Mapeando os Checkpoints e Criando Estratégias.
2.5 A Coleta de Dados
Após a seleção, foram agendadas as datas dos encontros para entrevista que aconteceram no mês de fevereiro de 2015 de forma escalonada. Esses encontros foram registrados via aplicativo Skype com gravações de áudio e vídeo via aplicativo Free Video Call Recorder for Skype com média de duração de 50 minutos cada entrevista.
Esses encontros foram estabelecidos através de uma entrevista semi-estruturada com roteiro “em que o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema em questão sem se prender a indagação formulada” (MINAYO & GOMES, 2009, p. 64), com o intuito de oferecer total liberdade para os jogadores em suas respostas. Para Trivinõs (1987) a entrevista semi- estruturada é classificada, na pesquisa qualitativa, como melhor dispositivo de coleta pois
Segundo nosso ponto de vista, para alguns tipos de pesquisa qualitativa, a entrevista semi-estruturada é um dos principais meios que tem o investigador para realizar a coleta de dados. [...] Não obstante isso, apesar de reconhecer o valor da entrevista aberta ou livre, que não deve ser confundida com a entrevista não-diretiva, queremos privilegiar a entrevista semi-estruturada porque esta, ao mesmo tempo que valoriza a presença do investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação. (TRIVINÕS, pp. 145-146).
O roteiro serviu como orientação para a entrevista, entretanto, as respostas obtidas geraram mais perguntas adicionais e todas voltadas a temática e as questões que orientaram essa
4 Fontes: <www.us.battle.net/pt/> e <www.wowiki.com.br>, acesso em: 19/09/2015. Representam dados do
último censo realizado no início de 2015 no World of Warcraft sobre perfis ativos e não ativos. Vale salientar que esses sites não se responsabilizam por dados falsos ou incorretos dados pelos seus usuários. Apuram apenas a partir dos dados declarados pelos jogadores. Até mesmo nesta pesquisa foi possível identificar essa estatística: dos iniciais 64 jogadores cadastrados, apenas 11 eram mulheres.
pesquisa. Essas foram criadas no intuito de atender aos nossos objetivos e para responder os respectivos problemas de pesquisa.
Se tratando de uma pesquisa de ordem qualitativa aliado a natureza de um método participante, que me concedeu um entendimento maior sobre a dinâmica das relações no jogo, ao contexto de perguntas semi-estruturadas e ao comportamento ‘livre e aberto’ de alguns dos entrevistados, fez surgir espontaneamente durante as entrevistas algumas questões excedentes. Apesar de não estarem regristradas no roteiro (ver Apêndice III), estão todas presentes na análise de dados e devidamente apontadas.
Outro dispositivo de coleta de dados foi a pesquisa participante, pois para atingir aos objetivos desse empreendimento e responder os seus respectivos problemas de pesquisa, especificamente por ter como lócus um jogo de aspecto sócio-relacional, foi portanto necessário caminhar junto e estar do lado de dentro, participar. Sobre a pesquisa participante, Minayo e Gomes (2009) a descrevem
como um processo pelo qual um pesquisador se coloca como observador de uma situação social, com a finalidade de realizar uma investigação científica. O observador, no caso, fica em relação direta com seus interlocutores no espaço social da pesquisa, na medida do possível, participando da vida social deles, no seu cenário cultural, mas com a finalidade de colher dados e compreender o contexto da pesquisa. (p. 70. grifo das autoras.)
A pesquisa participante não se limita apenas em atentar as atividades de determinados indivíduos ou comunidades, mas também participa ativamente delas, experimentando o que o outro experimenta e tendo as mesmas sensações que ele. A riqueza dessa vivência foi o que nutriu sobremaneira a resolução dos problemas propostos pela pesquisa e a análise dos dados coletados. Esse 'ver de dentro' se tornou praticamente uma solicitação 'promovida' pelo objetivo desse projeto.
Foi uma provocação, um desafio. Por mais detalhada que possa ser uma investigação a partir da fala dos sujeitos, nada se compara a pisar no mesmo solo e 'respirar o mesmo ar' que ele. Se perguntamos em nossa pesquisa sobre as pedagogias corporais como experiências derivadas dos processos de fascínio e espetacularização do corpo presentes nas construções corporais ou, indiretamente, sobre como se configuram os modos de ser dos sujeitos no jogo e suas relações, foi na prática do jogo e no convívio da atmosfera daquela sociedade que os usuários mostraram suas escolhas, seus comportamentos e suas percepções de forma mais aberta.
Além disso, por mais à vontade que o pesquisador deixe o seu interlocutor para responder à sua pesquisa, ainda assim será um 'estranho' naquele mundo. Porém, ao vislumbrar um ‘pesquisador que joga’, que
produz seu personagem e que está inserido naquele ambiente, a confiança, sentimento necessário à partilha de informações e muitas vezes de confissões, foi conquistada nessa relação. Sobre essa relação interna,
[...] serve como uma fórmula para o contínuo vaivém entre o 'interior' e o 'exterior' dos acontecimentos: de um lado, captando o sentido de ocorrências e gestos específicos, através da empatia; de outro, dá um passo atrás, para situar esses significados em contextos mais amplos. Acontecimentos singulares, assim, adquirem uma significação mais profunda ou geral, regras estruturais, e assim por diante. (CLIFFORD, 1998, p. 33).
Na observação participante, dessa maneira, a relação do pesquisador com seu objeto de estudo foi primordial para uma apreensão satisfatória do modus vivendi e operandi dos envolvidos, pois oportunizou vislumbrar certas minúcias e regularidades no comportamento daqueles indivíduos ou de suas comunidades ou qualquer outro tipo de agrupamento social que, permanecendo ‘fora dele’, não seria possível notar.
A perspectiva de uma pesquisa participante pôde render bons frutos à nossas propostas, pois nos orientamos pela perspectiva de analise dos fenômenos, produzindo uma visualização entre experiência e interpretação, pois “a experiência está intimamente ligada à interpretação [...]. Mas esse tipo de leitura ou exegese não pode ocorrer sem uma intensa participação pessoal, um ativo “sentir-se em casa” num universo comum” (CLIFFORD, 1998, p. 36).
A observação participante concordou imediatamente com os pressupostos do enfoque descritivo pesquisa por tentar empreender uma compreensão global da realidade do objeto. O 'ver de dentro' nos fez fazer parte do contexto de nossa observação e assim fez com que se permanecesse livre de pré-julgamentos por conhecer e por estar completamente inserido nas discussões e demais demonstrações pertencentes aquele ambiente.
Assim, a observação participante promoveu, indiretamente, uma ‘suspensão dos juízos’ não dando espaço para interpretações precipitadas, equívocos, ou deixando que nossas inclinações pessoais interferissem na análise dos sujeitos e na análise dos dados coletados. Jogamos e pesquisamos.