1.1 Vozes autorais
1.1.5 A compilação de artigos dispersos: Le monde extérieur
No conjunto de publicações da obra de Marguerite Duras, percebemos certos títulos cujos gêneros situam-se no limiar do que (geralmente) atribuímos o adjetivo “literário”. São entrevistas: Les Parleuses (1974), Les Lieux de Marguerite Duras (1977) e a parte final de Le camion (1977); textos explícitos sobre sua vida privada: La pute de la côte normande (1986), La vie matérielle (1987) e a primeira parte de Écrire (1993); e compilações de textos dispersos publicados em diversos veículos: L’été 80 (1980), Outside: Papiers d’un jour (1981), Les yeux verts (1987) e, por fim, Le monde extérieur: Outside 2 (1993), organizado por Christiane Blot-Labarrère, composto sobretudo por prefácios ou por artigos recuperados de jornais e de revistas, produzidos entre os anos 60 até os anos 90.
Justamente por não estar entre os trabalhos ficcionais de Duras, Michelle Royer (2001) vê a necessidade em distinguir Le monde extérieur como “paraliteratura”, situando-o para fora do que comumente se considera como sendo do âmbito próprio da literatura. Portanto os textos paraliterários, ao mesmo tempo em que são considerados fragmentos que escapam, constituem-se enquanto uma parte complementar ao conjunto da obra durasiana, como reconhece a organizadora no prefácio (cf. BLOT-LABARRÈRE in DURAS, 1993b, p.7). Paulo de Andrade lembra que, mesmo esses textos situados no limiar do literário, “passam a compor, indiscriminadamente (digamos assim), a obra da autora, figurando em sua lista de livros” (ANDRADE, 2010, p.122). Ainda que se coloque como plausível tal distinção entre o propriamente literário e o paraliterário em relação aos artigos de Le monde extérieur e a sua obra ficcional, os textos de Marguerite Duras que facilmente são chamados de literários recorrem tanto ao caráter metalinguístico através (inclusive) do autocomentário quanto ao discurso autobiográfico: portanto, em um certo sentido, esse conjunto identificado enquanto composto por textos paraliterários não estariam tão distantes do modo com que Duras se
dedica à sua escrita. Pelo contrário, tais textos convertem-se em saídas para que a escrita durasiana extrapole outras possibilidades para a linguagem.
O título Le monde extérieur remete a um espaço supostamente real e neutro, situado além das subjetividades, em que os fatos – sejam as histórias cotidianas ou a História – vividos coletivamente, pudessem ser compreendidos de modo objetivo e imparcial. Assim, o sujeito assumiria a possibilidade de uma experiência de apagamento de sua subjetividade para observar e compreender o mundo que lhe é exterior, voltando-se para a experiência nua da linguagem em que nenhuma verdade se impõe. Ainda assim, visto que o sujeito volta-se para a linguagem que o constitui, ele continua sendo centro e parâmetro de referência. Tal perspectiva é corroborada por Michel Foucault (2011, p.228), para quem todo o discurso reflexivo reconduziria a experiência do exterior à dimensão da interioridade, reconciliando-a com a experiência do vivido. A linguagem, portanto, não é compreendida como representação do mundo, mas é o mundo que se torna compreensível a partir da linguagem.
Nesse sentido, Duras admite em um de seus artigos não ter objetividade (DURAS, 1993b [1987], p.112)23, ou de outro modo, Dominique Denès (2005, p.209) reconhece que quando o interesse de Duras volta-se para a realidade, é para entrelaçá-lo com a ficção. No livro abordado, estão reunidos artigos sobre literatura, cinema, teatro – a respeito de sua própria obra e também sobre expressões de outros artistas – além de fotografia, pintura, política da França e política internacional. Sua escrita carrega peculiaridades que lhe são próprias, seja pela abordagem que faz, seja pelo desenvolvimento de seus argumentos. Em um de seus artigos de opinião, por exemplo, ao retomar uma entrevista que realizou com o então presidente da França, François Mitterrand (aliás, seu amigo desde quando o escondeu durante a Resistência à invasão nazista em território francês), Marguerite Duras contra-argumenta seu entrevistado e privilegia em seu texto o seu próprio contra-argumento:
Cela se passe à propos de Reagan, au début de l’entretien avec François Mitterrand. / François Mitterrand me dit que pour Kadhafi « quiconque nuit à l’unité arabe est un traître ». Et je réponds: « Reagan n’est pas arabe, il ne peut pas être un traître. » C’est ce qui s’est passé, ces deux phrases (DURAS, 1993b [1986], p.76)24.
No artigo, publicado originalmente no L’Autre Journal/Hebdo, nº 12, em maio de
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Em relação aos artigos que compõem Le monde extérieur, indicamos entre colchetes as datas originais de publicação, conforme consta na própria compilação.
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“Isso se passa à propósito de Reagan, ao início da entrevista com François Mitterrand. / François Mitterrand disse-me que, para Kadhafi, “quem quer que traga trevas à unidade árabe é um traidor”. E eu respondo: “Reagan não é árabe, ele não pode ser um traidor”. Foi o que se passou, essas duas frases” (versão em português : tradução nossa).
1986, Marguerite Duras, enquanto articulista, intervém na resposta do entrevistado – o Presidente francês – como que buscando corrigir o argumento citado. A voz autoral de Marguerite Duras, ainda nesse recorte de intenção não-ficcional extraído de Le monde extérieur, assume a performance de representação da imagem de si mesma, uma imagem que busca transcender as fronteiras do vivido e da criação, do biográfico e do ficcional. Sem dicotomias estabelecidas entre o real e o imaginado, sua voz autoral exprime, de acordo com Christiane Blot-Labarrère (2005, p.40), um egocentrismo colossal ao dar sentido aos seres e às coisas à sua volta, por exprimir uma única realidade, o universo do texto. A dimensão ética implicada no texto se manifesta pela reafirmação com que a voz discursiva apresenta o que se passou como estratégia de atestar a veracidade do diálogo, mas também, oportunamente, por apresentar a sua intervenção na fala do presidente.
O respaldo do escritor como crítico suscita um profícuo debate. Marguerite Duras, na sua versatilidade, contesta e expõe-se à contestação, tanto dentro como fora do campo literário e artístico. Ela mesma se questiona a respeito do instituído das instituições, explicitando as relações de interesse ao interior dos campos sociais. Através da ótica do escritor, algumas afirmações acabam não indicando propriedades objetivas, mas sim a atitude do crítico para com o seu objeto, expondo portanto valores (estéticos, morais, ideológicos). Tal reunião de artigos indica um projeto de busca pela totalidade da escritora e de sua obra, enquanto se recorre inclusive, como é o caso, a textos paraliterários de Marguerite Duras, ainda que tal conceito revele-se problemático no tocante ao conjunto de sua obra. A organização dos textos dispersos de certa forma representa o arquivamento de suas inquietações sobre o exterior. E a própria modernidade, através da textualidade autorreferencial e metacrítica, talvez permita que se possa ler os artigos de Le monde extérieur e de outros textos paraliterários de Duras como genuinamente inclusos dentro do conjunto de textos literários.