Capítulo 1 – Frei Germano de Annecy e a Savóia
1.3 A cidade de Annecy nos tempos de Frei Germano
o século XIX seria um período de grandes desafios para a instituição. A Savóia já não apresentava uma adesão uniforme ao catolicismo. Havia claros contrastes entre as áreas montanhosas e as planícies. Enquanto as primeiras permaneceram muito ligadas à fé católica, as últimas manifestaram crescente indiferença religiosa. Já entre os vales industrializados emergiram diferenças notáveis: um declarado anticlericalismo se espraia na região do Faucigny, pelas cidades de Sallanches, Cluses, Samoens e Bonneville, marcadas pela influência de Genebra e pela presença de sociedades voltarianas, às quais contrastavam o catolicismo resoluto e intransigente de Thonon, de La Roche e de Annecy, que se manteve durante todo o período como um centro difusor de propaganda contrarrevolucionária (BAUD, 1985, p. 6).
França promovida pela Revolução Francesa seguida da debandada de setores da Igreja e da nobreza, que, juntos somavam quase um quinto de uma população estimada em 4 mil pessoas, desestabilizou e freou a atividade econômica até o fim daquela década (BLANCHARD, 1916, pp. 417-419).
No espaço de 30 anos que separam a ocupação da cidade em 1792 do nascimento de frei Germano, Annecy assistiu a uma transformação significativa de sua paisagem urbana e de seu sistema produtivo e de trabalho: muitos conventos foram apropriados pelo Estado revolucionário e seus espaços foram reconfigurados segundo as conveniências do novo momento, como é o caso do convento dos capuchinhos que deu lugar a um hospital na década de 1790 (PHILIPPE, 1860, p.131).
Logo no início do século XIX, a concessão de benefícios fiscais associados à iniciativa privada foi favorecida pela disponibilidade de recursos naturais como força motriz abundante e regular proveniente das águas dos canais e do Rio Thiou, e de matérias-primas como argila, ferro, cal e madeira, essa última proveniente das florestas da região. Além disso, o depósito de carvão mineral descoberto na cadeia montanhosa do Entrevernes em 1794, garantiu matriz energética para promover o desenvolvimento industrial da cidade (BLANCHARD, 1916, p. 422).
O desenvolvimento fabril na cidade ocupou muitos dos conventos vazios de então.
Quando frei Germano nasceu, uma vidraçaria funcionava no mesmo local que abrigou o centenário convento das anunciadas. O antigo seminário da cidade dava espaço a uma fábrica de tecidos e os conventos da visitação já tinham sido substituídos por duas fábricas, uma de tecidos indianos e a outra, de cerâmica. A mais surpreendente das manufaturas instaladas na cidade foi a do capitalista savoiano Duport, um empresário que adquirira experiência com manufaturas de tecido em Lyon. Ele estabeleceu, em 1804 às margens do Thiou, a Manufatura de Annecy no centenário convento das clarissas. Em 1812, empregava cerca de 700 trabalhadores e trabalhadoras de todas as idades para a realização de ofícios diversos. Estima-se que no período, em locais diversos, foram abertas outras cinco olarias, fábrica de sulfato de cobre e curtumes (BARBIER, 1875, p.
28 e 318; BLANCHARD, 1916, p. 424; MARTIGNOLES, 2001, p. 9).
Nesse período, a cidade já havia se tornado um dos principais polos industriais da Savóia e os efeitos desse crescimento não passaram despercebidos. Em 1822, uma testemunha não deixou de notar que essas modificações implicaram em “uma
circunstância infeliz, que faria com que as oficinas fechassem, seria um golpe mortal para tantas famílias, que dela tiram o seu meio de vida” (BARBIER, 1875, p. 54).33
A entrada da cidade na “era do progresso” promoveu significativo crescimento populacional, a cidade passou de cerca de 4.300 habitantes em 1793 para aproximadamente 6.700 habitantes em 1824, esse número chegaria a quase dobrar nas duas décadas seguintes (BLANCHARD, 1916, p. 427).
O nascimento de frei Germano na cidade de Annecy está diretamente ligado a essa expansão do contingente populacional. Diversas famílias que habitavam os vilarejos dos arredores se puseram em marcha em direção à Annecy, entre elas a dos futuros pais do frei capuchinho, Philipine Lacombe e Louis Marion. Philipine acompanhou seus pais Claude Lacombe e Marie Lacombe que deixaram o vilarejo de Saint-Eustache, localizado a 15 quilômetros a sudoeste do Lago de Annecy em direção à “pérola dos Alpes”. Essa tomada de decisão não parece ter sido meramente aventureira, já havia muitos Lacombe naquela cidade e o crescimento populacional de Annecy parecia uma boa oportunidade para um mestre sapateiro como era o caso de Claude Lacombe (LIBER DEFUNCTORUM,1801-1861, p. 66).
Temos poucos registros da família Marion. Sabemos, no entanto, que Louis Marion, era filho de Charlotte Deri e François Marion e que eles eram naturais da pequena Talloires. Não temos nenhuma informação adicional sobre François Marion. Quando Louis Marion e Philipine Lacombe se casaram em 1821, assunto do qual voltaremos, François Marion já havia falecido. É provável que a transferência dos Marion para Annecy tenha ocorrido em um contexto menos feliz que o dos Lacombe. Sabemos que Louis era chapeleiro e, como mencionamos, a expansão das fábricas foi o ocaso de muitas oficinas da região. É provável que a migração para aquela cidade tenha sido constrangida por necessidades econômicas (REGISTRE DE ACTES DE NAISSANCE, 1812-1815, p.
656).
Seja como for, a cidade de Annecy não era muito aprazível para os trabalhadores oriundos das camadas populares. Os bairros tradicionalmente habitados por lavradores e trabalhadores apresentavam pequenas casas, muitas delas de madeira, mal ventiladas, situadas muito próximas umas às outras, como se amontoassem também às margens dos canais da cidade (PHILIPE, 1860, p. 109).34 Em 1831, por exemplo, cerca de 60% das
33 No original: “Une circonstance malheureuse, qui ferait fermer les ateliers, serait comme um coup de mort porté à tant de familles, qui en tirent leurs moyens d'existence.”
34 Segundo Julles Phillipe, algumas medidas de saneamento seriam tomadas somente a partir do fim da década de 1850, como a instalação de fontes em alguns quarteirões ofertando água para população e
casas não tinham latrinas e, em boa parte das que possuíam esse dispositivo eram defeituosas e apresentavam mau funcionamento (MARTIGNOLES, 2011, p. 83).
Os quarteirões desses bairros eram estreitos, irregulares e geralmente sujos.
Sobretudo, na primeira metade do século XIX as ruas, por vezes, ficavam “forradas de montes de estrume, e onde se joga não só os excrementos, a água cinzenta e a água da lavagem, essa do dia e da noite, mas também as cascas dos vegetais, a borra de café”
(MARTIGNOLES, 2011, p. 84).35
À insalubridade das ruas juntava-se, no tempo da restauração da monarquia sarda, mais de 500 hectares de pântanos e charcos situados ao redor da cidade. Esses locais eram repositórios dos protozoários e de mosquitos que disseminavam a malária em Annecy, além disso, garantiam uma atmosfera fria e úmida causadora de doenças articulares e respiratórias. A difusão de tais doenças entre a população era facilitada pelo ambiente sujo, mal ventilado e repleto de resíduos de madeira e algodão das fábricas. A cidade também foi atingida diversas vezes por epidemias como a de varíola em 1829 e a de cólera para o triênio seguinte, essa última ainda retornaria no outono de 1854, ceifando centenas de vidas em Annecy. Na região, era comum também doenças como rubéola, escarlatina, sarampo, tifo etc. (BOGEY-REY; PALLUEL-GUILLARD, 1987, p. 4;
MARTIGNOLES, 2011, p. 84).
Todos esses fatores forçavam para baixo a expectativa de vida na cidade. Durante o período sardo ela girava em torno de 30 anos em Annecy enquanto a média na Savóia do norte era de 35 anos.36 Ao lado dos baixos índices de expectativa de vida, estavam os altos índices de mortalidade infantil: um terço dos recém-nascidos não rompiam a barreira da primeira infância, esse número poderia subir até a metade se forem isolados os dados das crianças enjeitadas deixadas nas instituições asilares. Nas palavras de Bogey-Rey e Palluel-Guillard “desnutridas, descuidadas, sujas, as crianças foram as primeiras vítimas de todas as epidemias, sob o olhar resignado dos pais. Demorou quase um século para ver
demolição de casas de madeira. O autor não faz nenhuma menção sobre a remoção ou realocação da população desses locais.
35 No original: “quant aux rues, il faut imaginer qu'elles sont bordées de tas de fumiers et qu'on y jette non seulement les déjections, les eaux ménagères et de lavage, et cela de jour comme de nuit, mais aussi les pelures de légumes, le marc de café.”
36 A porcentagem de óbitos antes dos 30 anos não é inferior a 47,5% durante o período sardo, ela não ultrapassará jamais a casa dos 35% para as últimas três décadas do século XIX, resultado das ações de assepsia e da maior atenção dispensada pelas autoridades francesas para a saúde pública.
essa mortalidade assustadora cortada pela metade” (BOGEY-REY; PALLUEL-GUILLARD, 1987, p. 4).37
A Annecy, nos tempos de Frei Germano apresentava um cenário marcado pelo desenvolvimento fabril e pela religiosidade católica. A experiência cotidiana da morte era preenchida pelo catolicismo que fornecia uma miríade de santos protetores invocados constantemente contra os males do mundo, se a morte era inevitável, assegurar a salvação individual através da conduta moral estabelecida pela Igreja Católica acabava se apresentando como uma estratégia pessoal e um elemento de coesão social.