A Cidade Utópica de William Morris: Simbologia e Transcendência
A CIDADE UTÓPICA DE WILLIAM MORRIS: SIMBOLOGIA E TRANSCENDÊNCIA
1Até Dick se afirma feliz, embora Hammond confesse que “he was very unhappy” com a falta
de Clara (55).
nem fala à sensibilidade, e a luz demasiadamente intensa ofusca e cansa em vez de iluminar. A beleza de um quadro, como a da vida, é feita de um jogo e alternância de contrastes. A felicidade é feita da luz depois das trevas, do riso depois das lágrimas, da primavera depois do inverno, da confiança depois da dúvida. Tal como não há permanência, também não há perfeição do lado de cá da morte. É verdade que William Morris fala do descanso depois do trabalho, mas até essa afirmação se aproxima muito da simbolo - gia do descanso eterno depois dos trabalhos terrenos.
Diz Santo Agostinho: “é no todo, isto é, na perfeição plena, que está o repouso: o trabalho está na parte. Por isso nos esforçamos enquanto conhecemos em parte” (Agostinho 2000, 1167). Em Nowhere trabalha-se com alegria, é certo, mas não se atinge a perfeição completa, não é ainda o Paraíso; ou, então, é um Paraíso de fachada, onde se infiltraram algumas serpentes de perversidade e conflito.3 À primeira vista, há um clima de
completude, de realização plena, que News from Nowhere quer transmitir; mas de imediato ressalta a colisão com vislumbres de atritos ou incom - preen sões, e com a necessidade tão humana de movimento e trabalho, que pressupõe o esforço para atingir algo. Algo que, num projecto utópico, ou, antes, no projecto de um utopista, pode apenas ser a perfeição, o ideal. Porém, se as palavras, com as quais é descrita a desejada cidade ideal, se apre sentam como “contentes” e definitivas, elas necessariamente afastam-se da verdade construída na mente do seu autor, que queria uma cidade para homens e não para espíritos incorruptíveis.
Numa narração há sempre duas verdades: a do autor e a das palavras. A verdade do autor é geralmente inquestionável para ele, mas a verdade das suas palavras contradiz, por vezes, o seu próprio sentir. As palavras sabem para onde vão: ‘ali’ é sempre ‘ali’, e ‘aqui’ é sempre ‘aqui’. Ao passo que o ‘ali’ de quem escreve depende do ‘aqui’ em que ele/ela se encontra. Por isso mesmo é que muitos escritos ficam “datados” e obsoletos em pouco tempo. O ‘aqui’ de William Morris era um ‘antes da revolução’ que ele preconizava; e o ‘ali’ da sua cidade ideal libertara-se da revolução e das suas sequelas, qual quadro próprio para ser pendurado no museu da humanidade, um exemplo de imutabilidade para ser observado e criticado pela sempre mutável humanidade em marcha. E, nas meias-tintas do fundo, não chegam a impressionar os resíduos de imperfeição.
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Para que a cidade utópica de Morris, fixada em palavras, pudesse per - manecer ideal em palavras como era ideal no seu pensamento criativo, ela teria de ser transcendente – ultrapassar as contingências da morta lidade, do envelhecimento e da corrupção. Mas, nesse caso, facilmente se transfor - maria numa Cidade de Deus, “que não peregrina na mortalidade desta vida mas reside, sempre imortal, nos Céus” (Agostinho 2000, 1061), em vez de retratar a cidade ideal dos homens “prisioneiros da horizon ta li da de férrea do dia-a-dia” (Oliveira 1972, 7), os homens que podem parecer-se “com certos empregados do metropolitano que vivem habitualmente nos limites estreitos e rígidos do mundo subterrâneo e mal se lembram da cidade da superfície” (Ibid.).
Se procurarmos a simbologia da travessia do túnel, todas as perspec ti - vas estão abertas à imaginação, incluindo a da passagem tenebrosa que leva os seres humanos ao não ser ou a uma nova luz. Nada pode ser material - mente demonstrado; tudo pode ser emocionalmente desejado. William Morris não seguiu, aparentemente, por esse caminho, mas a sua proposta de um reino de felicidade depois da revolução assemelha-se muito a uma expectativa de bem-aventurança na vida futura, muito ao jeito de uma cidade de Deus alcançada para a eternidade. A beleza, a eterna juventude, o comprazimento da contemplação, todos os ingredientes de uma beatitude paradisíaca se encontram conjugados para fazer da Londres do futuro a Nova Jerusalém anunciada na Bíblia. Santo Agostinho descreve a Cidade de Deus em continuidade com a cidade terrena, transposição em que os anjos fazem a ligação do humano ao divino, não em hierarquia de valores mas em distinção de categorias e dignidades.
No entanto, News from Nowhere é, nitidamente, mais platónica que agos - ti niana: embora em diferentes moldes geográficos e estatutários, Nowhere paga tributo à ordem e ao bem comum, não de uma forma tão radical como a Utopia de Thomas More, da qual parece querer corrigir os excessos,4mas
seguramente partidária dos ensinamentos socráticos. Nomeadamente em
O Banquete, como argumenta Philip Leon, Platão “is a man among men,
philosopher and politician, deeply concerned with the chief problem of human existence: ‘how can men learn to live together?’” (56). Será talvez legítimo afirmar que, mais que uma visão, como o narrador classifica no final a sua história, o relato é uma argumentação dialéctica, uma tese que
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o autor apresenta à consideração da humanidade para questionação íntima, estudo e discussão, com vista à possibilidade de concretização de uma Cidade de Deus na Terra.
Entretanto, muito tempo antes e sem revolução, sem fuga para o futuro e até mesmo sem pôr o problema à questionação dos outros, conseguiu Robert Owen a materialização de uma pequena Cidade de Deus na Terra, uma Nova Jerusalém, a sua New Lanark, que bem podia ter sido o modelo para imitação universal até ao estabelecimento verídico de algo muito semelhante ao sonho/visão de felicidade de William Morris. Owen nem precisou de eliminar o fumo de fábrica: bastou-lhe dar a cada elemento de progresso o seu lugar adequado e a sua importância relativa. E o “pequeno universo” criado por Owen era bem real, de forma nenhuma “a refuge for mere destitution”, como a personagem ‘nowhereana’ Hammond classifica os falanstérios imaginados por Fourier (65). Mas Owen não se limitou a sonhar: trabalhou, concretizou. Ao passo que todo o trabalho que William Morris fez, para além da escrita, esteve longe de servir o seu sonho; constatação que, aliás, muito o penalizava. Em News from Nowhere, um livro, foi preciso uma guerra para construir a cidade da paz; e é nesse mesmo livro que se preconiza, como ideal, o fim da “plague of book making” (20). É Dick que afirma:
“we don’t encourage early bookishness: though you will find some children who will take to books very early; which perhaps is not good for them; but it’s no use thwarting them; and very often it doesn’t last long […]; so, I don’t think we need fear having too many book-learned men” (31).
É caso para o leitor se questionar como é que as crianças podem apren - der a ler antes dos quatro anos só com os livros que encontram dispersos, num ambiente em que a leitura é menosprezada. Quanto às fábricas do progresso, eliminadas em Nowhere, o sonhador utopista que as baniu esque ceu-se de considerar as consequências das previsões maltusianas, num mundo idealmente propício para a propagação da espécie. Mais previdente a este respeito, Thomas More contempla o estabelecimento de colónias em territórios externos no caso de excesso de população, ao passo que a pro - posta de Morris/Hammond nesse sentido apenas refere, abstractamente: “Of course, also, we have helped to populate other countries – where we were wanted and were called for” (74).
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Segundo Santo Agostinho, não haveria que elogiar os anjos em detri - men to dos homens, pois uns e outros têm o seu lugar e a sua dignidade. Do mesmo modo, parece que não seria preciso eliminar o progresso científico e material para conseguir um mundo harmonioso e feliz: bastaria atribuir a cada coisa a sua importância relativa e pôr todas ao serviço comum. Afinal, como tão claramente foi dito há milénios, é preciso apenas “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Ou, para quem não queira conceber a ideia de Deus, é preciso não confundir a dignidade de um parafuso com a da máquina, nem a dignidade da máquina com a do ser humano dotado de capacidade para a construir. O “sonho” de William Morris era o da igualdade e da dignidade humana, apenas maculado pela sua obsessão de “holy war against the age” (Bloom 1993, 191) e pela sua fé numa ideologia de destruição, de túnel de trevas com ressurreição dolorosa.
Os sonhos, segundo Freud, são a tentativa de realização de desejos. Mas é perigoso pensar que se pode viver de dia no sonho da noite. A luz do dia faz fugir e desaparecer as trevas e os medos dos pesadelos; mas também – tal como aconteceu às moedas de Guest em Nowhere (10) – faz oxidar e escurecer a prata com que a lua feiticeira franjou tudo aquilo em que tocou na noite do encantamento, quando iluminava os momentos de beleza e amor com o seu olhar complacente de maravilhoso e imaginação. Na reali dade, e como disse Santo Agostinho: “É, de facto, muito diferente conhecer um objecto na própria ideia segundo a qual foi feito e conhecê- -lo em si mesmo” (Agostinho 2000, 1061).
O que torna a utopia de Morris mais aliciante – e também mais utópica – é o facto de contemplar uma comunidade activa e feliz onde, contra todos os hábitos e inclinações humanas, cada qual não está minimamente interessado em obter poder e ascendência sobre os outros, limitando-se a contribuir para o bem comum. Esta é uma qualidade sobre-humana, que transforma todos os habitantes de Nowhere em verdadeiros santos dignos dos altares, como, aliás, se infere das próprias palavras de Hammond ao explicar porque se lhes tornou habitual “acting on the whole for the best”, enquanto no século XIX “it was so hard, that those who habitually acted fairly to their neighbours were celebrated as saints and heroes […] after they were dead” (80). Segundo as teorias de Freud desenvolvidas sobretudo em Civilization and Its Discontents, uma tal situação nunca seria possível visto que a natureza humana é imutável, tendo sido moldada desde o início da existência pela necessidade compulsiva da obtenção da felicidade e da sua
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conservação. Por outro lado, é precisamente essa característica que leva o homem a idealizar e escrever utopias, depois de as ter sonhado. Pois, se temos de concordar com tantos detractores da Utopia, afirmando e questio nando- -nos com Aaron Branahl: “Human beings are naturally self-centered. Complete cooperation is not possible because the conflict of interests is inevitable. Obviously, Utopia is not possible. The question then becomes: should we even try to achieve it or simply accept defeat?”, também temos de concor - dar com a declaração seguinte do mesmo autor: “Though a peaceful, global utopia is not achievable, the human condition is definitely improvable” (Branahl 2002, 1). E, sendo assim, os utopistas como William Morris, que partilham com a humanidade o seu sonho de uma natureza sadia e ridente que possa camuflar e – quiçá – substituir a floresta onde vagueiam, brutos, os lobos do homem, só podem ser favoráveis e dinamizadores. A esperança de “days of peace and rest” (4) é universal; e cada qual sonha com o que lhe parece ser o melhor caminho para atingir o objectivo.
Obras citadas
Agostinho, Santo (2000), A Cidade de Deus – 3 volumes (trad., pref. e notas J. Dias Pereira). Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.
Bloom, Clive (1993), Literature and Culture in Modern Britain. Vol. I: 1900-1929, London, Longman.
Branahl, Aaron (2002), “Towards the Impossible Utopia”. in http//www. albertson. edu/politics/Dayley/499/Aaronfinal. htm.
Briggs, Asa (ed. ) (1984), William Morris: News From Nowhere and Selected Writings
and Designs. London, Penguin (1962).
Freud, Sigmund (1975), Civilization and its Discontents (trans. Joan Rivière, revised and edited by James Strachey). London, The Hogarth Press (1930). Leon, Philip (1940), Plato, London, Thomas Nelson & Sons.
Moisés, Massaud (1998), Fernando Pessoa: O Espelho e a Esfinge. São Paulo, Cultrix. Morris, William (1992), News From Nowhere in The Collected Works of William Morris,
Volume XVI. London, Routledge/Thoemmes Press (1910-1915).
Oliveira, M. Alves (1972), Roteiro da Cidade de Deus. Lisboa, Verbo.
Pessoa, Fernando (1995), Poesia Inglesa (org. , trad. e notas Luísa Freire). Lisboa, Livros Horizonte.
Platão (1973), O Banquete in Górgias-O Banquete-Fedro (trad. Manuel de Oliveira Pulquério, Maria Teresa Schiappa de Azevedo, José Ribeiro Ferreira). Lisboa, Verbo.
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