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A chegada do presente a primeira década do século XXI

Capítulo II Arte contemporânea: noção, desenvolvimento e contexto nacional

2.2. As artes plásticas em Portugal entre “o país adiado ou a pesada herança”

2.2.5 A chegada do presente a primeira década do século XXI

A primeira década do século XXI inicia-se da forma mais promissora em Portugal. Resultando parcialmente de uma nova dinâmica da Ar.Co com um nível de instrução mais consentâneo com o ensino artístico europeu e norte-americano, a educação conheceu uma alteração radical e um enorme salto qualitativo, permitindo o despontar de uma ampla geração de artistas34.

Os novos artistas que emergem deste contexto beneficiaram não só desta mudança como de uma muito maior disponibilidade de circulação que lhes abriu amplamente o acesso a escolas e instituições estrangeiras. Deste grupo geracional, artistas como Vasco Araújo (1975), Rui Calçada Bastos, Catarina Campino (1972), Nuno Cera (1972), Filipa César (1975), Alexandre Estrela, Pedro Gomes (1972), Leonor Antunes (1972), André Guedes (1971), João Onofre (1976), Francisco Queirós (1972), Catarina Leitão (1970), Jorge Queiroz (1966), Carlos Roque (1969), Susana Mendes Silva (1972), Miguel Soares ou João Pedro Vale (1976) tiveram um assente percurso académico, entre pós-graduações, mestrados, programas de residência ou intercâmbios internacionais, engrandecendo assim a sua linguagem plástica.

Esta jovem geração é fluente na língua corrente da arte contemporânea, não socorrendo já a nenhum tipo de conotação localizada na sua estratégia de afirmação tal como

34 Cf. Apêndice. Opinião de João Vilhena (p.77) em “Que relações poderão ser estabelecidas entre as

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o fazia, de modo recorrente, a geração precedente. Da mesma forma, posicionando-se a

priori num contexto internacional, estes artistas diluiem toda a anterior polémica que marcou

os anos 90, deixando de se fazer sentir qualquer tensão entre grupos ou orientações e abrindo- se lugar a um debate menos sectário.

A nível das iniciativas curatoriais atinge-se um território seguro, por assim dizer, sendo o ano 2000 profícuo em projetos que afirmam não só a personalidade e posição do comissário como uma séria investigação na sustentação das mesmas35.

Neste período inicia-se também o projeto “SlowMotion”, comissariado por Miguel Wandschneider (curador de arte contemporânea na Culturgest desde 2004),que propõe uma visão antológica da produção portuguesa em vídeo e filme “Super 8”36. Neste contexto, a exposição “More Works about Buildings and Food”, organizada por Pedro Lapa com produção da Escola Maumaus e com participação de artistas como Liam Gillick (1964), Fabrice Hybert (1961) e Franz Ackermann (1963), João Penalva, Miguel Palma e Ângela Ferreira, posicionou-se diretamente no meio das discussões críticas, apresentando-se no armazém K7 da “Fundição de Oeiras”.

Ainda no ano 2000 inauguram duas das mais relevantes galerias nacionais, as galerias “Cristina Guerra” e “Filomena Soares”, ambas em Lisboa, que passam a marcar em grande parte o posterior panorama de exposições.

Já em 2001, Francisco Vaz Fernandes comissaria na Gulbenkian a exposição “7 artistas ao 10° mês”, exibindo uma consciência da própria questão de “exposição” e uma preocupação com o conceito de “coletiva”.

A nova dinâmica daí decorrente profetiza uma nova e clara centralização da atividade galerística em Lisboa, conduzindo em meados da década à abertura de espaços na capital por parte das mais destacadas galerias do Porto. Não obstante desta dinamização do princípio da década, no verão de 2003 o Instituto das Artes e das Ciências é extinto, passando a integrar o Instituto das Artes (IA), numa fusão com o Instituto Português das Artes e Espectáculo (IPAE) que gerou críticas por parte de alguns agentes culturais.

35 Jürgen Bock comissaria para o CCB um conjunto de exposições sob a designação genérica de “Project

Room”, trazendo a Lisboa artistas como Heimo Zobernig (1958), Allan Sekula (1951 - 2013), Eleanor Antin (1935) ou Renée Green (1959). Este projeto foi sustentado por um colóquio que reuniu os participantes com críticos e teóricos resultando na publicação de um catálogo, numa iniciativa de rara precedência.

36 Este projeto foi apresentado na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha (ESTGAD) e no

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Vários artistas como Alexandre Estrela, Rui Toscano ou Carlos Roque, exploram, através do registo vídeo e das instalações sonoras, a transparência dos media como ausência da mensagem. Esta estratégia torna-se clara nos registos fotográficos de Daniel Malhão (1971) ou Nuno Cera que, ao abandonar toda uma poetização da imagem fotográfica tal como ela aparecia em Daniel Blaufuks, exploram um campo autorreferencial.

Existe, contudo, uma diferença de fundo que demarca a atitude dos artistas em relação aos seus antecessores mais próximos, tais como Ângela Ferreira, Miguel Palma, ou João Penalva, que se prende com a ausência de uma noção de agenciamento bem como com um desinvestimento político. Se, nas obras de Ângela Ferreira observamos uma investigação da alteridade, e ao considerar o trabalho de João Tabarra deparamo-nos com um investimento no plano social, ao analisar a produção plástica dos primeiros anos desta década encontramos um indivíduo que é produto e produtor da sua condição pós-moderna, remetendo o “outro” para uma projeção saudosista.

A meio da primeira década do novo século continuam a afirmar-se novos percursos autorais muitos deles já com um princípio de reconhecimento internacional. Servem de exemplo Adriana Molder (1975), Carlos Bunga (1976) ou ainda João Maria Gusmão (1979) e Pedro Paiva (1977). O meio artístico português torna-se também mais prolixo graças ao trabalho de comissários como Miguel Amado, Filipa Oliveira, Nuno Faria ou Ricardo Nicolau, bem como de críticos como Nuno Crespo, Celso Martins, Óscar Faria ou Sandra Vieira Jürgens, merecendo destaque a abertura no ano de 2006 do centro de exposições da ambiciosa coleção internacional de arte contemporânea da Ellipse Foundation.

Resta reconhecer que, como consequência do já referido conjunto de mudanças estruturais e de uma muito maior abertura e internacionalização, a produção artística nacional diversificou-se, sendo que conceitos como “grupo” ou “geração” se revelam difíceis de aplicar, ao mesmo tempo que a abundância de estilos e percursos e a proximidade temporal obstrói qualquer sistematização generalizadora. As modificações internas da sociedade e da situação cultural portuguesa se conjugaram com a evolução do panorama internacional da arte contemporânea ao longo da última década, no sentido de uma configuração mais aberta e mais dinâmica, mais diversa e mais plural.

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