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2.4 COMPETÊNCIA EM MATÉRIA AMBIENTAL

2.4.3 A competência dos Municípios em matéria ambiental

Uma importante inovação trazida pela CF/88 para a Federação brasileira foi a elevação dos Municípios à condição de entes federados. O constituinte destacou como Princípio Fundamental, no artigo 1º da CF/88 o pacto indissolúvel entre Estados, Distrito Federal e também os Municípios, esses até então nunca previstos como entes da federação.

Nesse aspecto, merece ser lembrada a lição de Souza (2009, p. 86), ao dispor que:

Com o novo delineamento atribuído pela Constituinte de 1988 e de acordo com o citado artigo 29, esse ente federativo detém a tríplice capacidade (norteadora da autonomia dos entes federativos): de auto-organização - através de suas Leis Orgânicas; de autogoverno - através de eleições próprias para os cargos do Poder Executivo municipal – Prefeito e vice e para o Poder Legislativo local – Câmara dos Vereadores, sem ingerência dos outros entes da federação; e o poder normativo próprio ou de autolegislação - mediante elaboração de leis municipais circunscritas às suas competências exclusivas e das leis suplementares previstas na Constituição Federal.

Uma vez reconhecidos como entidades fundamentais desse pacto indissolúvel, o artigo 18 da CF/88 dispôs que: “a organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos,

nos termos desta Constituição”. Vislumbra-se, portanto, que não existe uma relação de hierarquia ou subordinação, mas de colaboração.

Essa autonomia conferida pelo artigo 18, segundo Fiorillo (2013), permite a tutela efetiva da sadia qualidade de vida, posto que é no Município onde efetivamente vivem os cidadãos. Com efeito, reputa-se que o Município é o ente que possui as melhores condições para atender às necessidades locais de forma imediata, tendo em vista que o Brasil é um país de proporções continentais e de contextos diversificados.

Nesse sentido, a CF/88, em seu artigo 30, I, atribuiu a esses entes a competência para legislar sobre assuntos de interesse local. Fiorillo (2013) reconhece como locais, aqueles que atendem predominantemente às necessidades municipais, a exemplo de questões como serviço de coleta de lixo e fornecimento domiciliar de água potável.

Percebe-se, desse modo, que o Constituinte atribuiu importante relevo ao Município – especialmente em relação às matérias ambientais – ao conceder autonomia para legislar acerca de tais matérias, desde que observadas as diretrizes indicadas pela CF/88.

No plano infraconstitucional, o legislador também reconheceu o papel dos Municípios. A PNMA, a princípio, os incluiu no SISNAMA, por meio dos seus órgãos responsáveis pela gestão ambiental.

Ademais, a já citada LC nº 140/11, que disciplina a cooperação entre os entes em matéria ambiental, designou em seu artigo 9º que:

Art. 9o São ações administrativas dos Municípios:

I - executar e fazer cumprir, em âmbito municipal, as Políticas Nacional e Estadual de Meio Ambiente e demais políticas nacionais e estaduais relacionadas à proteção do meio ambiente;

II - exercer a gestão dos recursos ambientais no âmbito de suas atribuições; III - formular, executar e fazer cumprir a Política Municipal de Meio Ambiente;

IV - promover, no Município, a integração de programas e ações de órgãos e entidades da administração pública federal, estadual e municipal, relacionados à proteção e à gestão ambiental;

V - articular a cooperação técnica, científica e financeira, em apoio às Políticas Nacional, Estadual e Municipal de Meio Ambiente;

VI - promover o desenvolvimento de estudos e pesquisas direcionados à proteção e à gestão ambiental, divulgando os resultados obtidos;

VII - organizar e manter o Sistema Municipal de Informações sobre Meio Ambiente;

VIII - prestar informações aos Estados e à União para a formação e atualização dos Sistemas Estadual e Nacional de Informações sobre Meio Ambiente; IX - elaborar o Plano Diretor, observando os zoneamentos ambientais; X - definir espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos;

XI - promover e orientar a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a proteção do meio ambiente;

XII - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, na forma da lei;

XIII - exercer o controle e fiscalizar as atividades e empreendimentos cuja atribuição para licenciar ou autorizar, ambientalmente, for cometida ao Município;

XIV - observadas as atribuições dos demais entes federativos previstas nesta Lei Complementar, promover o licenciamento ambiental das atividades ou empreendimentos:

a) que causem ou possam causar impacto ambiental de âmbito local, conforme tipologia definida pelos respectivos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente, considerados os critérios de porte, potencial poluidor e natureza da atividade; ou

b) localizados em unidades de conservação instituídas pelo Município, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs);

XV - observadas as atribuições dos demais entes federativos previstas nesta Lei Complementar, aprovar:

a) a supressão e o manejo de vegetação, de florestas e formações sucessoras em florestas públicas municipais e unidades de conservação instituídas pelo Município, exceto em Áreas de Proteção Ambiental (APAs); e

b) a supressão e o manejo de vegetação, de florestas e formações sucessoras em empreendimentos licenciados ou autorizados, ambientalmente, pelo Município.

Nessa perspectiva, depreende-se que não resta dúvida acerca do relevante papel que os Municípios assumiram na preservação ambiental, sobretudo após a promulgação da CF/88. Ademais, observa-se que a LC nº 140/11 também designou um rol de ações administrativas cabíveis ao ente municipal. Com efeito, verifica-se que é no município onde os cidadãos residem e a ele, consequentemente, cabe solucionar de forma imediata problemas ambientais corriqueiros como a gestão de resíduos sólidos e o tratamento da água, buscando assim, a sadia qualidade de vida dos seus munícipes.

3 POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS

Verifica-se que a Revolução Industrial, importante marco da história, transformou a sociedade como um todo e não atingiu somente os processos produtivos, mas aspectos sociais e econômicos bem mais profundos e com reflexos no mundo inteiro.

Nesse lume, importante frisar os ensinamentos de Fiorillo (2013), ao dispor que a partir da modernização das indústrias e a consequente dinamização da sociedade, as cidades passaram a se tornar mais atrativas ao homem, o que desencadeou uma das principais transformações sociais do século XX: a urbanização. Os indivíduos, que até então sobreviviam precipuamente da agricultura e da manufatura, passaram a procurar as cidades, em razão da quantidade de empregos e das condições de moradia.

Ocorre que, apesar do reconhecido progresso, constata-se que o fenômeno da urbanização ocorreu de forma desigual e desordenada, como aponta Fiorillo (2013). Devido à falta de planejamento, o crescimento das cidades originou diversos problemas de ordem social e ambiental.

Nessa perspectiva, considera-se a produção excessiva de resíduos sólidos um dos principais problemas enfrentados na atualidade em razão da grande concentração urbana. De acordo com Fiorillo (2013), o lixo está inserido no fenômeno da urbanização, prejudicando o meio ambiente e a sadia qualidade de vida dos grandes centros.

Além do crescimento desordenado das cidades, destaca-se outro fator para a produção excessiva de resíduos sólidos: a sociedade de consumo. Nesse sentido encontra-se também o pensamento de Bechara (2013), ao ressaltar que a sociedade atual está centrada no consumo em larga escala de produtos industrializados de baixo valor agregado e na valorização do imediatismo, em que tudo é descartável.

Quanto a esses aspectos, merece ser lembrada a lição de Fiorillo (2013, p. 370), ao afirmar que:

Esses fatos, associados aos problemas econômico-sociais dos grandes centros urbanos, agravam as condições de vida nestes com a contínua degradação do meio ambiente, trazendo implicações à saúde e deteriorização dos serviços e do próprio tratamento dos resíduos sólidos. Além disso, a má distribuição do parcelamento e ocupação do solo urbano constitui fator de depreciação da qualidade de vida

Percebe-se, desse modo, uma tendência de exploração irracional dos recursos naturais não renováveis, a fim de satisfazer os anseios consumeristas do homem e como consequência dessa produção em massa, constata-se uma intensa produção de resíduos sólidos que não possui a destinação adequada. Trata-se de um fenômeno inevitável do cotidiano, fruto da atividade diária não só de residências, mas também das indústrias e da atividade comercial e que têm crescido significativamente nas últimas décadas.

De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, a ABRELPE (2009), a geração resíduos dos sólidos urbanos (RSU) no Brasil intensificou-se no ano de 2009 – ano anterior à publicação da Política Nacional de Resíduos Sólidos em 2010. Conforme aponta a pesquisa realizada pela ABRELPE (2009), quase 07 (sete) milhões de toneladas de RSU não foram coletadas no ano de 2009 e, certamente, tiveram destinação indevida.

Quando comparado a 2008, o ano de 2009 registrou um crescimento de 6,6% na geração

per capita de RSU, ao passo que o crescimento populacional no mesmo período foi de apenas

1%, o que demonstra o aumento significativo de resíduos descartados (ABRELPE, 2009). Diante dessa realidade de dados alarmantes, verifica-se que a produção de RSU tornou- se um motivo de preocupação, tendo em vista que o seu manejo indevido provoca a poluição em seus mais diversos aspectos: visual, dos solos, do ar e da água; bem como a proliferação de doenças e a ocorrência de enchentes e entupimento das redes de drenagem.

Nesse sentido, frise-se o entendimento de Bechara (2013, p. 02), ao afirmar que:

Esses aumentos são motivos para preocupação e conscientização de todas as esferas sociais a fim de solucionar as questões que envolvam a temática. Assim, a preocupação com os resíduos não é uma questão regionalizada, é sim, universal, globalizada e vem sendo discutida há algumas décadas nas esferas nacional e internacional.

Trata-se, portanto, de um problema urbano com impactos diretos no meio ambiente e na sadia qualidade de vida da população, uma vez que, nos termos do artigo 1º da Resolução nº 01/86 do CONAMA, considera-se impacto ambiental:

Art. 1º - Para efeito desta Resolução, considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matérias ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam:

[...] omissis

III - a biota;

IV - as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V - a qualidade dos recursos ambientais.

Insta salientar, outrossim, o pensamento de Bechara (2013), ao afirmar que se trata de um problema que não possui reflexos meramente regionais, mas que atinge proporção universal. Verifica-se, nessa perspectiva, que representa uma questão globalizada, discutida há algumas décadas no Brasil e no mundo. Diante esse cenário, surge para o Direito o papel de regular a matéria, editando regras para uma melhor gestão dos resíduos sólidos, a fim de restabelecer o equilíbrio e o bem estar social.

Conforme assevera Pereira (2016), no âmbito internacional, a Alemanha se destaca como precursora sobre o tema, seguida de países como França, Espanha e Estados Unidos, que desde 1980 passaram a reconhecer a importância da gestão de resíduos sólidos, regulando a matéria em dispositivos legais. Enquanto alguns países já disciplinavam a gestão de RSU, no Brasil, a questão não parecia ser tão urgente, em razão da grande oferta de espaço territorial do país.

Observa-se que somente em 2010, após 21 anos de discussão no Congresso Nacional, foi aprovada a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) brasileira, a Lei n.º 12.305, de 02 de agosto de 2010, depois regulamentada pelo Decreto nº 7.404, de 23 de dezembro de 2010, que instituiu o Comitê Interministerial da Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Comitê Orientador para a implantação dos Sistemas de Logística Reversa.

Conforme assevera Bechara (2013), em razão do amplo tempo de discussão da lei nas casas legislativas, a PNRS representa um dispositivo suficientemente desenvolvido, considerado um marco regulatório no ordenamento jurídico brasileiro. Representa um novo cenário no Brasil, pois incorpora princípios, objetivos e diretrizes inovadores na gestão e destinação de resíduos sólidos no país, dando novos rumos à discussão sobre o tema.

Na lição de Bechara (2013), destaca-se como principal novidade a ação integrada que contempla a elaboração de planos de gestão dos resíduos em todos os entes da federação, os quais devem apresentar metas para a redução, reutilização e reciclagem. O objetivo principal consiste em reduzir a quantidade de rejeitos destinados a aterros sanitários, e, quando for necessário, que seja feito de forma adequada e em aterros devidamente licenciados.

Decerto, o entendimento mais moderno e democrático indica a ideia de uma responsabilidade não só do poder público, mas de todas as pessoas físicas, jurídicas – de direito público e privado – e também das entidades do terceiro setor pelo correto tratamento dos resíduos sólidos urbanos.

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