4 C ASUÍSTICA E M ÉTODO
6.4 A COMPANHAMENTO P SICOLÓGICO E O PROCESSO DE DECISÃO
Inicialmente, o acompanhamento psicológico pode parecer desencadeador de maior sofrimento, uma vez que a reflexão exige o enfrentamento da realidade, identificar os sentimentos, expor sensações, medos e, muitas vezes, lidar com outras situações angustiantes do passado. Além disso, exige que se entre em contato com a perda, minimizando a utilização de mecanismos de defesa como a negação, por exemplo. Posteriormente, propicia segurança, alívio e possibilita a elaboração do luto, que irá diminuir o sofrimento, após o término da gestação ou da interrupção da gravidez. Fica claro que não é possível evitar o sofrimento, mas que, quando pode ser expressado, no momento em que a dificuldade está ocorrendo, há possibilidade de conscientização, de escolhas adequadas e, conseqüentemente, de elaboração de luto, levando ao término do sofrimento, que não pode ser confundido com esquecimento de tudo aquilo que se viveu.
A dúvida inicial entre manter ou interromper a gravidez está diretamente relacionado à ambigüidade entre a vivência da gestação, e o diagnóstico de letalidade. Como conceber o dar a vida ao mesmo tempo em que se gera a morte? Une-se, nesse momento, a idealização do bem e do mal, do sucesso e do fracasso. Como escolher entre manter ou interromper a gravidez quando na verdade a escolha é entre morrer ou morrer? Pode-se realmente se falar em escolha? É verdade, existe uma escolha, mas não a que se desejaria, a de poder reverter o quadro da anomalia e da perda, a
escolha se dá com relação ao tempo, ao momento do morrer – agora, com a interrupção da gravidez, ou ao final da gestação.
A necessidade de se realizar o acompanhamento psicológico para a tomada de decisão, diante da possibilidade de interrupção da gravidez, é de fundamental importância, pois a opção pelo aborto nunca é processo meramente racional, que não acarretará ônus emocional. Ao contrário, essa opção sempre decorre da análise do que poderia vir a ser um mal menor: o acompanhamento psicológico permite auxiliar na reavaliação dos processos internos, favorecendo a expressão e a compreensão dos sentimentos, auxiliando na elaboração do luto, favorecendo o diálogo entre o casal79.
Os casais que se apresentam decididos a realizar a interrupção judicial por considerar que, nesse momento, a opção trará menor sofrimento, mas imaginam que a culpa será seqüela a ser carregada para sempre, precisam ser estimulados às reflexões, pois o aborto só propicia diminuição do sofrimento se essa opção se der de forma livre, sem o ônus da conseqüência psíquica.
Uma preocupação constante na avaliação desses casais, aliás, é justamente auxiliá-los a escolher algo que venha a minimizar o sofrimento e não aumentá-lo. Pressupõe-se, então, que aguardar o término da gestação é um tempo muito menor do que passar o resto da vida carregando culpa. Se os pais perceberem que irão sentir culpa, o melhor é aguardar o término da gestação, pois o resto da vida é tempo demais para se sofrer.
Quando os casais se colocam em dúvida quanto a realizar ou não a interrupção da gravidez, associando diretamente o aborto a uma ação em que eles estarão limitando a vida do próprio filho, não há o que refletir, pois não haverá como lidar com a culpa desse sentimento de homicídio. É importante que, no acompanhamento psicológico, o casal consiga perceber que não há como eliminar uma angústia tão profunda. Provavelmente, a interrupção da gravidez, nessas situações, acabe gerando conflito maior e por um período de tempo infinitas vezes mais extenso do que aguardar o término da gestação.
Quando a interrupção da gravidez é compreendida como uma “ordem médica” e há externalização da indignação quanto a essa atitude do profissional, o casal resolve não realizar o aborto. Outras vezes, há um desejo do casal de não precisar se responsabilizar por decisão tão difícil e acabam acreditando que se acatarem uma “ordem médica”, assim como quando da solicitação de um exame, eles estarão cumprindo o seu papel, sem questionamentos e a responsabilidade seria delegada ao profissional que o atendeu. Nesses casos, ocorre a falsa ilusão de que se minimizaria o processo de culpa que poderia ser acarretado pela vivência do aborto. Também ocorrem situações em que os casais procuram associar a malformação diagnóstica com risco de morte para a mulher. Essa compreensão também procura amenizar as responsabilidades no processo de decisão. Nesses casos, dois processos podem estar ocorrendo: o primeiro diz respeito à simbiose estabelecida entre mãe e filho – já que ele está em mim, faz parte do meu corpo, se está doente eu
também estou – ou ocorre simplesmente uma distorção inconsciente que visa facilitar o processo de decisão – não se trata de um aborto simplesmente, mas de salvar a vida da mãe, assim a opção se torna clara e legítima – interromper a gravidez. Essas situações precisam ser interpretadas, explicitadas para que o casal tenha consciência na hora de decidir o que pretendem fazer.
O que se espera é que seja possível que o casal consiga superar e elaborar esse momento difícil da vida. Esquecer sabe-se que jamais se esquecerá, mas o importante é que possam “olhar para trás e perceber que a ferida se transformou em cicatriz”. Por mais que se lembrem do que ocorreu, essas lembranças não deverão incomodar tanto, de forma que a pessoa consiga abordar o assunto sem reviver novamente as emoções experimentadas no momento em que tudo ocorreu. Considera-se, então, nesse momento, que o processo de luto foi finalizado.
Especial cuidado deve-se tomar no processo de reflexão já que a anomalia fetal diagnosticada não irá apresentar malformação aparente. O casal tem que conseguir imaginar que, após o parto ou a interrupção, irão encontrar um bebê aparentemente perfeito. A reflexão deve se dar em como acreditarão no diagnóstico se não conseguirão ver os problemas que foram diagnosticados.