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Partindo a análise do cenário da COVID-19, a pandemia explicita de forma dramática problemas nos espaços periféricos, nas ocupações irregulares, existentes há décadas e constantes dos relatórios sobre a pobreza global, que já acarretavam

prejuízos ao meio ambiente e a saúde pública, mas que atualmente ganharam relevância, diante das consequências gravíssimas que podem ocasionar.

Como considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU, 2020f) “outras condições sociais, como planejamento urbano precário e superpopulação em algumas cidades, serviços deficientes de gestão de resíduos”, podem contribuir para a elevação do número de casos de COVID-19.

É relevante motivo para preocupação, exemplificativamente, o fato de que, “até 75% da população nos países menos desenvolvidos não têm acesso à água e sabão”, o que poderá causar sobrecarga ante os “hospitais com recursos limitados e sistemas de saúde frágeis”, como apontado pela Organização das Nações Unidas (ONU, 2020f).

Conforme diagnóstico do SNIS, Serviço Nacional de Informações sobre Saneamento de 2019, publicado em dezembro de 2020, considerando o Brasil, cerca de 17% da população, o que significa 35 milhões de pessoas ainda não tem acesso aos serviços de água tratada. Quanto ao esgotamento sanitário extrai-se do referido dignóstico que 45,9% da população, ou seja, mais de 100 milhões de habitantes não tem acesso a esse serviço (BRASIL, 2020, p. 58).

Tendo em vista que a COVID-19 é uma doença com elevado índice de contaminação entre as pessoas, as condições de higiene no ambiente das cidades, o acesso a água e saneamento para garantir a salubridade e dignidade dos cidadãos em suas moradias, representa ainda maior importância, para a saúde pública e os impactos globais da pandemia.

Historicamente, as cidades são os principais epicentros de epidemias, sendo que a alta concentração de pessoas e atividades amplifica os riscos de transmissão de doenças infecciosas (ONU-HABITAT, 2020). Ocasiona ainda maior impacto a conjuntura precária da população que ocupa áreas irregulares, privadas de urbanização e serviços públicos essenciais, dificultando o implemento das principais orientações para evitar contaminação pessoal e propagação da doença.

No Brasil, no estado de São Paulo, o maior número de mortes pela doença se concentra nas áreas pobres, não apresentando relação proporcional quanto à quantidade de casos confirmados ou de idosos45, podendo-se concluir que a COVID-19 é uma questão de saúde pública, potencializada por questões sociais, políticas, econômicas e ambientais46.

Quanto à Região Metropolitana da Baixada Santista, local que chegou a alcançar o maior número de infectados pela pandemia no Estado de São Paulo e um dos maiores índices do Brasil, o número de óbitos decorrentes da COVID-19, na cidade de Santos, também representou maior relevância nas áreas mais carentes.

Conforme levantamento realizado pela Prefeitura Municipal de Santos (PMS, 2020), apesar do maior número de infectados residirem em bairros da orla da praia, ocupados tradicionalmente por pessoas com maior poder aquisitivo, o número de mortes é mais elevado nas regiões carentes da cidade (A TRIBUNA, 2020).

A pandemia torna claro para a humanidade que a existência de mais da metade da população mundial abaixo da linha de pobreza e sem acesso a moradia e serviços básicos acarreta efeitos nefastos à sobrevivência global, como segue destacado:

O novo coronavírus se espalha pelo mundo sem distinção de bairro, idade, raça ou classe social. Entretanto, prevê-se que o impacto seja muito mais expressivo para as populações vulnerabilizadas, em especial as que vivem em assentamentos informais, como favelas, loteamentos e ocupações, bem como a população em situação de rua (ONU-HABITAT, 2020).

45 A pesquisa foi realizada pela Rede Nossa São Paulo, uma organização da sociedade civil, que analisou que os distritos na cidade de São Paulo com mais favelas possuem o maior número de óbitos, concluindo que “fatores como renda e saneamento também explicam a correlação entre os mapas”. Conforme os dados divulgados pela Prefeitura de São Paulo, ainda em uma fase inicial da pandemia no país, em 17 de abril 2020, Brasilândia, na Zona Norte, possuía o maior número de morte, com 54 vítimas, seguida de Sapopemba, na Zona Leste, com 51, além de Cidade Tiradentes, com 37 morte e São Mateus com 41 mortes, ambos localizados na Zona Leste (VEJA, 2020).

46 Conforme dados publicados em agosto de 2020, a partir de análise de levantamentos da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, em quatro meses, os 20 distritos mais pobres de São Paulo acumularam mais que o dobro das mortes causadas pela Covid-19 do que as registradas nos 20 distritos mais ricos. De 17 de abril a 16 de agosto, o número de óbitos nos bairros mais pobres aumentou 9,7 vezes, de 474 para 4.600 (ou 870,5%). A pandemia da Covid 19 revela que a desigualdade social provoca maior risco de vida às pessoas mais carentes (REDE BRASIL ATUAL, 2020)

O descaso na solução de problemas nas cidades, envolvendo a política habitacional se reflete na realidade atual, consoante o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, realizado em 2010 (IBGE, 2011), já defasado (o próximo seria realizado este ano e foi postergado em razão da pandemia), cerca de 11,4 milhões de pessoas vivem em 6.329 favelas em todo o país, sendo 50% das moradias nessas condições localizadas no sudeste do país (cerca de 23,2% em São Paulo e 19,1% no Rio de Janeiro), situação que representa desafios ainda maiores, ante a pandemia.

A questão não é nova, conforme o referido censo, 84% da população brasileira vive em cidades, o que representa em 50 anos, cerca de 130 milhões de novas pessoas nesse ambiente, ensejando desafios cada vez maiores para sua gestão (IBGE, 2011).

A precariedade vivida nos bolsões de pobreza existentes no meio urbano tende a se agravar com a pandemia, ante a impossibilidade material do atendimento das orientações relativas ao isolamento e medidas simples de higiene, salientando a ONU-Habitat (2020), entre as principais dificuldades a serem enfrentadas:

“limitações dos equipamentos de saúde, falta de saneamento básico, falta de abastecimento de água, precariedade das moradias e acesso à informação sobre a doença e sua prevenção”.

Importante considerar que os riscos de pandemia já tinham sido advertidos anteriormente. Em 2019 no relatório “A World At Risk” primeiro documento anual elaborado pelo órgão independente Global Preparedness Monitoring Board - GPMB (Conselho de Monitoramento da Preparação Global)47, foi apontado que questões como conflitos prolongados, estados frágeis e migrações forçadas, bem como as mudanças climáticas, a crescente urbanização e a falta de água tratada e de saneamento básico, favorecem a rápida circulação de vírus letais em todo o mundo (WORLD BANK GROUP, 2019).

47 O órgão foi lançado em maio de 2018, pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e é formado por 15 membros, entre líderes políticos, chefes de agências e especialistas de vários países (Agência Brasil, 2019). Acesso em: 10 set. 2020.

Assim, a pandemia da COVID 19 não foi a primeira e não será a última sofrida pela humanidade, sendo necessárias medidas para mitigar os efeitos, especialmente no ambiente urbano, ante a precariedade habitacional existente nas cidades que gera problemas inerentes à aglomeração humana e a ausência de saneamento básico.

Em razão da proximidade com os problemas enfrentados nas comunidades carentes que ocupam áreas irregulares, a atuação dos governos locais por meio de políticas públicas direcionadas se revela fundamental, para que o impacto da atual pandemia da COVID 19 não seja ainda mais grave nesses territórios e para que estejamos preparados para possíveis outros surtos de graves doenças com alta contaminação no planeta48.

4.4. A demanda habitacional nas cidades: a deficitária gestão urbana e