CAPÍTULO 2 HERÓI MORTO NÓS: ENTRE O ELOGIO E A AMEAÇA
2.5 A COLUNA EM BRANCO DA FOLHA E SUAS CONSEQUÊNCIAS
O desenrolar do caso mostra que as crônicas jornalísticas de Lourenço Diaféria dialogavam com um cenário mais amplo do que o próprio jornal, e que o pessimismo era recorrente nas visões acerca do governo. O processo em questão configura um interessante quadro para a compreensão da reabertura política iniciada na década de 1970. Enquanto o ministro do Exército a julgava como ofensa aos militares, exaltando também seu descontentamento com os rumos da política, a
Folha de S. Paulo utilizava-a para enfatizar um apelo diferente do de
outrora.
No dia seguinte à prisão do cronista, 16 de setembro, o jornal publicou a coluna de Lourenço Diaféria em branco, com apenas uma nota sobre a prisão (Figura 4). Era sua forma de protesto. Cabe lembrar que não foi apenas este jornal que reagiu à censura: o jornal O Estado de
São Paulo publicou trechos da obra de Camões, Os Lusíadas, no lugar
das matérias censuradas a partir de 1973; receitas culinárias estiveram no Jornal da Tarde pelo mesmo motivo95. Contudo, o ato da Folha não
se dava por uma matéria censurada nos moldes conhecidos, mas como forma de protesto específico contra a prisão do cronista.
O espaço vazio da coluna se tornou uma marcante atitude contra a repressão nos editoriais da Folha. O silêncio simbólico diante do ocorrido serviu como forma de apoio ao jornalista e também um meio de chamar a atenção do leitor para o acontecimento. Ao final do espaço em branco, uma nota da redação com a observação: “N. da R. – A crônica diária de Lourenço Diaféria deixa de ser publicada em virtude de o cronista ter sido detido às 17 horas de ontem, pela Polícia Federal, conforme noticiamos na primeira página” (FSP, 16/09/77).
A partir desta atitude, a relação com o governo, já delicada após a publicação de Herói. Morto. Nós, passou a ser mediada por ações mais agressivas do grupo de militares interessados em delimitar o discurso a ser divulgado ao público. Em História da Folha de S. Paulo, afirma-se que foi a maior crise do jornal desde o início da distensão, e que a proposta de publicar a coluna em branco vinha de Ruy Lopes. Em decorrência deste ato, houve a intervenção na redação do jornal:
95 Com certa semelhança, em 1973 o Jornal do Brasil, cujo editor era Alberto Dines, impedido de publicar uma manchete sobre a morte de Salvador Allende, deixou a primeira página com o espaço da chamada em branco, “ludibriando a censura e denunciando-a de maneira surpreendente” (CAPELATO, 1994, p.17)
A publicação da coluna de Diaféria em branco desencadeou uma pressão insuportável de Brasília. O general Hugo Abreu, chefe da Casa Militar de Geisel, e ex-comandante das forças de repressão às guerrilhas no Brasil Central (posteriormente dissidente do sistema, tendo-se bandeado para a oposição), deu um telefonema intimidatório a Octávio Frias de Oliveira, ameaçando suspender o jornal por um mês – o que seria praticamente mortal para o periódico – ou mesmo fechar a “Folha” (CAPELATO; MOTA, 1981, p. 235).
A partir do contato do general Hugo de Andrade Abreu, ameaçando a suspensão do jornal, Octávio Frias solicitou que Claudio Abramo pedisse demissão. Neste momento, o Secretário da Segurança, Coronel Antônio Erasmo Dias, já havia acusado o jornal de ter “elementos subversivos”. Quando ocorreu o processo contra o cronista, a Folha foi ameaçada de enquadramento na LSN, com suspensão inicial de trinta dias (JB, 21/09/77). O jornalista Mino Carta, em sua coluna no jornal Carta Capital, considera que o incômodo com a crônica esteve relacionado à reestruturação da Folha. Nesta compreensão do evento, o texto literário foi utilizado como motivo para o desencadeamento de uma crise dentro na empresa. Para Carta, o que incomodava era a “Folha de Claudio”, ou seja, as mudanças de perspectiva e a inserção da crítica, como a inclusão da fala de oposição, e a própria figura questionadora de Abramo (CARTA, 2012).
Figura 4 – Publicação da coluna em branco na Folha de S. Paulo.
Em 1988, no prefácio que escreveu para a coletânea póstuma dos textos de Abramo, Mino Carta relatou que Abramo e Frias tinham “uma estranha relação, tensa, conturbada, e, ao mesmo tempo, muito afetuosa” (ABRAMO, 1988, p. 12). Para Carta, esta relação e o desfecho com a saída do diretor em 1977 demonstravam que o jornal atuava como uma empresa e, por isso, os objetivos iam, majoritariamente, ao encontro da sua manutenção no mercado:
Os baronatos têm de ser liquidados, mesmo que se trate de derrubar os amigos. Os senhores vão em frente, às vezes sentindo-se vítimas, eles próprios, da razão superior. Em diversas oportunidades, eles experimentarão uma sensação de medo, ao desamparo da experiência do barão rebaixado ou demitido. Frias não deve ter maiores queixas dos seus jornais e tampouco dúvidas sobre o seu êxito empresarial. Sabe, porém, tudo o que deve a Cláudio Abramo (ABRAMO, 1988, p.12). Esta crítica evidencia o descontentamento de Carta com o modo como se encaminhava o jornalismo empresarial. As inovações postas por Abramo não poderiam ser negligenciadas, mesmo que a Folha conseguisse dar continuidade ao projeto após sua saída. No mais, considerava que os que trabalhavam com tal espírito crítico e conhecimento do campo jornalístico viviam uma “contradição brutal”. Afinal, tendo em vista que seu trabalho era “de fiscalizar o poder, de controlá-lo, de criticá-lo, de denunciar os seus abusos e mazelas”, teriam que considerar que “as empresas jornalísticas gravitam na órbita do poder, são o próprio poder” (ABRAMO, 1988, p.13).
Segundo o próprio Cláudio Abramo, o motivo de seu afastamento em 1977 foi decorrente de uma convergência de fatores. Como explicado anteriormente, ele já havia sido preso, e seu projeto para a
Folha de S. Paulo trazia temáticas que não condiziam, necessariamente,
com as ideias do governo, fosse por suas próprias convicções, fosse pelas mudanças desejadas por Frias. Embora acreditasse na necessidade de renovação de jornalistas na empresa, fora surpreendido com o pedido de demissão.
Estou convencido de que, nesse episódio, houve uma mistura de vários componentes. Um deles era a necessidade que o jornal tinha de abrir caminho
para o pessoal novo que vinha chegando, que no fundo também foi o que acontecera no Estado, e que é normal. Só achei ruim o Frias não ter discutido a questão comigo, pois eu teria compreendido perfeitamente. O general Silvio Frota, que era ministro do Exército do presidente Geisel, estava preparando o golpe. Se ele vencesse, eu seria fuzilado e Frias preso; e, se Frota tentasse o golpe e perdesse, o herói seria eu. De modo que a situação não interessava a Frias, de um jeito ou de outro. Pode-se dizer também que, no projeto de abertura, houve um acordo tácito entre os militares e os donos de jornais. Creio que eles não chegaram a falar no assunto, mas deve ter havido um entendimento implícito de tirar os chefes de redação que eram trouble- makers. Subitamente, num prazo de dois ou três anos, fomos quase todos eliminados. Jânio de Freitas já estava fora da direção, mas em sucessão saímos Alberto Dines, Mino Carta, eu (ABRAMO, 1988, p. 89).
Para ele, a relação entre a empresa e o Estado era próxima o suficiente para que a decisão de um repercutisse no outro. Em sua fala, há certa indisposição pessoal com os dois lados. Quanto a atitude de Frias, compreendia que foi um dos prejudicados pelo fato de o empresário ter buscado contornar a situação com os militares96. Foi em
decorrência desse episódio que, em 17 de setembro de 1977, Abramo foi substituído pelo jornalista Boris Casoy. Este apresentava efetiva participação na vida política, havia sido Assessor de Imprensa do ministro da Agricultura do governo Médici, Cirne Lima, e do prefeito de São Paulo, Figueiredo Ferraz.
96 Similar à demissão de Mino Carta da revista Veja, que começou sua trajetória com uma posição política contrária ao governo e, anos depois, tornou-se mais próxima do mesmo. Em sua coluna na Revista Carta Capital, o jornalista, naquele momento diretor de redação da revista, afirma que em fevereiro de 1976, Roberto Civita confessou que “o então ministro da Justiça (Justiça?) Armando Falcão pedia a minha cabeça como condição do fim da censura e de um empréstimo de 50 milhões de dólares pela Caixa Econômica Federal.”.
Carta Capital, 18/05/2012, disponível em
O Jornal do Brasil noticiou que a Folha havia cancelado os editoriais, que não mais emitiria suas opiniões e que Octávio Frias retirava seu nome do expediente dos periódicos da empresa, devido à crise após a publicação da coluna em branco. Colocava ainda que a
Folha “vem desgostando autoridades com a linha editorial imprimida
ultimamente”, cujo estopim havia sido a crônica de Diaféria. Comentava-se, a respeito dos bastidores do jornal, que Frias teria chamado todos os editores, junto com Alberto Dines e Ruy Lopes, diretores das sucursais do Rio de Janeiro e Brasília. Falou que substituiria Cláudio Abramo – reconhecendo-lhe como “um irmão” – e que Dines não publicaria mais aos domingos. Recomendava que escolhessem alguma sede no exterior para atuarem como correspondentes (JB, 21/09/1977, p. 26).
A publicação de Herói. Morto. Nós. tem papel secundário na narrativa do diretor que fora demitido. Abramo menosprezava a produção de Lourenço Diaféria, bem como teria afirmado anteriormente que um dos entraves do jornal antes da década de 1970 era o quadro de crônicas Prata da casa. Como era de se esperar, aquela crônica, mesmo com o apoio de muitos, não teve aceitação unânime na redação. No relato de Abramo, o processo decorrente da crônica foi apenas um pretexto para seu afastamento.
foi uma crise criada com a publicação de uma crônica de Lourenço Diaféria que o Exército julgou ofensiva à memória do duque de Caxias. Diaféria foi preso. Mas qualquer jornalista médio sabe que não se mexe com o duque de Caxias, e ele sabia disso. Minha interpretação é que ele agiu como provocar, ou foi manipulado. Por conta da publicação da crônica, colocou em risco um projeto muito maior. Por isso acho que agiu como provocador policial. (ABRAMO, 1988, p. 90) É notório certo ressentimento em relação ao cronista, afinal, o projeto maior que ele pôs em risco era justamente a mudança da Folha
de S. Paulo, que estava sendo encaminhada por Cláudio Abramo. Este
pareceu ignorar que o processo contra Diaféria foi além de suas implicações iniciais e abrangeu mais personagens e debates que sua saída da direção do jornal. Abramo deixava evidente o descontentamento com a publicação e sua indisposição com o cronista. O decorrer não foi diferente; sobre a publicação da coluna em branco, conta que:
(...) o jornal decidiu publicar a coluna em branco, numa reunião de que participaram Frias, seu sócio Carlos Caldeira Filho, Ruy Lopes e eu. Fez-se uma votação, na qual Frias, Caldeira e Ruy votaram a favor da coluna em branco. Eu me opus, votei contra, dizendo que eles não tinham nenhum tanque para resistir e fatalmente seriam forçados a recuar. Mas nessa altura eu já estava no chão. No dia seguinte, o general Hugo Abreu, chefe da Casa Militar de Geisel, ligou para o jornal e Frias pediu que me demitisse; e me demiti. Ele não me demitiu, pediu que eu o fizesse (ABRAMO, 1988, p. 90).
A publicação sem seu aval foi a justificativa para sua crítica a Lourenço Diaféria. Defender o cronista não era algo válido diante de sua perspectiva de não manter uma relação conflituosa com os militares, ideia que norteava a lógica da empresa jornalística. Percebendo-se como principal prejudicado – como Sylvio Frota, em outra esfera –, sua oposição à publicação da coluna em branco foi reiterada mesmo diante da polícia.
Dias depois, fui interrogado por um inspetor especial, na Polícia Federal, sobre a tal coluna de Diaféria. Expliquei que a coluna havia sido mandada para a oficina à minha revelia, e que eu não a publicaria, se tivesse sabido de seu conteúdo. E que, por mim, demitiria Diaféria, um cronista muito medíocre; ele tentou fazer algo que demandaria o talento de um grande escritor. Eu teria tirado a alusão ao Duque de Caxias, não porque ela não devesse ser feita, mas porque para isso seria necessário alguém que manjasse muito bem a língua, que manipulasse bem as palavras. O que não era o caso de Diaféria (ABRAMO, 1988, p. 90).
A reafirmação de seu descontentamento com a publicação de
Herói. Morto. Nós. serviria como aval diante dos policiais e
demonstraria seu ressentimento em relação a Diaféria. Chegava a adjetivá-lo como um “cronista muito medíocre” e com pouco talento para seu ofício. Em sua leitura, se o escritor tivesse mais habilidade, as
ambiguidades e críticas provavelmente não seriam tão evidentes como eram em suas crônicas, especialmente naquela. Posteriormente, Abramo foi convidado por Frias para trabalhar como correspondente em Londres, mas recusou, permanecendo no jornal como membro do Conselho Editorial, até sair, durante a greve dos jornalistas de 1979. Trabalhou com Mino Carta no Jornal da República e, ao final deste, aceitou o convite para morar na capital britânica.
Entretanto, o desencadeamento do processo com os militares acarretando em sua realocação dentro da Folha de S. Paulo, fazia com que além de considerar Lourenço Diaféria como uma figura pouco elogiável, analisasse sua própria participação na Folha de forma pessimista.
Se tivesse que repetir toda a experiência da Folha não o faria de novo, porque foi muito frustrante profissionalmente. Mesmo considerando que contribuí para a organização do jornalismo brasileiro e que, na Folha, ajudei um pouco a apressar o processo democrático, a experiência não foi boa (ABRAMO, 1988, p. 90).
Diante do ressentimento, Abramo não levava em conta as publicações correntes naquele período que incomodavam os militares ou mesmo o próprio acompanhamento da ação contra o cronista até a década de 1980. Seus embates com a publicação das crônicas, a impressão da coluna em branco e os arranjos que isso promoveu fizeram parte de uma narrativa em que a crônica e suas demais implicações apareciam como menores, secundárias.