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2 Do Fórum à Acrópole Dois paradigmas do urbanismo

2.1 A Cidade Moderna e o Surgimento do Urbanismo

Considera-se atualmente como cidade moderna, aquela que se desenvolve a partir da industrialização ocorrida nos países europeus entre os séculos XVIII e XIX. Estas cidades, com suas transformações quantitativas e qualitativas ocorridas numa intensidade e velocidade jamais experimentadas pelas cidades antigas, impõem novos modos de gestão colocando a necessidade do planejamento urbano. (Benevolo, 2001)

Embora se possa dizer que o conhecimento da cidade tenha sua origem na própria origem do fenômeno que tenta examinar, dado que a construção das primeiras cidades sempre pressupõe alguma teorização sobre as mesmas, é, sobretudo a partir do extraordinário crescimento urbano decorrente da Revolução Industrial e das transformações e conseqüentes problemas surgidos nos grandes núcleos urbanos dos países onde esta tem início, que começa a tomar corpo de forma mais sistemática um conjunto de conhecimentos voltados para sua transformação e compreensão – o Urbanismo.

A Revolução Industrial, além das grandes transformações técnicas que mudam profundamente o modo de produção e a organização da sociedade, provoca nos países europeus um grande êxodo rural e um crescimento acelerado das grandes cidades que se transformam em metrópoles. As questões da moradia dos operários, e das condições de higiene assumem uma dimensão nunca vista. Este período de pouco mais de um século é o espaço da aparição do Urbanismo, quando a cidade profundamente transformada pela industrialização prefigura a urbanização total do território, (Benevolo,1993).

Com a Revolução Industrial tem início na Inglaterra uma transformação das condições produtivas que revolucionam as condições sociais e urbanas. Na cidade industrial, o desequilíbrio entre a demanda e a oferta de habitações, abre caminho à especulação imobiliária ou aos interesses econômicos que se sobrepõem ao desenho das cidades enquanto arte e sanidade. Aparecem, a habitação operária, o subúrbio e a reforma urbana como modo de expansão da cidade. (Norbert Schoenauer, 1984). Aumentam de forma exaustiva os loteamentos e a densidade das áreas construídas. Neste contexto das amplas transformações sociais, aparecem simultaneamente as

chamadas ciências humanas, a Economia, a Geografia, a Sociologia etc. Todas estas ciências, por sua própria essência, tem como um de seus objetos materiais de conhecimento a cidade. O Urbanismo, começa a constituir-se como disciplina prática de transformação das cidades em fins do século dezenove e início do século vinte a partir de trabalhos de pensadores, arquitetos, engenheiros e geógrafos como Howard, Unwin, Poéte, Agache, Site e outros.

Bernard Alfred Agache, que desempenha um papel preponderante na constituição deste conhecimento, (Bruant, 1996), com seu trabalho de planejador e organizador da Sociedade Francesa dos Urbanistas, diz que :

“o Urbanismo é uma nova ciência da construção e do planejamento das cidades....é uma ciência de aplicação, pois possui utilidade prática, controlar o desenvolvimento e o crescimento das cidades...integra o conhecimento do técnico, do engenheiro, do legista e sobretudo do higienista.”

(Agache In Bruant, 1996: 232)

O urbanismo, enquanto disciplina, pode ser definido como o conjunto de técnicas e procedimentos que orientam a transformação planejada da cidade moderna. (Bruant,1996); esta cidade que muda com a transformação dos meios de produção e de transporte que rompem o quadro estabelecido da cidade medieval e barroca. O urbanismo distingue-se das artes urbanas, por partir de uma crítica e de uma reflexão sobre a cidade existente e pela busca de uma constituição disciplinar científica, (Choay , 1997).

A prática urbanística que se institui a partir das várias experiências como a reforma de Paris por Haussmann, o plano pombalino de Lisboa, e baseia-se em alguns instrumentos básicos e numa metodologia de abordagem dos problemas da cidade, que se aperfeiçoa no tempo e permanece, apesar das mudanças de visão, problemática e concepções, ao menos até meados do século vinte. No exemplo brasileiro do Plano de Remodelação do Rio de Janeiro, por exemplo, Bernard Alfred Agache aplica uma metodologia analítica que com alguma variação pode ser tomada como regra do planejamento urbano até os dias atuais. Primeiramente são estudados aspectos climáticos e geográficos, e a história do desenvolvimento urbano. Depois se procede a

um estudo geral da situação urbana no momento, verificando aspectos como a distribuição da população a topografia e forma dos lugares, a paisagem, a distribuição dos bairros, o caráter da cidade. Em seguida vêm os aspectos econômicos, a situação do sistema de transporte e a importância demográfica da população.

Assim procura captar o que é a cidade, identificar suas tendências, entraves e suas potencialidades. Em seguida a este diagnóstico, é elaborado o Plano, o conjunto de propostas e formas que vão remodelar e reestruturar a cidade a partir do zoneamento, do lançamento da rede viária associada ao novo parcelamento e das novas estruturas arquitetônicas, bem como os instrumentos normativos que regularão seu crescimento daí em diante. (Bruant, 1996).

Embora o desenvolvimento disciplinar desde o século XIX até meados do século XX, acrescentando a contribuição das demais ciências humanas apresente continuidade metodológica, de tal forma que a metodologia utilizada por Agache para o plano do Rio de Janeiro da década de 1920 continue válida até hoje, tal continuidade não ocorre do ponto de vista do desenho ou da concepção morfológica. É interessante lembrar que ao mesmo tempo em que Agache desenvolve o plano do Rio de Janeiro, Le Corbusier, um dos arquitetos fundadores do movimento da Arquitetura Moderna, em visita a esta mesma cidade realiza esboços, sobre o desenvolvimento desta, totalmente opostos às idéias formais de Agache. Enquanto a concepção formal do plano de Agache no traçado das vias e quadras e nos edifícios quarteirões, denota a marca da Paris de Haussmann, a germinal experiência do planejamento do século dezenove, o edifício viaduto de Le Corbusier serpenteia as montanhas do Rio de Janeiro, independente de qualquer trama urbana, como um grande objeto solto no campo, definindo um novo desenho urbano cujos princípios morfológicos resultam no que autores como Benévolo (2001) e Frampton (1997) denominam de Urbanismo Modernista. O desenho de Agache, modificando totalmente a cidade, mas sem subvertê-la, revela o espírito classicizante da Sociedade dos Urbanistas da França através dos princípios do desenho clássico utilizados, como a simetria, a axialidade e a perspectiva, que afirmam valores do Renascimento e do Barroco.

José Maria Resano Lamas (1993), ao falar da origem da disciplina urbanística, chama de Urbanística Formal às experiências dos arquitetos europeus que conduziram o

desenvolvimento da disciplina até a primeira metade do século vinte, tanto no plano didático, quanto na concretização das experiências internacionais.