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A cerâmica Alto-Medieval da Ala Sul do criptopórtico

fórum de Aeminium (MNMC, Coimbra)

3. A cerâmica Alto-Medieval da Ala Sul do criptopórtico

Centramo-nos agora na área do antigo fórum e criptopórtico romano onde, no âmbito da intervenção arqueológica de salvaguarda que acompanhou as profundas obras de reabilitação do edifício principal do Museu e motivou a realização de um vasto conjunto de sondagens, foi possível identificar vários contextos alto-medievais.

Entre estes distinguem-se, pela relevância e abundância do espólio cerâmico recolhido, aqueles que se conformavam na ala Sul do criptopórtico.

A referida intervenção pôs a descoberto um conjunto de quatro largos muros estruturais e de contraforte interno do criptopórtico que compartiam todo este espaço (Alarcão et. al. 2009). Entre os níveis de terrapleno que preenchiam os espaços intervalados por aqueles muros, para além dos depósitos romanos, identificou-se um volumoso aterro de época moderna (Silva, no prelo), e algumas intrusões de época medieval sob a forma de fossas detríticas4. No entanto, releva-se aqui o lote cerâmico exumado no maciço aterro que colmatava o nível de destruição de uma construção medieval que reaproveitou o espaço intra-muros a poente. Apesar de ainda reticentes quanto à sua interpretação, pensamos poder tratar-se de um celeiro com caixa-de-ar em formato cruciforme, limitada por um muro com base em pedra e que a meia altura se desenvolve em taipa, apresentando as empenas romanas barramento de cal (figura 7).

O contexto referenciado providenciou a recolha do maior lote cerâmico alto-medieval de toda a intervenção. Este conjunto, exclusivamente composto por cerâmica doméstica comum feita ao torno, revelou uma assinalável diversidade de tipos de fabrico mas moderada variedade morfológica. Dentro da panóplia formal identificada predominam os recipientes de armazenamento e transporte (potes e cântaros) e louças de cozinha ou de uso culinário (representadas essencialmente por panelas) face aos serviços de mesa (jarros, pratos e taças) menos numerosos ou mesmo ausentes.

Entre o conjunto de cerâmica recuperado verifica-se a ocorrência bastante elevada de grandes cântaros, com pastas compactas de tonalidade bege-alaranjada, decorados com pintura a branco, sendo o motivo mais comum as séries de 3 ou 4 traços simples ou sobrepostos e, mais raramente, a representação de foleáceos ou

“pestanas” (figura 8 – 1, 2, 9 e 10). Embora se assista ao aparecimento de cântaros pintados a branco em contextos coetâneos noutras cidades da faixa litoral da zona centro do território português, como Santarém (Viegas e Arruda 1999: figura 13) e Lisboa (Gomes e al. 2001: 140; Bugalhão e al. 2003: 170-171), para além de Coimbra (Catarino e al. 2009: figuras 6 e 7), não se assinala em tais locais a presença

4 Devido à falta de espaço optou-se por remeter para futura publicação o estudo das cerâmicas exumadas nestes contextos.

ESTUDOS DE CERÂMICA MEDIEVAL.

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do tipo aqui mais representado. Este assume um bordo triangular, colo alongado maioritariamente moldurado a meio, na zona do arranque da asa, normalmente com depressão longitudinal (figura 8 – 1, 2 e 4), aproximando-se de um exemplar identificado nos níveis islâmicos da Cidade das Rosas em Serpa (Retuerce Velasco 1987: 90, fig. 5A). Algumas variantes apresentam decoração digitada sob a moldura do colo ou puncionamentos na asa (figura 8 – 3 e 5), sendo a pintura a branco a técnica mais frequentemente registada (figura 10 – 3 a 5). Outros modelos, meramente residuais, exibem bordo de tendência aprumada, colo alto cilíndrico canelado, por vezes decorado por traços horizontais (ligeiramente ondulados) pintados a branco (figura 8 - 6) e bordo amendoado com larga canelura na parte superior (figura 8 – 7).

Figura 8. Cântaros (ala Sul do criptopórtico). Desenhos de Sara Almeida.

Figura 9. Cerâmicas provenientes da ala Sul do criptopórtico: A – Panelas; B – Potes;

C – Alguidares. Desenhos de Sara Almeida.

ESTUDOS DE CERÂMICA MEDIEVAL.

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Incluímos neste grupo de fabrico um jarrinho de bordo extrovertido com espessamento externo, lábio plano e colo com ressalto na linha mediana onde arranca uma asa de secção oval decorada com incisão e pintura a branco (figura 8 - 8).

Juntamente com os cântaros, as panelas surgem como outra das categorias formais melhor representadas distribuindo-se por dois tipos de produção. O mais frequente apresenta pastas compactas de tonalidade acinzentada. Este fabrico inclui panelas, maioritariamente, de bordo extrovertido e ligeiramente amendoado, colo curto demarcado por ressalto, corpo globular (figura 9 – A4), por vezes canelado, com asa a arrancar do lábio (figura 9 – A2). Igualmente comuns são os recipientes (grandes púcaras) de bordo vertical, lábio boleado, colo recto, corpo globular marcado por uma canelura e uma asa de secção sub-rectangular decorada por golpes ou incisões (figura 9 – A9 e figura 10 - 7). As panelas de bordo e colo esvasado e lábio aplanado (figura 9 – A1 e A3) surgem em menor número. Dispõem de uma só asa de secção oval que parte do colo e assenta na parte superior do bojo globular que, por vezes, mostra estrias regulares de modelação.

Menos abundantes são os exemplares cuja produção se engloba num grupo de fabrico mais grosseiro, com pastas pouco compactas, mal calibradas e cuja cozedura em ambiente redutor lhes conferiu uma tonalidade que oscila entre o castanho e o cinza escuro. Assinalam-se três outros tipos neste conjunto. O mais comum, cuja presença se testemunha noutros pontos da cidade (Catarino et al. 2009: figura 10, n.º2), associa-se às panelas de bordo extrovertido, com lábio tendencialmente boleado (ligeiramente amendoado), colo contracurvado, com canelura sobre o ombro (figura 9 – A5) ou estrias regulares sobre a pança de perfil globular (figura 9 – A6). Os outros dois tipos fazem-se representar por duas peças únicas (figura 10 – 1).

Um dos exemplares apresenta bordo vertical e corpo canelado com cruz incisa sobre o ombro (figura 9 – A7). O outro modelo, de bordo esvasado, com canelura e ressalto sobre o ombro exibe linhas onduladas incisas (figura 9 – A8).

Por fim, e ainda entre os conjuntos formais mais expressivos, contam-se os potes e os alguidares moldados em pastas compactas de tonalidade que oscila entre o alaranjado e o cinza escuro.

Os potes de grandes dimensões apresentam sempre bordos extrovertidos, por vezes digitado (figura 9 – B4 e figura 10 - 6), e cordão plástico demarcando o colo do ombro, por vezes marcado por caneluras regulares (figura 9 – B1 a B4).

O modelo dominante nos alguidares revela perfis troncocónicos simples ou combinando a decoração incisa e a aplicação plástica de cordões digitados (figura 9 – C1 e C2 respectivamente e figura 10 - 2). É manifesto o seu parentesco com os recipientes troncocónicos abundantemente recolhidos em Conímbriga (Alarcão 1974: Est. XXXVII a XL). No entanto, a ausência do dominante fundo em disco

poderá ser suficiente para condicionar esta analogia. Apesar desta forma se encontrar integrada na Fase II (séculos VII-IX) definida por Adriaan De Man (2006: 170), as bases planas alargadas dos alguidares associam-se, neste sítio, a contextos mais tardios do século XII-XIII. Destaca-se ainda a presença de contentores de contorno arqueado com dupla cinta de cordões digitados (figura 9 – C3).

Relegamos para o final e em associação com o conjunto abaixo apresentado a apreciação do âmbito cronológico deste lote cerâmico.