1. Sobre feiras e cidades
1.6. A Cidade do Sol e o Alecrim
As grandiosas dunas de areia se estendem por quase toda a costa litorânea. Em algum ponto, as areias que correm e dançam se avizinham à fortaleza de mais de quatro centenários em forma de estrela que leva nome de reis e, à época de inauguração, protegeria a cidade do porvir. O verde hoje ainda lhe toma, seja pelas florestas que sobraram, protegidas, ou pela água do mar que se esverdeia e lhe banha do Sul ao Norte. Carrega o nome que dizem refletir o dia de inauguração da igreja matriz em suas terras, aos 25 dias de dezembro de 1599. Quase folclórico, outros dizem ser o dia que os homens lusos margearam suas terras e aqui atracaram, dois anos antes, em 1597 (Cascudo, 1999). A Cidade do Sol, capital do estado do Rio Grande do Norte, extremo Nordeste brasileiro, é a cidade de Natal.
Ainda aos fins do século XIX, dizem sobre seu chão ser uma cidade sem problemas, anterior à terra que desaparece, útil, “para o financeiro de uma classe melancolicamente míope além das fronteiras dos escritórios” (Cascudo, 1999, p. 39). Nesse momento, dispunha oficialmente de apenas dois bairros: Cidade Alta e Ribeira, que comportavam as atividades
administrativas da capital da província. Nos entornos desses dois, outras áreas constituíam bairros exteriores, áreas que reuniam agricultores, pescadores e operários e futuramente se tornariam oficialmente bairros, mas ainda geograficamente muito distantes dos bairros já oficializados. Até então, não teria experimentado os dois dos planos urbanísticos que lhe aconteceriam no século seguinte.
Aos fins do XIX, o republicanismo e a elevação da província a estado passam a demandar a urgência pelo novo. A cidade que cresce, se alarga e infla de gente precisaria ser organizada: saneamento, ordem e embelezamento para uns, desapropriação de terras, favelização e moradas ainda mais longínquas para outros. Para a classe dominante, boniteza, limpeza e ordenamento fariam dessas terras modernas o suficiente para se ter renome nacional e internacional. Era também a forma que se achou para que se purificasse os ares, distanciando suas moradas das áreas com epidemias e doenças decorrentes do inchaço populacional. A solução foi planejar e criar um novo bairro. Sejam todos bem vindos à Cidade Nova, ou o que popular e ironicamente ficou conhecido por Cidade das Lágrimas (Cascudo, 1999). Deixemos os tempos coloniais para trás! Sejamos modernos! Apesar da oposição e das críticas que esse planejamento urbanístico recebeu, lá se fez e inaugurou-se o terceiro bairro de Natal, Cidade Nova, na região que atualmente compreende aos bairros Petrópolis e Tirol. Esse foi o Plano Polidrelli, com ruas e avenidas que formaram uma malha em xadrez, tendência que se popularizou no nordeste brasileiro na transição dos séculos XIX e XX (Silva, 2011).
Ainda antes dos meados do século XX, o segundo dos planos urbanísticos é encomendado. A demanda agora é por uma Natal futurística. Para isso, embelezamento, infraestrutura e higiene são os desejos que encabeçam um grande plano de reordenamento e estruturação da cidade, com vistas ao seu zoneamento definindo e distribuindo suas funções: o Plano de Palumbo ou, oficialmente, o Plano Geral de Sistematização de Natal, encomendado
em 1929, não executado em sua integridade, mas responsável por consideráveis mudanças na emergente malha urbana de Natal (Silva, 2011).
Nos entremeios dos processos de urbanização de Natal, outros importantes elementos se passam. Nos fluxos desses dois séculos, eram muitas as demandas para as terras natalenses.
Em 1855, se pensou em construir um cemitério e logo se autorizou a quantia para sua construção. Até então, se católico o morto fosse, o enterro era feito no sagrado, no chão da igreja, de forma bastante precária. Os inconvenientes desse culto dotavam as igrejas de fedor quando enfrentando epidemias. Mas, o que fazer com quem não tem a fé católica ou cristã? E com os estrangeiros? Precisou-se do cemitério. Muito se passou, se foi e veio, a obra do cemitério fora cheia de percalços, demoras e atrasos. Inaugurou-se em abril de 1856. Diz-se da primeira lápide que a morte data de 1857. Longe era o cemitério do centro da cidade, o bairro da Ribeira, e assim era necessário um carro de transporte, tão longe era que comumente os enterros eram conduzidos em um trem, por estrada de ferro, até que se levasse o morto, aos braços, para o que se chamou de cidade dos mortos, a necrópole (Cascudo, 1999).
Essas terras que sediam a necrópole são as distantes terras de Refoles, um pequeno povoado marginal ao Rio Potengi. É provável que seu nome advenha de “Nau do Refoles”, como era chamado o navio do pirata francês, Jacques Riffault, que tanto se aventurou pelas águas das vizinhanças e guardava sua nau na tranquilidade do Potengi. Refoles era o nome que lhe deram os portugueses. Refoles tornou-se o nome do lugar bom para o plantio de mandioca, reunindo por ali alguns agricultores. Longe e deserto, quem adoecia para lá era levado. Varíola, bexiga... Por essas terras também se instalou o Hospício dos Alienados. A solidão e o despovoado davam lugar aos asilos para o isolamento dos doentes. Tempos depois, se torna o lugar dos operários. Com o desenvolvimento dos negócios em Natal, paulatinamente cresce o número de viajantes e o Refoles se torna um lugar de passagem, por fazer vizinhança com uma
estrada de acesso ao sertão. Para que se ofereça auxílio aos que viajam, alguns comércios passam a se instalar por ali (Cascudo, 1999).
Não se sabe ao certo qual das versões lhe dera o nome que tem hoje, se foi a abundância da vegetação de alecrim-do-campo dali, ou uma velha que enfeitava caixões de crianças enterradas no cemitério, os caixões dos “anjinhos”, com ramos de alecrim (Cascudo, 1999). A região do Refoles se torna aos 23 dias de outubro de 1911 o bairro do Alecrim. A criação do cemitério do Alecrim foi a responsável por promover a ocupação das terras aos redores (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo-SEMURB, 2008).
Aos 18 dias de julho de 1920, dizem se inaugurar uma feira no bairro. Por iniciativa de comerciantes que já atuavam na região e necessitavam de um local fixo para a venda de suas mercadorias, funda-se a feira que leva o nome do bairro (Gurgel, Silva & Dozena, 2012). Outra versão afirma ser a feira uma iniciativa de resgate dos hábitos e costumes do interior do estado, em plena capital. Feira do Alecrim, carrega o nome e a história do bairro que ocupa.
Primeiramente, ocupou a cidade aos domingos, no local conhecido como “mangueirinha”, árvore que abrigava os feirantes, entre a rua Amaro Barreto (Av. 12) e a Avenida Coronel Estevam (Av. 9) (Silva, 2011).
Nos anos 30, com o Plano Palumbo, desenha-se um traçado de longas ruas e avenidas, registradas por números, do 1 ao 12. Tal registro popularmente nomeia as ruas até a atualidade.
Com a Segunda Guerra Mundial, em 1941 é instalada uma Base Naval de Natal no bairro, elemento que promove um acelerado processo de urbanização em função do aumento da população (SEMURB, 2008). Paulatinamente, o grande desenvolvimento dos negócios na região passa a promover o crescimento populacional de forma desenfreada. A feira logo sofre os efeitos disso, sendo transferida para os sábados e para a Avenida Presidente Quaresma (Av.
1), local onde semanalmente ocorre até a atualidade (Silva, 2011). A Feira do Alecrim corresponde a um grande marco nesse bairro de sertanejos, comerciantes e operários. A história
da feira se mescla ao que se narra do bairro, de meados do século XX até os dias de hoje.
Credita-se ter sido a feira um importante expoente na promoção e fixação do influente comércio popular que movimenta o bairro na contemporaneidade.
⁕
Estima-se que 884.122 pessoas residiam na cidade em 2019 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE, 2020a). Com a ocupação iniciada pelas margens do Rio Potengi, com foz na costa litorânea de Natal, a cidade passa a experimentar a expansão urbana e a execução de planejamentos urbanísticos com tendências modernistas e higienistas no século XX. Paulatinamente, os ares provincianos foram sendo substituídos pelos ares da modernidade, tanto em função das profundas transformações resultantes da ocupação de Natal por tropas estadunidenses, durante e após a Segunda Guerra Mundial (Silva, 2011), quanto pelo crescimento da atividade turística em terras potiguares, a partir da década de 80 (Alverga, 2011). Nesse sentido, a cidade se configura como o palco principal de lutas e embates nos jogos de apropriação da cidade para interesses desenvolvimentistas. Atualmente, Natal é zoneada em 4 regiões administrativas: zonas Norte, Sul, Leste e Oeste.
Mapa 1. Cidade de Natal-RN, com suas divisões por zonas administrativas.
Destaque para o Bairro do Alecrim (SEMURB, s/d).
Mapa 2. Região Administrativa Leste da cidade de Natal-RN, Destaque para o Bairro
do Alecrim (SEMURB, s/d).
O bairro do Alecrim, um dos bairros pioneiros na formação do tecido urbano da cidade de Natal que podemos experimentar hoje, é também responsável pelo principal centro comercial popular da cidade. Em 2011, o Alecrim, como popularmente se chama o bairro, comemorou o centenário de sua fundação. No entanto, sua oficialização como bairro aconteceu apenas em 1947, pela Lei Nº. 251 (SEMURB, 2008). Por sua localização geográfica, às margens do Rio Potengi, o bairro é marcado pelo militarismo. Em 1908, foi instalada a Escola de Aprendizes Marinheiros do ainda Refoles. Em 1941, é instalada a Base Naval de Natal e, posteriormente, é também construída a Vila Naval, impulsionando os fluxos de gentes no Alecrim. Como
delineado nas linhas anteriores, fora conhecido como um bairro operário por ser um local em que pessoas de baixa renda podiam dispor de lotes e terrenos vazios. Ali, na periferia a oeste do centro da Natal do início do século XX, foram surgindo as primeiras casas e comércios do Alecrim. Além do comércio e do militarismo, o bairro também é referência em instituições higienistas, com a instalação do Cemitério Público de Natal, do Leprosário São Francisco de Assis, dos hospitais dos Alienados e da Misericórdia, do Sanatório Getúlio Vargas e, após a Segunda Guerra Mundial, dos abrigos Juvino Barreto e Melo Matos, inicialmente para abrigo dos flagelados da seca e da guerra e atualmente, abrigo de idosos21, e para proteção e defesa social de meninos, respectivamente (Oliveira, 2014).
Em todos os dias da semana, se pode ir a alguma feira livre em Natal. Em algum canto da cidade, é dia de feira. Ao todo, são contabilizadas 21 feiras semanais, o maior número delas sendo realizadas aos domingos (9) e as mais populosas são a Feira do Alecrim, a Feira da Cidade da Esperança e a Feira do Carrasco (SEMSUR, s/d). Atualmente, a feira topônima ao bairro acontece aos sábados e é a maior e mais conhecida feira de Natal. Além disso, se configura como a expressão da imbricação do tradicional e do novo na cidade e como um cenário de manutenção e resistência das tradições do ser potiguar e do ser alecrinense (Gurgel, Silva &
Dozena, 2012).
21 Portal de notícias e fotojornalismo Natal. (2018, 19 de abril). Instituto Juvino Barreto 76 anos de história em favor dos idosos do RN. Recuperado de https://eliasjornalista.com/instituto-juvino-barreto-76-anos-de-historia-em-favor-dos-idosos-do-rn/
Figura 4. Barracas individuais se misturam às grandes lonas azuis que abrigam as demais barracas da Feira do Alecrim. Por M. L. P. Guimarães, 2019.