2 REVISITANDO O PASSADO PARA ENTENDER O PRESENTE
3.5 A cidadania dentro do contexto geográfico
Nesta pesquisa, o conceito de cidadania está atrelado à matriz territorial (SANTOS, 1993; GOMES, 2002). Iniciamos este tópico trazendo um questionamento provocador que serviu como título para o primeiro capítulo do livro “O espaço do cidadão”, escrito pelo geógrafo Milton Santos no ano de 1987: Há cidadãos neste país?
O território em que vivemos é mais que um simples conjunto de objetos, mediante os quais trabalhamos, circulamos, moramos; mas também um dado simbólico (SANTOS, 1993). Diante desse espaço que carrega símbolos e marcas dos mais variados, os grupos realizam suas atividades. Tomando por base as ideias de Santos, as pessoas nascem detentoras de direitos, que deveriam ser garantidos pelo mero fato de ingressar na sociedade humana. A cidadania como garantia de direito se aprende; e é através do ato de aprender que ela se torna um estado de espírito, enraizado na cultura.
A cidadania dentro da perspectiva Miltonsantiano seria a consagração do respeito individual dos direitos estabelecidos pelos indivíduos. Contudo, a atual realidade do Brasil, no que diz respeito aos direitos dos cidadãos, é diferente, pois o sentido de cidadania é constantemente deturpado, visto que “em lugar do cidadão formou-se um consumidor, que aceita ser chamado de usuário" (SANTOS, 1993, p. 13). Seguindo a mesma linha de pensamento, DaMata (2000, p. 75) argumenta que “No Brasil a noção de cidadania sofre uma espécie de desvio”.
Nesse contexto, pela formação social do país, os direitos tornaram-se privilégios e tiveram sua existência atrelada às questões de ordem econômica, em uma realidade de país colonizado com profundas disparidades sociais.
Em relação à ideia de que os privilégios se sobrepõem aos direitos, DaMata (2000, p. 78) é crítico ao afirmar que “[...] se o indivíduo não tem nenhuma ligação com pessoas ou instituição de prestígio na sociedade, ele é tratado como inferior”.
Freire (2006), no artigo “Ensaios Sobre a cidade antidemocrática: pensando os bens e Serviços a Favor da cidadania”, referência à obra de Milton Santos, tornando o debate atual, mesmo sendo escrita no ano de 1987. Passaram-se 31 anos dos escritos de Santos e 12 anos da reflexão de Freire, mas ainda percebemos que houve ínfima modificação; o debate realizado por eles continua cada vez mais atual, uma vez que,
A sociedade brasileira constata que as nossas grandes cidades transformaram-se em verdadeiras “bombas-relógio” prestes a explodir a qualquer momento, posto que as desigualdades socioespaciais alcançassem patamares alarmantes, notadamente quando verificamos a não homogeneidade na distribuição dos bens e serviços (FREIRE, 2006, p. 17).
Traçando um comparativo entre a ideia dos autores e a trajetória da capoeira no território brasileiro, percebemos que tais disparidades são vivenciadas em sua grande maioria por diversos praticantes da capoeira, assim como vários brasileiros, têm seus direitos negados.
Diante de tal situação, podemos refletir sobre duas questões pensadas por Santos (1993, p. 7): “Quantos habitantes, no Brasil, são cidadãos? Quantos nem sequer sabem que são?”. Na atual conjuntura brasileira, é possível pressupor que uma grande parcela de indivíduos não possui, de fato, noções cidadãs básica.
Uma das formas de negação de direitos dentro da capoeira acontece, principalmente, no que concerne ao desenvolvimento de políticas públicas voltadas para atender as demandas de seus praticantes, bem como incentivo e valorização da cultura. Sendo assim, é comum encontrarmos no universo da capoeira os não-cidadãos (TORRES, 2014). Para Santos (1993, p. 48), “a própria existência vivida mostra a cada qual que o espaço em que vivemos é, na realidade, um espaço sem cidadãos”.
Nesta pesquisa, ao trabalhar a apropriação do território pelos grupos de capoeira, estamos nos referindo à apropriação de espaços públicos. Sendo assim, podemos afirmar que o próprio acesso desses grupos aos parques, praças, centros comunitários, quadras de escolas, já é considerado um ato de cidadania, mesmo com os embates que tais grupos podem enfrentar diariamente para se manterem presentes nesses locais.
Outro geógrafo que debate acerca da cidadania dentro das Ciências Geográficas seria Gomes (2002). Para ele, a cidadania é uma abordagem recorrente nas discussões acadêmicas. Atrelando os estudos geográficos a essa temática, o referido autor traça alguns questionamentos: Em que medida a cidadania pode ser um objeto de pesquisas geográficas? Que contribuições efetivas a reflexão geográfica poderia trazer a esse importante tema?
Segundo o autor, para efetivar uma discussão coerente e precisa sobre a temática, faz- se necessário abandonar a sedução da moda, em que a cidadania é relacionada a velhos argumentos e a conhecidos pontos de vista que procuram ares de renovação fazendo apelo à simples substituição da denominação. Em sua visão de análise “a cidadania seria assim uma conquista, um desenvolvimento natural na evolução do espírito humano em seu infinito progresso” (GOMES, 2002, p. 129). Conforme, Gomes (1999, p.117), o conceito de cidadania se filia “[...] à matriz do mundo urbano, de um ambiente de convivência, ainda que suponha a diversidade, e na necessidade de estabelecer normas que regulamentam este convívio”.
Diante do que foi apresentado, fica claro, portanto, que a cidadania não seria algo passível de doação ou transmissão, mas sim um processo de construção e desenvolvimento que só seria possível por meio de um processo de busca, desenvolvido e conquistado pelas análises e vivências do indivíduo a serem trabalhadas em todos os espaços de convivência,
sejam estes públicos ou privados. Nesse caso, o contato com determinadas manifestações culturais como a capoeira pode contribuir de forma mais significativa para tal conquista.
Nessa perspectiva, pode-se compreender, que a apropriação do território, associado ao espaço geográfico, é fundamental para a vida, para a construção da cidadania e para uma consciência espacial cidadã, que compreende os movimentos articuladores presentes num espaço sempre, em constante transformação, do qual o cidadão participa. Essa compreensão oportuniza o entendimento do território como constituinte e como resultado de complexas relações que se processam na constituição dos territórios e que são os resultados de diferentes relações entre o local e o global.
Para Andreis (2009), o fato de ser cidadão não se relaciona somente com os direitos e garantias proporcionados pelo Estado e os seus territórios, mas também com o caráter simbólico presente nas práticas e que proporcionam a sensação de pertencimento. Segundo Damiani (2006) citado por Andreis (2009, p.20):
A noção de cidadania envolve o sentido que se tem do lugar e do espaço, já que se trata da materialização das relações de todas as ordens, próximas ou distantes. Conhecer o espaço é conhecer a rede de relações à qual se está sujeito, da qual se é sujeito. Alienação do espaço e cidadania se configura um antagonismo a considerar.
Dessa maneira, a Geografia e a construção de uma formação cidadã, tendo como foco a apropriação do território pela capoeira, devem estar em conformidade com a interpretação do espaço através dos múltiplos fatores intencionados, que o condicionam e do qual o capoeirista coparticipa dessa constante construção vivenciada e apropriada sob a forma de território, transformando-o em territorialidades, como espaço de pertencimento do sujeito, mas que se relaciona com as diferentes escalas dos espaços.
É exatamente essa a crítica que se faz a uma forma de transmissão de um conhecimento que não aconteça levando em consideração a formação de uma perspectiva cidadã e alienada dessa realidade concreta, uma vez que impossibilitaria o exercício da cidadania porque não seria capaz de reconhecer e interpretar as diferentes relações sociais que são personificadas pela concretude do espaço.
[...] a consciência cidadã é entendida como consciência das atitudes-ações individuais praticadas e produzidas socialmente, a partir de um saber-pensar o espaço com criatividade e comprometimento ético responsável – o que implica em desenvolvimento de valores (NOGUEIRA, 2009, p.79).
Ainda segundo o autor,
[...] a formação de uma consciência espacial-cidadã demanda que se pense e defenda os princípios jurídicos e políticos intrinsecamente relacionados a uma “ética da responsabilidade” (HANS JONAS, 1995), a uma tomada de consciência e atitudes que contribuam para os atores sociais se perceberem como tais e possam, a partir disso, agir em sociedade no plano local-global e global-local, tendo em vista a força do que significa. Comprometer-se responsavelmente com sua cultura, seu grupo social, sua comunidade, seu lugar de vivência (NOGUEIRA, 2009, p. 84).
A partir dessa citação do autor, torna-se bastante claro do ponto de vista defendido por este trabalho, já que cita a conscientização acerca do espaço/território como fundamental para a construção crítica e reflexiva do sujeito cidadão, como essencial para a formação dessa consciência cidadã e, consequentemente, ampliação da cidadania.
Desse modo, a relação entre o espaço e a capoeira pode ser considerada uma das ferramentas que possibilita a ampliação do grau de consciência, principalmente daqueles que estão envolvidos nesse processo, isto é, como citado por Milton Santos, uma fração da totalidade16 da cidade. Nesse sentido, no próximo capítulo, serão analisadas as narrativas de mestres e professores dos grupos estudados, possibilitando uma melhor compreensão do assunto, buscando ouvir aqueles indivíduos que estão diretamente envolvidos no processo.
16 “A totalidade é a realidade em sua integridade. [...] a realidade é a totalidade dos estados de coisas existentes, a
totalidade das situações. A totalidade é o conjunto de todas as coisas e de todos os homens, em sua realidade, isto é, em suas relações, e em seu movimento. [...] é assim que a totalidade evolui ao mesmo tempo para tornar-se outra, e continuar a ser totalidade. Essa totalidade do real compreende conjuntamente o Planeta, isto é, a natureza e a comunidade humana” (SANTOS, 1996, p, 116-117).
4 “O MESTRE GUARDA SEGREDOS, MAS NÃO NEGA
EXPLICAÇÃO”
17: A CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTO ATRAVÉS
DOS GUARDIÕES DA MEMÓRIA
Você sabe o que é água de beber? Pois bem, para realização deste trabalho foi preciso “beber água” direto da fonte do conhecimento, ouvindo mestres e professores dos seis diferentes grupos de capoeira localizados na cidade de Vitória – ES. Em cada entrevista realizada foi possível “beber” um pouco de conhecimento sobre a capoeira nas suas mais diversas dimensões.
A construção deste capítulo foi fundamentada em todo o debate estabelecido, ao longo do primeiro, e segundo capítulos dessa dissertação. A trajetória da capoeira apresentada no primeiro capítulo serve de pano de fundo para organizar e direcionar o debate que envolve os conceitos apreciados no segundo capítulo.
Entender a relação entre capoeira, apropriação do território, cidade e cidadania através de uma perspectiva humanista por meio de referências geográficas é estabelecer reflexões acerca de questões primordiais que atravessam o universo capoeirístico, tendo em vista que, “[...] na atualidade, a cidade e seus espaços urbanos mantém um importante papel na manutenção das práticas culturais” (TORRES, 2014, p.16).
A apropriação do espaço pela capoeira possibilita aos atores que executam essa ação a prática de uma dimensão social ligada diretamente à cidadania, visto que, é direito de todo e qualquer cidadão a utilização dos espaços públicos da cidade para o exercício do lazer, realização de manifestações culturais, dentre outros.
Sobre a articulação entre a capoeira, o espaço e a cidade, Gomes (2002), diz que um olhar geográfico sobre a cidade e a apropriação de seus espaços deve considerar não apenas suas configurações físicas, mas também englobar o tipo de práticas e dinâmicas sociais que aí desenvolvem. Nessa direção, Freire (2004, p.107), aponta que, o estudo da cidade e dos aspectos urbanos é “[...] um fenômeno complexo que exige reflexões de nós, geógrafos, para
além da cidade, o espaço produzido na sua concretude, isto é, a realidade no que tange à sua dimensão espacial”.
A discussão relativa às narrativas dos mestres que será apresentada visa mostrar caminhos para interpretar as práticas sociais executadas e vivenciadas pelos grupos de capoeiras, que ocorrem dentro dos limites territoriais da cidade de Vitória.