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CAPÍTULO 2 DEFICIÊNCIA: CONCEITO, MODELOS E INSTRUMENTOS DE

2.4 Instrumentos de Classificação de Deficiência

2.4.1 A Classificação sob o Enfoque Médico

2.4.1.2 A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e

Fruto do processo de revisão da CIDID, a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) foi elaborada com a finalidade de registrar e organizar uma ampla gama de informações, relacionadas a diferentes estados de saúde, abordando as perdas referentes à doença e, em especial, o perfil da funcionalidade sobre a capacidade de interação do indivíduo com ele mesmo, com o trabalho, com a família e com a vida social comunitária (Battistella e Brito, 2002).

Esta classificação aborda o modelo social de deficiência, no qual esta não é totalmente atribuída ao indivíduo e sim a uma rede complexa de construtores sociais e ambientais, amplamente impostos pelas atitudes da sociedade e os obstáculos impostos pelo ambiente construído pelo homem (Wiman e Sandhu, 2004).

Na concepção da CIF, o funcionamento e a deficiência de uma pessoa são concebidos como uma interação dinâmica entre os estados de saúde e os fatores contextuais. Assim, essa classificação inclui tanto fatores pessoais quanto fatores ambientais, atuando com todos os componentes do funcionamento e da deficiência. Foi desenvolvida, segundo Battistella e Brito (2000), para registrar funcionalidade, não exclusivamente relacionada à incapacidade física ou sensorial.

Para Metts (2000), essa classificação reconhece que as pessoas podem ter deficiência, sem possuir limitações de atividade; podem possuir limitações sem deficiência (baixa produtividade por doença ocasional); ter participação limitada sem no entanto, possuir deficiência (discriminação por possuir doenças infecto- contagiosas), e possuir influências em situação reversa (atrofia muscular, devido à inatividade ou perda de habilidade social).

Na figura 2.1 abaixo, a OMS (2001) exemplifica o funcionamento de um indivíduo em um domínio especifico, no qual há uma relação complexa entre as condições de saúde e os fatores contextuais (ambientais e pessoais), havendo uma interação dinâmica entre seus elementos e no qual uma intervenção pontual de forma unitária, pode resultar na modificação de outro(s) elemento (s).

Figura 2.1: Interações entre os componentes da CIF

Fonte: Organização Mundial de Saúde - OMS (2001).

Para a OMS (ibid), a CIF abrange todos os aspectos da saúde e alguns componentes do bem estar relevante para a saúde, descrevendo-os em termos de “domínios da saúde” e “domínios relacionados com a saúde”. Atualmente, segundo dados das Nações Unidas (2001), os países são encorajados a utilizar as definições relativas à deficiência da CIF. Seus conceitos são fundamentados em situações mais fáceis de identificação no cotidiano, uma vez que a mesma utiliza os conceitos da funcionalidade do indivíduo em realizar tarefas e ações, sendo relevante na elaboração de políticas sociais.

Reconhece-se que essa classificação dá um passo à frente, ao avaliar o grau de funcionalidade do indivíduo e ao considerar os fatores ambientais como limitantes do mesmo. Contudo, alguns pontos merecem consideração, como por exemplo: o universo de pessoas idosas, que são consideradas nessa classificação dado à redução da funcionalidade, como produto da degeneração natural do ser humano associado ao envelhecimento. Isso, por um lado, inflaciona os números relativos de pessoas com deficiência, quando os censos populacionais aplicam essa classificação; e, por outro, revela uma parcela vultuosa da população que, em maior ou menor grau, possui dificuldades de âmbito sensorial, e / ou funcionais.

De acordo com Farias e Buchalla (2005), apesar do interesse pela adoção da classificação CIF, existem poucos estudos em curso sobre a avaliação do seu impacto na atenção à saúde. Isso ocorre por ser essa uma classificação recente e complexa que apresenta certo grau de dificuldade em sua utilização.

Independentemente das limitações e dificuldades quanto à classificação CIF, a metodologia já vem sendo adotada em alguns países em seus respectivos censos e pesquisas, em questões relativas à deficiência, como é o caso do Brasil que utilizou no Censo Demográfico de 2000. Mas, autores como Farias e Buchalla (2005) afirmam que a mesma ainda deve ser explorada, em relação à sua aceitabilidade e validade em diferentes áreas; seu impacto nos cuidados de saúde; seu potencial em medir o estado funcional dos pacientes e seu uso pelos sistemas de informação, para elaboração de estatísticas de saúde.

De fato, a CID e a CIF agem em complementaridade: a primeira classifica e registra a enfermidade e a última complementa-a, com as informações de funcionalidade (Battistella e Brito, 2002).

A atual intenção da OMS é que não se utilize a CIF de forma isolada, mas sim de forma complementar (ibid). Essa classificação tem um propósito amplo, podendo ser utilizado em diversos setores.

Formas alternativas de classificação de deficiência vêm sendo desenvolvidas por organismos internacionais, com objetivo de desenvolver instrumentos de classificação da saúde da população, que integrem informações de mortalidade e de resultados de doenças não fatais (Mathers, 2006).

No rol dessas metodologias, destacam-se HALE (Healthy Life Expectancy) e a DALY (Disability Adjusted Life Years). Esta última desenvolvida pela Escola de Saúde Pública de Harvard para o Banco Mundial. De acordo com Mathers (2006), a metodologia HALE baseia-se em dados sobre deficiência e a DALY demonstra ampliar seu raio de abrangência, ao utilizar-se de dados epidemiológicos e análise da sua incidência, duração e severidade para cada doença ou lesão, sendo utilizado

para estimar o peso atribuído à incidência de cada doença na qualidade de vida das pessoas, guiando as políticas de investimento em saúde do Banco Mundial.

Na opinião de Homedes (2000), essas metodologias revelam ser de difícil aplicação, requerendo uma grande quantidade de dados para sua operacionalização, sendo atribuídos valores a problemas de saúde que podem não ser universalmente aceitos.