Uma mineira sozinha na Cidade de Deus, uma pesquisadora tentando tornar a CDD legível
A primeira vez que entrei em uma favela no Rio de Janeiro foi em fevereiro de 2014. Fui à Cidade de Deus para combinar o aluguel de uma quitinete, pois me mudaria para lá no mês seguinte para iniciar minha pesquisa de campo de doutorado. Conversei com a proprietária, Cida, acertamos os detalhes de datas e valores e um mês depois eu me mudava para a Cidade de Deus. Era tudo muito novo, não só para mim, mas também para os meus vizinhos. O que eu identifiquei era bastante diferente do que eu ouvira nos círculos acadêmicos, sobretudo os cariocas, sobre a quantidade de pesquisadores na CDD. Meus vizinhos e seus amigos mais próximos não entendiam muito bem o que eu estava fazendo ali; nunca tinham conhecido nenhum outro pesquisador. Logo me dei conta de que estava inserida em uma rede específica, cujas características estreitamente relacionadas à localização geográfica eu só entenderia mais tarde.
Para mim era tudo muito novo, o que requeria, naquele momento inicial, uma atenção a tudo que me era explicado, a todos que me eram apresentados, aos lugares aos quais era levada. Eram novidades e informações a todo momento, mas também dúvidas, inseguranças e incertezas sobre o que perguntar, sobre como me comportar. Porém, um dos meus principais receios se referia aos momentos em que a polícia entrava na favela, quando sempre ficava muito apreensiva e sem saber ao certo o que fazer. Após presenciar algumas entradas da polícia próximo ao local onde eu morava (sem confronto, tiros ou grandes tensões), me dei conta de que, nessas circunstâncias, a vida transcorria normalmente: as crianças continuavam a brincar na rua, os jovens a namorar e interagir com os amigos, os que trabalhavam continuavam suas atividades, as mães que transitavam com seus filhos seguiam seus caminhos. Percebi também que eu ficava muito tensa e que essa tensão não condizia com a reação das outras pessoas. Diante disso, percebi que podia “relaxar” um pouco, uma vez que a chegada da polícia ali não necessariamente significava confronto.
Um tempo depois de me dar conta desse excesso de preocupação, eu falando ao celular na esquina da casa onde morava, exatamente na rua transversal pela qual a polícia sempre
36 chegava. Eu estava na esquina porque o sinal para telefone celular era muito ruim na minha casa e eu estava em uma ligação. Em um dado momento, o carro da polícia passou por mim e parou na esquina da quadra seguinte. Eu continuei falando ao telefone, sem prestar muita atenção ao fato de a polícia estar ali, mas logo vi a Cida (minha locatária) parada na esquina, me chamando, com um ar de repreensão e indicando que eu deveria ir logo em sua direção. “Você não pode ficar aí na esquina falando no telefone quando a polícia entra. Os meninos [do tráfico] vão pensar que foi você que chamou e os caras [os policiais] vão pensar que você está avisando os meninos que eles estão chegando”, disse ela com um ar de preocupação assim que eu me aproximei. Sem saber o que responder, pensei que “eu só tentei agir como todo mundo”; sentindo um certo constrangimento, fui andando na direção da minha casa ao lado da casa da Cida.13 Mesmo já tendo realizado pesquisas de campo em favelas de Belo Horizonte ao longo de quatro anos, o contexto do Rio de Janeiro era muito específico; uma favela do Rio de Janeiro é muito diferente de uma de Belo Horizonte e a Cidade de Deus era um caso muito particular e com muitas especificidades, como já bem demonstraram trabalhos sobre esse território (ZALUAR, 2000; LINS, 2012; DI TOMMASI; VELAZCO, 2013; MENEZES, 2015; MELLO, 2010) . A tudo isso ainda se somava o imaginário e as representações sobre a favela no Rio de Janeiro, em especial a Cidade de Deus, os quais eu também compartilhava. As representações da Cidade de Deus como lugar muito violento me afetavam, sobretudo no início da pesquisa, quando, por muitas vezes, senti medo ao circular pelas ruas, o que foi se dissipando com o tempo de residência lá e a progressiva capacidade de “ler” as situações.
Portanto, o primeiro aspecto a ser demarcado em relação à situação acima é o fato de que não ser uma pesquisadora do Rio de Janeiro marca as condições de possibilidade da pesquisa de campo na medida em que o meu olhar era perpassado de forte estranhamento e desconhecimento com relação ao que se passava ali. E isso, consequentemente, está expresso no próprio texto, seja nas escolhas sobre o que inserir e destacar, seja no modo como analisei determinadas situações.
Um segundo aspecto: naquele momento, materializava-se, ao menos para mim, a minha ignorância com relação a códigos e condutas básicos correntes na CDD. Além do
13 A reprodução das falas está baseada em minhas anotações de campo e em minhas memórias sobre essa situação.
37 constrangimento diante de Cida, me senti perdida e frustrada. Perdida porque me vi incapaz de reconhecer minhas próprias limitações; eu não sabia que não sabia. Frustrada porque achava que àquela altura já sabia mapear, minimamente, as situações, mas isso não era verdade. Depois de algumas semanas tentando pegar cada sinal, cada dica, cada reação em cada situação, me vi angustiada como nos primeiros dias de campo. A minha angústia era a de que aquela realidade, que me era muito distante e que eu achava que poderia um dia entender, se reafirmou, de fato, muito caótica, muito complexa para que eu pudesse saber como agir e, mais ainda, para que eu pudesse compreender. Passado o momento da frustração e da angústia, percebi que essa situação é exemplar do meu esforço de ler, distinguir, aproximar, separar as situações, as pessoas e as interações ali na Cidade de Deus. Assim como os agentes estatais, foco da pesquisa, eu tentava tornar aquela realidade legível para mim. Por um lado, meu esforço de tornar legível se distanciava daquele dos agentes estatais na medida em que a legibilidade que eu produzia não tinha por objetivo uma intervenção naquela realidade. Mas, por outro lado, assim como os policiais-professores e as técnicas, eu tentava tornar legível, compreensível as nuances e os detalhes daquelas dinâmicas para tornar possível a realização do meu trabalho ali.
Entretanto, a situação mencionada não revelou apenas minha ignorância e como a Cidade de Deus ainda era ilegível para mim; deixou evidente também o cuidado e a atenção de Cida comigo. Diante da minha inabilidade, ela logo me ajudou e me explicou o que eu estava fazendo errado, como o fez tantas outras vezes, assim como alguns vizinhos. Da Matta (1974) chama a atenção para a importância na e para a pesquisa de campo dos “aspectos extraordinários, sempre prontos a emergir em todo o relacionamento humano” (p. 9). Materializou-se, naquele momento, aquilo que o autor chamou de anthropologial blues, ou seja, a “intrusão da subjetividade e da carga afetiva que vem com ela, dentro da rotina intelectualizada da pesquisa antropológica” (p. 6).
A pesquisa de campo prolongada proporciona isso, tanto angústias e frustrações como acolhida e cuidado. Destaco essa dimensão do cuidado e da atenção que recebi de meus vizinhos na Cidade de Deus porque o modo como me trataram foi decisivo para o desenrolar da pesquisa. Ao longo dos quatro meses na CDD, e principalmente nas primeiras semanas, meus vizinhos (que se tornaram amigos) me percebiam como alguém que precisava de ajuda. O fato de ser mulher, solteira e com um sotaque mineiro fazia com que eles me percebessem como alguém que precisava ser guiado, instruído. Na primeira vez que fui pegar um ônibus na
38 Cidade de Deus para assistir uma aula em Botafogo, por exemplo, uma das vizinhas me acompanhou ao ponto de ônibus e esperou até que eu embarcasse e o ônibus partisse. No período em que morava na Cidade de Deus, achava que essas eram atitudes e preocupações um pouco excessivas, apesar de serem expressão de grande cuidado e, com o passar do tempo, de carinho. Todavia, hoje, relendo o caderno de campo e escrevendo sobre isso, me dou conta de que minha própria sensação de que eles se preocupavam em excesso evidenciava que, além de não saber transitar física e socialmente ali, eu não tinha plena consciência da minha própria limitação; hoje eu sei que, em grande medida, não era excessiva ou descabida a preocupação deles comigo.
A convivência e a relação com essa rede mais próxima de vizinhos foi decisiva, não só pela atenção e disponibilidade deles em me ajudar a encontrar o que eu procurava, mas também por me ensinarem a me deslocar dentro da CDD, a “ler” e entender os códigos por meio de dicas, explicações e relatos, por me protegerem de maneiras diversas (por exemplo, ligando quando eu estava fora da CDD para dizer que era melhor eu esperar o dia seguinte para retornar por causa de confrontos, me acompanhando nos deslocamentos à noite, fazendo chás quando fiquei doente). Foi também essa atenção e esse engajamento em me ajudar, sobretudo no início da pesquisa, quando eu enfrentava dificuldades para encontrar os programas que havia me proposto a estudar, que me fizeram chegar ao Prédio do CRJ, que se tornou o foco empírico da pesquisa.
Descaminhos e caminhos até o prédio do CRJ
Fazia uma semana que eu havia me mudado para a Cidade de Deus e até aquele momento eu não havia encontrado nenhuma informação, referência ou pista sobre os dois programas estatais que me propunha acompanhar, o Programa Nacional de Segurança com Cidadania (PRONASCI) e a UPP Social.14 Os contatos prévios, as ligações telefônicas, os e-mails enviados aos técnicos desses programas na Cidade de Deus não eram respondidos. Durante essa primeira semana, fui apresentada a algumas pessoas, mas minha interação mais cotidiana e intensa era com Cida, a proprietária da quitinete onde morei por quatro meses, e com sua comadre Márcia, que morava a duas quadras. Ambas tentavam ajudar me apresentando a
14 Na proposta inicial de pesquisa, o PRONASCI e a UPP Social seriam tomados como objeto heurístico para pensar sobre como a categoria social comparecia nas políticas de segurança pública, tanto em documentos como nas práticas dos agentes estatais.
39 vizinhos e pessoas que iam à birosca de Cida, que funcionava em um dos cômodos de sua casa que tinha uma janela que dava para a rua e que funcionava como balcão. Nessa primeira semana, eu passava a maior parte do tempo na parte de fora do balcão, na rua, conversando com Cida e Márcia (que passava várias horas do dia ali na birosca) e com os clientes e vizinhos que ali passavam para comprar algo, tomar uma cerveja, conversar sobre algum acontecimento ou apenas dizer boa noite ao chegarem do trabalho. Cida sempre me apresentava aos vizinhos e clientes e se empenhava em me auxiliar nas explicações sobre a minha pesquisa e porque eu estava morando na CDD, se esforçando para me ajudar a obter informações sobre o PRONASCI e a UPP Social. Entretanto, ninguém conhecia ou sequer tinha ouvido falar desses programas.
Como é possível supor, essa situação me causou grande preocupação, uma vez que eu havia me proposto a estudar esses programas e havia me preparado para isso antes de ir a campo. Passei a me questionar se estava andando pelos lugares corretos, falando com as pessoas certas, procurando os indícios de forma adequada, enxergando possíveis pistas que apareciam, enfim, comecei a questionar se estava conduzindo a pesquisa de forma adequada. Ainda hoje, depois de três anos desse momento inicial da pesquisa, tenho a sensação de que não consegui as informações que precisava porque não estava andando pelos lugares “certos” e falando com as pessoas “certas” para chegar ao PRONASCI e à UPP Social. Somente após me afastar temporal e espacialmente dessa situação e refletir sobre esse primeiro momento da pesquisa, me dei conta de que ir aos lugares “errados” e falar com as pessoas “erradas”, além de me levar a outros lugares e pessoas (que se tornaram os “certos” para a pesquisa e as reflexões desta tese), me mostrou como esses dois Programas, assim como tantos outros, não chegam à maior parte das pessoas nos territórios onde estão instalados. Esse talvez tenha sido o primeiro “achado” da pesquisa, proporcionado por esse problema inicial. Outros ainda viriam e dariam vida a esta tese.
Depois de quase duas semanas de buscas, andanças e conversas, Cida me apresentou ao seu afilhado, Caio, para que ele me contasse sobre suas aulas de violão, realizadas em um projeto, o que poderia me ajudar de alguma maneira. Caio tinha 13 anos, era magro, tinha pele morena clara e um comportamento infantil, se comparado a outros adolescentes da sua idade. Fomos apresentados e Caio ficou bastante curioso sobre a minha condição ali, as razões que me levavam a estar ali, o que eu queria fazer, porque ainda estudava apesar de ser adulta. Ouviu atento o que eu respondia e fazia perguntas a cada vez que não entendia ou queria saber algo
40 mais. Depois de cerca de duas horas, a timidez inicial cedia lugar a uma conversa mais descontraída; eu não poderia supor, mas ali se iniciava uma amizade.
A certa altura, perguntei a Caio sobre as aulas de violão às quais sua madrinha tinha se referido. Então ele me falou que tinha feito aulas em um projeto, mas havia parado porque estava ficando muito cansado à tarde depois que foi estudar em uma escola mais distante da casa dele, o que exigia que ele acordasse mais cedo e demorasse mais para chegar na hora do almoço. Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre essas aulas e Caio me explicou que elas aconteciam no CRJ, perto da rua principal, “quase chegando na pista”, perto da 15 (Quadra 15). Perguntei se ele conhecia algum projeto com policiais da UPP e ele respondeu quase impaciente: “É lá, Luana, onde eu tô te falando, onde eu fazia aula de violão; meus professores eram da UPP. Lá tá cheio de polícia dando aula”.
A informação me animou. No dia seguinte fui ao CRJ após o horário do almoço, por volta das 14 horas, sendo recebida por uma moça chamada Patrícia. Apresentei-me e expliquei que estava morando na CDD para fazer uma pesquisa sobre as políticas, ações e programas sociais no contexto da política de “pacificação”, que alguns vizinhos haviam me falado sobre o CRJ e, por isso, eu estava lá para conhecer. Patrícia explicou o que era o CRJ e como ele funcionava na Cidade de Deus. Apesar de ter como público prioritário os jovens da CDD, o CRJ atendia todas as idades, de crianças a idosos. Os cursos oferecidos naquele momento eram de inglês, violão, flauta (e outros instrumentos de sopro), violino, jiu-jítsu, capoeira, caratê e profissionalizantes de manicure e cabeleireiro, estes últimos começariam em breve. Desses cursos, seis eram ministrados por policiais da UPP cedidos pelo batalhão local, além de mais um policial fisioterapeuta, que atendia no local. Patrícia me informou também que a equipe que havia assumido a direção do CRJ há menos de seis meses, no fim de 2013, estava tentando implementar aulas de teatro e retomar as aulas de informática, que deixaram de acontecer devido à falta de professor e pelo estado precário dos computadores. Em seguida, me apresentou o espaço físico, explicando que o CRJ estava funcionando provisoriamente no prédio da Casa da Paz, em frente ao seu prédio original, compartilhando o espaço com a Secretaria Estadual de Trabalho na Cidade de Deus (SETRAB), mediadores e palestras do
41 SEBRAE, atendimentos da Fundação Leão XIII, atividades do CRAS com idosos e, mais recentemente, com o recém iniciado Programa Caminho Melhor Jovem (CMJ).15
Aproveitando que a coordenadora do CMJ estava no prédio, Patrícia nos apresentou e nos deixou conversando por alguns minutos. Comecei explicando para Carla sobre a pesquisa e ela, por sua vez, me apresentou o Caminho Melhor Jovem (CMJ), cujo objetivo era atender jovens de 15 a 29 anos de forma individualizada, prestando assessoria e acompanhamento técnico para que pudessem viabilizar seus “desejos” e “sonhos”. Para melhor explicar como funcionava o Programa, Carla deu um exemplo:
Imagina um menino que chega aqui e que gosta de computador, de arte e quer ser designer gráfico; a gente vai trabalhar com ele como viabilizar esse sonho. Se ele está no ensino médio, dizer que ele tem que concluir o ensino médio para que ele possa entrar na faculdade. Enquanto isso, que ele pode fazer um curso técnico, financiado pelo Programa... Tudo acompanhado pelos tutores ou conselheiros. Cada jovem tem um tutor que o acompanha, faz reuniões. (Carla, coordenadora do CMJ, março de 2014)
Eu disse que me interessava muito em conhecer mais sobre o CMJ, acompanhar as atividades e falar com a equipe. Carla se mostrou muito disponível, sugerindo que eu fosse a uma das reuniões coletivas, o que prontamente aceitei.
Ao sair da sala de Carla, procurei Patrícia para conversarmos sobre a possibilidade de acompanhar as atividades do CRJ. Ela me respondeu que eu poderia fazer isso e que estaria disponível para me auxiliar. Acordamos que eu começaria no dia seguinte. De fato, no dia seguinte iniciei o acompanhamento da rotina do prédio do CRJ, que se estenderia por quatro meses e se constituiria no cerne desta tese.
15 O Centro de Referência da Juventude sempre compartilhou o espaço conhecido como Prédio do CRJ com outros programas. De 2014 para 2016, esse compartilhamento se alterou um pouco, tendo em vista que, em 2014, o CRJ funcionava provisoriamente no prédio da Casa da Paz e, em 2016, voltou para seu espaço original após mais de dois anos de reformas. Ambos os prédios estavam localizados na Rua José de Arimetéia, um em frente ao outro. O retorno ao prédio original significou uma melhora nas condições de trabalho, uma vez que o espaço era maior, possuía mais salas e banheiros melhor estruturados, além de um melhor estado de conservação. No prédio da Casa da Paz, as salas eram compartilhadas e muitas aulas tinham que ser ministradas no corredor ou na área externa. O CMJ, por exemplo, que contava com apenas uma pequena sala e compartilhava outra com atividades de outros órgãos, passou a contar com uma sala da coordenação, uma sala de reuniões e duas para os atendimentos individuais.
42 Ao longo desses quatro meses, minha rotina na Cidade de Deus consistiu em idas diárias ao Prédio do CRJ, onde permanecia das nove horas da manhã às quatro e meia da tarde, além das dinâmicas com meus vizinhos mais próximos.16 Naturalmente, havia toda uma vida ordinária, corriqueira, normal da qual eu participava e, aos poucos, fui fazendo parte. Aniversários, cultos em igrejas, ajuda em afazeres domésticos, refeições compartilhadas nos fins de semana, ajuda para cuidar das crianças, saídas para lanchar algo diferente, idas a jogos de futebol (sobretudo do Vasco e da seleção brasileira na época da Copa do Mundo), compras em mercado, passeio à feira de domingo, alguns churrascos no fim de semana, ajudas com lição de casa, fogueiras nas noites mais frias de maio e junho. Além disso, histórias de vida eram compartilhadas: desabafos sobre problemas domésticos com filhos e maridos; conversas com as mulheres mais novas e solteiras sobre namoros, flertes e casos; problemas no trabalho; dificuldades financeiras; insatisfações com a polícia; dores, medos e preocupações nas épocas mais “difíceis” com a polícia. E também nas inúmeras vezes em que me perguntavam o que eu estava fazendo na CDD sozinha e eu tentava explicar, sem convencê-los de que fazia sentido ficar longe da família e do namorado para estudar a CDD.
Entretanto, quanto mais eu era incorporada à rotina, mais as minhas idas ao CRJ eram vistas pelos meus vizinhos como o meu trabalho, como o local onde eu realizava a minha pesquisa. Consideravam que eu estava de folga quando estava em casa e com eles, quando não estava fazendo pesquisa. Era comum meus vizinhos mais próximos dizerem que eu saía às nove