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A cidade de A normalista: uma cidade sitiada

O romance de Adolfo Caminha, publicado em 1893, não é posto pela crítica e historiografia literária como um romance do ciclo da seca. De fato, a narrativa se passa no final da década de 1880, quase dez anos após a terrível estiagem, e as descrições e os comen- tários sobre a calamidade de 1877 aparecem espaçadas no romance. A seca em si e seus efeitos mais imediatos não constituem o cerne da narrativa, que se centra nas relações de poder que vitimizaram a estudante Maria do Carmo. Os tipos de Adolfo Caminha estão total- mente imersos num ambiente urbano, com ocupações e afazeres ge- nuinamente citadinos. Estes e outros fatores, como os de ordem bio- gráfica, fizeram com que A normalista não fosse compreendido como um romance sobre a seca.39

No entanto, basta investigar um pouco mais as peculiaridades do espaço da narrativa, aprofundando a caracterização regionalista do romance, bem como a origem das relações sociais que movem a trama para enfileirarmos A normalista, junto com Os retirantes, A

fome e Luzia-Homem, no ciclo de romances da grande seca de 1877.

Ora, o primeiro livro do romancista Adolfo Caminha se movi- menta à época do processo decisivo da urbanização de Fortaleza, afetada pelo contingente assombroso de camponeses que se espa- lharam por todo o perímetro urbano, ocupando as ruas centrais, os subúrbios e alterando a própria dinâmica da cidade. O projeto ofi- cial, que vinha em curso desde o início da segunda metade do século

39 Parte da fortuna crítica considera A normalista um “livro vingador”, pois estaria o autor a

revidar a sociedade cearense, que o recriminou por ter-se apaixonado por uma mulher mais jovem, Dona Isabel Jataí de Paula Barros, casada com o alferes Fausto Augusto de Paula Barros: “Já vários críticos disseram tratar-se de um livro de vingança contra as consequências do escândalo em que o ficcionista estivera envolvido. Parece que um dos primeiros a dizer isso claramente foi o seu amigo Frota Pessoa: 'O Ceará burguês e o Ceará moleque estão retratados nessas páginas perduráveis com uma angústia e uma naturalidade que não são de nenhum escritor deste momento. Foi talvez agressivo, mas na sua situação deviam ser desculpados esse ardor e essa represália contra a sociedade que o perseguiu e não lhe quis perdoar'” (AZEVEDO, 1999, p. 80).

XIX, dividia a cidade entre perímetro central e arrabaldes, divisão que foi formalizada, a partir de 1875, na “Planta da Cidade de Fortaleza e Subúrbios” traçada pelo engenheiro Adolfo Herbster. O romance de Adolfo Caminha trafega nessa cidade dividida pela pran- cheta de Herbster e por um arsenal administrativo que envolvia có- digos de postura, casas de detenção, vigilâncias sanitárias, repressão policial e políticas de saúde. Nesse cenário, a seca de 1877 veio “cris- talizar a ideia de que eram os “subúrbios” os principais espaços de acúmulo de dejetos e vícios nocivos à sociedade” (VIEIRA, 2002, p. 20):

A seca de 1877/79 apresenta-se como ponto máximo dessa separação, pois no momento de maior concentração de retirantes em Fortaleza – março de 1878 –, 13 “arraiaes” foram construídos pelos poderes pú- blicos provinciais para “acomodar” cerca de 70.000 “hóspedes”. Ressalte-se que tais acomodações foram construídas, preferencial- mente, em áreas que marginavam o perímetro central da cidade, ou seja, os subúrbios (VIEIRA, 2002, p. 21).

Daí não se estranhar que os romances da seca surgidos no Ceará tenham como cenário preponderante não o campo, mas a ci- dade. Era na cidade que a seca virava um problema para os escri- tores, políticos e comerciantes: “A vida urbana passa a ser o cenário privilegiado do drama da seca” (NEVES, 2000, p. 25). A maior parte da narrativa de A fome se passa em Fortaleza, com exceção da primeira parte, que descreve o êxodo da família de Manuel de Freitas até lá; em Luzia-Homem, a trama se desenrola na principal cidade da região norte, Sobral e suas cercanias; em A normalista, toda a história trans- corre na capital alencarina. Em certo sentido, os romances que tra- taram da seca no Ceará são romances urbanos.40 Outros elementos

narrativos, como a linguagem e a composição das personagens, acompanham igualmente o contexto específico da capital cearense do século XIX, cuja população, em sua maioria, advinha do sertão:

A maior parte da população de Fortaleza era composta por pessoas que estavam profundamente ligadas ao meio rural: agricultores, reti- rantes, pequenos proprietários de terra falidos ou expulsos pelas

40 O curioso é que o principal romance regionalista do período que se passa na zona rural, Dona

grandes secas, além de ex-escravos, que viviam da mendicância e da venda de uns poucos artigos artesanais e doces, ou mesmo escravos desamparados, que perambulavam pelas ruas da cidade executando pequenos serviços (SILVA, 2006, p. 206).

O diferencial de A normalista, a nosso ver, decorre exatamente daí: das peculiaridades do processo histórico que fez de Fortaleza a cidade hegemônica do Ceará, processo estritamente vinculado à situ- ação da população campesina que teve que se arranjar na capital, após a seca de 1877, debaixo de um pesado discurso civilizatório. O pito- resco rebarbativo dos outros romances da seca cede lugar a um espaço ficcional urbano profundamente afetado pela circunstância climática de toda a província, observada por Adolfo Caminha no seu aspecto social, econômico, político e moral. O materialismo oitocentista per- mite ao narrador descrever com alguma precisão as relações sociais que se formaram da tensão campo e cidade, embora essa mesma base filosófica acabe por esquematizar a realidade mimetizada.

Assim é que a protagonista, Maria do Carmo, chega à Rua do Trilho. Seu pai, Bernadino Mendonça, foi um dos últimos proprietá- rios a deixar a cidade de Campo Alegre. Bernadino enfrenta, seme- lhante à família Freitas do romance de Rodolfo Teófilo, inúmeras dificuldades para chegar à capital cearense. Passados dois dias da chegada, sua esposa, mãe de Maria do Carmo, Dona Eulália, morre de um ataque cardíaco: “Lembrou-se então do ‘compadre João da Mata’, padrinho de Maria. Muito bem: iria ao compadre” (cAMINHA, 2007, p. 29). João da Mata, amanuense que morava numa casinha na Rua do Trilho, recebe então Bernadino Mendonça e a afilhada.

Está desenhado, a partir daí, o conflito principal do romance: o amanuense passa a cultivar um desejo animalesco e compulsivo pela moça, com direito a cenas de ciúme e a sedução barata, o seu grande trunfo é a situação fragilizada de Maria do Carmo: jovem, mulher, retirante da seca e órfã de pai e mãe – João da Mata não tarda a “despachar” o pai da afilhada para os seringais do Pará, de onde não se terão mais notícias do “compadre”. Maria do Carmo passa então a viver de favor na casa do padrinho e de sua mulher Dona Terezinha, dependendo deles para comer, dormir e vestir. “Muitas vezes – ah! –, quase sempre, vinham-lhe ímpetos de reagir com toda a força do seu pudor revoltado, mas ao mesmo tempo lembrava-se

que era só no mundo, porque já não tinha pai nem mãe, e podia ser muito desgraçada depois...” (cAMINHA, 2007, p. 109).

João da Mata era um homem experiente. Certa feita, escapara de ser preso, acusado de “defloramento” de uma menor, na época em que exercia o cargo de comissário de socorros da seca: “É verdade que em 77, na seca, tinha desfrutado muita ‘bichinha’ famosa. Nesse tempo ele era comissário de socorros... Mas nenhuma daquelas retirantes che- gava aos pés da afilhada. Chegava o quê!” (cAMINHA, 2007, p. 108).

Por diversas vezes no romance, a condição de retirante de Maria do Carmo é indicada como a causa de seus males. Ela real- mente era uma filha de retirante, mas a sua beleza, educação e inte- ligência pareciam contradizer o seu passado. Esse contraste atraía as atenções para ela. Maria do Carmo via-se muito admirada pelas co- legas da Escola Normal e, principalmente, por homens de classes sociais as mais diversas, como o estudante de direito Zuza, filho do Coronel Souza Nunes, residente num palacete na Rua Formosa, bem no Centro da cidade:

A fama da normalista encheu depressa toda a capital. Não se compre- endia como uma simples retirante saída há pouco das Irmãs de Caridade fosse tão bem feita de corpo, tão desenvolta e insinuante. As outras normalistas tinham-lhe inveja e faziam pirraças. Nas reuniões do Club Iracema era ela a preferida dos rapazes, todos a procuravam (CAMINHA, 2007, p. 23).

O espanto de todos consistia exatamente na inversão de sen- tidos que Maria do Carmo representava, afinal, uma retirante era uma pessoa com qualidades e não só defeitos. Essa posição também inverte a lógica dos romances que analisamos atrás, atribuindo va- lores positivos a um personagem sem origem nobre. No entanto, o espanto da sociedade não alterava em nada a condição de Maria do Carmo, pelo contrário reafirmava o tabu. As pretensões de Zuza em desposar a moça esbarravam constantemente em seu passado mise- rável. Por algumas vezes, o pai do futuro bacharel aconselhava: “– Mas é uma pobretona, filho. Aquilo é para a gente namorar, encher de beijos e – pernas p’ra que te quero!” (cAMINHA, 2007, p. 1).

Sorte melhor teria sua vizinha e amiga de Escola Normal, Campelinho, Lídia Campelo, que, apesar da fama de namoradeira

(que lhe rendeu um vexame no dia do seu casamento) e de ser filha de Dona Amanda, viúva de honra duvidosa, nunca fora retirante e se casaria sem muitos atropelos com o guarda-livros Loureiro, “ótimo rapaz, excelente empregado, natural de bom gênio, tolerante em ex- tremo e senhor de seu nariz” (cAMINHA, 2007, p. 89). Embora mais prendada que Campelinho, Maria do Carmo via seu noivado com Zuza cada vez mais difícil. É certo que o guarda-livros Loureiro não ostentava a mesma posição de Zuza. O noivo de Lídia era um profis- sional liberal de origem pobre, que estava ascendendo socialmente pelo esforço do seu próprio trabalho como contador na Carvalho & Cia. Depois de casados, Lídia Campelo e o Sr. Dias Loureiro foram morar numa casa muito bem cuidada num bairro um pouco afastado do Centro, no Benfica, região bucólica bem frequentada pelas famí- lias fortalezenses.

Não havia mesmo muitas perspectivas para Maria do Carmo. Seu padrinho logo, logo, conseguiria se aproveitar da situação, e o Zuza partiria de vez para Recife a fim de concluir o curso de direito e evitar algum escândalo. Grávida de João da Mata, a normalista ficou ainda mais desamparada e vulnerável, entregue tão somente à boa vontade do padrinho, que tratou de arrumar um sítio longe dos olhares do povo para que Maria pudesse “descansar”.

O sítio distava um quilômetro da cidade, para lá do Outeiro, na Aldeota, onde morava Mestre Cosme e Tia Joaquina, a “velhinha do caju”: “Era aí que viviam, há anos, desde a seca de 77, entre brenhas de camapus e matapasto, à sombra dos cajueiros, felizes, sem filhos. Corria-lhes a vida como um abundante manancial d’águas límpidas em leito de areia” (cAMINHA, 2007, p. 171). O casal de idosos devia gratidão a João da Mata por ele os ter amparado durante a época em que o amanuense fora comissário de socorros da seca.

Nos últimos meses da gestação, Maria do Carmo viveria ali e, pela primeira vez desde que chegara à Fortaleza, gozaria um tempo de paz e fartura, perto de pessoas com o mesmo passado que o dela, retomando o significado do nome de sua cidade natal: Campo Alegre. O desfecho da narrativa, no melhor estilo naturalista, des- creve como, num acidente infeliz, a parteira derruba o filho recém- -nascido de Maria do Carmo no chão. Nas páginas finais, o narrador retoma os fuxicos e as fofocas que costumavam sair na imprensa

local, misturados com a notícia da Proclamação da República, colo- cando o caso da normalista da Rua do Trilho, agora noiva do Alferes Coutinho, no esquecimento.

Traçados os pontos capitais do enredo, convém agora mapear o itinerário das personagens, a geografia interna do romance, que tem como referência a divisão sócio-urbana da cidade de Fortaleza, a começar pela Rua do Trilho, atual Avenida Tristão Gonçalves, onde residia a protagonista do romance.

A Rua do Trilho margeava o perímetro central da cidade, mas não tão longe do Centro. Colada com a linha férrea, as locomotivas encobriam as casas com uma fuligem espessa. Da rua, avistava-se a estação da linha de Baturité. O Trilho era palco de encontro entre pessoas de classes sociais diferentes, como nas reuniões, à noitinha, na casa do amanuense, para se jogar o víspora. É importante res- saltar que as condições materiais dos moradores do Trilho eram de gente pobre, mas não de miseráveis, o suficiente para entendê-los parte de uma pequena classe média: homens e mulheres que acumu- laram um modesto patrimônio por meio de jogos de azar, relações políticas, biscates, cargos públicos sem muita expressão, transações comerciais pequenas – como a venda de rendas de bilro que Dona Terezinha mantinha com comerciantes do Pará – etc.41

O modo de ganhar a vida dos moradores da Rua do Trilho era, no final das contas, mediado pelo expediente do favor, nos termos que Roberto Schwarz descreveu em “As ideias fora do lugar”: “E assim como o profissional dependia do favor para o exercício de sua profissão, o pequeno proprietário depende dele para a segurança de sua propriedade e o funcionário para o seu posto” (ScHWARZ, 2012, p. 16). O caso mais típico é o de João da Mata, que conseguira certo patrimônio por meio de favores e conchavos.

41 Listamos a seguir os tipos de trabalhadores que aparecem no romance: amanuense; guarda-

livros; juiz municipal; professor; comissário de socorro da seca; mestre escola; delegado de polícia; vigário; rábula; advogado; político; comerciante; jangadeiro; trabalhadores aduaneiros; guardas da alfândega; oficiais de descarga; marinheiros da Capitania; criada; cargueiro d'água potável; vendedores ambulantes de caju; atores e atrizes; músicos; funcionários do correio; carteiros; bodegueiro; gatos pingados (pessoas contratadas para ajudar nos ofícios fúnebres); caixeiros, caixeirinhos e garçons.

Também de origem rural, João da Mata fora mestre-escola no sertão, saindo de lá porque achara que, na capital, poderia “fazer mais figura” do que simplesmente ser o terror da gramática dos me- ninos de uma vila interiorana. Em Fortaleza, fora comissário de so- corros da seca e depois se envolveu com política, o que lhe rendeu o emprego de amanuense:

Depois da seca entregou-se de corpo e alma à política, à intriguinha partidária, à rabulice, à cabala eleitoral, à chicana. Toda a vez que se anunciava um pleito, punha em jogo as mil e uma sutilezas que só o seu espírito sagaz podia conceber. Ninguém como ele sabia copiar uma chapa em letra firme e aprumada. Aquilo a pena cantava no papel que nem o lápis de um taquígrafo. […] Agora, porém, andava meio retraído, dava o seu voto, calado, e passe muito bem! A política só lhe trouxera desenganos e inimigos. Não estava mais para servir de degrau a figurão algum. Que se fomentassem! É boa! Trabalhara que nem besta de carga para no fim de contas ganhar o quê? Um pingue lugar de amanuense? Um miserável emprego que se anda oferecendo aí a qualquer vagabundo? Decididamente não o pilhavam mais para a canga... Estava experimentado, meus senhores, experimentadíssimo (CAMINHA, 2007, p. 17-18).

João da Mata também não vacilava em cobrar a quem lhe devia algum obséquio, pois o favor é mesmo um crédito imprescri- tível. Os laços que trançara no seu tempo de comissário de so- corros ainda lhe serviam aqui e acolá para obter pequenas vanta- gens. Aliás, a seca foi sua grande oportunidade de negócios:

Contou então que na seca tinha ganho muito dinheiro à custa dos cofres públicos; que fora comissário de socorros, e que os presi- dentes do Ceará eram uns urubus que vinham beber o sangue ao emigrante cearense. Tinha assistido a muita ladroeira na seca de 77” (CAMINHA, 2007, p. 62).

O romance, ao concentrar seu foco na trajetória de João da Mata, desmonta os mecanismos mais sórdidos de uma sociedade que se liga em cadeia, desde o presidente até o funcionário mais baixo, para lucrar em cima da miséria do “emigrante cearense”. A Rua do Trilho, portanto, é o locus da narrativa onde as transações mais obs- curas e vis entre as classes sociais ocorriam, e, por metonímia, aos seus frequentadores, estendia-se a mesma qualidade abjeta dessas transações. Naquela rua mal iluminada e “silenciosa como um sub-

terrâneo”, na “faixa média” da sociedade, todos se comprometiam, tornavam-se cúmplices do arranjo que mantinha o status quo:

Tratava-se, portanto, de uma combinação instável, que facilmente de- generava em hostilidade e crítica as mais acerbas. Para manter-se pre- cisa de cumplicidade permanente, cumplicidade que a prática do favor tende a garantir. No momento da prestação e da contrapres- tação – particularmente no instante-chave do reconhecimento recí- proco – a nenhuma das partes interessa denunciar a outra, tendo embora a todo instante os elementos necessários para fazê-lo (SCHWARZ, 2012, p. 20).

A mesquinhez das personagens vai-se tornando insuportável à medida que o romance avança. A cidade inteira é corrupta. Mesmo a imprensa e os homens pretensamente mais esclarecidos da província contribuíam para esse estado de coisas ao se ocupar com pautas insig- nificantes, recalcando em notícias de namoros e mexericos a deca- dência ética e moral da cidade. Muito do tom irritado do narrador de

A normalista se deve a essa crítica aos homens de letras que pregavam

na imprensa cearense moralidades. Novamente, Maria do Carmo ser- viria de bode expiatório ao virar manchete do jornalzinho Matraca:

A normalista do Trilho, ex-irmã de caridade, está caída pelo filho dum titular da cidade. O rapazola é galante e usa flor na botoeira: D. Juan feito estudante a namorar uma freira... Eis por que, caros leitores, eu digo como o Bahia: – Falem baixo, minhas flores, Senão... a chibata chia!...

(CAMINHA, 2007, p. 42)

Esse filho “dum titular da cidade”, mencionado na diatribe, com flor na botoeira, era o estudante Zuza, e ele é o responsável por nos levar à próxima parada: o casarão da família Souza Nunes, na Rua Formosa, atual Barão do Rio Branco, à época, área nobre da cidade:

O futuro bacharel em leis ou simplesmente o Zuza, como era conhe- cido em Fortaleza o filho do coronel Souza Nunes, passava uma vida regalada, usufruindo largamente a fortuna do pai avaliada em cerca de cem contos de réis. O coronel franqueava a burra ao filho com uma generosidade verdadeiramente paternal. […] O Zuza, dizia ele, não era mais do que uma vergôntea digna desse belo tronco genealógico dos legítimos Souza Nunes, tão nobres quanto respeitados no Ceará (CAMINHA, 2007, p. 49).

Os cem contos de réis do seu pai, a casa assobradada com frontaria de azulejos, o “sangue azul” cearense, as viagens em com- panhia do presidente da província e a “educação principesca” que seu pai gostava de alardear davam a Zuza os predicados de um par- tido perfeito para as moças românticas da cidade. Maria do Carmo suspirava por ele e imaginava-se ao lado do rapaz numa “casinha muito bem mobiliada”, ela de robe de chambre lendo o último ro- mance da moda, ele, gordo, na escrivaninha, fazendo versos. No ro- mance, a descrição do estilo de vida da “burguesia aristocrática” vem sempre acompanhada de referências ao Romantismo e à litera- tura romântica propriamente dita. Escrever versos era estar na moda tanto quanto andar a cavalo e assinar a Gazeta Jurídica. O tom irri-

tado do narrador se aguça ao tratar desses assuntos, denunciando

uma posição antiburguesa e antirromântica compatível com a esté- tica do livro e com todo o clima da cidade que descrevemos ao falar da Padaria Espiritual.

Na verdade, Zuza era um péssimo estudante e dava preocupa- ções ao velho Coronel Souza Nunes, além disso, era mau poeta. Gostava de Maria do Carmo pela beleza da moça e por acreditar que uma menina pobre é muito mais honesta do que as mulheres mo- dernas, todas com uma “tendência fatal” ao adultério. Seus amigos o alertavam que as moças daquele tempo, fossem ricas ou pobres, liam Zola, estudavam anatomia humana e tomavam cerveja nos cafés: “Então as tais normalistas, benza-as Deus, são verdadeiras doutoras de borla e capelo em negócios de namoros” (cAMINHA, 2007, p. 81).