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A Cidade da Parahyba: do rio à colina e da colina ao mar

TITULO VI Polícia Preventiva

2.4 A FESTA NEGRA NA CIDADE DA PARAHYBA

2.4.1 A Cidade da Parahyba: do rio à colina e da colina ao mar

As melhores descrições que temos da Parahyba, no início do Século XIX, foram registradas pelo inglês Henry Koster (2002, p. 130-132), que a visitou em outubro de 1810.

A cidade da Parahyba (lugares de menos população nesse nosso país desse predicamento) tem aproximadamente dois a três mil habitantes, compreendendo a parte baixa. Há vários indícios de que fora mais importante que atualmente. Trabalham para embelezá-la mas o pouco que se realiza é à custa do Governo, ou melhor, por querer o Governador deixar uma boa lembrança de sua administração. A principal rua é pavimentada com grandes pedras mas devia ser reparada. As residências têm geralmente um andar, servindo o térreo para loja. Algumas delas possuem janelas com vidros, melhoramento há pouco introduzido no Recife. [...] A paisagem vista das janelas é uma linda visão peculiar ao Brasil. Vastos e verdes bosques, bordados por uma fila de colinas, irrigados pelos vários canais que dividem o rio, com suas casinhas brancas, semeadas nas margens, outras nas eminências, meio ocultas pelas árvores soberbas. As manchas dos terrenos cultivados são apenas perceptíveis.

A parte baixa da cidade é composta de pequenas casas, e situada ao lado de uma espaçosa baia, como as de todos os rios salgados da região, são recobertas de mangues, tão unidos e compactos que parece não haver saída.

Koster faz uma bela descrição da Cidade da Parahyba - ao que nos parece - com as paisagens, da mesma cidade, retratadas no livro de Barléus. De acordo com o viajante inglês, a cidade tinha cerca de dois a três mil habitantes, e esses dados compreendiam a população da Cidade Alta e da Baixa. Essas denominações correspondem à geomorfologia em que a cidade está assentada. Segundo Maia (2000), ela se estende sobre duas unidades geomorfológicas: a

Baixada Litorânea (margens do Rio Sanhauá) e o Planalto Costeiro (colina/tabuleiro). O sítio original da cidade surgiu na área compreendida entre as margens do Rio Sanhauá (braço do rio Paraíba) e uma colina (tabuleiro), localizada à margem direita desse rio. Assim, sua topografia se assemelha às de outras cidades coloniais brasileiras, como a de Salvador/Bahia, por exemplo, que foi fundada entre o rio e a colina.

A Cidade da Parahyba que Koster visitou restringia-se a umas poucas ruas, como a Rua Nova (atual General Osório76), a Rua Direita (atual Duque de Caxias) e o Beco da Misericórdia, todas na Cidade Alta; e na Cidade Baixa, a Rua do Varadouro. Ao longo do Século XIX, a Cidade Alta (1º distrito) era onde se localizavam os edifícios da administração, as igrejas e os conventos e as residências da elite paraibana; a Cidade Baixa (2º distrito) era mais conhecida como Varadouro, onde ficavam a maior parte do comércio e as casas residenciais da população pobre. Ao redor desses núcleos urbanos, estavam as terras de sítios e engenhos. A ocupação do espaço urbano era descontínua, ficando, frequentemente, trechos desabitados entre as residências e os edifícios públicos, locais onde crescia o mato, dando à cidade um aspecto mais rural que urbano.

Em 1852, o então Presidente da Província, Antônio Coelho de Sá e Albuquerque, assina o decreto que delimitava a área urbana da cidade.

[...] O terreno comprehendido no circulo desta Cidade principia do Caes do porto do Varadouro, seguindo para o sudoeste até a ponte do Sanhoá; Ahi subindo pela rua da mesma ponte, e quinze braças ao sul da nova rua Imperial, comprehendendo as casas, e seus quintaes da rua das trincheiras ate a Igreja do Senhor do Bom Jezus dos Martírios, seguindo pelas ruas da Palmeira, Alagoa e Thesoura, pela nova estrada que segue d’essa até a Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, e daí em direção ao poente comprehendendo as duas ruas do Tambiá até o mesmo caes do porto do varadouro, comprehendendo São Frei Pedro Gonçalves, Zumbi ladeira do tanque, e rua por detrás da Matriz desta mesma Cidade (CLPPBN, 1852, p. 19-20).

Nos dias atuais, a área descrita pelo Presidente Vasconcelos compreende o perímetro do Centro Histórico ou, na denominação de Henri Lefebvre (1979 apud MAIA, 2000), corresponde à Cidade Histórica ou Tradicional, área em torno da qual a cidade se originou, para depois, na segunda metade do Século XX, expandir-se em direção ao mar.

Ainda para a segunda metade do Século XIX, temos as descrições do Presidente Rohan (1856-1858). Segundo ele, “[...] os arruamentos nesta cidade nunca forão nem ainda estão sujeitos a plano algum, quer em relação aos alinhamentos, quer em relação ao nivelamento; cada um edifica à sua vontade e dahi resulta esse labyrintho em que se vai

76 Nas obras de Ademar Vidal sobre a cultura popular na Parahyba, escrita nas décadas de 1940 e 1950, ele

localiza uma grande parte dos festejos em João Pessoa (Cidade da Parahyba), na Rua Nova. Por isso, acreditamos que a mudança do nome para General Osório pode ter ocorrido na década de 1950 ou na de 1960.

visivelmente convertendo a cidade [...]" (apud Pinto, 1977, p. 264). Na década de 1850, eram poucas as ruas calçadas, excetuando-se apenas a Rua Direita e uma parte da do Varadouro; as demais apresentavam dificuldades para o trânsito de animais e de pedestres.

Mas, nas três décadas seguintes, percebe-se uma preocupação, por parte dos governantes, com a questão da urbanização e do embelezamento da urbe, razão por que havia uma inquietação em relação ao alinhamento das casas, cujas frentes deveriam ser rebocadas e caiadas, além do fato de que seus proprietários e inquilinos eram obrigados a roçar e a varrer, de 15 em 15 dias, as frentes, na extensão de 50 palmos, nas ruas largas, e 25, nas estreitas. Eram também obrigados a tapar os buracos, feitos pelas chuvas, em frente às casas, na mesma extensão acima citada. No entorno da cidade, estavam os engenhos77, alguns ainda moentes, dando um aspecto, ao mesmo tempo, rururbano – rural e urbano - à urbe.