2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.4 O ALTO VALE DO ITAJAÍ
2.4.3 A chegada dos imigrantes no Alto Vale do Itajaí
O processo histórico de colonização do Alto Vale do Itajaí, como já apresentado, deriva das condições de imigração estabelecidas no estado de Santa Catarina e, principalmente, no Vale do Itajaí, que no contexto político atual é a mesorregião que abriga a microrregião do Alto Vale do Itajaí.
Desde a fundação de Blumenau, com a chegada dos primeiros imigrantes para a colônia, o dirigente alemão Hermann Bruno Otto Blumenau tinha a intenção de colonizar todas as terras pertencentes à essa colônia. Hass Júnior (2009) recorda que, como todo o Alto Vale estava dentro dos limites de Blumenau, já no século XVIII começaram as explorações dessa área; assim, expedições foram organizadas, com o objetivo de fazer o reconhecimento do rio, sendo as mais conhecidas àquelas realizadas pelo engenheiro Emil Odebrecht.
Apesar do interesse em colonizar todas essas terras, a intenção principal da direção da colônia Blumenau era, desde o início, a fixação dos colonos alemães em Blumenau e no seu entorno (onde hoje se situam os municípios de Gaspar, Massaranduba, Indaial, Pomerode, Timbó e Ibirama – primeira colônia implantada no Alto Vale) (HASS JÚNIOR, 2009).
Quanto à exploração do local, os imigrantes alemães e italianos, vindos da Europa na década de 1850, instalaram-se às margens do rio Itajaí-Açu. No interior da densa floresta viviam muitos índios das tribos Xokleng, Kaigang e Guarani. No contexto da imigração e da consequente colonização da região, tanto a floresta quanto os índios que ali habitavam foram considerados obstáculos ao estabelecimento dos colonos nessa área (APREMAVI, 2014).
Nesse período de colonização (século XVIII), a ocupação do Alto Vale ainda era pequena. Haas Júnior (2009, p. 22) expõe que a região “era formada por algumas poucas famílias italianas, um número significativo de alemães e uma grande leva de caboclos38 nome dado aos habitantes do planalto que desceram a serra em busca de novas terras”. Somente a partir de 1913, no entanto, teria se iniciado uma nova etapa
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O caboclo na literatura antropológica e sociológica diz respeito à mestiçagem, próxima ou remota de brancos e índios (SEYFERTH, 1999). A maioria dos caboclos das regiões do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e do Paraná originaram-se nas fazendas de gado na segunda metade do século XVIII, com o deslocamento de indígenas, principalmente das áreas das Missões Jesuíticas e se miscigenaram ao fazerem contato com outras populações do mesmo espaço.
do processo de colonização, com enfoque voltado preferencialmente para pequenas propriedades.
A exploração do Alto Vale do Itajaí se deu quando o engenheiro Emílio Odebrecht recebera a incumbência de construir uma estrada de rodagem entre Blumenau a Curitibanos (SILVA, 1954). Assim, por meio dessa construção toda a zona se povoou.
[...] Muitos membros ou seus descendentes da colônia Blumenau, mormente alemães e italianos, com a certeza de que seus lotes não eram suficientes para si e seus filhos, saíram em busca das glebas [terrenos próprios para cultivar] que
estavam situadas mais acima.
[...] Os trabalhadores, empregados na construção de estradas de rodagem e demarcação, por sua vez, fixaram-se pelas redondezas. Além disso, nas colônias já desenvolvidas, os lotes de terras subiram de preço consideravelmente. A solução era o colono subir para o planalto (SILVA, 1954, p. 17).
A ocupação das terras na região da então nova colônia de Hamônia (atual cidade de Ibirama, no Alto Vale do Itajaí) se deu devido à migração interna, motivada pela pressão demográfica e esgotamento dos solos.
O lote de 25 hectares [...] pode servir às necessidades de uma família camponesa, mas torna-se impraticável para reproduzir socialmente a segunda geração, cujo destino mais óbvio seriam as novas áreas coloniais abertas dentro e fora do Vale do Itajaí (SEYFERTH, 1999, p. 67). A citada colônia de Hamônia (atual cidade de Ibirama) foi instalada na confluência dos Rios Itajaí-Açu e Itajaí do Norte e, a partir dela, iniciou-se o processo de colonização das terras da região do Rio Itajaí do Norte, no local hoje estão inseridas seis cidades que fazem parte do Alto Vale do Itajaí (José Boiteux, Ibirama, Witmarsum, Presidente Getúlio, Dona Emma e Vitor Meireles) (HASS JÚNIOR, 2009). A Colônia Hamônia tinha como primeira finalidade colonizar as terras devolutas39 dos Vales do Rio do Norte e Itapocu40 (SILVA, 1954).
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Havia um interesse estrangeiro na formação de empresas particulares para obter concessões de terras devolutas – áreas do governo – com o interesse de colonizá-las com imigrantes europeus (SEYFERTH, 2002).
O Alto Vale, então, sofreu influência das colônias alemãs de Blumenau, e de São Pedro de Alcântara. Os primeiros buscavam um canal de ligação entre o litoral e o planalto e, com isso, como já apresentado, investiram no povoamento de Ibirama (Hamônia), Rio do Sul, entre outros municípios. Os colonos de São Pedro de Alcântara, por outro lado, intentavam a migração para Blumenau, e foram povoando os locais em que hoje se encontram as cidades do entorno de Ituporanga (MENEZES, 2009).
As companhias colonizadoras desenvolveram um papel importante no assentamento dos colonos em diferentes partes do território. Essas empresas particulares organizaram a ocupação de diversas áreas, inclusive o Alto Vale do Itajaí, na região compreendida pela Hamônia. (SEYFERTH, 1999).
2.4.3.1 O tropeiro e a Estrada de Ferro Santa Catarina
O trabalho pioneiro do engenheiro alemão Emil Odebrech nos anos de 1862 a 1881 em abrir os trechos entre Blumenau e Rio do Sul e, posteriormente, até Curitibanos, foi importante para mais tarde os tropeiros41 fazerem uma rota de transporte de gado e comércio entre o litoral e o planalto. Os picadões, linhas e clareiras eram abertos de modo estratégico, perto de córregos, e alguns lugares tinham alguma estrutura para pouso dos tropeiros e descanso dos animais (STAROSKI, 2011).
Os tropeiros foram personagens significativos também para o processo de construção do território do Alto Vale do Itajaí. Staroski (2011) evidencia que
[...] Esses espaços eram também percorridos pelos remanescentes do tropeirismo que cruzavam o ‘caminho do sul’[com referência à região atual de Ituporanga] e cortavam a área realizando comércio em direção aos campos de Lages (STAROSKI, 2011, p. 20).
Os tropeiros tinham também o papel de escoamento do excedente agrícola das propriedades das colônias que tinham uma produção de subsistência (BLOGOSLAWSKI; SILVA, 2011). Os tropeiros, assim,
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Inclui a parte Norte do Estado, com as cidades de Jaraguá do Sul e Massaranduba como exemplos.
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Tropeiro é a designação dada aos condutores de tropas ou comitivas de muares e cavalos entre as regiões de produção e os centros consumidores no Brasil a partir do século XVII.
negociavam mercadorias, ação que impulsionava a economia local, trazendo a melhoria da qualidade de vida na colônia42.
A respeito da estrada de ferro que também impulsionou a região, Hass Júnior (2009) relata que, feito o reconhecimento da área, o engenheiro Odebrecht defendia a ideia de construção de uma estrada de ferro que ligasse o porto de Itajaí ao Alto Vale. Assim, as primeiras pesquisas para a sua construção só começaram em 1882, e as obras em 1906.
Durante a construção e após inaugurado o primeiro trecho, em 3 de maio de 1909, a EFSC – Estrada de Ferro Santa Catarina foi um dos vetores para o desenvolvimento econômico dos núcleos urbanos do Vale do Itajaí. Seu trecho de estrada de ferro chegava até a cidade de Agrolândia, no Alto Vale do Itajaí. A última etapa ferroviária da EFSC a ser inaugurada, e que permaneceu efetivamente em uso, foi a do trecho até Trombudo Central, no ano de 1958, e até Itajaí havia sido inaugurada em 1954. A desativação de todo o trecho aconteceu em 1971; portanto, permaneceu em pleno funcionamento de seu trecho total somente pouco menos de duas décadas (WITTMANN, 2008).
A EFSC foi o caminho mais efetivo para a agilidade de povoação com os imigrantes europeus no Alto Vale do Itajaí, durante seus 20 anos iniciais de funcionamento. Promoveu a ligação da sede da colônia Blumenau com outros núcleos urbanos no Alto Vale, que, mais tarde, ao longo dos inúmeros desmembramentos, se transformaram nas cidades de: Indaial, Ascurra, Ibirama, Lontras, Rio do Sul e Trombudo Central. A EFSC ainda transportou, durante mais de seis décadas, no Vale do Itajaí, cimento, fécula, gado, madeira, areia, soda cáustica, correio e passageiros (WITTMANN, 2008).
2.4.3.2 Formação dos Municípios do Alto Vale do Itajaí
O município de Rio do Sul foi formado a partir de sua emancipação de Blumenau, na primeira metade do século XX (no ano de 1931), e deu origem aos municípios de Agronômica, Aurora, Laurentino, Lontras, Taió, Pouso Redondo, Rio do Oeste e Trombudo Central. Dos desmembramentos posteriores do município de Taió originaram-se os municípios de Rio do Campo, Salete e Mirim Doce. Outros municípios foram criados a partir do desmembramento de
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Alguns municípios e localidades do Alto Vale mais tarde tiveram seus nomes atrelados aos “pousos” dos tropeiros, como é o caso de Pouso da Caixa, Pouso do Cincerro e o município de Pouso Redondo (THOMÉ, 2012).
Trombudo Central: Agrolândia e Braço do Trombudo (HASS JÚNIOR, 2009).
Na parte sul do Alto Vale, foram criados os municípios de Atalanta, Imbuia, Petrolândia e Chapadão do Lageado, a partir dos desmembramentos do município de Ituporanga (cujas terras antes pertenciam ao município de Palhoça43). Pertencendo à região geográfica do Norte do estado, mas integrando o Alto Vale do Itajaí, o município de Santa Terezinha foi emancipado do município de Itaiópolis somente em 1991 (HASS JÚNIOR, 2009).
Staroski (2011) levanta que poucos tropeiros se fixaram na terra, mas de forma inexpressiva, na região do Alto vale do Itajaí. A partir da segunda década do século XX, a área foi sendo percorrida e ocupada por colonizadores e exploradores de diversas procedências: “caboclos ligados ao tropeirismo tardio e a construção de estradas carroçáveis, (...) colonos alemães que subiam pelo rio Itajaí do Sul e seus afluentes das áreas coloniais mais antigas” (STAROSKI, 2011, p. 21).
2.4.3.3 A vida nas colônias
Com base nas pesquisas de caracterização sócio cultural dos agricultores do Alto Vale do Itajaí, Zago (2002) ressalta que no local destinado a cada assentamento, o colono imigrante iniciava seu próprio desbravamento da floresta. Para facilitar a convivência entre os recém- chegados nas comunidades, era preciso estabelecer o espírito comunitário de ajuda mútua, previsto pelos colonizadores, incluindo a construção de igrejas e escolas de forma comunitária, o que permitia estabelecer vínculos de fusão cultural entre alemães e italianos.
Após o assentamento, os colonos começavam o desbravamento das áreas florestais, visando o corte da floresta com a queimada, para facilitar a limpeza das áreas, permitindo o plantio das culturas de subsistência, que supriam os alimentos aos familiares em várias épocas do ano. O desbravamento acontecia nos meses de maio a novembro, quando as condições climáticas eram favoráveis à implantação de cultivos das principais culturas de milho, mandioca, feijão, fumo, arroz, cana-de-açúcar e amendoim (ZAGO, 2002).
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Palhoça foi elevada à categoria de município em 1894, quando de seu desmembramento de São José. Ao município de Palhoça pertenciam Santo Amaro do Cubatão, Águas Mornas, Enseada do Brito e Garopaba (FARIAS, 2001).
Os colonizadores cultivavam ao mesmo tempo várias culturas como: milho, mandioca, cana-de- açúcar, arroz e fumo, criavam suínos e gado de leite, e na indústria caseira beneficiavam vários produtos como: farinha de mandioca, polvilho, açúcar, aguardente, fubá, canjica, banha, salame, cerveja, charutos, doces e arroz (SEYFERTH, 1974).
Até a década de 1980 a indústria madeireira exerceu forte papel na economia da região, sendo a principal responsável pela devastação das espécies nativas e de madeira nobre da mata atlântica. Mais tarde, com a agricultura, especialmente a fumicultura, foi a grande responsável pela destruição das florestas da região (APREMAVI, 2014).
Outro aspecto também do início da colonização no Alto Vale do Itajaí foi o conflito com os índios que habitavam a região. As relações dos colonos, que começaram a habitar a região, com os indígenas marcou o início da ocupação da região. Na pesquisa de Staroski (2011), foi reconhecida que a história da ocupação do Alto Vale é, em parte, a afirmação da colonização europeia, por meio das migrações internas, sobre os territórios indígenas: “Como ocorreu em todo o Alto Vale, os indígenas foram perdendo espaços para os colonos que sistematicamente foram se estabelecendo nas áreas por eles ocupadas” (STAROSKI, 2011, p. 16).
Rocha (2004) levanta que houve vários conflitos dos índios (chamados também de bugres) com os imigrantes alemães, em razão da invasão da terra dos primeiros. Com o tempo, os índios foram perdendo o domínio das terras e, inclusive, começaram a ser dizimados. Com os ataques indígenas nas propriedades, foram recrutados os caçadores de bugres, (chamados de “bugreiros”), pessoas que tinham a missão de torná-los mais civilizados; mas, o que ocorreu foi a morte de muitos índios44.
2.4.3.4 O imigrante e sua solidariedade
Quanto à organização social da colônia, Radin (2001) destaca que foram também as condições de isolamento enfrentadas no “novo mundo” que levaram ao fortalecimento da solidariedade e do espírito
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A contratação dos bugreiros deve-se ao fato de que os indígenas assaltavam os tropeiros, tirando-lhes pertences que tinham valor a eles, provocando assim, uma resposta violenta pelos tropeiros em busca de segurança (DE LIMA CABRAL, 2013).
comunitário entre os imigrantes. A família era o centro do microcosmo dos migrantes e havia, ao mesmo tempo, um espírito solidário interfamiliar, “ocasião em que a pequena comunidade tornava-se uma grande família” (RADIN, p. 125).
Esse importante aspecto da organização social da colônia pode ser observado pela troca de produtos entre as famílias, especialmente por ocasião do abate de animais, como suínos ou gado. [...] Esta prática, comum à sua organização econômica e social, também se estendia a outras situações do cotidiano (RADIN, 2001, p. 104).
Os imigrantes também tinham bastante cooperação no âmbito da comunidade: juntos, construíam a sua igreja, a sua escola e o seu cemitério. Havia, ainda, a ajuda espontânea de vizinhos na construção da casa e durante as colheitas (SILVA, 1954). Eles criavam sociedades recreativas que
refletiam a vida da comunidade e era por seu intermédio que os colonos se arregimentavam para propugnar uma ideia ou construir uma obra pública. Nessas ocasiões, não havia distinções entre sócios ou não. Todos uniam seus esforços no sentido de amparar as sociedades em suas festas beneficentes ou nos dias aziagos45 para socorrer da desgraça os membros da comunidade (SILVA, 1954, p. 132).
Os imigrantes italianos tinham o trabalho como prática necessária à sobrevivência nas pequenas propriedades. Os mesmos também procuravam momentos de lazer: o culto aos domingos, e a caça e pesca à tarde eram as atividades principais de divertimento e encontro entre eles (RADIN, 2001).
O catolicismo era um dos elementos básicos de sua organização. “Os ensinamentos e princípios religiosos eram, em regra, tão respeitados que o microcosmos [a família] dos colonos se organizava a partir deles” (RADIN, 2001, p. 136).
Apresentados os aspectos históricos da formação dos municípios do Alto vale do Itajaí, passa-se às características do estado, e, principalmente, do território do Alto Vale do Itajaí.
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