3. A ARQUITETURA HOSPITALAR
3.1. A COMPLEXIDADE DE FUNÇÕES E A INFRAESTRUTURA
Hospitais são edifícios que possuem um alto grau de complexidade operacional, pois concentram um grande número de atividades distintas e múltiplos usuários, com graus variados de necessidade de atendimento e tratamento. Conforme detalha Góes (2004), edifícios hospitalares de grande porte são espaços altamente complexos, uma vez que concentram uma gama de serviços bastante vasta e que varia desde atividades que utilizam alta tecnologia na atuação médica até atividades com características industriais.
As atividades com características industriais são aquelas desenvolvidas nas áreas de apoio técnico e de apoio logístico. Algumas dessas funções demandam grandes áreas como lavanderia, centrais de esterilização e serviços de nutrição. Exemplos de apoio técnico são as atividades do Setor de Nutrição e Dietética (SND) e da Central de material esterilizado (CME). O SND assemelha-se a uma cozinha industrial capaz de produção centenas e até milhares de refeições por dia, necessitando de áreas de estocagem de alimentos in natura, sistemas de refrigeração de alimentos, descarga de mercadorias, gerenciamento de resíduos, áreas de produção – preparo e cocção e áreas de distribuição. Exemplos de apoio logístico são a lavanderia e o almoxarifado, que também possuem características funcionais industriais devido ao volume de trabalho e sistema de funcionamento. As unidades de processamento de roupa em razão do risco exigem vestiários de barreira, setorização definida de áreas suja e limpa e rouparia, entre outros espaços de apoio.
Usualmente os serviços de apoio como lavanderia, esterilização e SND são setorizados nos pavimentos inferiores do hospital, como é o caso dos edifícios verticais e em edifícios separados , quando são hospitais horizontalizados (Miquelin, 1992), sendo que até recentemente no Brasil os hospitais eram autossuficientes em todos esses
32 serviços. Existe uma tendência atual de descentralização de alguns desses serviços
como forma de se buscar maior eficiência e qualidade, como já ocorre, segundo Miquelin (1992), há muitos anos na Europa, América do Norte e Austrália. Já existem no Brasil diversas empresas especializadas na prestação de serviços como lavanderias que centralizam o processamento de roupas de vários hospitais. O mesmo ocorre com os materiais esterilizados e com os serviços de nutrição. A transferência da produção desses serviços a terceiros tem a vantagem de liberar espaços no edifício para atividades de assistência hospitalar e pode ainda minimizar o sistema de vapor utilizado nas autoclaves da CME e lavandeira e nos panelões do SND.
Em um hospital existem unidades funcionais que lidam com questões no âmbito da hotelaria hospitalar e conforto – caso das unidades de internação – e também unidades de assistência imediata à saúde que lidam com a emergência e urgência médicas, portanto, com situações críticas de assistência. São diversas as categorias espaciais que variam de salas de espera, consultórios, espaços administrativos, laboratórios, UTIs, salas de exames e salas de cirurgia, entre outras e, para cada uma delas existem demandas técnicas específicas relacionadas ao seu funcionamento e que condicionam a solução de leiaute e a infraestrutura.
Em razão dessa complexidade funcional a infraestrutura hospitalar é composta de diversos sistemas de instalações, inúmeras interfaces a equipamentos e aparelhos. Essa diversidade de sistemas pode ser um dos obstáculos à absorção das inovações tecnológicas e, consequentemente, dificulta a requalificação de hospitais. O edifício hospitalar tem uma infraestrutura predial incomum, que vai além daquela existente na maioria dos edifícios como sistemas de abastecimento e distribuição de água, energia e telefonia e do sistema de prevenção e combate a incêndios. Um hospital requer ainda para o seu funcionamento sistemas de ar-condicionado com tratamento de ar (em áreas especiais como o centro cirúrgico e as UTIs, por exemplo), sistema de gases medicinais e ainda o sistema de vapor gerado pelas caldeiras. Segundo Karman (2008), a continuidade operacional de um hospital depende basicamente do suprimento de eletricidade, água, oxigênio, vácuo, ar comprimido, vapor, ar-condicionado (este último a depender do local, uso e função).
Sobre a evolução e o nível de sofisticação da infraestrutura hospitalar a arquiteta Hermínia Silva Machry (2010) destaca que:
A infraestrutura predial hospitalar evoluiu na medida em que se desenvolveram as atividades e tecnologias internas da instituição. À sofisticação dos equipamentos e procedimentos médicos acompanharam necessidades novas de energia, temperatura e umidade, atendidas por instalações elétricas mais potentes e equipamentos de ar condicionado mais eficientes, respectivamente. Além disso, surgiram novas demandas e formas de comunicação, as quais originaram as instalações eletrônicas e multiplicaram a
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quantidades e a variedade de cabos de rede. O aumento do rigor na segurança de uso dos hospitais também motivou a ampliação da sua infraestrutura. A geração de energia passou a apoiar-se nas redundâncias, cercando-se de equipamentos para garantir o fornecimento contínuo de energia aos equipamentos de suporte à vida do paciente (equipamentos cirúrgicos, ar condicionado de salas cirúrgicas, respiradores artificiais etc.) (p.179).
Destaque dever ser dado à informática médica e à infraestrutura de lógica do edifício hospitalar, para o processamento e transmissão de dados, imagens e voz. Normalmente ainda utilizando-se cabeamento físico na maioria dos hospitais, essa infraestrutura, apesar da bitola estreita, impacta fortemente no ambiente hospitalar de edifícios antigos, devido às adaptações e desvios necessários aos novos leiautes. Cabe ressaltar que a Engenharia Clínica12 especialidade técnica hospitalar, surge a cerca de 30 anos atrás concomitante ao salto tecnológico ocorrido na informática médica e internet (Toledo, 2002).
Outra especificidade das instalações hospitalares são os setores ligados a atividades de atendimento de apoio ao diagnóstico e terapia que requerem uma infraestrutura técnica multidisciplinar para seu funcionamento e, também, blindagens e barreiras, como a radiologia, a hemodinâmica e a ressonância magnética, por exemplo.