Uma economia nos tempos da borracha: as relações entre a agricultura e o extrativismo no Grão-Pará oitocentista
2. A cidade de Belém e o início do crescimento do negócio da borracha.
Ao entrar na segunda metade do século XIX, a Província do Pará começaria a passar por grandes mudanças. Não somente a sua economia iria gerar enormes riquezas, através dos crescentes volumes de borracha exportada, como os melhoramentos materiais também se fariam presentes. A cidade de Belém iria ter os seus primeiros bancos fundados57, pavimentaria as suas ruas, criaria a sua Capitania do Porto, veria a quantidade dos seus prédios aumentar cada vez mais; enfim, daria início ao período de mudanças urbanas que culminaria com os palacetes e as construções de ferro característicos das suas construções na virada do século XIX para o XX58.
É importante destacar que, ao escolher a cidade de Belém como espaço privilegiado de análise nesta parte do trabalho, objetivo discutir como, apesar do grande incremento da economia gomífera durante o início da segunda metade do Oitocentos, a Província possuía, também, uma organização produtiva assentada nas atividades agrícolas. Belém, portanto, por ser a capital da Província e a principal praça exportadora da borracha na Amazônia durante o período selecionado, apresenta-se como uma espécie de termômetro das mudanças que a extração da seringa pôde proporcionar à região.
Dentre os viajantes59 que passaram pela cidade no período, Henry Bates60 não deixou de notar como Belém estava modificada em 1859, em comparação ao que tinha visto em 1848. O embelezamento da cidade era atribuído, pelo naturalista, aos gastos que o governo provincial vinha fazendo dos excedentes de suas rendas. A aparência de
57
Ainda durante a década de 1850, foram instalados o Banco Comercial da Província do Pará e a Caixa Filial do Banco do Brasil. Já na década de 1860, foi aberta casa bancária Mauá & Companhia. Essas informações foram tiradas dos diferentes Relatórios de Presidentes de Província consultados.
58
Sobre as mudanças urbanas em Belém neste período, ver, dentre outros: SARGES, Maria de Nazaré.
Belém: Riquezas produzindo a Belle-Époque (1870-1912). Belém: Paka-Tatu, 2000. Para uma análise
acerca das transformações ocorridas na cidade de Manaus, também durante os últimos anos do século XIX e início do XX, chamando a atenção para o caráter excludente da política urbana então levada a cabo, cf. DIAS, Edinea Mascarenhas. A Ilusão do Fausto. Manaus, 1890-1920. Manaus: Valer, 1999.
59
Uma interessante análise sobre vários dos viajantes que passaram pelo Grão-Pará oitocentista, e que serão trabalhados neste capítulo, foi feita por Oliveira Filho. Este autor procurou entender aspectos como a forma pela qual as viagens daqueles sujeitos puderam ser efetivadas e os objetivos dos mesmos em suas explorações. Cf: OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de. (b) “Elementos para uma Sociologia dos Viajantes”. In: OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de (org.). Sociedades Indígenas e Indigenismo no
Brasil. Rio de Janeiro: Marco Zero; UFRJ, 1987, pp. 84-148. Agradeço a Irma Rizzini pela indicação
deste texto.
60
BATES, Henry Walter. Um Naturalista no Rio Amazonas. Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1979.
“arraial, com ruas cheias de mato e casas desmanteladas”, havia ficado no passado. Além do aumento da população urbana, que o naturalista atribuía ao influxo de estrangeiros portugueses, madeirenses e alemães, o melhoramento da cidade foi visto com grande surpresa. Bates se remete às ruas sem calçamento e cheias de pedras soltas e areia, quando se sua primeira visita à cidade, para fazer o contraponto de como, em 1859, as mesmas haviam sido “caprichosamente pavimentadas”. Sobre os prédios urbanos, a satisfação com as novidades verificadas continuava. A maioria das casas outrora “velhas e desmanteladas”, tinham sido substituídas por “belos edifícios construídos acima do nível da rua, com extensas e elegantes sacadas no primeiro andar”61.
Pela descrição que Bates fez de Belém, ao findar a década de 1850, pode-se ter uma noção de como a cidade caminhava a passos largos em direção à melhoria do seu aspecto. Em 1840, conforme relatou com certo desdém o Pastor Daniel Kidder62, as ruas centrais de Belém não eram largas nem pavimentadas. As “casas de grande porte” eram em número muito pequeno, ocupando somente aquelas ruas, pois, as demais estavam “repletas de casinholas insignificantes e feias”63. Na maioria das casas, somente os cômodos da frente eram forrados. Para piorar a situação, os efeitos do movimento cabano64, que chegou a tomar de assalto a capital em 1835, ainda se faziam presentes:
“Quase todas as ruas têm casas pontilhadas de ba las ou varadas por projéteis de canhão. Algumas foram apenas ligeiramente avariadas, outras quase que completamente destruídas. Dentre estas últimas algumas foram restauradas, outras abandonadas”65.
Sobre essas casas abandonadas em decorrência da Cabanagem, Kidder notou ainda que elas estavam localizadas nos “arrabaldes” de muitas ruas, as quais eram perpassadas apenas por “uma exígua vereda” entre o “matagal” que as cobria. Belém, por esse relato, parecia mesmo o “arraial” descrito por Bates quando de sua primeira visita.
61
Idem, p. 296.
62
KIDDER, Daniel Parish. Reminiscências de Viagens e Permanências nas Províncias do Norte do
Brasil. Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1980.
63
Idem, p. 183.
64
O período tradicionalmente aceito para a duração da Cabanagem compreende os anos de 1835 a 1840. Apesar da Belém ter sido invadida pelos cabanos em 1835, com a chegada do General Andréa, nomeado novo Presidente da Província pela Corte, em 1836, o movimento ficou internalizado no interior, sendo os seus últimos focos debelados somente em 1840.
Segundo o Pastor norte-americano, ainda dentro do perímetro urbano de então, era “perfeitamente possível”, a quem assim desejasse, “embrenhar-se em espessa floresta sem qualquer indício que denuncie a proximidade de uma habitação humana”66.
A respeito dos moradores da cidade, Kidder diz que eles tinham uma “aparência peculiar”. De modo diferente às capitais das atuais regiões Sul e Sudeste que já havia visitado, era a “raça” indígena que predominava, entre os negros africanos e os brancos portugueses:
“De fato, encontra-se, em Belém, desde o índio puro até as mais variadas formas de mestiçagem com pretos e brancos. Ocupam esses mestiços todas as posições sociais: o comércio, as artes manuais, a marinha, a milícia, o sacerdócio e o eito”67.
Ao se referir ao comércio da capital, Kidder ainda não parece notar o maior dinamismo que lhe será atribuído, posteriormente, por outros viajantes. Em torno do principal desembarcadouro da cidade, o que se via, geralmente, era um grande número de canoas atracadas. Dando vida ao movimento no local, existia uma “turba indígena” falando “os mais variados dialetos amazônicos”, que era vista pelo viajante como peculiar à cidade. Daquelas embarcações, desciam variados tipos de mercadorias – descritas pelo Pastor, provavelmente, em função da representatividade da riqueza natural da região -, e a borracha, principal produto do comércio provincial no decorrer do Oitocentos, era vista apenas na forma de sapatos:
“Percebem-se aí carregamentos de castanhas do Pará, cacau, baunilha, urucu, salsaparrilha, canela, tapioca, bálsamo de copaíba em boiões, peixe seco em pacotes, cestas de frutas de infinitas variedades, tanto secas como verdes. Encontram-se, também, aí, papagaios, araras e outros pássaros de rica plumagem bem como, mais raramente, macacos e cobras de mistura com quantidades imensas de sapatos de borracha que são geralmente conduzidos ao mercado suspensos em varas a fim de evitar que se colem uns aos outros”68.
Ainda em 1848, o naturalista inglês Alfred Wallace69, que viajou à Amazônia juntamente com Bates, chega a Belém. O relato deste viajante parece confirmar as observações feitas pelo seu companheiro, a respeito dos aspectos gerais da capital do Grão-Pará durante o mesmo período. Ao aportar na cidade, pôde percorrer as suas ruas,
66 Idem, p. 185. 67 Idem, ibidem. 68 Idem, pp. 187-188. 69
WALLACE, Alfred Russel. Viagens pelos Rios Amazonas e Negro. Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1979.
tendo um panorama de como era a vida no local, e deve ter passado por alguns momentos nem tanto prazerosos. A Rua dos Mercadores, tida por Wallace como a “via principal”, onde ficavam quase todas as “boas lojas da cidade”, tinha apenas alguns poucos trechos calçados, que, de tão pequenos, serviam “apenas para tornar comparativamente mais desagradável o resto da caminhada sobre pedras irregulares ou areia fofa...”. As demais ruas eram muito estreitas, formadas de “pedras extremamente toscas”, ou de “areia fofa e lamaçais”.70
Nessas ruas transitava uma variada mistura de “raças”. Os habitantes de Belém, segundo Wallace, iam desde o “inglês corado”, o “pálido americano”, o “português trigueiro”, “o brasileiro robusto”, “o negro jovial” e o “índio de ar impassível e físico atlético”, passando por “uma centena de gradações e misturas”.71
As igrejas e os prédios públicos “notáveis” tinham altas torres e cúpulas. As casas de moradia, por sua vez, de modo geral, tinham apenas um pavimento. E, dentre essas, numerosas eram “irregulares e baixas”, sem vidraças, e ficavam fechadas “com uma espécie de treliça presa apenas em cima”. Por trás dessas treliças, Wallace percebeu, inclusive, “muitos olhos escuros” lhe observando “furtivamente” enquanto transitava pelas ruas.72 Para um núcleo urbano com proporções das que os viajantes de até então se referem, e com uma população tão variada como a que o próprio naturalista disse existir, é possível supor que um estrangeiro, desconhecido da sociedade local, causasse um certo rebuliço na cidade.
Mas, como Wallace deixou de ter a companhia de Bates em 1850, e cada um seguiu por rumos diferentes na Amazônia, aquele, depois de ter excursionado pela Província do Amazonas, voltou a Belém em 1852, sete anos antes que seu amigo, para, de lá, regressar para Londres. Vendo novamente a cidade, Wallace não deixou de registrar os melhoramentos na paisagem urbana que, em 1859, também iriam ser anotadas pelo seu antigo companheiro de viagem. Novas ruas, estradas e prédios haviam sido construídos73.
Voltando às experiências de Bates em Belém, antes de retornar a Londres, pode-se ter mais uma idéia de como Belém estava se modificando. O espaço físico da cidade se expandia cada vez mais, tomando conta de áreas antes ocupadas por árvores e
70 Idem, p. 19. 71 Idem, p. 20. 72 Idem, p. 19.
plantas. Era de se esperar, entretanto, que, para um naturalista, preocupado em recolher objetos de História Natural nos trópicos, o avanço do urbano em direção à “exuberante” natureza, não fosse visto com bons olhos. Ao andar pelas redondezas da cidade, suas “velhas conhecidas”, notou que as mesmas “tinham sofrido mudanças, e para pior”:
“O espesso tapete de plantas rasteiras, arbustos e trepadeiras que em outros tempos – quando os arredores da cidade ainda não tinham sido mutilados pelo machado e a enxada – se desenvolviam livremente, estendendo o seu exuberante e sedoso manto verde pelas bordas da floresta, tinha sido quase todo arrancado, e grupos de trabalhadores ainda se achavam ocupados abrindo feias e barrentas estradas para carroças e bois através do que outrora havia sido um belo trecho de mata, limpo e tranqüilo. Casas e engenhos haviam sido construídos à beira dessas novas estradas”74.
Em função do machado e da enxada terem “mutilado” a vegetação outrora existente, Bates ainda se lamenta, escrevendo que os naturalistas, a partir daquele momento, teriam que ir muito mais longe da cidade para “encontrar o soberbo cenário da selva virgem, que ficava tão perto em 1848”.
O alemão Robert Avé-Lallemant75, que chegou a Belém poucos dias depois de Bates tê- la definitivamente deixado, também faz alusão ao dinamismo que a cidade vinha tendo. Embarcações maiores e mais velozes que as observadas por Kidder, além da presença da borracha bruta em vez dos sapatos de borracha, também foram anotadas. Somente uma percorrida entre as coxias da Alfândega, onde eram armazenadas grandes quantidades de mercadorias, permitiria, a quem se desse esse trabalho, fazer uma idéia da importância comercial de Belém. Movimentando parte desse ativo comércio, encontravam-se “pequenas canoas e grandes barcos fluviais (...), iates ligeiros e barcos pesados”, de onde saía uma variedade de produtos vindos do interior da Província, mais uma vez, como em Kidder, provavelmente observados em função de suas especificidades locais76:
“(...) sacos meio rotos, derramando caroços de cacau; cestos desatados e barris abertos com borracha em bolas ocas, grossas pranchas de tubérculos sujos, e depois o pau –d’arco, um
73
WALLACE, Alfred Russel., op. cit., p. 240.
74
BATES, Henry Walter., op. cit., p. 297.
75
AVÉ-LALLEMANT, Robert. No Rio Amazonas (1859). Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1980.
76
Sugiro isso, por causa de uma frase de Avé-Lallemant sobre tal comércio. Nas palavras do alemão, “(...) o cais, onde se descarregam os produtos da terra, chegados diariamente do interior, é muito mais interessante para o estrangeiro do que a grande alfândega”. Cf. AVÉ -LALLEMANT, Robert., op. cit., p. 55.
produto vegetal altamente original. (...) E ainda cocos, as castanhas -do-pará, triangulares, e o pirarucu!”77.
Uma crescente afluência de embarcações cada vez maiores no comércio entre o interior e a capital da Província, e a presença da goma elástica bruta, em vez dos sapatos de borracha mencionados por Kidder. Abertura de novas ruas e estradas, e belos prédios sendo construídos. Muito embora o Grão-Pará ainda não tivesse entrado no ritmo alucinante que o comércio de exportação da borracha iria lhe proporcionar em fins do século XIX, os relatos dos viajantes que passaram por Belém durante a década de 1850, já fornecem boas indicações de como a economia provincial estava ganhando um maior dinamismo.
Tomando como base os anos 1852 e 1865, as rendas gerais da Província cresceram cerca de 100%, com pequenas variações de ano para ano, indo de 106.861,25 para 206.098,65 libras esterlinas, sendo que o grande filão da arrecadação eram os impostos sobre a exportação da goma elástica78. Na verdade, desde ano de 1850 os sucessivos Relatórios de Presidentes de Província irão se referir à grande contribuição da borracha para o aumento na arrecadação da administração. Ângelo Custódio Corrêa, por exemplo, dirá que o aumento das rendas durante o primeiro semestre de 1850, em comparação ao que foi arrecadado no mesmo período durante o ano anterior, deveu-se à maior quantidades de gêneros levados, do interior, ao mercado de Belém, além dos altos preços que os mesmos estavam obtendo no comércio de exportação, especialmente a borracha79.
As rendas da Alfândega, em particular, permitem ilustrar de maneira ainda mais clara como o comércio provincial estava crescendo durante o século XIX, especialmente a partir da sua segunda metade, quando os volumes exportados de
77 Idem, pp. 56-57.
78 BASTOS, Aureliano Cândido Tavares. O Vale do Amazonas. São Paulo; Brasília: Editora Nacional;
Instituto Nacional do Livro; 1975, pp. 121-122 (1ª edição de 1866). Os valores oficiais, em mil-réis, são: para 1852, R$ 936:011$000, e 1865, R$ 1.978:547$000.
79
PARÁ, Governo da Província do. Relatório feito pelo Exmo Snr. Doutor Angelo Custodio Correa, 1º
Vice Prezidente desta Provincia, e entregue ao Prezidente em Exercicio, o Exmo Snr. Dr. Fausto Augusto
de Aguiar, no dia 13 de setembro de 1850. Pará: Typographia de Santos & Filho, 1850, p. 75. Todos os
Relatórios de Presidentes de Província que foram citados neste texto, estão disponíveis na internet. (Site www.crl.edu/areastudies/LAMP/index.htm) Lembro que somente é feita referência ao ano de 1850, por ser a partir deste ano que o recorte cronológico deste estudo está compreendido. Além do mais, conforme apontarei mais adiante, é principalmente durante a década de 1850 que a borracha passa a ocupar lugares cada vez mais proeminentes nas pautas de exportações da Província.
borracha aumentam, bem como os preços por que a mesma era vendida. Toda a arrecadação daquele estabelecimento durante o exercício financeiro de 1836 a 1837, foi menor da que estava obtendo o Pará em somente um mês do ano de 1864. Se a explicação para a tal progressão pode ser buscada nos infortúnios que a Província passou durante a década de 1830 - em decorrência da eclosão do movimento cabano -, é bem verdade que os números apresentam uma tendência indicativa de um maior dinamismo no comércio local somente a partir dos últimos anos da década de 1840. Assim, no período de 1836 a 1840 o rendimento foi de 29.527,91 libras esterlinas, chegando mesmo a decrescer no intervalo de 1840 a 1844 para 26.678,44 libras. Já no quatriênio de 1844-1848, em relação aquele primeiro, as rendas aumentaram aproximadamente 38%, sendo de 47.385,66 libras esterlinas, e entre 1848 a 1852, cresceu mais de 100%. A marcha progressiva também foi verificada para os intervalos posteriores. Tendo sempre como base aquele primeiro período, os quatriênios de 1852- 1856 e 1856-1860 mantiveram-se praticamente estáveis, com cada um representando um crescimento de mais de 300%; já o último período, segundo os dados disponíveis, chegaram à enorme cifra de quase 400%. (Ver Quadro 1-1)
Quadro 1-1
Receitas da Alfândega do Pará, 1836-1864 Rendimentos Médios Quatriênios
Em libra esterlina80 Em real
1836-1840 29.527,91 228:603$212 1840-1844 26.678,44 277:178$609 1844-1848 47.385,66 454:902$312 1848-1852 72.504,66 635:077$313 1852-1856 129.707,54 1.131:993$089 1856-1860 141.959,89 1.320:557$126 1860-1864 218.063,54 1.960:121$673 Fonte: PARÁ, Governo da Província do. Relatório dos Negócios da
Provincia do Para. Pará: Typographia de Frederico Rhossard, 1964,
pp. 59-60.
80
O documento que serviu de base para a elaboração deste quadro, somente possui os valores em real. As quantias em libra esterlina foram calculadas tomando sempre como base o câmbio desta moeda no último ano de cada exercício financeiro. Os valores de conversão do real para a libra esterlina foram retirados de MATTOSO, Kátia Queirós. Ser Escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 254.
Como se pôde perceber, através das tendências indicadas pelos dados apresentados acima, os rendimentos do Grão-Pará, à medida que a segunda metade do Oitocentos ia transcorrendo, tiveram um crescimento vertiginoso. De fato, até anos avançados da década de 1880, a Província paraense possuía as principais áreas fornecedoras de borracha para os países estrangeiros. Nessa região, por sua vez, os locais onde a grande maioria da goma elástica era extraída, estavam situados na chamada região das ilhas, a qual engloba todas as ilhas situadas entre o Marajó e a foz do Xingu, além das margens do Jari e as dos rios da Baía de Melgaço. Outras áreas onde as seringueiras também se concentravam, eram o rio Tapajós e as bacias do Tocantins e do Guamá, porém estas produziam uma quantidade de borracha menor que as anteriormente mencionadas81. Apesar de durante a década de 1860 começar a surgir uma preocupação com o aumento da produção da borracha, devido mesmo à progressiva demanda pelo produto nos países estrangeiros, até a década de 1880 a goma elástica ainda continuaria a ser coletada principalmente no território do Grão-Pará. Contudo, é necessário destacar que, a partir da década de 1870, novas áreas de extração da seringa alcançaram a Província do Amazonas, em especial nas zonas dos rios Solimões, Madeira, Purus e Juruá82. (Ver Figura 1-1)
Os dados disponíveis ilustram o rápido e grande aumento nos valores alcançados pelo Pará, com a exportação da goma elástica produzida em seu território, entre fins da década de 1840 e de 1860. No período de 1847 a 1852, foram arrecadadas 338 libras esterlinas, e no quinquênio de 1862-1867 a borracha proporcionou aos cofres provinciais 1.962 libras, ou seja, um crescimento de aproximadamente 245%. (Ver Gráfico 1-1)
81
Cf. WEINSTEIN, Barbara., op. cit., pp. 57 e 65.; e OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de. (a), op. cit., pp. 122-123. Weinstein coloca ainda que, até a década de 1870, os atuais municípios paraenses de Breves, Anajás, Melgaço e Gurupá, respondiam à maior parte da borracha extraída no Pará.
F IGURA 1 -1 – R EGIÕES DE P RODUÇÃO E XTRATIVISTA E A GROPECUÁRIA
Gráfico 1-1
Receitas da Goma Elástica Exportada (em libra esterlina), 1847-1867 Curva Semilogarítimica
Fonte: PARÁ, Governo da Província do.
Relatório apresentado a Assembleia Legislativa
Provincial por S. Exca o Sr. Vice-Almirante e
Conselheiro de Guerra Joaquim Raymundo de Lamare Presidente da Província, em 13 de Agosto de 1867. Pará: Typographia de Frederico
Rhossard, 1867, p. 25.
De uma Província que, especialmente a partir da década de 1850, passou a ter a sua economia em pleno crescimento, em grande medida por causa das exportações de borracha, seria de se esperar que houvesse também um aumento na presença de estabelecimentos comerciais em sua capital. Em 1859, segundo a listagem feita para a aplicação do imposto sobre industrias e profissões em Belém, consta existirem 744 estabelecimentos daquele tipo, sem exclusão dos que não estavam suscetíveis ao