2 COMPETÊNCIA INFORMACIONAL: CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS
2.3 A competência informacional e o ensino superior
Desde suas origens, o ensino superior objetiva criar, transmitir e disseminar conhecimentos. Como, atualmente, o conhecimento e a informação podem ser considerados insumos estratégicos nos processos que regulam a sociedade contemporânea, as universidades assumem também um papel central e fortalecido à relevância da educação universitária, ou seja, refletem o funcionamento da sociedade, são consideradas uma
instituição social e acompanham as transformações sociais, econômicas e políticas desta mesma sociedade. Assim, um dos seus principais desafios é o de trabalhar com novos pa adig asàedu a io aisàeàpedag gi osà ueàp opi ie à [...]àaàfo aç oàdeài di íduosà ujaà interação criativa com a informação os leve a construir conhecimento. (BERNHEIMUM; CHAUÍ, 2008, p. 34). Logo, algumas das missões fundamentais da universidade são auxiliar o aluno a se desenvolver ao logo de sua vida, por meio da perspectiva aprender a aprender, desenvolver as suas habilidades intelectuais, o seu pensamento crítico, a sua ação profissional e o seu fortalecimento como cidadão e membro de uma sociedade. Nesse sentido, a promoção da Competência Informacional pode ser um componente colaborador fundamental, ao potencializar conhecimentos, atitudes e habilidades na comunidade acadêmica, auxiliando a compreender quais os tipos e as formas de informação disponíveis, o modo de encontrá-la, avaliá-la e usá-la de forma eficaz e ética (ACRL, 2000; BADKE, 2010).
O desafio é exatamente o de promover a Competência Informacional dentro do ambiente acadêmico. Todavia, incorporar a Competência Informacional em currículo, programas, serviços em diversos âmbitos dentro da universidade exige comprometimento de diversos setores e profissionais, como os bibliotecários, os professores e os administradores.
A consciência da importância do processo de Competência Informacional, e da integração multiprofissional para empreendê-la, é algo confirmado, em especial pelos docentes e bibliotecários, mas na prática ainda é necessário desenvolver uma integração mais clara e sistemática para que o processo realmente tenha resultados satisfatórios ou simplesmente ocorra (SAUNDERS, L., 2012).
Segundo Badke (2010), a Competência Informacional ainda não tem um tratamento sério e comprometido dentro das universidades se comparada com a sua importância no desenvolvimento educacional e na relação com a sociedade de modo geral. Para o autor, a Competência Informacional ainda permanece invisível no ambiente universitário. Apesar de confirmada a sua importância, na prática, ela tem sido promovida dentro de muitas universidades mundo afora, por meio de curtas sessões de orientações desenvolvidas pelas bibliotecas universitárias. Ademais, o autor destaca como pontos conflitantes: a falta de recursos e apoios administrativos para desenvolver ações e/ou programas de Competência Informacional; a falta do comprometimento dos docentes em ceder tempo de suas disciplinas para melhorar a Competência Informacional de seus alunos ou de envolver
bibliotecários na elaboração e prática de seus cursos; a falta de reconhecimento de estudiosos do ensino superior para a temática da competência Informacional, que ainda não tem tanta abrangência dentro das principais publicações que discutem a educação universitária; as suposições equivocadas sobre os estudantes e a tecnologia, em especial, sobre o mito de que a capacidade de utilizar um recurso tecnológico habilita o indivíduo no uso adequado da informação; a crença que o indivíduo pode adquirir as competências para o trato informacional, em especial a pesquisa, por meio da experiência, ou a tentativa e erro; a falta de reconhecimento da capacidade de educar do bibliotecário e a falta de confiança nos sistemas de avaliação do ensino superior para exigir mais eficiência e efetivar a presença da competência Informacional nos currículos. As avaliações de Badke (2010) partem da observação do ensino superior americano, mas podem e devem ser estendidas à realidade brasileira e latino-americana. Tal estudo demonstra que a questão da Competência Informacional, apesar de reconhecida no ensino superior, deve ser realmente aplicada.
No contexto de instituições universitárias ibero-americanas, a situação é confirmada por Uribe-Tirado (2013). O autor desenvolve um marco teórico-conceitual que contempla 4 categorias de incorporação da Competência informacional por parte das bibliotecas universitárias. A seguir, no Quadro 4, sintetizamos a divisão proposta por Uribe-Tirado (2013):
Quadro 4 – Níveis de incorporação da Competência Informacional, segundo Uribe-Tirado (2013).
Fonte: Uribe-Tirado (2013).
O estudo de Uribe-Tirado (2013) conclui que das 2736 bibliotecas universitárias avaliadas, apenas 171 possuem ações efetivas para o desenvolvimento da Competência Informacional, ou seja, há a classificação nos níveis 2 e 1. O restante se enquadra em instrução bibliográfica e/ou formação de usuários e, como disse Badke (2010), realizam curtas sessões de orientações desenvolvidas pelas bibliotecas universitárias.
Segundo Santos, Gomes e Duarte (2014), a biblioteca universitária é um ambiente que deve constantemente reavaliar as suas atividades para estar sempre em sintonia com as necessidades de sua comunidade usuária. Dessa forma, deve ser um espaço ideal para as ações que propiciem o desenvolvimento da Competência Informacional e de mediação da informação. Essa tem o dever de ser u à e dadei oà o ga is oà i o àe,àpo à o segui te,àoà espaço ideal para a aplicação.
Com o intuito de amenizar os problemas mencionados por Badke (2010), por meio da realização de ações ou de programas adequados de Competência informacional, as
bibliotecas universitárias podem e devem se utilizar de boas práticas e modelos elaborados por autores ou associações. Citamos, como exemplo, as categorias elaboradas pelo Institute
for Information Literacy da ACRL (2003a, 2003b). No documento intitulado Characteristics of Programs of Information Literacy that Illustrate Best Practices: a Guideline há a apresentação
de boas práticas em Competência Informacional desenvolvidas por instituições de ensino superior internacionais e há a categorização dos elementos que devem ser observados no planejamento e na execução de programas de Competência Informacional, no âmbitos das bibliotecas universitárias:
Categoria 1 - Missão: adotar um conceito de Competência Informacional, definir uma diretriz e refletir o perfil da instituição, as contribuições e os benefícios esperados, reavaliando-se constantemente;
Categoria 2 - Metas e objetivos: os programas devem estar em consonância com a missão, as metas e os objetivos da instituição; precisam estabelecer resultados passíveis de mensuração e avaliação, articular a integração do programa de competência com os programas dos cursos da instituição e ser avaliados e revisados periodicamente;
Categoria 3 - Planejamento: é a etapa que articula e organiza a missão, as metas, os objetivos e a fundamentação pedagógica do programa; além de planejar os recursos (humanos, tecnológicos e financeiros) e estabelecer o processo de avaliação que será realizado;
Categoria 4 - Apoio administrativo e institucional: é necessário garantir o apoio da instituição, identificando e estabelecendo legislações específicas, lideranças e responsabilidades, recursos e instalações, bem como oportunidade de aprendizagem;
Categoria 5 - Articulação com o plano de ensino: o programa deve ser formalizado e incluído nos planos de ensino das instituições;
Categoria 6 - Colaboração: deve ser propiciada a colaboração entre os professores, bibliotecários e demais membros da instituição, para o planejamento, execução, acompanhamento e avaliação do programa;
Categoria 7 - Pedagogia: observa o apoio aos diversos planos de ensino das disciplinas, o uso de recursos e tecnologias adequados, além de abarcar o pensamento crítico e reflexivo e os estilos de aprendizagem múltiplos;
Categoria 8 - Pessoal: define a equipe transdisciplinar necessária para desenvolver as atividades do programa, de seu treinamento, da avaliação e do desenvolvimento permanentes;
Categoria 9 - Extensão: consiste na divulgação ativa dos cursos à comunidade institucional por meio de canais formais e informais;
Categoria 10 - Avaliação: consiste em verificar se as metas e objetivos do programa foram alcançados, determinando os efeitos e as transformações que os programas proporcionam para a instituição, para seus membros e, principalmente, para os usuários.
Quando pensamos nas atribuições dos bibliotecários com relação à Competência Informacional, no contexto universitário, observamos que essas iniciam-se com a atitude do profissional bibliotecário de adotar como própria a causa da Competência Informacional, incorporando no seu dia-a-dia a necessidade de atualização constante e o desejo de aprender continuamente, em diferentes ambientes e com pessoas diversas (DUDZIAK, 2007, 2008; VITORINO, 2007).
O bibliotecário deve privilegiar as atitudes de pesquisa e de buscas criativas. Além disso, ele deve ser um facilitador, com postura flexível, coadjuvante do processo cognitivo do usuário e do uso dos recursos intelectuais de cada envolvido, mas sempre mantendo a postura ativa e altiva de um agente educacional e informacional. Tal postura deve estar fundamentada em teorias e práticas da Ciência da Informação e áreas afins, incorporando diferentes espaços de aprendizagem e de produção de conhecimento.
O bibliotecário deve se esforçar para que o projeto de mudança (seja ele pedagógico e/ou empresarial) tenha a sua importância reconhecida dentro da instituição. Para isso, ele deve se valer de um planejamento bem estruturado, das estratégias de gestão da mudança destacadas e propostas em nosso estudo, das parcerias e de planos de marketing, além de ter objetivos claros e metas bem definidas. Deve, ainda, servir-se da transdisciplinaridade, que é um marco para a Competência Informacional, e promover a cooperação de sua equipe com uma equipe multidisciplinar (por exemplo, educadores e lideranças), criada para a
aplicação da proposta. Por fim, o profissional deve reconhecer que as melhores práticas são construídas no decorrer do processo e, por isso, deve trabalhar com afinco na avaliação constante e no controle do processo, que precisam estar em sintonia com o seu espaço de atuação e com o perfil de sua comunidade usuária.
Quanto ao papel da biblioteca universitária e do profissional da informação, é necessário assumir com mais afinco o discurso da Competência Informacional, reconhecer o valor de sua interferência e o desempenho decisivo do usuário como ator central do processo. Desse modo, será possível delinear papel social do usuário, sua responsabilidade e conhecimento, aproveitando que esse tem a ferramenta para o uso adequado e eficiente de um dos insumos de poder da atualidade: a informação.
Como descrito na Declaração Mundial sobre Educação Superior (Paris – 1998), as universidades devem assumir um compromisso e exercer todas as suas funções, vinculadas ao ensino, à pesquisa e à extensão, dentro de uma dimensão ética (BERNHEIMUM; CHAUÍ, 2008). Logo, as ações vinculadas à Competência Informal não ficam excluídas. Observemos a discussão na seção 2.4 a respeito do desenvolvimento da dimensão ética da Competência Informacional.