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3 ESCRITA E TEXTUALIDADE

3.2 A coerência textual

O que é a coerência? ―A coerência é uma propriedade que tem a ver com as possibilidades de o texto funcionar como uma peça comunicativa, como um meio de interação verbal‖ (ANTUNES, 2005, p.176). Para Charolles (1983 apud KOCH & ELIAS 2014) e Magalhães (2016), a coerência é vista como princípio de interpretabilidade. Magalhães (2016), afirma ainda que, hoje, a noção de coerência engloba não apenas a unidade semântica, mas também, e especialmente, todas as referências que precisam ser feitas para que os sentidos sejam construídos. Segundo a autora:

as inferências envolvem processos cognitivos que relacionam diversos sistemas de conhecimento, como o lingüístico, o enciclopédico e o interacional. Esses conhecimentos entram em ação no momento em que articulamos as informações que encontramos na superfície textual (o cotexto) com outras que se acham armazenadas em nossa memória, acumuladas ao longo de nossas diversas experiências. É a partir dessas deduções que preenchemos várias lacunas deixadas pelo cotexto e fazemos antecipações, levantamos hipóteses sobre os sentidos do

texto. Essas inferências dependem, por sua vez, de um conjunto de fatores, com o grau de formalidade, o gênero textual, os conhecimentos dos interlocutores, a situação comunicativa específica em que se dá o texto etc. (MAGALHÃES, 2016, p. 31).

Nesse sentido, é a partir da articulação das informações presentes na superfície do texto e dos nossos conhecimentos sociocognitivos e interacionais que produzimos os sentidos do texto, através das inferências que podemos realizar. Esses conhecimentos são acionados durante a interação e podem variar dependendo da situação de comunicação. Há autores que dizem existir textos sem coerência, no entanto, Magalhães (2016), não concorda com essa idéia. Para ela, quando alguém produz um texto, em qualquer modalidade, tem a intenção de se fazer entender, de ser coerente para seus destinatários. Todo texto tem a sua coerência, no entanto, alguns trechos ou aspectos podem apresentar problemas de incoerência apenas local, em algumas partes do texto. A autora enfatiza ainda que ―um texto será bem compreendido quando avaliado sob o ponto de vista pragmático, que tem a ver com a situação comunicativa; sob o ponto de vista semântico-conceitual, que diz respeito à sua coerência; e sob o aspecto formal, que concerne à sua coesão‖ (MAGALHÃES, 2016, P. 30).

Na literatura, nos textos, nos livros didáticos coesão e coerência são apresentadas sempre juntas. Qual a semelhança ou diferença entre elas? Marchuschi (2008) evidencia que há uma diferença muito clara entre as duas: a coesão faz a continuidade do texto baseada na forma e a coerência é a continuidade baseada no sentido. Apesar de parecer, já foi constatado que a coesão não é condição necesssária nem suficiente da coerência, as marcas de coesão tecem o texto, enquanto a coerência não se encontra no texto, mas constrói-se a partir dele, em dada situação comunicativa, com base em uma série de fatores de ordem semântica, cognitiva, pragmática e interacional (KOCH & ELIAS, 2014). Não podemos também considerar as duas como fenômenos independentes. Charolles (1978 apud ANTUNES 2005) definiu as metarregras da coerência. Elas são quatro:

Metarregra da repetição – para que um texto seja (microestruturalmente ou macroestruturalmente) coerente, é preciso que ele comporte em seu desenvolvimento linear elementos de estrita recorrência, ou seja, fala-se das retomadas e dos modos de voltar a uma parte anterior do texto para estabelecer com ela qualquer tipo de ligação. Essa é a relação coesiva chamada de reiteração por Antunes em que são descritos os recursos coesivos de paráfrase, paralelismo e repetição propriamente dita e todos os recursos de substituição. Assim, essa primeira regra de coerência coincide com a primeira regra de coesão, o que comprova o aspecto da interseção entre a coesão e a coerência.

Metarregra da progressão – para que um texto seja (microestruturalmente ou macroestruturalmente) coerente, é preciso que seu desenvolvimento contenha elementos constantemente. ―Esta segunda regra completa a primeira, já que ela estipula que um texto, para ser coerente não deve repetir indefinidamente (ou circularmente) o mesmo conteúdo. Ou seja, um texto coerente exige progressão semântica‖ (ANTUNES, 2005, p.183). E não podemos esquecer também da continuidade temática que a comunicação exige para que um texto seja coerente. Informações novas devem ser inseridas no texto de forma que estes elementos tenham alguma relação de contigüidade ou de associação com os outros expressos anteriormente.

A terceira meta-regra é a da não-contradição – para que um texto seja coerente é necessário que não se contradiga de nenhuma forma o que foi dito antes. Isso já acontece em situações de uso da língua oral. Não falamos coisas desconexas ou sem sentido a não ser quem não estejamos lúcidos. Assim, o trabalho da escola é ampliar as competências trazidas pelos alunos.

A última metarregra é a da relação – um texto para ser coerente deve ter uma relação entre os fatos expressados no mundo representado. Essa metarregra é pragmática. Há um tipo de associação ou relação entre os indivíduos, os fatos, as idéias e ações e os acontecimentos ativados em um texto. Algumas dessas relações são manifestadas pelos conectores. Dessa forma, uma informação vai dando acesso a outra de forma que vai se formando uma cadeia, um todo no texto.

Percebe-se, portanto, uma ligação entre as metarregras da coerência e as relações textuais da coesão. Fica claro que ambas fazem parte não só dos elementos linguísticos, mas também dos pragmáticos. Queremos que o nosso texto tenha sentido para que nosso interlocutor em alguma situação e em algum lugar possa entendê-lo.

A coesão é o resultado de uma rede de ligações criadas no texto, as quais são chamadas de relações textuais. Elas são semânticas e têm a ver com os sentidos do texto. São diferentes pelo tipo de nexo que promovem e acontecem de três formas: reiteração, associação e conexão. A coerência, ao contrário não se dá como um movimento sucessivo de enunciado para enunciado e numa relação de elemento para elemento, ela é uma função que se dá globalmente em muitos casos. Para Antunes:

A íntima ligação da coesão com a coerência decorre do fato de ambas estarem a serviço do caráter semântico do texto, de sua relevância comunicativa e interacional. Daí a natural dificuldade de se separar coesão e coerência. A primeira está em função da segunda. Uma provê a outra, pois o

que está na superfície (sonora ou gráfica) do texto (a coesão) está para possibilitar a expressão de um sentido, a construção de uma ação de linguagem (a coerência). Não se pode separar a forma do sentido; mais especificamente, não se pode isolar a coesão da coerência (ANTUNES, 2010, p. 117).

Fica evidente então, que embora a coesão sozinha não dê conta da coerência, pois são necessários outros fatores além dos linguísticos como os pragmáticos e cognitivos para que se efetive o sentido de um texto, a primeira está em função da segunda. Magalhães (2016) afirma que o conhecimento das estratégias de referenciação, implica compreender um mecanismo de estruturação do texto, algo absolutamente fundamental para a construção da coerência.