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A cerveja artesanal e os nichos de mercado

4 O MERCADO DE CERVEJA ARTESANAL COMO REDE ALIMENTAR

4.4 REDE CERVEJEIRA ARTESANAL E PRÁTICAS LOCAIS

4.4.4 A cerveja artesanal e os nichos de mercado

Atualmente, o produto artesanal cervejeiro tem preço mais elevado que os produtos de massa, que por sua vez, tem como principal característica competitiva o preço baixo. Em relação a essa discussão, apesar dos produtos artesanais “estarem na moda”, há outras questões que justificam o alto preço dos produtos. Por exemplo, o preço dos ingredientes, maior tempo de produção e eventual menor giro (em relação às cervejarias de massa), implicando aumento expressivo no custo do produto, além da alta carga tributária59, alvo de muitas reivindicações, conforme pode-se observar na fala da entrevistada a seguir, na qual explica as razões pelas quais o preço da cerveja artesanal é mais elevado:

É prazo mais longo, quantidade infinitamente menor, né. Insumos muito mais caros porque são importados. As nossas ditas pilsen aqui [...] Não tem que vir da Bélgica ou da Alemanha malte né. [Não vai] quase nada de lúpulo. Lúpulo é extremamente caro. Quando vai um insumo que é muito caro, quase nada, fica muito mais barato né. Questão tributária né. Tu passar de estado para estado. Por exemplo, para eu receber uma cerveja de Santa Catarina para cá [Rio Grande do Sul] [...] no mínimo só de ICMS 30% de um copo. As cervejarias [de massa] tem plantas regionais justamente para não recolher esse tipo de imposto então também não tem nem competição justa.. [...] então é difícil. A gente também fala assim: "puts eu gostaria muito de tomar uma [cerveja] artesanal, mas ela é extremamente cara. O que que eu faço?" Então tem muitas repercussões. (Cervejeira3, Porto Alegre).

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Cabe-se mencionar o relato discorrido nas entrevistadas e registrado no diário de campo sobre a vantagem competitiva das grandes indústrias cervejeiras em relação à tributação: “Grandes cervejarias possuem plantas (fábricas) espalhadas pelos estados do Brasil a fim de se evitar trânsito do produto entre estados evitando o tributo estadual de tal trânsito (ICMS), o qual tem alto peso no preço final da cerveja.”.

Todavia, conforme se discutirá na próxima seção que aborda o perfil dos consumidores de cerveja artesanal, não se pode negar que, em certa medida, o consumo desse tipo de produto seja elitizado. Nesse sentido, a pesquisa da MindMiner e A.T.Kearney realizada em todo território nacional, em 2018, evidencia que a maioria da população não é bebedor frequente de cerveja artesanal e que grande parcela da população, 35%, nunca provou cerveja artesanal, conforme ilustra o Gráfico 2, a seguir.

Gráfico 2 – Respostas à pergunta “Você já consumiu cerveja artesanal?”

Fonte: MindMiner e A.T.Kearney(2018).

Tal pesquisa denota um problema de acesso à cerveja. Por isso, condiz com a realidade o fato de as marcas mais populares no Brasil continuarem sendo dos respectivos conglomerados de cerveja de massa. Conforme o Gráfico 3, a seguir, retrata, os resultados da pesquisa revelam que as marcas Skol, Heineken e Budweiser são as preferidas e mais lembradas entre os consumidores brasileiros.

Gráfico 3 - Respostas à pergunta: “Qual é a marca de cerveja que você mais gosta? (pergunta aberta)”

Fonte: MindMiner e A.T.Kearney (2018).

De todo o modo, o movimento cervejeiro artesanal prega a disseminação da cultura cervejeira, tendo como objetivo alcançar o máximo de pessoas possível, e com sorte, grande parte da população brasileira. Contudo, esse é um caminho demorado em virtude de diversos fatores, entre eles, o mais argumentado pelos cervejeiros artesanais de acordo com os registros do diário de campo: a legislação e carga tributária que impede reprodução mais democrática desse tipo de produto.

Outro fator constantemente alegado é a competição desleal por parte das grandes cervejarias que, além de dominarem o mercado, possuem porte econômico infinitamente maior, esmagando as menores, a exemplo da apropriação da AB- Imbev das cervejarias artesanais Colorado e Wäls.

Portanto, há complexos conflitos e jogos de poder neste meio e uma visível disputa entre cervejarias de massa (mainstream), controladas por companhias globais e artesanais, as quais ainda estão construindo seu caráter e posicionamento no mercado. Apesar de tal construção, as cervejarias artesanais criticam as de massa pregando um produto, e, sobretudo, um mercado, diferente do qual se percebe no setor cervejeiro brasileiro contemporâneo.

Sobre a temática da formação de nichos de mercado, Wilkinson (2016) defende, baseado em Granovetter (1985), que os mercados alternativos não estão à margem do cálculo econômico, assim como os mercados dominantes também não estão isolados, portando, são afetados pelas pressões sociais. Por isso, o autor argumenta que todos os mercados são permeáveis a valores e práticas sociais. E que tanto as redes alternativas influenciam a transformação dos mercados convencionais, quanto o oposto. Conforme discutiu-se sobre a própria concepção

das redes alimentares alternativas não serem um oposto dualístico (KNEAFSEY et al., 2008; CRUZ, 2012; GOODMAN; DUPUIS; GOODMAN, 2012) da rede artesanal e o mercado de massa acabam se intercruzando e se influenciando.

É em meio a esse intercruzamento que tanto cervejarias de massa tentam se apropriar da lógica artesanal, quando cervejarias artesanais tentam seguir a lógica de mercado voraz das grandes indústrias. Um exemplo disso são cervejarias artesanais que usam seu poder econômico através de práticas de dominação de mercado como os contratos de exclusividade de venda em bares, restringindo ao ponto a venda de produtos de outros produtores e marcas.

Essas práticas não dialogam com as características de diversidade do produto artesanal, nem mesmo com as práticas identificadas a partir dessa pesquisa sobre a rede cervejeira artesanal. Portanto, não se pode negar que há atores presentes nesse mercado interessados em elitizar o consumo e tornar a cerveja artesanal um produto gourmetizado (ZANETI, 2017), contudo há também interessados em popularizá-lo, convergindo a fala do cervejeiro estadunidense, quando descreve os desdobramentos do movimento artesanal:

Há um renascimento que está acontecendo ao redor do mundo agora. A arte da cerveja artesanal é a definição de um novo período na cultura mundial e, como em todos os períodos definidores, vão existir "bandwagon jumpers" (que se aproveitam de algo por estar popular) e seguidores de tendências. Mas aqueles que realmente têm paixão e desejo pela ancestral alquimia vão se sobressair quando as tendências desaparecem. (Kirk, 2014, p. 94).

Os dados da pesquisa indicam que os atores da rede identificam práticas não pertencentes aos valores construídos nela e entendem a tentativa das grandes corporações como uma manobra de mercado. Contudo, compreendem que aquele produto não terá os mesmos significados que o produzido pelos atores da rede. Afinal, as práticas adotadas na rede só denotam sentido dentro dela (LATOUR, 1999; LAW, 2009; TONELLI, 2016). E por isso, não é apenas o produto que está em jogo, mas as práticas que circundam sua produção.