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2 RITUAL DA BENZEÇÃO: É ASSIM QUE SE REZA EM CRUZETA

2.6 O RITUAL EM DOMICÍLIO

2.6.2 A complementaridade na busca da cura: o tratamento com a rezadeira

Em Cruzeta, acompanhei também a rezadeira Barica em atividades domiciliares. Há, porém, um caso em específico que pretendo descrever em detalhes por entender ser de grande relevância para enriquecer as discussões que estão sendo elaboradas neste texto. Trata-se do ritual de cura de uma cliente pós-operada para a retirada de cálculo biliar, popularmente conhecido como “cirurgia de vesícula”. Maria Lúcia é uma grande amiga, e foi quem apresentou-me no ano de 2002 à maioria das rezadeira da cidade. Portanto, foi uma informante preciosa e que agora contribuiu para que eu pudesse acompanhar a rezadeira Barica durante sua cura. Na verdade, quando ela chegou do hospital pediu-me para eu dizer a esta rezadeira que fosse até à sua casa para rezar. Como nesta época eu estava realizando a etnografia da prática da sua reza, dei o recado e no final do dia fomos à casa da enferma.

De acordo com a rezadeira já se tornou rotina ser chamada para rezar em pacientes que realizaram cirurgias. No caso desta cliente, antes de passar pelo procedimento cirúrgico foi se rezar para que tudo ocorresse bem durante o ato. É uma outra possibilidade de obtenção de cura, desta vez através do fortalecimento da fé. Pois, como afirmou a cliente, ela tem muita fé na reza de Barica e queria saber o que a rezadeira tinha a dizer, se deveria fazer a cirurgia ou não.

Figura 23 - Barica rezando uma cliente recém operada

Ao chegar, a rezadeira foi ao quarto onde se encontrava a cliente deitada sobre a cama. Perguntou como tinha sido a cirurgia e que ela havia rezado para que ocorresse tudo bem. Lembro-me que a cliente queixava-se de muita dor na incisão da cirurgia. Em seguida, Barica retirou-se e foi até o quintal e colheu uns raminhos do pé de graviola. Sentou-se ao lado da cama, fez o sinal da cruz e deu continuidade ao ritual. Após rezar, alertou-a para que não fizesse esforço físico, pois podia forçar a área do “corte” e causar uma rotura (hérnia). Chamou a atenção para isso porque uma outra cliente fez esta mesma cirurgia e foi pegar em peso e criou no local da cicatriz um caroço que teve de ser retirado novamente.

Durante este período, observei que os clientes atribuíam uma capacidade de vidência à rezadeira: “Barica, quero que você veja para mim”; “eu vim aqui para você ver se vai dar certo eu viajar; se aquela pessoa com quem estou é a pessoa certa, se aquele emprego vai sair”, assim por diante. Segundo a rezadeira, no momento que abre a oração, ela vê tudo que se passa com o cliente:

A oração quando você abre é como se fosse abrindo uma mala. Aí, você ver tudo que tá acontecendo com aquela pessoa. É uma coisa que já vem na mente, você trabalha com a mente. Quando chega em cima, já percebe erro. Ali você já compreende o que tá dando certo e o que tá dando errado. Você vai catando nas carnes, o corpo daquela pessoa todinho, como se fosse catando feijão. Ali você conhece que a pessoa não tá bem. Quando eu vejo que a reza é pra mim eu continuo, mas quando vejo que não é pra mim, eu fecho a oração e mando procura outra pessoa lá de fora (Informação verbal, fevereiro/2006).

De acordo com o senhor José, morador de São José do Seridó/RN, ele não procura mais um curador que existe lá porque, no final da reza, ele não diz mais nada. Então, o

“diagnóstico preciso”101 executado pela rezadeira é também um dos motivos que impulsiona os seus clientes a acreditar nas suas rezas. As preocupações e incertezas que inquietam o cotidiano dos clientes remetem à uma situação vivenciada por Leach (1996, p.241) entre os Kachin da Alta Birmânia sobre os adivinhos.

Recorre-se a adivinhação com muita freqüência para todos os tipos de propostos: onde devo construir minha casa? X é uma noiva adequada para meu filho Y? O que aconteceu com o búfalo que perdi semana passada? Amanhã será um dia propício para ir à feira? Todas essas perguntas e uma infinidade de outras similares e dissimilares podem se respondidas por adivinhação [...]. Na prática, todos os procedimentos de adivinhação exigem interpretação pelo adivinho e certas pessoas são conhecidas como especialmente peritas [...]. Na realidade é bastante claro que o adivinho exerce um poder assaz considerável, pois suas interpretações afetam a ação econômica e dentro de limites amplos essas interpretações são isentas de qualquer restrição.

Embora existam diferenças cruciais no que diz respeito ao contexto onde Leach (1996) realizou sua pesquisa é interessante pensar como as pessoas de diferentes sociedades elegem algumas outras de seu meio social para orientá-los na condução dos problemas cotidianos. No caso da rezadeira que detêm uma capacidade de vidência semelhante ao adivinho, sua atuação pode atingir desde situações ordinárias do cotidiano até problemas relacionados à vida social e econômica dos clientes. Por exemplo, era comum presenciar pessoas à procura dos serviços das rezadeiras para ajudar a conseguir empregos, realizar curas em estabelecimentos comerciais para aumentar as vendas, enfim, decisões que também afetariam a vida econômica destes clientes. Um caso curioso envolvendo essa questão foi de um homem que chegou à casa da rezadeira Barica pedindo para ela rezar em seu carro, pois não estava conseguindo trabalho (fretes). Ou seja, como seu sustento dependia dos fretes que realizava, ele foi pedir para a rezadeira “ver” o que estava acontecendo.

Enquanto estive em campo não conseguia compreender a lógica desse “ver” que era tão comum para os clientes na hora de buscar ajuda da rezadeira. Só com o distanciamento físico “do campo” é que consegui compreendê-lo. Manter-se em alerta ao que Geertz (2002) chamou de “estar aqui” e “estar lá”, como sendo duas idéias e contextos que a priori são diferentes, mas que dialogam, foi fundamental para a compreensão deste fato etnográfico. Ou seja, o dom de “ver” as coisas que os clientes atribuem a esta rezadeira é também um fator que a diferencia das demais. “Eu gosto de ir lá em Barica porque depois da reza ela já diz o que se passa com você, se vai dar certo ou não. Ela vê na hora, não deixa pra depois. Já as outras rezadeiras só dizem vamos esperar, o que for será” (cliente, informação verbal). Pelo

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que observei, essas rezadeiras que não desenvolveram essa habilidade de ver são procuradas apenas para rezar em crianças ou para doenças como olhado, espinhela caída, cobreiro etc. Em se tratando de outros problemas de ordem pessoal, que envolvam relacionamentos amorosos, conflitos familiares, namoro, gravidez na adolescência102, falta de emprego, doenças dos nervos (depressão), etc. os clientes recorrem à rezadeira Barica. A capacidade de “ver” que as pessoas atribuem a esta rezadeira, coloca-a numa posição de prestígio diante das outras rezadeiras da cidade. Segundo Weber (1994), há três tipos puros de dominação legítima: de caráter racional, de caráter tradicional e carismático. De acordo com a trajetória de vida desta rezadeira, percebe-se que a emanação do seu status advém de um “caráter do carismático”. Ou seja, “um tipo de dominação que é baseado na veneração extraordinária da santidade, do poder heróico ou do caráter exemplar de uma pessoa e das ordens por esta reveladas ou criadas” (WEBER, 1994. p. 141). Já o poder adquirido pelos médicos e pelos padres é pautado pela dominação de caráter racional, cuja premissa, continua o autor, baseia- se na crença da legitimidade das ordens estatuídas. Então, é interessante perceber que, embora as rezadeiras não sejam contempladas com o tipo de status inerentes aos profissionais da medicina e aos padres, elas conseguem através da influência carismática, deter um reconhecimento perante a comunidade fruto desse tipo de autoridade.

Esta questão da vidência também permite pensar a prática da reza como sendo um oráculo, cuja análise Evans-Pritchard (2005) sustenta brilhantemente. No contexto das rezadeiras quando os clientes falam: “fulana, eu vim aqui para você ver se....”, na realidade estão atribuindo a ela qualidades de adivinho. Neste caso, a reza funciona como um oráculo, já que ao seu término há um diagnóstico que confirmará ou não as expectativas do cliente. Neste sentido, os Azande concebem os adivinhos como um de seus muitos oráculos (EVANS- PRITCHARD, 2005. p. 91).

A relação de complementaridade entre a prática realizada pelas rezadeiras e a prática dos médicos fica evidente no caso dessa cliente que tinha realizado um procedimento cirúrgico, mas que buscou também a cura através das rezas. Percebe-se nitidamente a limitação do saber médico, a partir da atitude da cliente, ou seja, ele consegue, talvez resolver os problemas relacionados ao corpo físico, mas há uma outra lacuna, que a medicina deixa em aberta, que é a esfera moral. Então, é nesta que a rezadeira realiza suas curas, ocasionando assim, o que se poderia entender como uma complementaridade.

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Durante o período que estive na casa de Barica, vieram duas adolescentes se rezar pedindo que a rezadeira visse se elas estavam grávidas, pois estavam suspeitando. Porém, ainda não haviam procurado o medico para realizar o teste de gravidez.