5.1 As Transformações da Estrutura Espacial das cidades chinesas
5.1.1 A cidade chinesa e a cidade socialista chinesa
Diferente da maior parte dos países ocidentais, na China tradicional havia um relativo equilíbrio na distribuição de população pelo território. Os habitantes rurais se agrupavam em pequenas aldeias evoluídas a partir dos jin22 (Li, 1999: 4-10), cada
um abrigando de 500 a 700 pessoas. A distribuição e organização se dava de tal modo a assegurar proteção e acesso à água. A sequência mostrada na FIGURA 5.1
e 5.2 abaixo, indica a evolução do esquema construtivo da antiga comunidade
chinesa.
Figura 5.2 - Esquema de um sistema Jin e Pátio Interno de Casa Tradicional
Fonte: Elaboração da Autora
22 O sistema Jin (井田, ou well-field, em inglês e sem tradução para o português) foi o método de
distribuição da terra na China feudal, a partir do século 9 a.C. O caractere chinês 井 (jing) se parece ao símbolo # e representa uma divisão de terras em 9 áreas idealmente iguais, na qual o centro correspondia ao campo de cultivo de posse coletiva (ou do Soberano ou do senhor feudal) e as oito áreas em volta eram distribuídas aos servos para seu próprio uso (cada família, um quadrado).
Figura 5.3 - Esquema Concêntrico do Plano de Beijing e Vila Hakka
Fonte: Elaboração da Autora
A partir desse esquema, se desenvolve um padrão ecológico nas cidades tradicionais chinesas maiores, que se difere daquele das cidades pré-industriais. Aqui, lojas e mercados estão dispersas por toda a cidade, não havendo concentração desses usos no centro ou nas maiores vias, como se espera encontrar na cidade ocidental, com seu CBD dominante (Skinner, 1977). Em geral, a cidade era cercada por muros e com distribuição e tipologia de construções bastante homogêneas, com variações apenas na parte central. Há misturas de usos do solo por toda a malha urbana e esta é composta por unidades de vizinhança autossuficientes, contendo pequenas lojas e residências, com um mínimo complemento de pequenas manufaturas, mercado, templos e escolas. Nesse arranjo espacial, se pode trabalhar e viver em uma vizinhança sem muito contato com outras partes da cidade (Skinner, 1977). Mesmo tendo passado pela reengenharia revolucionária pós 1949, muito desse arranjo continuou nas unidades de trabalho socialistas projetadas a partir dos pátios das residências dos grandes clãs para a danwey23 socialista.
23 Danwei é o nome dado ao local de trabalho na China Comunista. O termo ainda é usado como
referência a local de trabalho, embora seja comumente referido ao modelo de trabalho anteriormente desenvolvido nas unidades de produção durante o período revolucionário.
Figura 5.4 - Plano do Danwei a partir do Plano da Casa Pátio
Fonte: Elaborado sobre imagem de Wang (2012:04).
Figura 5.5 – Casa-Pátio e Pátio de uma Danwei
Estudando a aglomeração industrial de Shenyang_ capital da província de Liaoning, noroeste da China, Pannel (1976:239) e Lo, Pannel e Welch (1977) afirmam que a cidade chinesa mudou no período socialista. Por conta das vicissitudes da história e que não nos cabe um aprofundamento aqui, as cidades do início do período socialista apresentavam baixas densidades e sua estrutura residencial estava organizada em bairros satélites autossuficientes e sem a existência do core tradicional das cidades ocidentais. Sem as concentrações de serviços as construções residenciais e administrativas existiam justapostas com áreas abertas e campos agricultáveis. No entanto, o novo sistema requeria uma necessária mudança na organização urbana voltada para a nova forma de organização da produção. A nova cidade deveria refletir uniformidade e inexistência de estratificação social para se distinguir da cidade capitalista, ainda que, como qualquer cidade ocidental do século XX, a industrialização se constituísse na força motriz das mudanças, especialmente a indústria pesada.
Dinâmica e próspera, a verdadeira cidade chinesa deveria prover moradia padronizada aos seus habitantes, assegurar o controle rigoroso do tamanho da aglomeração e desenvolver um centro político, cultural e administrativo. Para isso, aplicou-se o conceito de unidade de vizinhança acentuando o plano de unidades autossuficientes. As habitações dos trabalhadores foram construídas a uma pequena distância do local de trabalho, combinando usos residenciais e industriais no entorno da cidade velha (Lo, 1986).
Assim como nas outras cidades socialistas, a diferença básica entre as áreas da cidade reside não na classe social do residente, mas no uso do solo. Toda a cidade é dividida em unidades de vizinhanças, cada uma dessas é supervisionada por um comitê de moradores com o propósito de assegurar a unidade das comunas urbanas. A franja da área mais intensamente ocupada era normalmente cercada por um cinturão verde por causa da ênfase na combinação do rural com o urbano. Forja- se, então, uma nova relação socialista rural-urbana que já não é mais baseada na exploração, ainda que se reafirme a dicotomia na produção. A área rural deveria prover produtos agrícolas e trabalhadores enquanto que a área urbana provê produtos industriais e tecnologia (Wu, 1995: 79).
Após as reformas econômicas de fins da década de 1970, esse padrão de organização muda radicalmente. A política de revigoramento da economia nacional
e a abertura para o mundo teve um grande impacto sobre o sistema socioeconômico e, como corolário, sobre o sistema urbano. A introdução de um socialismo reformado, com o relaxamento do controle sobre as atividades econômicas, a introdução do investimento estrangeiro, a comercialização dos direitos de uso do solo, culmina com o estímulo à diferenciação social e, logo, com a diferenciação espacial. Com isso não se quer dizer que a China mergulhou no sistema de livre mercado. Há o processo de criação tanto de operações de mercado quanto de uma legislação protetora de contratos, especialmente aqueles que envolvem o arrendamento dos usos do solo, entre Estado e agentes privados. A prática do planejamento socialista, embora suavizada e “reguladamente” descentralizada, continua tencionando as operações econômicas (Lo, 1994).
Diferente da maior parte dos países ocidentais, nos quais a urbanização ocorre simultaneamente com a industrialização, na China não se repetiu essa conexão, ou ela teria se dado em outros termos. A bibliografia consultada sugere que a baixa intensidade da urbanização chinesa, até meados de 1960, é resultado do plano de urbanização controlada desenvolvido por Máo Zedong, no intuito de promover um desenvolvimento rural-urbano balanceado. (Han, 1994; Bing Ma, 2002: 16). Chan (1992), por sua vez, afirma que as baixas taxas de urbanização se deveram à estratégia de desenvolvimento econômico que visava a maximizar a industrialização enquanto minimizava os custos de urbanização. Em defesa de sua tese, Chan demonstra que a estratégia da China de Máo se baseou na apreensão de altas de taxas de acumulação24, cujo intuito guiado por ações refletidas gerou
impactos fortíssimos severos sobre a urbanização. Com as prioridades voltadas para o desenvolvimento industrial, as unidades de trabalho recebiam investimentos apenas para a reprodução biológica dos trabalhadores, o suficiente apenas para garantir a continuidade da produção. Operários recebiam salários suficientes para a alimentação e para o vestuário básico, subsidiados a preços baixíssimos, enquanto que as próprias unidades produtivas se encarregavam de prover a habitação, cuidados médicos e recreação. Com a produção e reprodução organizados entre o Governo Nacional e as Danwei, os municípios não tinham função nem capacidade financeira para prestar serviços sociais mais sofisticados. Além disso, segundo Wu
24 Segundo Chan (1992) a taxa de acumulação chinesa, para a maioria dos anos entre 1949 e 1982,
(1995:150-176), entre 1949 e 1976 praticou-se sistematicamente a repressão aos serviços urbanos e empregos a eles vinculados. A estratégia de manutenção de altas taxas de acumulação só foi viável mantendo-se a remuneração do trabalho, a dizer, a reprodução social, em níveis muito baixos.
A organização das atividades de produção nas cidades chinesas antes das reformas econômicas, ou seja, entre 1949 e 1977, era relativamente simples, o que fica evidenciada na organização do espaço das cidades naquele período, com as atividades produtivas separadas em unidades de trabalho do Estado e unidades de trabalho25 coletivos, organizados pelos Danwei. As primeiras, pertencentes ao
Estado e comandada por seus burocratas, não tinham fins lucrativos e não eram obrigadas a gerar lucro, impostos ou produto, uma vez que estavam ligadas às tarefas de gestão, educação e bem-estar social. As últimas, de outro lado, eram empresas de propriedade coletiva, cujo funcionamento complementava a produção das grandes empresas estatais. De tamanho pequeno, essas empresas tinham um certo grau de autonomia, sendo responsáveis por seus lucros e déficits, de modo que, após cumprir a sua meta, elas poderiam manter uma certa parcela da receita como um fundo de desenvolvimento para o bem-estar de seus funcionários ou mesmo visando à ampliação de sua produção.
Nesse contexto, não havia possibilidade de escolha da localização, nem da empresa, nem da habitação: local de residência e equipamentos comunitários estavam umbilicalmente associados às unidades de trabalho, uma vez que eram fornecidos pelas mesmas. Por sua vez, a alocação de terras e a localização das unidades estatais de trabalho, assim como das unidades coletivas, eram levadas à aprovação dos respectivos departamentos governamentais, num processo similar ao que ocorria com relação ao trabalho, dinheiro e meios de produção.
A tomada de decisão era um processo coordenado conjuntamente pelos setores responsáveis, ligados ao governo nacional, os quais usavam os critérios de escolha e alocação de acordo com princípios de planejamento socialistas ou de
25 Eram chamadas Unidades de Trabalho as empresas ou companhias de propriedade do Estado, na
China comunista. Essas unidades não eram exclusivamente voltadas para a produção industrial, e incluíam Universidades, centros de estudos e pesquisas, além de outras instituições. Além de trabalho, cada unidade era responsável por prover as necessidades cotidianas àqueles que dela tomavam parte, como alimentação, educação, saúde. Nesse sentido, o conceito de Unidade de Trabalho foi responsável pelo esvaziamento do papel do município na determinação dos projetos desenvolvidos no âmbito do espaço urbano.
acordo com as prioridades das políticas de Estado. Até as reformas dos anos 70, os municípios não tiveram nem muita capacidade, nem condições políticas e administrativas de interferência nas decisões urbanísticas. Foi somente após as reformas que a administração municipal começou a estabelecer controles sobre os usos do solo, controle este que, durante os primeiros anos, só insidia sobre as localizações industriais. Este processo moldou a estrutura espacial das cidades chinesas, que apenas muito tardiamente começaram a apresentar características mais similares às aglomerações ocidentais (Wu, 1995:136).
5.1.2 Planejamento Urbano e Organização dos Usos do Solo na Cidade Chinesa