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3. O ECLIPSE SOLAR DE 7 DE SETEMBRO DE 1858

3.2 A COMISSÃO PARA A OBSERVAÇÃO DE ECLIPSE DE 1858

O momento era mais que propício para se realizar uma expedição que

pudesse afirmar a competência do Brasil em organizar uma observação científica

astronômica. Haveria um eclipse total do Sol que passaria em território nacional,

relativamente próximo à capital do império e ainda por cima coincidiria com o dia em

que se comemora a independência do país: 7 de setembro. Nada mais simbólico.

No início de seu Relatório da Comissão do eclipse, Oliveira et al (1859,

p.419) diz:

A importancia scientifica da observação deste interessante phenomeno não

podia deixar de manifestar-se no Brazil, onde devera ser apreciada em

grande parte do seu território, e principalmente no Rio de Janeiro, que goza

da immediata influencia do alto Protector das sciencias, e possue já um

nascente observatório astronômico.

O Imperador D. Pedro II, citado neste trecho por Oliveira como o “alto

Protector das sciencias”, sempre foi tido como um grande incentivador das ciências,

em particular da Astronomia (HEIZER, 2005, p. 125-138).

Dessa forma, ao que parece pelo esforço pessoal de Candido Baptista e

interesse particular do Imperador Pedro II, formou-se uma missão, especialmente

destinada à observação do fenômeno.

O desenrolar dos eventos ligados ao eclipse total de 7 de setembro de 1858

pode ser acompanhado por uma leitura crítica minuciosa do “Relatório dos trabalhos

executados pela commissão astronomica encarregada pelo Governo Imperial de

observar na cidade de Paranaguá o eclipse total do sol que ahi teve logar no dia 7

de Setembro de1858”, redigido por Cândido Baptista de Oliveira e publicado na

Revista Brasileira – Jornal de Sciencias, Lettras e Artes, 18578

. Este relatório

também foi publicado em francês no Astronomische Nachrichten9, em 1859 e em

partes em alguns periódicos do Rio de Janeiro. Segundo Oliveira:

No dia 24 de Julho o Sr. diretor do observatório [Antônio Manoel de Mello]

apresentou ao Governo Imperial uma tabela de seis pontos da linha central,

os mais próximos da costa, e indicou o porto de Paranaguá como

apropriado para a observação do eclipse,visto que o Governo estava

deliberado a mandar uma commissão astronômica para esse fim.

Em 4 de Agosto teve-se conhecimento por meio de Mr. Emmanuel Liais

(astrônomo do observatório imperial de Paris, chegado da Europa a 29 de

.julho, em commissão scientifica) de um novo calculo do mesmo eclipse ,

feito por Mr. Carrengton, astrônomo inglez, fundado sobre as taboas lunares

de Hansen, recentemente publicadas na Europa; e comparando a linha

central determinada nesse calculo com a calculada pelo Sr. director do

observatório do Rio de Janeiro, achou-se ficar ella um pouco ao sul desta,

porem ainda no porto de Paranaguá; e por esta razão nenhuma alteração

se fez a tal respeito (OLIVEIRA, 1858, p. 427).

8

Embora se refira ao eclipse de 1858, na capa da Revista está o ano de 1857.

9

Em 28 de julho de 185810 desembarca no Rio de Janeiro Emmanuel Liais,

juntamente com sua esposa e vários instrumentos astronômicos na bagagem11, fato

noticiado nos jornais da cidade (Correio Mercantil, Diário da Tarde e Diário do Rio de

Janeiro), vindo de Paris, e com uma carta de recomendação do Ministro da Instrução

Pública da França como credencial. Liais, ao tomar conhecimento12 de que o

Governo Imperial brasileiro estava montando uma comissão para a observação do

eclipse, manifestou interesse de participar da missão de observação, pois já tinha

participado da observação do eclipse do Sol que ocorrera em 15 de março próximo

passado em Cherbourg13, França. O Imperador d. Pedro II convidou-o a participar da

comissão devido à sua reputação, por ter sido aluno de Arago (assim como Candido

Baptista) e de Urbain Jean Joseph Le Verrier (1811-1877), que o nomeou astrônomo

titular em 1856 e o condecorou com a Legião de Honra.

A maior parte dos artigos sobre a vinda de Liais e sua participação na

expedição informa que ele foi, ao chegar ao Rio de Janeiro, convidado a participar

da Comissão científica que estava seguindo para a Baía de Paranaguá, ou seja, sua

presença teria sido uma feliz coincidência.

Na verdade, Liais deixou o Observatório de Paris no início de 1858, após

forte desentendimento com Le Verrier, e com a desculpa de observar o eclipse solar

de setembro ele viajou para o Brasil, inicialmente às suas próprias expensas e

acabou ficando por aqui por quase 20 anos. Certamente, além de sua notável

carreira, o fato de ter sido discípulo de Arago contou a seu favor para angariar a

simpatia de Candido Baptista. É bem provável que Baptista já soubesse da vinda de

Liais e já estivesse contando com sua participação na Comissão. Embora ainda não

se tenha evidências concretas de que isto realmente aconteceu, existe uma boa

possibilidade de que a participação de Liais não tenha sido tão casual como se

10

Correio da Tarde, edição de 29/07/1858, p.4.

11 A ideia do que Liais desembarcou no Rio de Janeiro e então foi convidado a participar (BARBOZA, 2010) é

equivocada porque ele não teria trazido instrumentos e aparelhagens se não tivesse confirmada a sua

participação. Na observação Liais usou instrumentos que trouxe como polariscópios, espectroscópio, emulsões

fotográficas e quatro lunetas montadas paraláticamente num mesmo pedestal (LIAIS, 1858, p.787). Na

realidade, Liais veio em missão de observação encarregado pelo Ministro da Instrução Pública (FAYE, 1859).

12

Provavelmente informado por Candido Baptista que mantinha relações com os astrônomos do Observatório

de Paris, desde os tempos em que foi aluno de François Arago em 1825-1826. O artigo do Correio Mercantil

(Edição de 30/5/1858, p.1) confirma que Candido Baptista tinha contato com Faye, membro da Academia de

Ciências de Paris.

13 As observações foram mal sucedidas porque as condições do tempo no instante do eclipse eram muito ruins

pensa.

Outra forte evidência de que a chegada de Liais não foi mera coincidência

pode ser vista numa nota publicada no periódico Ceará, de 24 de julho de 1858

(Figura 3.4):

Figura 3.4: Texto sobre a chegada de Emmanuel Liais no Rio de Janeiro,

publicado no Ceará de 24/07/1858 (p.1).

Essa nota é, certamente, reprodução de notícia veiculada em algum

periódico da Corte, fato comum nos periódicos de outros estados. Como Liais

chegou no dia 28, uma informação tão detalhada sobre o equipamento que ele trazia

deixa claro que ele não veio para o Brasil sem um objetivo definido e essa

colaboração já havia sido previamente discutida. Ninguém faz uma viagem de

turismo carregando tal variedade e quantidade de equipamentos astronômicos de

precisão.

Em 4 de agosto, a comissão tomou conhecimento através de Liais, de um

novo cálculo da localização do eclipse feito por Richard Christopher Carrington

(1826-1875), astrônomo inglês, que mudava ligeiramente14 a posição da linha central

do eclipse15 quando comparada ao cálculo anterior.

Em 6 de agosto o Governo designou oficialmente a Comissão Astronômica,

composta pelos senador e Conselheiro do Império, Candido Baptista de Oliveira,

pelo conselheiro e coronel do Corpo de Engenheiros, Antônio Manuel de Mello

(1802-1866), na época diretor do Imperial Observatório do Rio de Janeiro (IORJ) e o

recém chegado, Emmanuel Liais. Contava ainda com a participação de quatro

oficiais do Exército, ajudantes nas observações, a saber: os capitães Francisco

Duarte Nunes, Bazilio da Silva Baraúna e Rufino Enéas Gustavo Galvão, além do

tenente Jeronymo Francisco Coelho, todos ajudantes do IORJ e com experiência

prática em observações astronômicas.