3 MÍDIA, CIÊNCIA E MEIO AMBIENTE
3.3 DISCURSO AMBIENTAL
4.4.2 A cobertura após o climagate
Na edição nº 2141, de 02 de dezembro de 2009, uma semana após o climagate começar a aparecer na mídia brasileira, Veja traz na seção Blogosfera um pequeno comentário do colunista Reinaldo Azevedo, blogueiro da revista na internet (Veja.com), sobre o aquecimento global, seguido dos comentários de dois leitores (Anexo B).
Sequência 20
Já escrevi bastante sobre aquecimento global. Não sou especialista, é óbvio. O que tenho feito é sugerir aos leitores que busquem ouvir o contraditório. Afinal, não se deve partir do princípio de que alguns querem salvar o mundo, e outros, destruí-lo.
Comentários dos leitores:
“Nós estamos, sim, influenciando no clima do planeta. Mas em uma coisa você tem razão: não temos muita certeza de como isso vai nos prejudicar e quanto tempo vai levar” (Fran)
“O mundo moderno é dado a modismos e sucessos midiáticos. É um vale tudo para vender novidades, mesmo que não sejam verídicas. E não falta boboca para ficar histérico com o que pode acontecer daqui 100 anos” (Ama. Jr).
Revista Veja, edição nº 2141, 02 de dezembro de 2009, Blogosfera, p. 58.
O comentário diz “busquem ouvir o contraditório”, referindo-se provavelmente ao climagate, pois o colunista havia lançado em seu blog, no dia 24 de novembro, um artigo
sobre o assunto. Contudo, na versão impressa desta edição de Veja não há qualquer menção sobre o acontecido.
Na edição nº 2142, de 09 de dezembro de 2009, Veja traz uma matéria sobre a Conferência de Copenhague, iniciada naquela mesma semana, no dia 7 de dezembro, na capital da Dinamarca. Intitulada O mundo em alerta (Anexo C), a matéria começa encenando um diálogo entre crentes e descrentes do aquecimento global:
Sequência 21
A temperatura média da Terra subiu 0,8 grau nos últimos 100 anos.
– É menos de um grau em um século e ninguém deveria estar minimamente preocupado com isso – dizem alguns.
– Pera lá – dizem outros –, esse ritmo de aquecimento é alucinante quando comparado ao metabolismo geoclimático natural que precisou de 12 000 anos para acrescentar 5 graus à temperatura média do planeta. Numa conta simples, o atual ritmo de aquecimento do planeta está quase vinte vezes acima do normal. Nessa velocidade, em vez de 12 000 anos, bastariam pouco mais de 600 anos para a temperatura subir os mesmos 5 graus.
– Calma, gente – dizem os primeiros –, daqui a 2 000 anos todos nós estaremos mortos e nossos tatatatataranetos estarão vivendo em um planeta apenas 5 graus mais quentinho. – Calma nada, não estão vendo os furacões, as enchentes e as secas cada dia mais intensos e frequentes? Eles são apenas amostras grátis das catástrofes globais que esses poucos graus a mais vão provocar, ameaçando a existência da vida humana sobre a Terra (p. 174).
Revista Veja, edição nº 2142, 09 de dezembro de 2009, O Mundo em Alerta p. 174.
Este trecho continua a reproduzir o efeito de sentido de que o aquecimento global é iminente e sua conseqüência é catastrófica. As falas são escritas de forma irônica pela revista (“apenas 5 graus mais quentinho”, “amostras grátis das catástrofes globais”), citando dados sem fontes, que parecem inquestionáveis, e construindo enunciados que fazem os que não acreditam no aquecimento global parecem grandes irresponsáveis: “daqui a 2 000 anos
todos nós estaremos mortos” e “planeta apenas 5 graus mais quentinho”.
Sequência 22
Como é fácil de ver, essa discussão, nos termos em que vem sendo travada em muitos círculos, nada tem de científica. Os próprios cientistas têm uma montanha de culpa no cartório por se comportarem como místicos divididos sobre quantos anjos podem se equilibrar na cabeça de um alfinete em um assunto do mais alto significado para todos. A maioria deles diz que o mundo caminha para o desastre se não diminuir o volume de gases de efeito estufa jogado na atmosfera. Outros, uma minoria, acreditam que a própria natureza regula as temperaturas por meio de processos gigantescos (a atividade solar ou as erupções vulcânicas), perto dos quais a fumacinha produzida pela humanidade não teria consequência significativa. No campo puramente científico, os dois grupos estariam empatados. Mas a política e a propaganda viraram o jogo para o lado dos catastrofistas, que hoje dão de goleada nos adversários (p. 174).
Revista Veja, edição nº 2142, 09 de dezembro de 2009, O Mundo em Alerta p. 174.
A revista nesse momento chega a “ridicularizar” os cientistas do clima, sejam eles defensores ou não do aquecimento global. Coloca-os no papel de “místicos” e afirma que os mesmos tem “uma montanha de culpa no cartório”. Ao falar sobre um dos argumentos dos céticos (adjetivo aqui por nós utilizado para caracterizar aqueles que discordam do aquecimento global de causa antropogênica), o de que fatores naturais possam regular a temperatura do planeta, Veja utiliza da ironia para se referir aos contrários ao aquecimento global, para os quais, de acordo com a revista, “a fumacinha produzida pela humanidade não
teria consequência significativa”.
Ao afirmar que “No campo puramente científico, os dois grupos estariam
empatados” a revista coloca os dois lados de igual para igual, sem produzir nesse momento o
recorrente efeito de sentido de que os céticos são poucos e inconsequentes. A revista, ao seguir afirmando que “a política e a propaganda viraram o jogo para o lado dos
catastrofistas, que hoje dão de goleada nos adversários”, embora continue tratando a questão
de uma forma irônica, assume que o discurso político e o discurso publicitário transformam os catastrofistas nos donos da razão e da verdade.
Tudo o que os cientistas conseguiram pôr no papel até hoje é que a responsabilidade dos seres humanos é "muito provável". A expressão foi definida assim no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o corpo de cientistas reunidos pela Organização das Nações Unidas para tratar do assunto. Isso significa dizer que a emissão dos 50 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa pelas chaminés e canos de descarga, todo ano, impacta a vida no planeta, mas a ciência ainda não conseguiu juntar todas as provas necessárias para garantir que essa seja a razão principal.
Revista Veja, edição nº 2142, 09 de dezembro de 2009, O Mundo em Alerta p. 175.
A matéria chega a citar a conclusão do quarto relatório do IPPC sobre o impacto humano nas mudanças climáticas: "muito provável", mas mesmo assim a revista reforça a tese de que o homem é o grande responsável pelo aquecimento global, sem, contudo, a ciência ainda ter chegado a essa conclusão. A afirmação do jornalista em seguida, a qual não cita a fonte de que “50 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa” são lançadas à atmosfera todos os anos, produz um efeito de sentido de que só a ciência não acredita por completo naquilo em que está em evidência. Cabe aqui destacar o que Molion ([2007?], p. 09) afirma sobre a influência humana no clima: “O Planeta se aqueceu mais rapidamente entre 1925- 1946, quando a quantidade de CO2 lançada na atmosfera era inferior a 10% da atual, e se resfriou entre 1947-1976, quando ocorreu o desenvolvimento econômico acelerado após a Segunda Guerra Mundial”.
Sequência 24
A complexidade das discussões se deve ao fato de que elas terão de fundamentar cálculos econômicos e políticos sobre uma base científica crivada de incertezas. Um exemplo é a própria estimativa sobre quanto o planeta se aquecerá até 2100. (...) Ciências climáticas estão entre as mais complexas do universo porque envolvem uma quantidade infinita de dados. Erupções vulcânicas, mudanças nas correntes marinhas, alterações na atividade solar e desvio na órbita dos planetas estão entre as muitas, mas muitas questões com que lidam os cientistas (p. 176).
Nesse momento a revista leva em conta a quantidade de variáveis envolvidas no clima do planeta, o que dificilmente se considera nas reportagens sobre mudanças climáticas. A reportagem segue com inúmeros dados, sem fontes:
Sequência 25
Há radicais dos dois lados. No time dos céticos, a estratégia mais frequente é afirmar que o aquecimento do planeta já ocorreu pelo menos outras quatro vezes nos últimos 650 000 anos, mesmo quando não havia uma única chaminé fumegante na face da Terra. Tudo isso para dizer que o aquecimento de agora pode não ser provocado pelo homem e que, portanto, reduzir a queima de petróleo e carvão é um capricho desnecessário.
Trata-se de um silogismo. A concentração de gases de efeito estufa (gás carbônico, metano e óxido nitroso) chegou a níveis inéditos, no último século, período que coincide com o da Revolução Industrial. Nunca antes a atmosfera havia atingido uma concentração de gases maior do que 280 partes por milhão (conta que equivale a 280 litros de gases para cada milhão de litros de ar). Atualmente essa concentração já é de 390 ppm.
Revista Veja, edição nº 2142, 09 de dezembro de 2009, O Mundo em Alerta p. 176.
Embora esse trecho traga uma possível explicação dos céticos, logo em seguida a revista já traz dados sobre a concentração de gases na atmosfera, produzindo um efeito de verdade tácita, apagando o que havia dito no instante anterior.
Sequência 26
Uma das dificuldades em fazer afirmações mais assertivas é que a ciência climática vê o futuro olhando para o passado. (...) Aproveitando-se desse grau de incerteza é que muitos ambientalistas usam a tática do terror. Previsões de que o mar vai subir até 6 metros não têm base sólida, mas fizeram imenso sucesso no filme Uma Verdade Inconveniente e deram a seu autor, o ex-vice-presidente americano Al Gore, o Prêmio Nobel da Paz.
Revista Veja, edição nº 2142, 09 de dezembro de 2009, O Mundo em Alerta p. 176.
Aqui a reportagem chega a ser crítica ao catastrofismo, tão comum quando o assunto é o aquecimento global. Enfim, no final dessa matéria, Veja se pronuncia pela primeira vez sobre o caso do climagate:
Sequência 27
Nas duas últimas semanas a guerra entre os dois grupos esquentou, depois que hackers conseguiram capturar mensagens de e-mail dos cientistas do IPCC trocadas nos últimos treze anos. O alvo do ataque foi a Universidade de East Anglia, na Inglaterra, o principal centro de climatologia do mundo. Os e-mails, divulgados na internet, revelaram combinações entre alguns integrantes do IPCC para manter os cientistas céticos o mais longe possível de revistas especializadas como a Nature ou a Science. Isso é especialmente comprometedor quando se sabe que um dos principais argumentos contra os céticos é a escassez de artigos por eles publicados. Também se flagraram diálogos em que se combinava fazer pequenas arrumações nos números para dar-lhes mais consistência.
Revista Veja, edição nº 2142, 09 de dezembro de 2009, O Mundo em Alerta p. 176.
Contudo, logo após citar o acontecido, a reportagem se encerra, trazendo novamente o efeito de sentido de que o aquecimento global causado pelo homem é iminente, como se o climagate não produzisse nenhum sentido:
Sequência 28
O caso serviu para mostrar que há, dos dois lados da guerra, gente disposta a bater abaixo da linha da cintura. Nada disso, no entanto, ofusca o principal. A maior frequência de furacões de grande intensidade ao redor do planeta (o Katrina, que arrasou Nova Orleans, em 2005, é um exemplo) e o derretimento acelerado do gelo nas calotas polares indicam que sim, o clima no planeta está passando por alterações. Na dúvida, o melhor é agir agora.
Revista Veja, edição nº 2142, 09 de dezembro de 2009, O Mundo em Alerta p. 176.
Quanto aos recursos gráficos utilizados na reportagem, Veja traz dois gráficos na página175 (vide Anexo C): um mostra o aumento da emissão global de carbono entre 1800 e 2004 e o outro mostra a variação de temperatura da Terra entre 1880 e 2000. Os dados de ambos os gráficos não possuem fonte, o que compromete a credibilidade dos fatos. A reportagem traz também algumas assertivas sobre o que envolve as mudanças climáticas (vide Anexo C), e a revista pontua o que é certo, o que é provável, o que é improvável e o que é falso. Aqui o discurso jornalístico toma o lugar do discurso científico, e a própria mídia passa
a afirmar o que é verdadeiro e o que é falso num assunto em que até mesmo os cientistas divergem.
A foto principal da reportagem (vide Anexo C) é uma imagem que mostra uma geleira, e a legenda não deixa margens, novamente, para questionamentos: “A velocidade com
que as calotas polares estão derretendo surpreende os cientistas: é preciso andar rápido” (Revista Veja, edição nº 2142, 09 de dezembro de 2009, O Mundo em Alerta p. 174).
As outras imagens principais correspondem à campanha publicitária da ONG Greenpeace, exibida durante a Conferência de Copenhague, na qual aparecem líderes mundiais no futuro, como os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Barack Obama e Nicolas Sarkozy, desculpando-se por não terem impedido a catástrofe climática enquanto podiam.
Conclui-se, portanto, que embora a matéria tenha falado sobre o climagate, e tenha confrontado tanto a opinião dos céticos quanto a dos catastrofistas, o que se sobressai é a opinião dos defensores do aquecimento global antropogênico, e o efeito de sentido de que essa é uma verdade inquestionável. Percebe-se, também, que a matéria não possui a heterogeneidade mostrada marcada, ou seja, não apresenta a fala de nenhum cientista, seja catastrofista ou cético, sobre o assunto, reproduzindo somente a memória discursiva da própria mídia sobre o assunto, o interdiscurso.
Constata-se que aqui a cobertura do aquecimento global, embora já traga alguns – poucos – questionamentos devido o climagate, continua a reproduzir o mesmo efeito de sentido percebido na matéria analisada no ano de 2006. A mídia, nesse momento, continua pautando-se por ela mesma. Como visto no capítulo Análise do Discurso, Fernandes (2007) afirma que a voz de um determinado sujeito deixa transparecer um conjunto de outras vozes, as quais fazem parte de um mesmo lugar sócio-histórico. Sendo assim percebe-se que no jornalismo como um todo o jornalista enuncia “outras vozes” ao escrever, remetendo-se a determinadas formações discursivas.
Guimarães (2001) em pesquisa sobre a divulgação científica nas revistas Veja,
Isto É e Época, constatou que uma reportagem de Isto É sobre remédios apresentou
indicações e possíveis complicações do uso dos mesmos, sem, contudo, sustentar-se em alguma pesquisa para assim afirmar. Diante disso o autor afirma:
[...] Assim, estamos diante de um caso em que a voz da enunciação jornalística tem um grau máximo de adesão à voz da ciência. Ao apagar esta última, a matéria acaba por produzir um efeito forte de argumentação para o que ali se afirma. O
apagamento da voz da ciência é argumento para a completa verdade do que se afirma em nome da ciência (GUIMARÃES, 2001, p. 19).
Assim como Guimarães (2001), observa-se que o mesmo acontece na matéria em análise, pois esta não traz as fontes e as pesquisas de onde foram retirados os inúmeros dados apresentados, de forma que o jornalismo toma nesse momento o lugar de autoridade, de detentor da verdade e do conhecimento.
A edição 2144 da Revista Veja, de 23 de dezembro de 2009, traz nas páginas amarelas uma entrevista, intitulada Podemos fazer melhor (Anexo D), com o pesquisador Bjorn Lomborg, o qual discorda do alardeado catastrofismo das mudanças climáticas. Não é a primeira vez que Veja fala de Lomborg e de suas idéias, mas presume-se que a entrevista com ele nesse momento tenha surgido tanto pelos debates climáticos da ocasião, já que estava acontecendo a COP-15, quanto pelo fato do climagate que aconteceu semanas atrás.
No enunciado de abertura da entrevista pode-se ler:
Sequência 29
[...] Lomborg é um dos mais respeitados entre os pesquisadores céticos em relação aos efeitos catastróficos do aquecimento global. Seus livros e artigos provocam a ira de ambientalistas, mas seus argumentos afiados também são ouvidos com atenção pelos cientistas. Sua descrença se dá em torno da histeria criada acerca do assunto e do que se pretende fazer para solucionar o problema da elevação da temperatura. "Não sou um crítico da ciência que prova o aquecimento. Sou um crítico da política de combate ao aquecimento."
Revista Veja, edição nº 2144, 23 de dezembro de 2009, Podemos fazer melhor, p. 21.
Na linha de apoio18 Veja também coloca Lomborg como “o principal
representante dos céticos” (p. 21). Percebe-se que para a revista Lomborg é sempre o mais
lembrado entre os céticos, entretanto cabe pontuar qual é o conceito de “cético do aquecimento global” entendido por essa entrevista, o que será analisado mais a diante.
Seguem as sequências discursivas com trechos da entrevista (o negrito foi utilizado para separar as perguntas das respostas, como na revista:
Sequência 30
Qual foi o estrago do "climagate", o escândalo do vazamento de e-mails em que cientistas confessam a manipulação de dados para reforçar a tese do aquecimento global?
O que está claro é que havia uma inclinação evidente para não compartilhar dados com pesquisadores cujos trabalhos não reforçariam a teoria do aquecimento global. Possivelmente, os dados foram mascarados, o que não significa exatamente uma falsificação.
Revista Veja, edição nº 2144, 23 de dezembro de 2009, Podemos fazer melhor, p. 21.
Sequência 31
Sim, mas mascarar dados não é suficiente para invalidar toda a pesquisa?
Não. É um erro achar que esse escândalo invalida todo o trabalho que os cientistas do clima produziram nas duas últimas décadas. O aquecimento global está aí. É um desafio.
Revista Veja, edição nº 2144, 23 de dezembro de 2009, Podemos fazer melhor, p. 21.
Sequência 32
Então, o senhor aconselha a esquecer o episódio e continuar levando seus autores a sério?
Não é isso. O escândalo não pode ser considerado apenas uma tempestade em copo d’água. O que eles fizeram é muito sério e perturbador. Tem implicações muito maiores. Esses cientistas formam uma máfia que se apossou da questão do clima. Tive muitos problemas com essa máfia do clima. Quando estava escrevendo meu livro, tentei me corresponder com alguns daqueles pesquisadores que detinham dados pelos quais eu tinha interesse. Recebi de volta algumas mensagens em cujo campo de destinatário eu fui incluído por engano. Foram mensagens reveladoras. Elas diziam: "Esse homem é perigoso. Não forneçam nenhum dado a ele. Devemos ter cuidado em não deixar que nossas informações apareçam em pesquisas públicas".
Revista Veja, edição nº 2144, 23 de dezembro de 2009, Podemos fazer melhor, p. 21-24.
18
Linha de apoio refere-se ao enunciado situado logo abaixo do título principal, com a finalidade de complementá-lo em informações. Também pode ser chamado de subtítulo.
Sequência 33
Por que o senhor é cético em relação às previsões sobre o aquecimento global?
Discordo da forma como as discussões sobre esse tema são colocadas. Existe a tendência de considerar sempre o pior cenário – o que aconteceria nos próximos 100 anos se o nível dos mares se elevar e ninguém fizer nada. Isso é irreal, porque é óbvio que as pessoas vão mudar, vão construir defesas contra a elevação dos mares. No entanto, isso é só uma parte do que tenho dito. Sou cético em relação a algumas previsões, sim. Mas sou cético principalmente em relação às políticas de combate ao aquecimento global. O problema principal não é a ciência. Precisamos dos cientistas. A questão é que tipo de política seguir. E isso é um aspecto econômico, porque implica uma decisão de gastar bilhões de dólares de fundos sociais. Em outras palavras, não sou um cético da ciência do clima, mas um cético da política do clima. Basicamente, digo que não estamos adotando as melhores políticas porque não estamos pensando onde gastar o dinheiro para produzir os maiores benefícios.
Revista Veja, edição nº 2144, 23 de dezembro de 2009, Podemos fazer melhor, p. 24.
Sequência 34
O relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) diz que a humanidade é "provavelmente" responsável pelo aquecimento. O que significa esse "provavelmente"?
Os cientistas estão dizendo que têm 90% de certeza. Que há fortes evidências de que somos responsáveis em pelo menos 50% pela elevação da temperatura. É a partir daí que temos de elaborar as políticas. Se a maior parte dos cientistas diz que algo provavelmente vai acontecer, temos de agir de acordo com essa informação. O que não significa que não se deva garantir financiamento às pessoas que trabalham para descobrir erros nessa proposição. Deveríamos gastar dinheiro com as pesquisas dos céticos justamente para aperfeiçoar a informação que tem dominado os debates.
Revista Veja, edição nº 2144, 23 de dezembro de 2009, Podemos fazer melhor, p. 21.
Sequência 35
O senhor pode dar um exemplo? (sobre a declaração anterior de Lomborg: “[...] nós nos
[...] Fala-se muito em aquecimento global. Mas as pessoas de verdade têm problemas mais urgentes. A maioria das pessoas nos países em desenvolvimento, ou três quartos da população mundial, quer saber como vão sobreviver até a semana que vem.
Revista Veja, edição nº 2144, 23 de dezembro de 2009, Podemos fazer melhor, p. 25.
A entrevista retoma o caso do climagate, querendo saber a opinião de um cético sobre o acontecido (“O escândalo não pode ser considerado apenas uma tempestade em copo
d’água. O que eles fizeram é muito sério e perturbador”).
Por meio dos trechos selecionados percebe-se que Veja traz, por meio da fala de Lomborg, uma opinião diferente da majoritariamente formada. Embora Bjorn Lomborg acredite no aquecimento global (“O aquecimento global está aí. É um desafio”), ele discorda