Nosso local de pesquisa não se deu por acaso, as motivações extrapolam o local em que residimos, exercemos nossa atividade profissional e desenvolvemos pesquisas e militância política no movimento feminista.
A principal motivação a ressaltar é o protagonismo das mulheres na história da cidade.
Se tivermos um olhar atento voltado para a história da cidade de Mossoró, há que se destacar a participação das mulheres como sujeitos ativos na construção do seu quadro “sociolátrico”30, expresso inicialmente na figura de Ana Floriano, como heroína que comanda o “Motim das Mulheres”, uma rebelião de mulheres que, em setembro de 1875, protagonizou a resistência feminina ao recrutamento dos seus maridos e filhos para o Exército e a Armada para lutarem na Guerra do Paraguai. As mulheres, organizadas por Ana Floriano, ocuparam a principal rua da cidade, entre a delegacia e o cartório, sendo acompanhadas por uma imensa massa popular, fato este que se configurou como a primeira expressão do movimento feminista na cidade.
Enquanto Ana Floriano foi a heroína da resistência ao esfacelamento da família, Celina Guimarães Vianna foi a “primeira eleitora brasileira” , expressão máxima das conquistas democráticas e dos direitos à cidadania. (Rodrigues, 1985).
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Em 1927, esta professora obteve o primeiro título de eleitor feminino, na cidade de Mossoró, com base numa legislação estadual criada pelo então governador Juvenal Lamartine, como uma resposta ousada ao Congresso que vinha rejeitando todos os projetos que tentavam criar o voto feminino.
Vale ressaltar ainda, no contexto do Estado do Rio Grande do Norte, que Alzira Soriano, aos 32 anos, fazendeira e mãe de três filhas, elegeu-se prefeita na pequena cidade de Lages-RN, próxima a Mossoró, sendo a primeira prefeita eleita na América do Sul. Era o ano de 1929 e no restante do país as mulheres ainda não podiam sequer se aproximar das urnas.
Há que se ressaltar a participação das mulheres na história recente da cidade, através da atuação do movimento feminista, protagonizado pelo CF8 que, há mais de uma década, desenvolve ações de combate à opressão das mulheres e por sua emancipação, articulando suas ações, às atividades de grupos sociais organizados de mulheres em diversos bairros da periferia da cidade e região oeste, através de assessoria a estes grupos, potencializando uma visibilidade da luta das mulheres por cidadania.
Em termos geográficos, Mossoró localiza-se no oeste do Estado do Rio Grande do Norte, situada entre o litoral semi-árido, também denominado de litoral salineiro e o sertão da Chapada do Apodi, e assim como outras cidades do interior do Nordeste brasileiro, tem sua origem ligada à pecuária. (Felipe, 2001). É a segunda maior cidade do Estado com uma população de 220.28631 .
Do ponto de vista econômico, a economia mossoroense baseia-se na prestação de serviços aos(as) seus (suas) habitantes e das cidades de sua área de
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influência, bem como, nas atividades ligadas às indústrias salineiras, às indústrias tradicionais como as fábricas de óleo e às indústrias modernas como a fábrica de cimento Nassau e a Usibrás (beneficiamento de castanha de caju). Há, igualmente, no campo agroindustrial, uma nova experiência representada por empresas como a Fazenda São João, ligada ao cultivo e beneficiamento de castanha de caju, melão, acerola, uva, graviola, maracujá e manga, destacando-se a produção de melão para exportação. Vale ressaltar, ainda, as economias criadas pela presença da Petrobrás na extração de petróleo e gás na “bacia potiguar”, cujo centro geográfico localiza-se em Mossoró, além de uma atividade comercial que luta para romper com a função complementar ao comércio de Fortaleza e Natal. Uma economia diversificada, portanto, se juntarmos a tudo isso a atividade agrícola tradicional e a pecuária do município, não sendo, porém, suficiente para melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes,
[..] devido à concentração de renda que estas atividades geram e dos subempregos criados tanto no setor terciário como no secundário. Acrescente-se a isso a sazonalidade de alguns empregos, como o cultivo de frutas tropicais e as atividades de extração e moagem do sal. (Felipe, 2001, p.22).
Outra característica bastante peculiar à cidade de Mossoró, é que esta não é uma cidade apropriada somente pela sua sociedade, mas também, pelo grupo político-oligárquico dos “Rosados” que tem, na mesma, a base da sua geografia eleitoral. A pretensão do referido grupo é a utilização da história, da memória do lugar e dos seus mitos para, através deste imaginário coletivo, elaborar o seu imaginário político, expressos na dominação cultural, econômica e política não só de Mossoró, mas da maioria dos municípios do Estado.
As estratégias deste grupo político se definem pelo uso da mídia escrita (jornais e edição de livros) e falada (emissoras de rádio, principalmente a Radio Tapuio de Mossoró de propriedade deste grupo familiar) e nos palanques das campanhas políticas, nos discursos das solenidades cívicas, principalmente nos rituais das comemorações da abolição dos escravos da cidade, o “30 de setembro” e o “13 de junho”, quando se comemora, na cidade, a expulsão do bando de Lampião.
O referido grupo surge com forte expressão política, na cidade de Mossoró após a democratização do país, quando a partir de 1946, membros desta família passam a ocupar mandatos políticos, pois a dominação econômica e cultural já se dava há quase um século. Os Rosados se apropriam da memória histórica da cidade; reforçam heróis e mitos; criam outros e, através da mídia, formam opiniões, constroem valores, se constituindo em um dos “porta -vozes” da população mossoroense.
Outro aspecto a destacar, acerca de Mossoró, é o seu ativo e diversificado movimento artístico-cultural, expresso em grupos de teatro, danças folclóricas, bandas de música, dentre outras expressões.
Podemos assim, observar através de uma rápida caracterização da cidade de Mossoró, que ela tem uma relevante história de emancipação das mulheres, bem como uma economia bastante diversificada, tornando-a uma cidade em franco desenvolvimento, apesar da sua má distribuição de renda e falta de condições infra-estruturais.