Evani Tavares Lima (2010), em sua pesquisa sobre o teatro negro, classifica-o em três categorias que ajudam a definir algumas possibilidades de compreensão sobre o mesmo, considerando que nem todas as suas manifestações seguem a mesma organização. São elas: a performance negra, o teatro de presença negra e o teatro negro engajado.
A estudiosa observa que a primeira categoria, a performance negra, reúne formas expressivas que podem até mesmo prescindir de audiência para acontecer, com exemplos como os folguedos populares, a capoeira e o samba, expressões religiosas e alguns aspectos das religiões de matriz afro-brasileira. Ela ainda ressalta que pode ocorrer dentro das performances negras uma reflexão crítica sobre o contexto social e a problematização das questões negras na sociedade, mas que não é uma regra. Já o teatro de presença negra diz respeito a espetáculos realizados por elencos majoritariamente ou em sua totalidade de presença negra, que podem ou não fazer o uso de elementos da cultura afro-brasileira. São expressões literalmente artísticas feitas para serem vistas por uma plateia. A terceira categoria, do teatro negro engajado compreende os espetáculos que questionam o lugar destinado aos negros na sociedade e a promoção da cultura afro-brasileira, subvertendo a pejoratividade tradicionalmente embudita nas expressões artísticas negras.
A partir destas categorias, a pesquisadora classifica a Companhia Negra de Revistas como pertencente ao teatro de presença negra, destacando que
[...] dentro de uma atmosfera lúdica e através da comicidade, o grupo consegue trazer ao palco a discussão e a reflexão sobre “relacionamentos étnico-culturais - e de partilhas de experiências negras do viver urbano”
(NEPOMUCENOapudLIMA, 2010, p. 33).
A companhia foi uma das pioneiras no século XX a ter um elenco majoritariamente negro em cena e nos bastidores, devendo ser exaltada por isso.
6Mais informações sobre a Companhia Negra de Revistas podem ser consultadas no livroCorações De Chocolat:a história da Companhia Negra de Revistas(1926 - 27)de Orlando de Barros (2005).
Entretanto, por mais que trouxessem à cena debates importantes e assumissem com orgulho sua negritude, vale frisar que ainda utilizava-se de estereótipos racistas e, por estes motivos, não pode ser considerado um teatro negro engajado segundo a teoria de Lima (2010).
Todavia, depois de pesquisar sobre o histórico da trupe e de ler trechos da sua dramaturgia, é preciso frisar que a companhia, a sua maneira, procurou caminhos para transmitir um recado aos negros que estivessem em sua plateia. Por meio das piadas e uso de expressões de duplo sentido, procuravam formas para levantar uma bandeira, neste caso a das lutas raciais, sem perder o apoio de um público diverso. Depois de analisar trechos do primeiro espetáculo da CNR, pode-se dizer que o título do espetáculo Tudo preto (1926), era uma espécie de aviso para as elites de que naquele momento a negrada invadiria os palcos, não como figurantes ou pano de fundo para os brancos, mas como protagonistas.
Estas reflexões contrariam comentários críticos que são feitos até hoje sobre a atuação da CNR. O seu suposto não-engajamento (ou engajamento indireto) faz com que alguns estudos não considerem a CNR um dos grupos pioneiros da presença negra na cena teatral brasileira. O fato de sustentar estereótipos racistas acaba levando a CNR ao desmerecimento. Isso ocorre em especial quando a companhia é comparada ao Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento, este sim considerado teatro negro engajado.
O grupo de Nascimento desde o seu princípio propôs uma desordem no sentido dado ao sujeito negro na sociedade brasileira. O TEN teve diversas propostas para além da cena teatral, desde a alfabetização de seus atores analfabetos à promoção de concursos de beleza negra, que contribuíram para a afirmação de que beleza não é só aquilo que provém do branco de padrão europeu. Contudo, mesmo sendo considerado um teatro negro engajado, o TEN, por muitos, ainda é lido como um grupo que não foi completamente politizado.
Ainda que sua aspiração fosse contestar o lugar do negro na sociedade brasileira, o TEN não conseguiu atingir seu objetivo em todos os seus espetáculos e muito menos se constituiu de um público negro em sua maioria - grande parte dos espectadores era branco e pertencia à elite. A professora Leda Maria Martins (1995) afirma que o TEN surgiu em uma tentativa de se mudar o signo embutido no negro no âmbinto teatral. O foco de Nascimento era transformar a maneira como o negro era representado, tirando todo seu peso pejorativo. Por meio de suas peças,
eles queriam mostrar para o público o sujeito negro como alguém com ambições, desejos e sonhos. Isso subvertia a forma como era representado no teatro brasileiro até então. Os negros nas produções do TEN não são iguais e não são a mesma pessoa, são sujeitos que possuíam sua individualidade, assim como o sujeito branco sempre possuiu. Martins (1995) aponta ainda que se não fosse pelas dificuldades encontradas em se ter um público majoritariamente negro, provavelmente o TEN não teria acabado tão cedo. Ou seja, nem mesmo quando o grupo negro é abertamente engajado a régua que define o quão politizado ele é, parece sempre pender para o desmerecer.
Voltando à análise da CNR, é preciso observar o período histórico em que a mesma situa-se. O ano era 1926 e o que se via no palco eram personagens negros completamente estereotipados por artistas brancos, seja no âmbito da dramaturgia ou da atuação. Eram os brancos que criavam, levavam os estereótipos para a cena e os sustentavam. A CNR, em nenhum momento, se propôs a subverter o imaginário branco em relação às personagens negras. Desde o começo, a proposta do grupo de De Chocolat, foi a de se criar um teatro comercial. Pergunta-se ao leitor: qual era o teatro que rendia lucros na época? O teatro branco, que apresentava personagens negros totalmente estereotipados e interpretados por brancos fazendo o uso de blackface. Por que então o julgamento em relação à propagação de estereótipos é maior para a CNR do que para os brancos que criaram, perpetuaram e perpetuam os mesmos até hoje? Por que aos grupos brancos é dado o benefício da dimensão histórica e à CNR não? De maneira alguma isso diminui o olhar crítico para o uso de estereótipos por parte da CNR, porém, desmerecê-la e reduzi-la a um grupo não expressivo ao teatro negro é injusto. O fato de ser uma trupe enquadrada na segunda categoria de Lima (2010), a do teatro de presença negra, é, por si só um destaque em tempos nos quais artistas negros eram totalmente marginalizados. Além disso, o olhar às dramaturgias, em especial as elaboradas por De Chocolat mostram que, à sua maneira, e se valendo do modelo teatral revisteiro, a CNR fazia críticas à sociedade branca dos anos de 1920.