2.2 CERTIFICAÇÕES DE SUSTENTABILIDADE
2.2.1 A Certificação de Sustentabilidade do B LAB
O B Lab é uma organização sem fins lucrativos, lançada em 2007 nos Estados Unidos, com o propósito de impulsionar a mudança sistêmica para criar uma economia mais social e benéfica para o meio ambiente (B CORPORATION, 2017). O objetivo
da iniciativa é auxiliar no crescimento de negócios sociais tendo em vista duas questões: um tipo de certificação que consumidores e investidores usassem para identificar empresas sustentáveis; e criar um quadro legal que permitisse que as empresas certificadas considerassem os interesses de todas as partes envolvidas no desenvolvimento do seu negócio, não apenas as relacionadas com a maximização do valor aos acionistas (HARRIMAN, 2015).
Para obter a certificação, é necessário que as organizações: (i) cumpram requisitos de desempenho sustentáveis; (ii) expandam seus parâmetros de governança; (iii) assinem um termo que atesta que a empresa procura o benefício de todas as partes interessadas, incluindo os aspectos sociais e ambientais; e pague uma taxa anual que varia de acordo com as vendas das empresas. Essa taxa vai de U$500,00 para empresas que faturam até U$500 mil/ano a mais de U$50 mil para empresas que faturam mais de um bilhão/ano. (B CORPORATION, 2017; HARRIMAN, 2015).
Os requisitos de desempenho são verificáveis por meio de uma avaliação, em que a empresa deve alcançar de 80 a 200 pontos. As questões são relacionadas a governança, gestão de pessoas, impacto na comunidade, clientes, meio ambiente e divulgação. As dimensões de cada seção podem ser observadas no quadro 2:
Seção do questionário Dimensões de análise
Gestão de Pessoas
Como a empresa trata seus funcionários Benefícios
Oportunidade de treinamento Comunicação
Flexibilidade Cultura corporativa
Comunidade Relações com fornecedores Envolvimento na comunidade local
Clientes Como a empresa vende seus produtos ou serviços Como promovem o benefício público
Meio ambiente
Modelos das instalações
Uso de materiais, recursos e energia
Impacto da logística no desempenho ambiental Governança Envolvimento das partes interessadas
Responsabilidade e transparência das práticas e políticas adotadas Divulgação Como a empresa propaga suas ações
Quadro 2: Seções do questionário de avaliação do B LAB e suas dimensões de análise Fonte: criada pela autora com base em B Corporation (2017).
A seção Gestão de Pessoas avalia o relacionamento da empresa com seus trabalhadores. Mede as oportunidades de compensação, benefícios e treinamento. Também questiona sobre o ambiente de trabalho geral dentro da empresa por meio
da gestão / comunicação, flexibilidade de trabalho, cultura e procedimentos de segurança e saúde dos trabalhadores (BIANCHI VALDÉS, 2016).
A seção Comunidade verifica o impacto da empresa em sua comunidade, como a relação com fornecedores e o envolvimento na comunidade local. A seção também mede práticas e políticas da empresa em torno do serviço comunitário e de caridade (BIANCHI VALDÉS, 2016).
A seção Clientes quer entender se a empresa vende produtos ou serviços que promovam o benefício público, e se esses produtos / serviços são direcionados para a população de baixa renda. As perguntas nesta seção avaliam se o produto ou serviço é projetado para resolver um problema social ou ambiental (por exemplo: melhoria da saúde; preservação do meio ambiente; criação de oportunidade econômica para indivíduos ou comunidades; promoção das artes / ciências) (BIANCHI
VALDÉS, 2016).
A seção Meio Ambiente avalia as instalações da empresa, materiais, recursos e uso de energia e emissões. Quando aplicável, também considera logística e impacto ambiental do seu abastecimento da cadeia de suprimentos. Além disso, mede se os produtos ou serviços de uma empresa são projetados para resolver um problema ambiental, incluindo produtos que ajudem no fornecimento de energia renovável, conservação de recursos, redução de resíduos, promoção de conservação da terra entre outros aspectos para medir, consultar ou resolver problemas ambientais (BIANCHI VALDÉS, 2016).
A seção de Governança avalia a responsabilidade e transparência, concentra- se na missão, envolvimento das partes interessadas e transparência geral das políticas da empresa (BIANCHI VALDÉS, 2016).
O questionário é adaptado conforme o tamanho da organização (número de funcionários), mercado de atuação e setor que a organização está inserida (B CORPORATION, 2017), variando o número e o tipo de perguntas (HILLER, 2013).
Os parâmetros de governança incluem, além da responsabilidade, transparência, prestação de contas e equidade, a inclusão em seu estatuto de uma cláusula de propósito salientando que o objetivo da empresa abrange a criação de impacto material positivo na sociedade e meio ambiente, como resultado das operações da organização. Isso quer dizer que ela será legalmente obrigada a perseguir o benefício público além dos lucros aos acionistas. Este tipo de organização
é chamada “Benefit Corporation” (empresa benéfica, em tradução livre) e tem um tipo especial de enquadramento legal, com todas as características de uma empresa tradicional com fins lucrativos, mas com obrigações sociais (HILLER, 2013). Esta modalidade de enquadramento já foi aprovada em diversas unidades federativas dos Estados Unidos, algumas vezes com incentivos fiscais (HARRIMAN, 2015).
Nesse sentido, depois de feitas as alterações estatutárias, a empresa pode decidir se tornar uma empresa B ou ser uma “Benefit Corporation” sem a certificação do B LAB. Caso ela opte pela certificação, será membro de uma associação voluntária sujeita a um padrão de avaliação e classificação que suporte a responsabilidade corporativa em várias áreas-chave (HILLER, 2013) além de fazer parte de uma comunidade e uma rede de suporte para empresas de diferentes tamanhos e setores (HARRIMAN, 2015).
A certificação é basicamente feita à distância, com envio dos questionários e vários documentos comprobatórios, além de entrevistas por vídeo conferência. Para que o padrão de qualidade seja verificado, 10% das empresas que possuem o selo são selecionadas aleatoriamente a cada ano para uma visita da certificadora. Para manter a certificação de empresa B, a organização deve atualizar sua avaliação e documentação a cada dois anos (B CORPORATION, 2017).
As empresas que conquistam a certificação conseguem, além do selo e divulgação de ser uma B Corp, a entrada na comunidade de empresas B, na qual o B Lab incentiva a construção de parcerias e o desenvolvimento de negócios. Ademais, as empresas certificadas podem solicitar o Relatório de Impacto Socioambiental (Global Impact Investment Rating System – GIIRS), uma ferramenta que permite uma análise comparativa dos impactos positivos de seus negócios. Esse relatório é utilizado na seleção de empresas no mercado de investimentos de impacto e as Empresas B podem utilizá-los como ferramenta para captação de recursos (BIANCHI
VALDÉS, 2016).
Em 2017, 115 investidores de impacto alocam 4,5 bilhões de dólares em ativos financeiros de impacto, sendo sete fundos que direcionam capital para o Brasil com o total de 330 milhões de dólares já investidos (Sistema B, 2017).
Até 2012 as empresas B estavam localizadas quase que exclusivamente nos Estados Unidos, ano em que a instituição decidiu firmar parceiras com outras organizações para difundir o movimento globalmente. A primeira parceria e
licenciamento do modelo B Lab foi feito em 2012 com o Sistema B, organização que difunde os conceitos do B Lab na América Latina. Além desta região, o B LAB tem parceiros na Austrália e Nova Zelândia; Canadá; Europa; Leste da África; Taiwan e United Kingdom e registra empresas certificadas em mais de 50 países e 130 segmentos diferentes (B CORPORATION, 2017).