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Como dois dos três filmes aqui analisados foram produzidos pela Cinédia em sua ‘época de ouro’, é importante promover uma contextualização entre esse espaço de sociabilidade, onde circularam alguns dos principais nomes da cinematografia brasileira, e sua localização temporal.

A Cinédia nasceu do desejo de pôr em prática o que era teorizado nas colunas da revista Cinearte, editada inicialmente por Adhemar Gonzaga, que “frequentemente ouvia comentários como: ‘é muito fácil escrever; queria ver vocês, da Cinearte, fazerem um filme’. Ou: ‘por que vocês não pensam num argumento e aplicam dinheiro nele?’”.240

A primeira experiência prática da equipe da Cinearte aconteceu em Barro Humano, uma produção do Circuito Nacional

239 Estímulo ao cinema brasileiro. Cinearte, n. 555. Rio de Janeiro, janeiro

de 1942, p. 9.

240 GONZAGA, Alice. 50 anos de Cinédia. Rio de Janeiro: Record, 1987,

de Exibidores – CNE e da Benedetti Filmes. A equipe da revista foi conclamada a orientar principalmente o argumento e a escolha dos artistas.241

A fundação da Cinédia ocorreu em 15 de março de 1930 e a primeira realização dos estúdios foi Lábios sem beijos (1930), dirigido por Humberto Mauro.242 Nesse momento, a empreitada cinematográfica ainda se chamava Cinearte Estúdio. O nome foi mudado posteriormente para que não houvesse confusão com a revista.

Como os estúdios da Cinédia foram feitos para ser ocupados também por outras empresas brasileiras ligadas à cinematografia, sua construção representou o passo mais concreto para a industrialização do Cinema nacional. O propósito de seus criadores era o de “promover a atualização da técnica e estética brasileira, a fim de colocar o Brasil num novo patamar se comparado às produções estrangeiras. [...] Essa seria a tentativa de constituir uma ‘Hollywood Brasileira’”.243 De fato, a Cinédia era, no setor cinematográfico, o maior parque industrial da América do Sul.

É importante observar que a fundação da Cinédia foi precedida de diversas viagens de Adhemar Gonzaga aos Estados Unidos, cujas referências aparecem nas páginas da revista

Cinearte entre 1929 e 1930. L. S. Marinho, primeiro

correspondente da revista em Hollywood, declarou que

o Estúdio da Cinédia [...] é admirável, e olhem que visitei todos os estúdios da Califórnia. O da Tec-Art, onde foi feito

Ressurreição, de Dolores Del Rio, e vários

outros importantes filmes, nem se lhe compara em tamanho e perfeição. É um terreno gigantesco, uma verdadeira cidade,

241 Idem.

242 Um ano antes, Lábios sem beijos teve uma versão inacabada. As

gravações foram interrompidas por conta de um acidente com Carmem Santos, que compunha o elenco do filme.

como uma organização já noventa por cento perfeita. 244

O incremento da indústria cinematográfica brasileira com a fundação da Cinédia se dava não só no terreno da produção de filmes, mas também no da distribuição, controlada, naquele período, por empresas estrangeiras como a Paramount S. A.

O equipamento da Cinédia era todo importado dos Estados Unidos – à exceção do cinemicroscopia, fabricado na Itália sob encomenda – e os estúdios já se preparavam para a era do Cinema sonoro: “chegaram à Cinédia, a 7 de dezembro de 1932, os últimos caixotes com o mais moderno aparelhamento de gravação Movietone [...], o som de marca Rico, o primeiro no Brasil, adquirido por Adhemar Gonzaga, em agosto, nos E. U. A.”.245 Porém, o aparelhamento sonoro das salas de exibição impunha obstáculos para o Cinema sonoro produzido pela Cinédia e por outras produtoras.

Adhemar Gonzaga, que tinha uma grande preocupação com a propaganda, criou, junto com a Cinédia, um aparato de divulgação inspirado no modelo hollywoodiano. O Atualidades

Cinédia foi concebido dentro dessa lógica, a fim de divulgar o

Brasil e sua produção cinematográfica, tal qual faziam os grandes estúdios estadunidenses, como Metro Goldwyn Mayer, Paramount Pictures e Twentieth Century Fox. Internamente, a ideia era criar uma expectativa no público em relação aos filmes que seriam lançados e aproximar o público dos artistas. Como observa Sheila Schvarzman, essa tentativa de star system havia sido iniciada pela Cinearte, quando Gonzaga ainda fazia parte da equipe de editores:

Os críticos da Cinearte chamam a atenção para as manifestações nacionais, formatando- as ao gosto do espectador de cinema de então, mimetizando o star system americano. Seus artigos falam dos incipientes atores e atrizes nacionais, que eles muitas vezes

244 GONZAGA, Alice, 1987, Op. Cit., p. 10. 245 Ibidem, p. 11.

encontravam e criavam nas fábulas sobre a vida deles, como vieram do interior e se tornaram astros, alimentando no público brasileiro a curiosidade e a empatia pelo seu próprio cinema, da mesma forma como se fazia com Rudy Valentino e Greta Garbo.246

A produção da Cinédia foi intensa na década de 1930, quando as atenções de outras produtoras estavam mais voltadas para os curtas-metragens. No ano de 1938, por exemplo, somente a Cinédia produziu longas-metragens: Tereré não resolve, Aruanã,

Maridinho de luxo, Alma e corpo de uma raça, Sedução do garimpo e Onde estás, felicidade?. Foram mais produções nesse ano do que

nos sete anos anteriores, desde sua fundação em 1930.

Além de suas próprias produções, outros filmes, iniciados por outras produtoras e interrompidos por razões quase sempre financeiras, foram concluídos nos estúdios da Cinédia. Foi o caso de Eterna esperança (1940), iniciado pela Companhia Sul-América Filmes.

Embora o foco da Cinédia fosse os filmes de enredo, a produtora não deixou de atentar também para o bom nicho que eram os complementos:

Em setembro de 1941, o Cinédia jornal completava seu terceiro volume (cem números cada), atingindo assim 300 jornais em dez anos de existência. Criado antes da Lei de Obrigatoriedade, o Cinédia jornal viveu durante período regular por si mesmo, com um bom nível técnico, sem as vantagens decorrentes da medida oficial. 247

Posteriormente, de acordo com Taís Campelo Lucas, a Cinédia voltou-se também à produção de filmes educativos com incentivo do governo, mesmo após a organização do INCE. 248

246 SCHVARZMAN, Sheila, 2004, Op. Cit., p. 33. 247 Ibidem, p. 13.

em 1938 a Cinédia recebia a ilustre visita de Gustavo Capanema, possivelmente visando a essa aproximação.

Figura 1 - Visita de Gustavo Capanema à Cinédia. Rio de Janeiro, 1938.

Fonte: Arquivo Gustavo Capanema, CPDOC. Identificação: GC foto 149.

Entre 1940 e 1941, a Cinédia dedicou-se às filmagens de

Pureza e 24 horas de sonho, ambos dirigidos por Chianca de Garcia

e premiados pelo DIP.

Em dezembro de 1941, porém, várias produtoras cinematográficas foram atingidas pelos efeitos da guerra na Europa. A falta de matéria-prima, filmes virgens e produtos químicos, obrigaram diversas empresas do setor a encerrarem suas atividades. A Cinédia também foi afetada por essa crise e teve que, pela primeira vez, interromper as filmagens em andamento. Em carta não enviada ao presidente Getúlio Vargas, Adhemar Gonzaga escrevia:

A Cinédia nascera com a revolução de [19]30 [...], se equipou e permitiu a sobrevivência do Cinema brasileiro. A Cinédia, apesar da guerra e da luta contra os exibidores estrangeiros, foi o único estúdio brasileiro a funcionar sem interrupção. [...] A Cinédia

também formou equipes técnicas de brasileiros. [...] Sustentei uma luta sem tréguas, a que me levaram setores os mais estranhos e incompatíveis. Empreguei o meu patrimônio pessoal [...]. Os meus sacrifícios abalaram o meu conforto, a minha saúde e mesmo a minha felicidade. Sem ambição pessoal, no mais puro e sincero patriotismo.

249

A carta de Gonzaga, ainda que não enviada, revela a ênfase do produtor em demonstrar todas as ações de serviço à Pátria que prestou a Cinédia. Essa era uma estratégia comum entre os produtores de Cinema, que visavam a angariar as simpatias do governo a fim de receberem favores e incentivos.

Os três anos seguintes também foram marcados por inúmeras dificuldades. Mesmo assim, a Cinédia voltava a produzir Samba em Berlim e Romance proibido, cedia seus estúdios para a produção de Brasileiro João de Souza, de Bob Chust, e de It’s

all true, de Orson Welles. Em 1945 é que a Cinédia começou a

superar a crise, produzindo cinco filmes de enredo: Vidas

solitárias, Gol da vitória, Não adianta chorar, Pif-paf e O cortiço. De

1946 a 1949, a produtora atuou com uma média de três realizações por ano e algumas co-produções, até que em 1950, Adhemar Gonzaga resolveu fechar o estúdio.250

Em relação a Raul Roulien (Rio de Janeiro, 1905-2000), que produziu o outro filme que completa a documentação imagética discutida nessa pesquisa, as informações sobre sua atuação como diretor e produtor de Cinema são mais escassas; as fontes consultadas geralmente referem-se ao seu trabalho como autor de filmes hollywoodianos.

Raul Roulien foi uma figura importante para as artes dramáticas, para a música e para o Cinema. Na década de 1920, fundou a Companhia de Filmes Cênicos de Raul, com a qual

249 Ibidem, p. 14.

250 Em 1956, porém, Gonzaga reconstruiu o estúdio em Jacarepagua,

onde a Cinédia voltou a produzir longas-metragens, novelas, comerciais e programas de televisão. Cf. GONZAGA, Alice, 1987, Op. Cit., p. 15.

excursionou por todo o país. Na década seguinte, residindo em Nova Iorque, atuou em doze produções estrangeiras como ator, geralmente fazendo versões musicais em espanhol das produções da Fox Film.251 Vale lembrar que Roulien foi o primeiro ator brasileiro a atuar em Hollywood, trabalhando ao lado de estrelas como Greta Garbo e Fred Astaire.

Sua carreira de diretor de Cinema foi marcada pelo sucesso dos únicos dois filmes nacionais de longa-metragem que dirigiu,

Grito da mocidade (1936) e Aves sem ninho (1939), mas também pela

infelicidade de ver dois trabalhos destruídos pelo fogo antes de seu lançamento. Um deles, intitulado Jangada, tinha argumento de Rachel de Queiroz e era considerado uma semi-superprodução, contando com mais de oito mil figurantes. Com ele, Roulien pretendia contar a história dos jangadeiros que lutavam contra a escravidão.

Esse viés social de seus filmes chamou a atenção de Getúlio Vargas e sua primeira-dama mais de uma vez – a exemplo de

Grito da mocidade e Aves sem ninho, dos quais se falará mais

adiante. No contexto da II Guerra, as boas relações entre Roulien e o governo estimulariam trabalhos com tônica oficial. Em edição de setembro de 1943, A Scena Muda noticiava:

Roulien, Rosina Pagã, Sadí Cabral e diversos outros elementos devem ter seguido neste princípio de semana, por avião, rumo aos Estados do Norte, onde vão trabalhar para os soldados brasileiros. Roulien disse-nos que leva todo o material de encenação para peças de vários gêneros. [...] Durante a viagem,

251 Antonio Ríos-Bustamente aponta que os grandes estúdios

hollywoodianos, como Paramount, RKO, Warner Brothers e Fox, criaram departamentos de filmes em língua espanhola, tendo produzido, entre 1928 e 1939, mais de cem versões em espanhol de filmes originalmente lançados em inglês. Nessas versões, estrelava um elenco de atores espanhóis e latino-americanos. RÍOS-BUSTAMANTE, Antonio apud GOULART, Isabella Regina Oliveira. Estrelismo à brasileira: perspectivas de uma negociação simbólica, cultural e estética entre Hollywood e o Brasil. In: Rumores, 9ª ed., jan./jul. 2011.

Roulien tomará vários aspectos cinematográficos para seu prometido filme sobre a aviação brasileira. 252

O filme em questão se chamaria inicialmente Asas

gloriosas do Brasil, depois alterado para Asas do Brasil (1940). Essa

produção era um encômio ao Correio Aéreo Nacional e contava com a atuação de cadetes e pilotos da Aeronáutica, cuja participação foi autorizada pelo Ministério.253

O prestígio de Raul Roulien no meio musical, teatral e cinematográfico colocava-o como figura central na organização de eventos que, conclamando a uma mobilização em prol do nacional, ainda que restrita ao meio intelectual e à elite carioca, contavam com o respaldo – e possivelmente com a promoção – do governo. Esse foi o caso da “Tarde do Cinema Brasileiro”, divulgado pela edição de 22 de setembro de 1942 d’A Scena Muda: Atendendo ao apelo de Raul Roulien, os artistas brasileiros de teatro, rádio e cinema, associando-se ao movimento nacional em prol das famílias das vítimas dos torpedeamentos de nossos navios, deliberaram realizar um espetáculo de grandes proporções artísticas, e que terá lugar no próximo dia 30, às 15 horas, no Teatro Municipal. Dirigirá a realização dessa festa, que tem o patrocínio da Cruz Vermelha Brasileira, [...] uma comissão composta dos senhores: cel. Costa Neto, drs. Israel Souto, Herbert Moses, Roquette-Pinto, Heitor Moniz, Bandeira Duarte, Fernando de Castro Rabelo e Sr. Raul Roulien.254

252 Cock-tail de cinema e rádio. A Scena Muda, n. 39. Rio de Janeiro, 23

de setembro de 1943, p. 16.

253 Cf. Cock-tail de cinema e rádio. A Scena Muda, n. 29. Rio de Janeiro,

20 de julho de 1943, p. 20.

254 A tarde do cinema brasileiro. A Scena Muda, n. 1122. Rio de Janeiro,

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