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2. PRIMÍCIAS

2.3. Protoativismos de bonecas e invertidos – 1959-1976

2.3.9 A Coluna do Meio

Inserida numa perspectiva irônica – a única possível naqueles tempos do regime de exceção –, não é, porém, a primeira que, a partir de um jornal oficialmente editado e distribuído, aborda os espaços de socialização e subcultura homossexual. Embora não precise as datas, Míccolis, pesquisadora da chamada imprensa gay brasileira, afirma a existência das seguintes colunas, além da de Celso Curi: “Tudo Entendido (de Fernando Moreno, na Gazeta de Notícias, Rio), Guei (de Glorinha Pereira, no Correio de Copacabana, Rio)” (MÍCCOLIS, 1980, p. 4).

Na Coluna do Meio, tudo era jocosidade, humor – o nome teria vindo de uma das formas de marcação dos cartões da loteria esportiva e a sua diagramação previamente pensada para vir precisamente no meio da página, ladeada por “uma coluna machista do Plínio Marcos e uma feminista...” (CURI apud SILVA, 1998, p. 82). Além do aspecto humorístico e burlesco, conferido pelas diversas personagens de sua criação, a Coluna noticiava eventos sociais e promovia encontros entre os entendidos – era o Correio Elegante. Também trazia notícias sobre o movimento gay no exterior. Logo atingiu grande audiência (TREVISAN, 1978, p. 6).

Na opinião de Trevisan, a repercussão da Coluna fez com que Celso Curi se tornasse uma espécie de celebridade – “Nenhuma festa chique acontecia em São Paulo sem que ele fosse convidado”. Essa popularidade deu ensejo a uma referência (feita na última capa), no número 22 da edição em português da então prestigiada revista MAD, e na revista Isto É, à matéria de capa com o título Poder Homossexual. Em Florianópolis, um de seus leitores assíduos noticiava: “ao meio-dia já não existe mais o jornal porque a turma se encarrega de fazer a limpeza nas bancas” (TREVISAN, 1978, p. 6).

Esse ineditismo, em termos de alcance de público, proporcionou a muitos “homossexuais” a superação do isolamento. Mas também produziu ameaça e violência – por cartas e telefone: “Tome mais cuidado com seus escritos. [...]” e “Viados escrotos, raça maldita. Vou acabar com vocês. Eu vomito quando penso em vocês” (Idem, ibid). Quando do

processo, seus leitores mais fiéis terminaram se constituindo numa rede de solidariedade e gratidão que entrou em mobilização espontânea:

[...] a princípio eu não acreditei que fosse verdade, pois nunca pude pensar que a sociedade nos desse um meio de comunicação [...] por isso eu o estimo muito [...] pois teve a coragem [...] em abrir uma porta para nós na sociedade e ainda, pude compreender que não sou sozinha no mundo; o meu mundo tem muitos viventes, lindos, inteligentes, respeitáveis e adorados pela sociedade (TREVISAN, 1978, p. 6).

Ainda segundo Trevisan, a Coluna durou mais de um ano – de cinco de fevereiro de 1976 a novembro de 1977, quando Celso Curi foi dispensado do Última Hora. Dizia-se que o jornal encontrava-se em situação financeira precária, necessitava fazer contenção de despesas, fato que atingiu o pessoal da redação (Idem, ibid.). Na memória evocativa de Curi, em depoimento dado a Silva, a coluna teria durado três anos, quase que o mesmo tempo do processo que ele teve que responder, resultante de inquérito perante o serviço de Censura Federal da Superintendente do Departamento Regional da Polícia Federal do Estado de São Paulo (SILVA, 1998, p. 82).

Incurso no art. 17 da Lei n.º 5.250, de 09/11/67 (Lei de Imprensa), por ter ofendido a moral e os bons costumes, estava passível de condenação de até um ano de prisão e multa de até vinte salários-mínimos regionais. A acusação fora a de “promover a licença de costumes e o homossexualismo especificamente”. Segundo a matéria de Trevisan, de abril de 1979, o Promotor Público que ofereceu a denúncia em março de 1977 (distribuída ao Juiz de Direito da 14.ª Vara Criminal da Comarca de São Paulo Capital) alegou que

O denunciado ofendeu, ‘de modo contínuo, no período compreendido entre cinco de fevereiro e 18 de maio de 1976, a moral pública e os bons costumes’ na Coluna do Meio, ‘cujo nome não deixa dúvidas quanto ao assunto tratado, o homossexualismo que é claramente exaltado, defendendo-se abertamente as uniões anormais entre seres do mesmo sexo, chegando inclusive a promovê- las através da seção Correio Elegante’. (TREVISAN, 1978, p. 6)

Através da forma de expressão adotada pelo Promotor Público, fica claro a partir de qual registro deseja obter a condenação da coluna jornalística. Ele investe na moldura do “homossexualismo” como algo da ordem da imoralidade absoluta, da degradação máxima do humano; seus praticantes como seres corrompidos pelo vício, decaídos moralmente; jamais pessoas comuns em sentimentos, atividades, direitos e obrigações. Apenas párias, elementos vis, ignóbeis. Nesse quadro, uma coluna jornalística que trouxesse aos leitores, ademais do peculiar humor gay, a possibilidade de contatos entre esses degenerados, impunha a urgente

intervenção da instituição fiscalizadora a clamar para que a mão pesada do Estado-juiz fizesse pagar tanta ousadia, com o que se estaria livrando a sociedade de elementos de tamanha perniciosidade. Não se tratava simplesmente de outra modalidade erótica, mas de algo muito pior – degenerescência, depravação, ameaça tenebrosa às estruturas da moralidade social, capaz de lhe corromper a sanidade. Grave o suficiente a justificar a abertura de processo- crime pela Lei de Imprensa, cuja pena máxima era de um ano de cárcere – prática que não se via ocorrer em relação às formas diuturnas de exploração do feminino como objeto mercantil erótico, por exemplo. A exploração do nu feminino (total ou parcial) como objeto erótico, seja em fotos oferecidas em revistas masculinas – como Vogue, Senhor e Play Boy –, seja como elemento decorativo de programas televisivos, como o do Cassino do Chacrinha, parecia gozar de legitimidade, dado que nem os setores vigilantes da “moral e bons costumes” que diligentemente enviavam cartas ao DCDP oferecendo denúncias e cobrando atitude, nem os próprios servidores do órgão impediam sua veiculação.

Trevisan esclarece que o desligamento do jornalista se deu, coincidentemente, na mesma época em que se anunciava a realização da segunda audiência no processo (Idem, ibid). Celso, contudo, manteve-se sempre bastante tranquilo e bem-humorado durante todo o período do processo (TREVISAN, 1979, p. 3). Seja pela verve irônica, seja pelo profundo conhecimento sobre os bastidores do poder, ele definitivamente não acreditava na possibilidade de uma “caça às bruxas contra os homossexuais” – “[...] Tudo é tão ajeitável! Qualquer dono de boate sabe como dar um jeitinho bem brasileiro, e então tudo continua funcionando, como antes, entende?” (CURI apud TREVISAN, 1978, p. 7). Sua habilidade social, aliada ao exercício profissional, faziam-no saber, empiricamente, aquilo que o pesquisador Soares comprovara em sua investigação. Ou seja: para além das normas e regulamentos, há sempre – numa cultura de ação personalista, casuística – grande margem para manobra no momento de sua aplicação, de acordo com os interesses, visões de mundo e posicionamento do “infrator”. Assim travestida, essa “norma” permeia uma intrincada rede de relações que envolve tanto dependências e favores recíprocos, quanto preferências ou antagonismos pessoais (SOARES, 1988, p. 16-17).

Em depoimento a Silva, Celso Curi informa que, para defender-se, procurou o advogado do Grupo Folha, em virtude de a coluna ser publicada em veículo desse grupo. O profissional parece ter-se recusado: “Disse que não defendia ‘esse tipo de gente’” (SILVA, 1998, p. 83). A defesa foi realizada por um amigo de Curi, o advogado Luís Gonzaga Modesto de Paula, que sustentou a tese da historicidade da noção de “moral e bons costumes” e o fato de inexistir qualquer definição legal para aquilo que se deva entender enquanto tal.

O relato de seu advogado para a matéria de Trevisan no Lampião diz que a discussão central do processo sofrera modificação ao longo de seu andamento: saía da questão estrita de saber se a publicação da coluna atentava ou não contra a “moral e os bons costumes”, para julgar a prática homossexual em si. Isso fez com que ele modificasse a linha de defesa.

[...] Interroguei o escritor Ignácio de Loyola, uma das testemunhas de defesa e declarado leitor da Coluna. Perguntei se ele achava que uma coluna que tratava especificamente de homossexualismo pode, por si só, provocar ‘união de seres anormais’ – nas palavras da acusação – ou tornar alguém homossexual. Ignácio deu uma resposta interessante: a Coluna visa informar com humor; portanto, assim como as colunas de futebol não transformam os leitores em futebolistas nem as colunas policiais transformam os leitores em policiais, também a Coluna do Meio, ao falar sobre homossexualismo, não tem o condão de transformar os leitores em homossexuais. O mais curioso é que, no momento de ditar, o Juiz repetiu a frase de Ignácio de maneira distorcida: ‘a Coluna não tem o condão de transformar homem normal em homossexual’. Ou seja, o próprio juiz já definiu homossexualidade e normalidade como conceitos divergentes. (Sublinhei. PAULA apud TREVISAN, 1978, p. 7).

Modesto de Paula buscou demonstrar então que o simples fato de uma coluna jornalística baseada no humor burlesco também trazer a possibilidade de seus leitores se aproximarem por meio de cartas, não constituiria nada de grave ou perigoso moralmente, a uma porque não era conduta típica e, a duas, porque moral não é algo unívoco, estático, uniformemente percebido. Ao fazer ver que o desejo homófilo não se propaga por imitação, De Paula tentava que magistrado e procurador recobrassem a razoabilidade, visto que se tratava de uma dentre tantas peculiaridades pessoais presentes no universo humano que, ademais, não era criminalizada em nosso país. O modo como o magistrado refizera a fala da testemunha por um lado demonstra que o julgador partilhava da mesma visão de mundo que o Promotor de Justiça no que diz respeito à homossexualidade, ou seja, que práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo constituíam uma anormalidade. Por outro, põe a nu o modo pelo qual o campo judiciário, a pretexto de simples transliteração, reinterpreta, transmuta os depoimentos que são fornecidos no interior de seus procedimentos, pondo em risco não apenas o sentido do que é dito, mas, via de consequência, a solução final do litígio. Acuados pelo poder de que dispõe o juiz, vale dizer, pela possibilidade de retaliar em termos processuais em se sentindo contrariado, decorrente em muito de nossa tradição autoritária de exercício da autoridade, é comum tanto a testemunha quanto o advogado se absterem de oferecer reparos na forma pela qual o magistrado determina ao seu auxiliar o registro daquilo

que disse a testemunha. Essas peculiaridades do fazer judiciário teremos oportunidade de ver em detalhes quando do exame das fontes processuais, no capítulo final.

Nessa ocasião (presumivelmente março de 1978), Curi era de opinião de que já não havia mais nenhum sentido na existência de uma coluna exclusiva sobre homossexuais. Para ele, se acaso a coluna tivesse existido até aquele ano, “ela seria ridícula. Hoje [1978] não tem mais sentido ficar tratando dos assuntos de maneira exclusiva. [...] A luta dos homossexuais não pode ser fechada dentro de uma elite política. [...]” (TREVISAN, 1978, p. 7). Entendia ser necessário lutar, mas, de seu ponto de vista, naquele Brasil seria uma “coisa muito perigosa” a ideia de criação de movimentos reivindicatórios no país. Estávamos ainda dezessete meses antes da Lei de Anistia, sete da revogação do AI-5 e apenas a um mês após a declaração do general Pery Bevilacqua pedindo anistia ampla, geral e irrestrita e a criação do Comitê Brasileiro pela Anistia no Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 10 e 11 de março de 1978).

Curi parece partilhar a visão presente entre determinado setor das esquerdas, de que há prioridade nas lutas (“O brasileiro tem outros problemas prioritários”). Correto em sua percepção de que aos homossexuais das camadas mais subalternas a assunção pública de seu desejo reprovado produziria custos pessoais bastante mais elevados do que entre a parcela mais rica, ele atribui a esses custos diferenciados o fato da verticalização do “movimento” (“Talvez por isso o movimento tenda a ser de cima para baixo”), provavelmente o internacional, vez que no momento de sua entrevista existe apenas um único grupo ativista (o grupo Somos/SP) e o jornal Lampião para o qual dava entrevista a faria publicar em seu número zero experimental. No mesmo encadeamento de idéias Celso afirma que inexiste um movimento homossexual brasileiro: “Quando me perguntam pelo movimento homossexual no Brasil, respondo que ele não existe. Existe é uma movimentação homossexual, da boate para o taxi, do taxi para a sauna. No Brasil nem movimento de Manicure é possível [...] (CURI apud TREVISAN, 1978, p. 7). Na entrevista concedida a Cláudio Roberto da Silva, objeto de sua dissertação, defendida vinte anos depois daquela entrevista para o número zero de Lampião, Celso diz que se sentia sozinho para pensar o movimento homossexual naqueles tempos em que escrevera a Coluna do Meio. A saída que encontrara era fazê-lo através daquele espaço no jornal Última Hora de São Paulo, onde trazia notícias dos movimentos nos Estados Unidos e Europa.

Quase transcorrido o prazo de dois anos para se operar a prescrição e, via de consequência, a extinção do processo sem julgamento do mérito (a questão jurídica de fundo), o Juiz de Direito Regis de Castilho Barbosa, da 14.ª Vara Criminal da Comarca de São Paulo

Capital, proferiu a decisão. Absolvitória. Sua sentença, datada de 12 de março de 1979, fundamentava-se no entendimento de que

[...] a Justiça ‘não tem como escopo abrigar exigências extraordinárias de um pudor hipertrófico […] em virtude de princípios particularmente rígidos’. [… Na sentença, o juiz] Diz claramente que não é doutrinação o fato dos homossexuais ‘procurarem se impor como segmento estruturado dentro da sociedade’. Então, pergunta, por que ‘entender-se hoje como atentatório ao pudor público publicações de notícias em torno do homossexualismo?’ O Juiz insiste que o assunto, tratado em forma de notícia – como era o caso da Coluna – ‘Não contém o caráter de obscenidade que lhe quiseram atribuir’. [...] As conseqüências concretas são estas: na história da Justiça brasileira trata-se do primeiro processo onde o homossexualismo está envolvido como objeto de denúncia. E houve absolvição. (Lampião, n.º 11, abril de 1979, p. 3)

Não houve recurso.

A matéria de Trevisan e a dissertação de Silva não nos permitem saber se o juiz sentenciante foi o mesmo de quando da tomada dos depoimentos. Também não é revelada, na matéria de Trevisan, se o Promotor manteve-se no processo até o fim. De qualquer modo, como bem observou Soares, o Estado autoritário brasileiro não agia de forma uníssona, em bloco. Muitas ações de censura, perseguição, violência, se originavam “em minicentros de poder, obedeciam a interesses menores, locais e, até mesmo, pessoais das autoridades coatoras” (SOARES, 1988). Leila Míccolis (1983, p. 113), em suas memórias do MHB, ao relacionar as “publicações da ‘imprensa gay’”, faz referência a existência de outras colunas semelhantes à de Celso Curi, na mesma década de 1970, como a de “Glorinha Pereira, de Fernando Moreno, respectivamente nos jornais: Jornal de Copacabana (RJ), Diário de Notícias (RJ)”. O fato dela não fazer referência a que nenhum desses jornalistas terem sido alvo de ações de censura como Celso Curi parece reforçar a opinião de Soares.

Em que pese ao indisfarçado desejo de setores do regime em, eles próprios, a partir de suas visões pessoais, alargar o espectro do tipo penal para incluir as práticas homossexuais, condenadas mas igualmente acumpliciadas na esfera social, nem sempre o Judiciário deu validade a tais investidas.

Na interpretação de Trevisan, a absolvição de Celso Curi abria

[...] um importante precedente para defesa dos direitos homossexuais neste país. Os vários processos ou inquéritos ainda em andamento, pelo mesmo motivo – contra a revista Isto é, Lampião e Interview – contam desde agora com esse resultado em seu favor. Ou seja, daqui por diante continuaremos de

cabeça erguida, mas já tendo o respaldo da Justiça, a cada vez que voltarem a nos acusar de atentado à moral pelo simples fato de estarmos usando o

nosso corpo para o nosso prazer. (TREVISAN, 1979, p. 2) (Destaques do

original)

Ao que se tem registro, teria sido a primeira vez que a chamada grande imprensa brasileira abriu espaço para, sistematicamente, veicular notícias sobre esse segmento social, agora já integrante dos novos movimentos sociais.

***

Como foi possível perceber, os anos 60 e 70 do século passado no Brasil compõem época de múltiplas transformações, nos mais variados campos. A realidade concreta do fazer diário de tão diversos atores e demandas inviabiliza qualquer proposta explicativa esquemática. Tanto porque incapaz de dar conta de toda a série de deslizamentos, incongruências, paradoxos, ambigüidades, principalmente naqueles anos intensos, marcados tanto pelo terror, tortura e medo, quanto pelo profundo exercício da liberdade e da resistência, com múltiplas experimentações, (re)invenções e ocupação do espaço político por novos personagens (RIDENTI, 2000, p. 324-325).

Diante das restrições impostas pelo regime ditatorial, será para o cultural que convergirão as ânsias por participação, as críticas e as inovações. É fato que havia por um lado grande contingente de pessoas tradicionalistas, reacionárias, pouco afeitas às idéias mais democráticas e inclusivas, em curso na Europa e nos Estados Unidos. Esse segmento partilhava e defendia o modo de estruturação autoritário, condenando qualquer proposta de democratização efetiva como “comunização” do país. Mas, por outro lado, também existia uma parcela de jovens desencantados, voltados para si mesmos, disposta a concentrar suas energias no aqui e agora, vivenciando o máximo de liberdade e experiências possíveis. Em meio a esses dois polos, havia uma parcela crítica, consciente, desejante de transformações profundas na sociedade e no estado, ávida por protagonismo, que atuava onde e como podia e que colaborou de maneira determinante no processo de transformação em curso. Essas forças ativistas se mostravam presentes de diversas formas em locais e momentos distintos.

O privilegiamento do campo cultural, artístico, como o território potente, fez surgir diversificado acervo de instrumentos de combate, que dinamizaram a capacidade de opor resistência ao regime de exceção. Essa força propulsora, naquele contexto repressivo,

paradoxalmente encontrou seu agente de aglutinação na forma de um valor que foi, naqueles anos, intensamente reprimido, censurado, exaltado, testado e praticado: o prazer.

O prazer sensual, visceral, erógeno, tão interdito e tão mercantilizado. O prazer demolidor de poder rir à custa do outro todo-poderoso; de dar mostras de que, embora todo o poder a que se está submetido, resta ainda a possibilidade de negar-lhe vigência através do riso derrisório, desnudando-lhe os seus ridículos.

O artista, seja por meio da ironia fina e sutil, seja através da corrosão presente na caricatura, produz a sua desqualificação pública e renitente. Através do descrédito, o tirano perde a pompa de suas sisudas tiranias – elas são reposicionadas, pelo humor de combate, ao seu lugar de arbítrio e de violência (MINOIS, 2003, p. 460-465, 486). A tradição brasileira de mover-se através da ironia, da galhofa, sabota hierarquias, arbítrios; produz o esfacelamento de estruturas – aspectos que, em minha compreensão, parecem reforçar a hipótese de Wisnik, que aponta para a subjetividade. Nesse sentido, talvez melhor traduzisse essa característica se colocada sob outra forma: ao invés de “batalha pelo afeto”, como propõe Wisnik, talvez mais apropriado fosse dizer “batalha através dos afetos”.

Fernandes, analisando a história já consumada, radiografa: “Ora, não existe só uma transição, e esta também não é exclusiva ou predominantemente política. [...]” (FERNANDES, 1986, p. 10-11; 18-19. Itálico no original). Ele está certo. Melhor diria: não é exclusiva ou predominantemente política no sentido estrito e tradicional do termo. Ela é verificável em todos os setores da vida humana: jurídico, econômico, artístico, cultural – todos atravessados pela dimensão política em sentido lato, não institucional. E também não opera como num passe de mágica, por meio de um ou dois eventos em si mesmo considerados.

E isso ficou demonstrado a partir da documentação coletada e socializada por Luiz Mott e Luiz Morando, em relação ao movimento homossexual. Experiências de vocalização da concepção do desejo homossexual como prática tão legítima quanto a heterossexualidade e da discriminação enquanto opressão a ser estão presentes em nossa história muito antes da constituição do grupo Somos/SP e da edição do jornal Lampião da Esquina – fatos fixados na literatura como os fundadores do movimento homossexual brasileiro. Esses dois eventos tem sido comumente tratados na literatura especializada numa perspectiva dissociada de toda a vivência e reflexão que, ao longo dos anos, foi sendo construída e partilhada no interior dessas subculturas, nas diversas cidades do país, muito influenciados pela eclosão da segunda onda do movimento gay estadunidense.

emergência desses dois eventos a partir dos contatos de seus integrantes com o Gay Power durante o período de autoexílio e, daqueles que aqui permaneceram, com as publicações internacionais que tratavam do tema, no contexto da contracultura e das lutas pela redemocratização, em curso no pais. Nenhuma referência tem sido observada no sentido de contextualizar esses fatos – que indubitavelmente irão disseminar uma autopercepção