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PARTE I – IDENTIDADE E FRONTEIRA

CAPÍTULO 4: NARRATIVAS SOBRE A CIDADE

4.3 A Cidade Impossível

Uma Cidade Impossível é aquela que se torna inviabilizada. Seja por falta de recursos, por falta de pessoas, de interesse ou de um momento oportuno. Mas também pode tornar-se impossível se forem encontrados argumentos morais, ideológicos ou racionais para que possa ser vetado seu projeto.

É impossível quando sua realização enquanto obra já colocada em execução não procura a união dos homens, “afim de que eles não se espalhem por toda a terra”. Se assim procede, acaba por confundir suas línguas impedindo o entendimento entre seus

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Segundo O Social – periódico realizador do concurso para a escolha do nome da Nova Capital em 1933 – Petronia havia sido o nome mais votado para a nova Capital entre todos, mas o interessante no concurso são as explicações dadas por cada um dos votantes sobre a sua opção. A procura por dotar o nome de um aspecto simbólico é claro. Pode-se perceber ainda uma intensa utilização de palavras de cunho tupí (Maraúba, Marataíra, Peruaba), mas principalmente a sua ligação com a figura de Pedro Ludovico (Petrolândia, Petrônia, Perutaba, Aspirópolis, Pátria Nova). Cf.: COSTA, Castro. Goiânia, a metrópole do oeste. 1985, p.41.

construtores e assim como Babel, terminando por ser abandonada ao tempo antes de sua conclusão. (BIBLIA SAGRADA, Gênesis, 11;1-19).

A melhor forma de impossibilitar que uma idéia ganhe simpatia e força é desacreditá-la. Por meio de uma demonstração objetiva de sua inadequação à realidade ou então por meio do ridículo: transformar em piada determinada situação é retirar dela sua validade e sua aplicabilidade. Mas é também torna-la mentirosa e dar autoridade de verdade ao acusador. Segundo Hartog uma forma de se fazer crer é indicar na narrativa do outro aquilo que não é verdadeiro, é mentiroso, corrigindo assim em sua narrativa a narrativa dos outros (HARTOG, 1999, p.302-312). Apontar algo como mentiroso, falso, como não passível de credibilidade é autoproclamar-se como portador da verdade. Tornando-se portanto crível, aceito e desejável. Está a demonstrar, além disso, sua confiança no fracasso da idéia ou do projeto que se opõe e/ou interpreta como não realizável.

Mas uma cidade também torna-se impossível quando não lhe foi dada oportunidade de ser construída por seus habitantes, a partir da vivência daqueles que a habitam51. Quando não possibilitou a formação de um lugar em que a experiência individual e coletiva de sua construção pudesse ser compartilhada. Quando os indivíduos são excluídos desse processo. É impossível porque não é feita pelos homens, mas por uma idéia que propõe moldar, controlar as relações sociais, eliminando qualquer forma de sobrevivência ilegítima, assim como impedindo sua proliferação. Porque impõe uma lógica demasiadamente racional à vida cotidiana de seus cidadãos, reservando a eles um pequeno espaço oculto dentro dos próprios discursos dessa organização centralizadora.

A Cidade Impossível é aquela que é pensada apenas a pedra como ordenadora da carne, separando as duas instâncias que compõe o ambiente urbano52. Ao deixar de dar valor às pedras, os homens (não só planejadores e literatos, mas todos os seus habitantes)

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A existência de uma representação simbólica dos espaços urbanos antes de sua aparição na realidade pretende sempre assegurar a dominância de determinadas formas e idéias sobre o conteúdo, através de palavras, diagramas gráficos e imagens mentais. É fruto de uma perspectiva estritamente racional que terá bastante influência na América e em especial, na história das cidades brasileiras, procurando estabelecer a ordem “antes que a cidade exista, para impedir assim a futura desordem”. RAMA, Angel. A cidade das

letras, 1985, p.24 e seguintes.

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A relação entre as cidades e os homens que as habitam é fundamental para determinarmos o juízo que a própria sociedade tem de si mesma. Dando significado às pedras, os habitantes da cidade – pessoas comuns, homens ordinários – reorganizam, reorientam no tempo e no espaço o sentido de suas vidas e, conseqüentemente o mundo ao seu redor. Cf.: SENNETT, Richard. Carne e pedra: corpo e a cidade na

deixam de proclamar a cidade como uma situação urbana: fruto de contínuas mudanças (materiais e simbólicas) e incapaz de se realizar sem elas.

Pedro Ludovico mudara-se para a agora nomeada, nova Capital e A Colligação predestinava seu retorno:

Há de voltar para estes ermos o sr. Pedro Ludovico Teixeira. O que S. Excia imagina em vias de realização é apenas obra mal começada. Goiânia jamais será a capital de Goyas. Uma cidade se edifica com dinheiro e dinheiro não existe. A teimosia neste propósito se já levou o Estado à falência vai leva-lo a catastrofe.

E mais à frente, ironizava com a mudança de sua comitiva:

Transfere amanhã sua residência para Goiânia, o Secretário Geral do Estado, Dr. Benjamim Vieira.

Por uma coincidência notável, é o antigo desembargador a única pessoa que se transfere em companhia do Governador do Estado para as obras da nova Capital.

Quis o destino numa das suas muitas ironias, que fosse S. embaixador do povo de Goyas junto às autoridades da República, numa viagem que custou dez contos, o primeiro a capitular diante da obcessão mudancista.

Da janela de sua nova residência o hoje auxiliar do sr. Pedro Ludovico há de sorrir olhando os descampados de Goiânia, onde avultam somente ao lado de casinholas, os esqueletos de dois grandes prédios, há de sorrir ao pensar na ingenuidade dos seus conterraneos desta velha capital e nas voltas que o mundo dá. O mundo não. Nas voltas que os homens de reduzida convicção política frequentemente dão.

Mas tranquilize-se S. S. Assim como foi, voltará. E se foi o segundo desta feita, será o segundo desta outra. Até nisso o destino lhe vae ser irônico. (A COLLIGAÇÃO, 18.12.1935).

Ironia aliás era o que não faltava para se retratar a transferência da capital. Críticas mostravam por “A+B” que a mudança era impossível. Os empréstimos contraídos pelo interventor endividavam o Estado e sobrecarregavam os municípios. Os impostos eram aumentados para conter as despesas com a mudança da capital. Os credores batiam à porta da residência de Pedro Ludovico, para tentarem receber os atrasados. Os funcionários públicos não eram pagos a tempos. Os magistrados não viam a cor dos “miguéis” ha 3 meses... Esse era o quadro pintado pelos opositores ao governo para justificar a interrupção da construção da nova capital.

Qual! ... Assim não há tatú que possa construir uma cidadezinha! Parece até que essa gente das finanças é comunista.

Salvo se não for.

Ora, assim não é possível!...

Ps.: Somos um Estado que não deve. O orçamento é exatamente equilibrado, é dizer, renda=despesa provável.

Restam umas continhas sem importância:

Banco do Brasil 2.300:000$000 Banco Hypothecario 300:000$000 Contas Classificadas 1.000:000$000 “não classificadas S.E.O.” 200:000$000 Vencimentos em atraso 800:000$000 4.600:000$000

O resto é para construir mais uma capital. (A COLLIGAÇÃO, 18.12.1935)

Comparada à situação da dívida pública do estado em outubro de 1930, época em que Ludovico assumiu o poder, destituindo a dominância caiadista a diferença, para a oposição, parecia escandalosa. Mesmo porque, todas as acusações imputadas ao regime anterior haviam sido rechaçadas ou simplesmente não resolvidas53. Os números quase que haviam dobrado, mesmo com a venda dos terrenos para os primeiros habitantes da nova Capital54:

Banco do Brasil 500:000$000

Cont. (corrente) de cauções 117:458$747

Cofre dos órfãos 518:621$840

Juros com Cofre dos Órfãos 103:600$000

Contas Classificadas 557:576$188 Dívidas ao funcionalismo 428:847$665 Ordens de pagamento 95:045$556 Total 2.381:151$896. (A COLLIGAÇÃO, 07.06.1935) 53

Dos processos levados a cabo contra o regime caiadista – grilagem de terra, assassinatos, fraude eleitoral etc. – não há registros de uma real condenação dos acusados. Antônio Ramos Caiado não foi a julgamento por nenhuma das acusações que lhe eram feitas. Quanto ao temido delegado Bastos, acusado de cometer as maiores atrocidades no território goiano sob a vista grossa do governo (como espaçar pessoas a luz do dia e andar pela cidade expondo um colar de orelhas arrancadas a faca de seus desafetos) já havia sido preso e condenado antes da Revolução de 1930. A Colligação, 25.08.1934.

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Segundo relatório enviado ao diretor geral da Fazenda em junho de 1936 as vendas de lotes realizadas em 1934 perfizeram um total de 54:964$572 e em 1935 879:377$097. Em 1935 um lote situado em avenida de zona comercial com aproximadamente 60 metros de largura custava 8$000 o m2. Um lote situado em avenida de zona residencial com aproximadamente 25 metros de largura custava 2$300 o m2. A maioria do funcionalismo público estadual recebia em 1935 menos que 600$000. Cf. MONTEIRO, Ofélia Sócrates do Nascimento. Ob. Cit. 1979.

Com aquele governo não se brincava, afirmava o jornal: quando queria arruinar o Estado, arruinava mesmo só para ver a desgraça alheia (A COLLIGAÇÃO, 18.01.1935). “Aquilo” que estava por nascer no meio do sertão goiano não deveria nem ao menos ser levado a sério. Ali não nasceria uma cidade, mas um leprosário, marcado no solo por dois esboços de prédios mal-acabados. Ao longe, uma precária vila de deserdados da terra – trabalhadores braçais que acampavam em tendas feitas de palha, e eram pagos através de vales concedidos pelo Governo. Trabalhadores que se sacrificavam naquele solo em função de um devaneio tolo de um governador que a qualquer momento deveria acordar e abandonar aquela “terra maldita” (PREFEITURA DE GOIÂNIA, 1985, p.16).

A situação dos operários parecia tão precária que segundo relatos, muitos deles chegavam a vender seus salários nos armazéns e vendas locais. O comércio era controlado pelos fazendeiros da região. E a mandioca roubada constituía, não raro o único alimento de alguns daqueles deserdados. A situação não passava despercebida pelos jornais:

Por não terem recebido os seus salários atrazados, os trabalhadores da nova Capital declararam-se em greve.

Com essa notícia, chegada hontem, circulou a de que o sr. Heitor Fleury estava providenciando à pressa o numerário respectivo, que não existe.

Como vem os leitores, a situação européia não é das melhores. (A COLLIGAÇÃO, 13.10.1935)

O sarcasmo utilizado para definir a situação critica pelo qual passava o governo está presente também ao tratar das “modernagens” que seriam então instaladas em Goiânia. Como por exemplo os fornos crematórios, eficientes substitutos dos cemitérios. Mas que poderiam ser utilizados para outras funções, inclusive para eliminar os vestígios de determinados “empecilhos” à consolidação da nova Capital, como conta A Colligação, de 04 de janeiro de 1936. Tendo a imprensa do Rio de Janeiro publicado a informação de que aquele maquinário seria brevemente instalado, tal notícia

causou profunda impressão no espírito do Dr. João Monteiro, chefe de Polícia.

Que seriam fornos crematórios?

O prof. João Setubal garantiu-lhe exuberantemente que não se tratava, na espécie, desses fornos comuns de assar biscoitos e rosquinhas de trança. Eram apparelhamentos moderníssimos que vinham sobretudo resolver o problema das cozinheiras, tão agravado pela falta de dinheiro. E explicou:

-Você quer, por exemplo, lombo de porco assado, com molho. Pega o pôrco, pôe-no vivo à boca do forno, pôe sarça, cebola, molho inglêz num vidro fechado, empurra e desce a tampa do forno. Dois

minutos depois é só ir do outro lado e destampar. Você tem um lombo assado com molho. É um prodígio, menino. E assim qualquer iguaria. Cabe até uma vaca.

Esta explicação não satisfez o dr. Chefe de polícia. E muitas outras não satisfizeram até que o acaso pol-o à frente do sr. José de Alencastro que exclareceu convenientemente a questão.

-Mas o sr. me garante mesmo que é para incinerar cadáveres? -Sem dúvida – respondeu o sr. José Alencastro.

Um sorriso sadio e feliz untu o rosto do honrado mantenedor da ordem. Todas as delícias do paraíso insultaram o seu sangue em arrepios de antropophagia.

-Mas então aquilo é uma maravilha.

E no dia seguinte rumava para Goiânia, à presa o dr. Chefe de Polícia. Foi incinerar ‘cadáveres’.55

Dos muitos argumentos utilizados pelos defensores da permanência da capital na cidade de Goiás e críticos da nova cidade surgia também o boato de que um surto de lepra se espalhava por aquele canteiro de obras: leprosos eram empregados nas construções dos prédios, no serviço público (ASMAR, 1989).

Apenas dois prédios despontavam na Nova Capital e o governo já via motivos para transferir as repartições públicas para seu novo endereço. A resistência entretanto era grande. Principalmente aquela advinda dos funcionários federais que tiveram que ser convencidos através de ordem direta do próprio presidente da República, após reclamação expressa de Ludovico sobre aquela questão. Enquanto isso esperava-se o fracasso eminente da tentativa de construção da “Metrópole”. E depois, seu regresso ao ninho antigo de Vila Boa.

O argumento de maior peso portanto continuava sendo a própria tradição de uma cidade que fora centro político do estado desde períodos remotos e que no momento certo não permitiria a consolidação dos planos do interventor Pedro Ludovico, o traidor da terra natal.

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A Colligação, 04.01.1936. O grifo é meu. Mesmo em tom de piada o tema da violência ganha centralidade,

indicando, assim como em outras fontes aqui arroladas, a possibilidade real da execução de medidas repressivas na gestão de Ludovico.

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