CAPÍTULO 1 - O PRINCÍPIO DA CO-CULPABILIDADE
1.5 Os fundamentos da co-culpabilidade como princípio constitucional penal
1.5.2 Natureza e fundamentos do princípio da co-culpabilidade
1.5.2.2 A co-culpabilidade e o princípio constitucional da igualdade
No entanto, deve-se ressaltar que o próprio Rousseau (1973, p. 262), quando se referia à igualdade, o fazia contrapondo-a com a desigualdade, conforme demonstrado pelo texto:
Há no estado natural uma igualdade de fato real e indestrutível, porque é impossível nesse estado que a única diferença de homem para homem seja bastante grande para tornar um diferente do outro. Há no estado civil uma igualdade de direito quimérica e vã, porque os meios destinados a mantê-la servem eles próprios para destruí-la e que a força pública acrescida ao mais forte para oprimir o fraco, rompe a espécie de equilíbrio que a natureza colocara entre eles.
O referido autor, ao que parece, concebe, mesmo no estado civil, certa desigualdade;
porém, condiciona a desigualdade civil a um referencial de moralidade, ao dizer que “essa passagem do estado natural ao estado civil produziu no homem uma mudança considerável, substituindo em sua conduta a justiça ao instinto e imprimindo a suas ações a moralidade que lhe faltava anteriormente” (2006, p. 28).
Do exposto, entende-se que do ponto de vista social e moral, a sociedade admite a desigualdade, desde que a mesma se dê em função de classes e de leis e que todos tenham vida com dignidade e condições de acessar, por méritos e esforços, todos os patamares da sociedade com justiça social. Isso está muito claro, uma vez que:
A respeito da igualdade, não se deve entender por essa palavra que os graus de poder e riqueza sejam absolutamente os mesmos, mas que quanto a poder, esteja acima de toda a violência e não se exerça jamais senão em virtude da classe e das leis; e, quanto à riqueza, que nenhum cidadão seja tão rico para poder comprar um outro nem tão pobre para ser obrigado a vender-se (ROUSSEAU, 2006, p. 61).
Ao fechar de modo conclusivo a questão da igualdade e desigualdade, Rousseau (1997, p. 51) observa, de forma clara e precisa, que a desigualdade moral ou política não só depende de uma convenção, mas também de uma autorização pela sociedade:
Concebo na espécie humana duas espécies de desigualdade: uma, que chamo de natural ou física, porque é estabelecida pela natureza, e que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das qualidades do espírito, ou da alma; a outra, que se pode chamar de desigualdade moral ou política, porque depende de uma espécie de convenção, e que é estabelecida ou, pelo menos, autorizada pelo consentimento dos homens. Consiste esta nos diferentes privilégios de que gozam alguns com prejuízo dos outros, como ser mais ricos, mais honrados, mais poderosos do que os outros, ou mesmo fazerem-se obedecer por eles.
Para efeito deste trabalho e de seus objetivos, no que se refere aos fundamentos do princípio da co-culpabilidade, é que todo cidadão tenha condições de uma existência digna, vivendo numa sociedade justa. O referido princípio não avoca uma sociedade igualitária, até porque os homens são diferentes por natureza. A co-culpabilidade busca os fundamentos quando o Estado não possibilita a todos os seus cidadãos os bens e serviços, constantes do catálogo de direitos fundamentais, consignados na Carta Fundamental. Todavia, necessário se faz que as diferenças sociais sejam regulamentadas e que a legislação tenda para a igualdade.
Assim, é que Rousseau (2006, p. 61) acrescenta que:
Essa igualdade, dizem, é uma quimera especulativa que não pode existir na prática. Se o abuso é inevitável, contudo, não decorre disso que se deva ao menos regulamentá-lo? É precisamente porque a força das coisas tende sempre a destruir a igualdade que a força da legislação deve sempre tender mantê-la.
Ainda, acerca dos dois tipos de igualdade, apontados por Rousseau, ou seja, uma de natureza física ou natural, traduzida por diferenças, como força física, inteligência, saúde, etc., e a decorrente de aspectos políticos, como a riqueza, a propriedade, o poder, etc., ocorre que muitos brasileiros nascem ricos, protegidos e bafejados pela sorte, com toda assistência, educação, conforto e qualidade de vida, enquanto outros já são miseráveis por nascença e sem as condições mínimas para uma vida digna. Nesta esteira de pensamento, Dallari (2003, p. 32) descreve que:
Os seres humanos nascem iguais, mas a sociedade os trata, desde o começo, como se fossem diferentes, dando muito mais oportunidades a uns do que a outros. E isso é apoiado pelas leis e pelos costumes, que agravam ainda mais o tratamento desigual e criam grande número de barreiras para que aquele que foi tratado como inferior desde o nascimento consiga uma situação melhor dentro da sociedade.
Vale, ainda, apresentar a opinião de um jurista pátrio sobre o princípio em estudo, cuja contribuição elucida o que foi visto anteriormente:
O princípio da igualdade interdita tratamento desuniforme às pessoas. Sem embargo, consoante se observou, o próprio da lei, suas função precípua, reside exata e precisamente em dispensar tratamentos desiguais. Isto é, as normas legais nada mais fazem que discriminar situações, à moda que as pessoas compreendidas em umas ou em outras vêm a ser colhidas por regimes diferentes. Donde, a algumas são deferidos determinados direitos e obrigações que não assistem a outras, por obrigadas em diversa categoria, regulada por diferente plexo de obrigações e direitos (MELLO, 1999, p.
12-13).
O texto constitucional, conforme já mencionado, estabelece que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Todavia, o que ocorre é que a desigualdade existe e permanece, mostrando uma realidade triste de desigualdade econômica e social, em que muitos brasileiros vivem em condições de penúria e sem oportunidades de uma vida digna. Um exemplo dessa falta de oportunidade tem-se no seguinte relato:
[...] um menino que nasce na favela é igual ao que nasce numa família rica e vale o mesmo que este, mas dificilmente o favelado conseguirá boa alimentação e boas escolas e desde cedo será tratado como um marginal.
Essa discriminação irá acompanhá-lo pela vida inteira. Fica bem evidente, portanto, que um menino nascido numa favela não tem direito à igualdade de oportunidades, embora a própria lei diga que todos são iguais (DALLARI, 1998, p. 33).
Como se percebe, mesmo que a lei estabeleça uma igualdade formal (igualdade perante a lei), no que tange aos direitos fundamentais, a verdade é que não ocorre, na prática, uma igualdade de oportunidades entre os brasileiros (igualdade material). Visto que a população carcerária do Brasil é formada, basicamente, por jovens e pessoas de baixa escolaridade. 74,01% têm menos de trinta e quatro anos; quase 95% são pobres; 93,68 % do sexo masculino; 64,16% não completaram o primeiro grau e cerca de 5,74 % são analfabetos.
Predomina na população carcerária a cor negra e parda na ordem de 59,80%.
A par de tudo isso, torna-se necessário o reconhecimento do “princípio da co-culpabilidade” como princípio implícito da Constituição Federal, como forma de fazer justiça àquele cuja sociedade não proporcionou igualdade de oportunidades, condenando-o a uma vida de miserabilidade, ignorância e sem meios próprios de uma subsistência com dignidade.
Sobre o tema em tela, Bobbio (1997, p. 43) ensina que:
A igualdade entendida como equalização dos diferentes é um ideal permanente e perene dos homens vivendo em sociedade. Toda superação dessa ou daquela discriminação é interpretada como uma etapa do progresso da civilização.
Isso posto, cabe ao Estado, em conformidade com os direitos fundamentais preconizados na Carta Magna, garantir prestações positivas com o fito de obter uma igualdade material entre os cidadãos.
Em ocorrendo uma conexidade entre o delito praticado e as condições discriminatórias e desiguais do agente, a sociedade, pelo princípio da co-culpabilidade, deve ser considerada co-culpável. Assim, o Estado deve ser co-responsabilizado em face da
situação social e econômica do autor do delito, como forma de compensar a desigualdade material imposta ao cidadão que não teve igualdade de oportunidades.
Em resumo, o princípio da “co-culpabilidade” em conjunção com o “princípio da igualdade”, conforme o previsto no artigo 5º da Constituição Federal, objetiva alcançar a chamada igualdade material dos indivíduos que, socialmente, não tiveram igualdade de oportunidades.