da mulher a partir de meados do século XX, não foram capazes de promover transformações na situação mesma da condição feminina. Exemplos como a desvalorização do trabalho doméstico, a opressão da sexualidade feminina, estão na matriz de uma violência física e moral contra as mulheres. São questões que estão postas antes e também depois; são anteriores e ulteriores; são a base e o limite, e, portanto, a própria contradição dentro do modelo societal capitalista. A Lei do Divórcio, nos anos setenta, e a Constituição Federal, dos anos 80, por exemplo, foram iniciativas que
tensionaram para o equilíbrio dos direitos civis entre homens e mulheres, promovendo uma cidadania mais equânime e igualitária, embora longe da superação de uma sociedade efetivamente andro e heteronormativa.
No texto Cidadania no Feminino (MORAES, 2008), a socióloga e professora da Unicamp Maria Lygia Quartim de Moraes, faz uma análise da trajetória dos movimentos sociais e de lutas das mulheres brasileiras em busca de direitos de cidadania. Ela demonstra que a demarcação do “lugar” da mulher na sociedade tradicional sempre foi marcada por uma profunda divisão sexual do trabalho, o que repercutia profundamente, desde a esfera doméstica, como mencionava Delphy, como também na estrutura de toda a sociedade. Os movimentos sociais e as lutas históricas por uma cidadania no feminino são vertentes já do final do século XIX, dos movimentos políticos e culturais de luta e resistência por maior visibilidade e por melhores oportunidades no mercado de trabalho, pelos direitos à autonomia dos seus corpos, pelos direitos reprodutivos, pela participação na política, entre tantos outros. Essas manifestações sociais põem em pauta os conflitos, as emergências e os silenciamentos, a consolidação e a capitulação, de uma cidadania ampla e concretamente voltada para o feminino.
A conclusão da autora é de que os estudos sobre a invisibilidade da condição feminina realizados nas últimas décadas demonstram que, com relação a este assunto, tratou-se menos de um silêncio ou inoperância por parte das mulheres, que foi o movimento que tencionei apresentar neste texto; do que do silêncio por parte da historiografia, da crítica social, da imprensa; devido, em boa medida, a inacessibilidade e/ou inexistência de documentação; seu silenciamento, seu nivelamento a uma escala de desimportância; ou ainda, à falta de interesse por parte dos pesquisadores (em sua maioria homens, brancos e de nível sócio econômico elevado) em encarar, evidenciar e pesquisar a questão. Isto, longe de encerrar o debate, insere mais do que nunca os movimentos pela valorização feminina como pauta central dos movimentos populares, de resistência, de manifestações sociais e sobretudo dos estudos acadêmicos, na busca por uma sociedade que enfrente e supere este modelo excludente, sexista e opressor
Se na segunda década do século XX, houve uma ampla inserção feminina na educação e no mercado de trabalho, conquistando posições e firmando-se gradualmente deste então, foi porque o próprio capital, masculino, branco e burguês,
se beneficiou destas mudanças. A reestruturação econômica e produtiva do mundo contemporâneo reduziu a necessidade do trabalho braçal mais pesado e de mão de obra para estas funções em favor de modelos de trabalho e emprego pós-industriais nos setores de serviços e de produção não material. Essas novas formas de incursão e integração a esferas que transcenderam o ambiente doméstico foram favorecidas pelo crescimento de um trabalho informal, onde a sobrevivência financeira se dava longe dos ambientes tradicionais de trabalho, geralmente discriminatórios, sexistas e andronormativos. Ao exercerem estas novas atividades profissionais, autônomas, independentes das estruturas empresariais, mais conservadoras e tradicionais, remetidas a modelos patriarcais de submissão e opressão, as mulheres guardaram uma impressão de enfrentar melhor o preconceito; e lutar em favor de uma sociedade que as acolhesse. Em seu texto “Para redescobrir o feminismo”, Christine Delphy alerta que
Os movimentos feministas conquistaram direitos fundamentais. Mas hoje é necessário encarar novos desafios: fazer aplicar as leis, resistir às tentativas de retrocesso e mobilizar as mulheres, conscientes de sua força de oprimidas. (DELPHY, 2004)
A autora chama a atenção para o fato de que nenhuma das conquistas históricas em favor das lutas feministas está “gravada em mármore”, no sentido de que estão sempre sujeitas à reiteradas disputas, à capitulação dos constantes achaques “masculinistas”. Mesmo quando incorporadas às leis114, estas conquistas estarão sob escrutínio do metabolismo115 constante e perverso do capital em favor de sua manutenção e reprodução. Delphy também denuncia uma “contra-ofensiva patriarcal em todos os países”, evidenciando que nunca são conquistas consolidadas, mas ao contrário, sempre em cheque, frente às investidas do modelo societal masculino e totalitário, concretizado pelo que denomina de “lobbies masculinistas”, sempre dispostos a manter seu domínio e sua reprodução.
114 As questões legais serão mais amplamente discutidas no Capítulo 4, quando, sob a análise das
políticas públicas e sociais, se fará uma crítica acerca da presença, a ausência e o silêncio das questões sociais marcadas pelo gênero, pela sexualidade, pela opressão feminina, nas políticas públicas/sociais.
115 Como desenvolvido e explicado etimologicamente no Capítulo 5, “metabolismo” aqui está
compreendido como capacidade de produzir uma total transformação, para além apenas da forma – a metamorfose, a transformação da matéria mesma, seu conteúdo.
É preciso ter muito claro o que representaram todas as lutas e conquistas até agora para não acreditar ingenuamente na afirmação de uma "igualdade já conquistada", pois esta conquista
[...] não representa apenas uma mentira: é um veneno que entra na alma das mulheres, destruindo sua autoestima e sua crença, frequentemente frágil, de que são indivíduos inteiros - e não pela metade. Um dos desafios do feminismo atual consiste, portanto, em esclarecer essa situação, em mostrar que em nenhum país e em nenhuma relação social, os dominantes renunciam voluntariamente a seus privilégios. É preciso levar as mulheres à luta e, para isso - que talvez seja o mais difícil -, convencê-las de que elas valem essa luta (Ibidem).
São estas questões estruturais, fatores importantes que propiciaram a criação de uma força de trabalho mais feminina com mais preparo, formação e treinamento para se inserir no modelo do capital. Nesta nova configuração, que provisoriamente possa representar uma superação da condição feminina subserviente, na verdade significou que os mecanismos de subordinação e opressão femininos se redefiniram, efetivamente recrudesceram, tornaram-se menos evidentes e ganharam contornos que forçam análises mais profundas e minuciosas, que, se perdem em alcance, porém ganham em profundidade.
Como consequência desta maior visibilidade e atuação feminina no mercado de trabalho, na educação, compreende-se aqui a própria Universidade e a Escola, na política, e, portanto, na esfera pública em geral, é que a discussão das relações sociais marcadas pelo gênero, pelo corpo, pela sexualidade, pela opressão feminina, torna-se cada vez mais pertinente e emergente. No Brasil, as discussões abordando todo este conjunto de relações acompanham os diferentes momentos dos movimentos feministas. A partir da década de oitenta, o país começa a sair lentamente dos chamados “anos de chumbo”, quando os movimentos sociais foram profundamente sufocados e tiveram suas margens de ação prejudicadas. Mas é ao mesmo tempo deste mesmo período que as mulheres brasileiras já se mobilizavam por uma maior abertura política. Neste sentido, muitas pesquisadoras já demonstravam preocupação pela temática feminista e os principais trabalhos versavam sobre a questão da mulher, a educação e o trabalho. Mas é somente a partir do final desta década que diferentes movimentos feministas começam a criticar a condição da mulher no Brasil, a partir, e de dentro da universidade, dos sindicatos, dos partidos políticos e dos movimentos sociais.
Este movimento de aguda produção de uma consciência social, e crítica a toda e qualquer forma de opressão implica profundamente no que denominei como “descolonização”, um processo gradual, não contínuo e extremamente conflitivo, de ocupação feminina dos e nos espaços sociais, dentro de uma sociedade dominada pelo masculino. A ideia de descolonizar, aqui, é a de olhar o mundo com os próprios olhos, pensá-lo de um ponto de vista próprio (TENDLER, 2006). Se é possível descrever historicamente como se deu este longo processo de estabelecimento de uma centralidade social masculina, efetivada econômica, social, jurídica e culturalmente; é possível também compreender como esta centralidade se tornou ao longo do tempo e nos mais amplos espaços uma gramática societal que estabelece o masculino como referência, mais especificamente denominado neste texto como andronormatividade.
Em conjunto, e procurando fazer um movimento descontínuo e não linear, até mesmo para mostrar muito mais as rupturas do que as permanências, se fez um esforço que demonstrasse como as próprias mulheres levaram à ação, efetivas condutas que contrapunham estas regras sociais andronormativas. Desde o medievo europeu ocidental, passando pelos movimentos políticos que formaram a base das ideias da Ilustração e da emergência de ações sociais de confronto a um capitalismo patriarcal, opressivo e espoliador. Mas como descrito há pouco, este não é um movimento acabado, mas sempre em contínua afirmação e elaboração. Cabe a esta pesquisa demonstrar como se dá este movimento, tenso e contraditório na educação, e em especial na escola. Para tanto, o capítulo seguinte, tem no seu escopo discutir e pensar a questão da legalidade e das Políticas Públicas, relacionando-as com a reprodução da sociedade andronormativa. Se aqui se buscou demonstrar as pressões sociais e políticas na história, no capítulo seguinte serão observadas essas pressões nas legislações; por outros termos, encontrar e apontar vestígios da história nas leis; procurando compreender como sua elaboração e sua efetivação se relaciona com a produção e a reprodução do social, marcada profundamente por este processo histórico legitimador de uma gramática social andronormativa.
“A natureza jurídica das coisas não pode guiar-se pela lei, mas a lei tem de guiar-se pela natureza jurídica das coisas” (Karl Marx)116
Este capítulo procura elaborar um estudo relacional entre o fenômeno social da andronormatividade e as políticas públicas, em especial, tudo que, nessa relação, se refere à educação. Em primeiro lugar, o esforço se dá no sentido de definir, conceituar, conceber e discutir o conceito mesmo de “política pública”, já que esta é uma categoria central de sustentação desta pesquisa. Em um segundo momento, depois de conceituadas e analisadas as políticas públicas, passo a analisar as suas relações com a sociedade; tomo, para isso, as cartas constitucionais e outros códigos legais como expressões legais de políticas públicas, no sentido de compreender suas relações com os tempos e contextos dos quais emergiram. Por fim, depois da análise e conceituação e entendido o seu movimento em relação à sociedade, passo a elaborar uma análise crítica sobre as políticas públicas e sociais, em suas relações com o fenômeno social da andronormatividade, com a educação; e esta dinâmica, como reprodução da gramática do capital.
Mais especificamente, busco neste capítulo apresentar uma discussão sobre a presença, a ausência ou o silêncio das questões relacionadas ao gênero e à sexualidade, como expressões do fenômeno da andronormatividade; em especial, a questão da dominação masculina e da opressão feminina; nas políticas públicas117 de maneira ampla, e, em particular, nas políticas públicas ingerentes na educação. A presença, pela obviedade de sua manifestação, evidencia-se com muito mais clareza e pontualidade, facilitando sua identificação e sua possível análise; já as ausências e os silêncios, manifestam-se em planos mais complicados de identificar. Estão nas entrelinhas, nas elipses dos textos, na presença de seus opostos e
116 Marx, Karl. Os despossuídos. São Paulo: Boitempo, 2017. p.81.
117 As Políticas Públicas e Sociais serão mais amplamente discutidas neste capítulo, mas já desde
aqui estão entendidas como deliberações da sociedade civil e governamental, formalizadas por meio de dispositivos legais, implementados ou não, pelo poder público. O fato de sua efetivação ou não, aqui não é a questão central; mas sim, o quanto tal dispositivo legal traz em si representado o que pensa e o que concebe, o conjunto da sociedade, a respeito de determinado tema. Neste sentido, não está em questão a eficiência, eficácia e efetividade de determinada política social, mas sim o seu significado para determinado tempo e contexto.
contrastes, na afirmação do que lhe é contrário, ou em sua negação pura e explícita. Por esta razão, é possível que surjam, justamente destas últimas, as análises mais demoradas e detidas; de menor amplitude, mas de maior profundidade; conservando, é claro, o alcance, e procurando, nas minúcias dos textos e de seus contextos, suas mais profundas e delicadas determinações.
Ainda temos os olhos pouco treinados para ver as dimensões de gênero no dia-a-dia escolar, talvez pela dificuldade de trazer para o centro das reflexões não apenas as desigualdades entre os sexos, mas também os significados de gênero subjacentes a essas desigualdades e pouco contemplados pelas políticas públicas que ordenam o sistema educacional. (VIANA, 2004.p.79).
Neste contexto, fica claro que não basta só em um movimento de olhar do geral para o particular, isto é, das políticas públicas educacionais para o “chão” das salas de aula; senão também olhar a partir do cotidiano das escolas, onde se dão as relações sociais mais concretas e reais. As questões relacionadas ao gênero, ao corpo e à sexualidade, em uma sociedade andronormativa, possuem certa invisibilidade (na sociedade e isso se reproduz na escola), sendo, por vezes, uma ação deliberada e intencional; ou mesmo apagadas inconscientemente, relegadas ao silêncio, ao reservado, àquilo que é “delicado” ser abordado; tornando-se, assim, verdadeiros tabus, e, por isso mesmo, carecem de um estudo e análise com bastante cuidado.
Em sentido geral, esta análise procura sinalizar a situação da condição feminina, identificada mais concretamente em situações de opressão e discriminação, como constituinte do público assistido, direta ou indiretamente nominado, pelos programas governamentais, sendo atendida de forma específica, diferenciada; ou ainda, de forma abrangente e generalizada. Por outros termos, analisar como o público feminino aparece ou é apagado, como questão particular, nos textos legais. Em segundo lugar, tomarei como chave de análise das Políticas Públicas, a questão do fenômeno social da andronormatividade. Considerando, é claro, tudo que decorre imediatamente dele; a opressão feminina, a dominação masculina, as desigualdades de gênero, classe e raça, como categorias essencialmente políticas.
Como já foi mencionado e discutido no Capítulo 2, vive-se em uma sociedade sexista, que institui, reforça e recria padrões andronormativos de relações sociais. A