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5. COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA

5.3 FACETAS DA COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA

5.3.3 A CNV Institucionalizada

Retomemos aqui a análise documental da Comunicação Não-Violenta. A última seção do livro de Marshall Rosenberg (2006, p. 283) intitulada “Sobre o CNVC e a CNV” começa com os dados do Center for Non-Violent Communication, seguida de uma exposição de ideologia empresarial do centro, isto é, seus “propósito, missão, história e projetos”. Posteriormente se expõe que o centro dispõe de “mais de cem instrutores certificados […] ajudando a evitar e resolver conflitos em escolas, empresas, instituições de saúde, prisões, grupos comunitários e famílias” (ROSENBERG, 2006, p. 285). Em seguida expõe que a CNV fora introduzida em “locais dilacerados pela guerra”, como a “Colômbia e o Oriente Médio” (ROSENBERG, 2006, p. 285). Isto implica em uma série de questões.

Primeiramente, há uma instituição central que confere certificações em CNV para pessoas. De fato, o sítio do Instituto CNV Brasil expõe treinamentos com “treinadores” certificados pelo CNVC. Ora, como é lugar comum na análise institucional, este é um processo que busca atrair legitimação à organização, em chave illichiana, reconhece-se uma proto-profissão de efeito incapacitante, ou seja, é uma situação muito próxima a declaração de exclusividade da prática por parte de uma classe profissional, bem como de sua prescrição, em suma, do controle de seu uso. Isto operaria a passagem de uma ferramenta convivial para uma manipuladora. Uma possível “defesa” seria dizer que é necessário que se faça isso para que haja um mínimo de legitimidade e confiança por parte de um público, no entanto os efeitos não parecem ser alterados com tal justificativa.

Em segundo lugar, é problemática a concepção empresarial do centro e a própria venda da prática como consultoria empresarial. No próprio livro há uma subscrição ao imperativo da produtividade, encontramos a CNV como algo a ser utilizado por um departamento de Recursos Humanos: “Se o desempenho de um trabalhador é guiado pelo medo da punição, o serviço é feito,

mas o moral é afetado; mais cedo ou mais tarde a produtividade diminuirá.” (ROSENBERG, 2006, p. 227). Parece incompatível a premissa de que se busca fomentar ações “de coração” e relações trabalhador-empregado, pois em algum momento o subordinado não terá vontade de desempenhar alguma tarefa – inevitavelmente a CNV será tratada como uma ferramenta motivacional, como sugere a passagem exposta. A única situação condizente com os postulados da CNV seria o trabalhador adotar a postura do copista Bartleby (MELVILLE, 2008), que diz a seu chefe que “preferiria não” fazer seu serviço. No entanto, diferentemente do que acontece ao personagem, o resultado mais previsível seria a perda do emprego, que nos leva ao próximo problema: o voluntarismo das relações que parece estar pressuposto. Para ser brando, é ingênuo entender que as relações de trabalho são voluntárias, que basta escolher não trabalhar ou que há liberdade para se expor sinceramente em uma relação de trabalho. Em uma empresa, um dos lados tem o monopólio da seleção de quem fará parte da organização, de onde se deriva os meios para viabilizar a vida. Acredito não serem necessárias maiores explicações deste ponto, especialmente em um país desigual como o Brasil. Parece haver, na intenção de vender consultoria em Comunicação Não- Violenta, uma naturalização do mundo na situação em que ele está: podemos ter diferentes estratégias para satisfazer nossas necessidades, mas o mercado, o Estado e os arranjos institucionais são estruturas imutáveis! A convivialidade é impossível dentro de tal visão.

Sobre as práticas em escolas, instituições de saúde e prisões, ilustro com outra passagem do livro na qual Rosenberg reproduz o relato do uso da Comunicação Não-Violenta para acalmar uma multidão revoltada e para conduzir uma prisão, por parte de um policial:

Apenas alguns dias depois de nossa aula fui prender alguém num conjunto habitacional. Quando eu o trouxe para fora, meu carro foi cercado por cerca de sessenta pessoas gritando coisas como: ‘Solte-o! Ele não fez nada! Vocês da polícia são um bando de porcos racistas!’ Embora eu estivesse cético de que a empatia pudesse ajudar, eu não tinha muitas outras opções. Então, disse os sentimentos que estavam chegando a mim, coisas como: ‘Então vocês não confiam em meus motivos para prender este homem? Vocês acham que tem a ver com a raça?’ depois de vários minutos continuando a dar voz a seus sentimentos, o grupo ficou menos hostil. No final, eles abriram caminho para que eu chegasse até meu carro. (ANÔNIMO apud ROSENBERG, 2006, p. 166)

Percebe-se uma instrumentalização da Comunicação Não-Violenta na condução de um processo coercitivo, seu uso como artifício disponível para o exercício da dominação. É surpreendente e triste que esta passagem além de existir conste no livro como se não fosse lamentável, dada a clareza com que expõe a possibilidade de outro uso da CNV: a CNV como dispositivo de desarme, como meio de obter uma vantagem em um conflito de baixa intensidade (que é o uso que concebo por parte dos departamentos de Recursos Humanos). No entanto, parece fazer sentido com a visão de mundo de Rosenberg, que parece entender que o sistema penitenciário é justo: “a premissa por trás do uso protetor da força é que algumas pessoas se comportam de

maneira prejudicial a si mesmas e ao outros, devido a algum tipo de ignorância.” (ROSENBERG, 2006, p. 224). O amor ao próximo se traduz em prescrição de modo de vida, o acesso ao conhecimento, ou a uma tecnologia “superior” se traduz em uma “ajuda” que mais parece uma camisa de força, tal qual o plano desenvolvimentista. Assim, através da Comunicação Não-Violenta, se suaviza a ira do outro lado de um conflito para que seja possível usufruir da posição dominante que o arranjo da topologia mental possa vir a fornecer, como é o caso, a empresas, ao braço coercitivo do Estado e as instituições manipulativas que Illich criticara ao longo de sua vida. Percebemos uma inscrição da Comunicação Não-Violenta no tecido cibernético social, a sua