Como nesta pesquisa será abordado o conhecimento etnobotânico de uma comunidade quilombola, cabe aqui uma breve reflexão sobre os termos quilombo e comunidade remanescente de quilombos, bem como dos motivos que levaram à ressemantização desses termos.
Há na atualidade um certo senso comum em torno do conceito atribuído à palavra quilombo, que normalmente remonta ao conceito do Conselho Ultramarino Português datado de 1740, o qual define quilombo como “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles” (LEITE, 2000).
De acordo com Gomes (2006) utilizando as categorias empregadas por João Reis ao avaliar os estudos sobre revoltas escravas na Bahia, é possível afirmar que há duas correntes bem distintas de interpretações sobre quilombos: as culturalistas e
as materialistas. Há um vasto material bibliográfico que reflete sobre o termo quilombo a partir das correntes culturalistas e materialistas.
Assim, a partir do pensamento de Nina Rodrigues, por exemplo, autores como Arthur Ramos, Edison Carneiro e, posteriormente, Roger Bastide começaram a difundir as interpretações culturalistas sobre os quilombos brasileiros. Para os culturalistas, os quilombos representavam apenas um fenômeno “contra-aculturativo”, que tinha origem na “persistência da cultura africana”, em resposta ao permanente processo de “aculturação” da sociedade escravista (GOMES, 2006).
Não obstante, a corrente materialista que surgiu a partir de 1960 apresentava uma nova visão sobre o assunto, não só combatia os culturalistas, como criticava suas análises, incluindo a questão da luta de classes. Clovis Moura foi um dos expoentes na perspectiva materialista.
Entretanto, os autores dessas correntes não estiveram preocupados em discutir o termo quilombo. A preocupação era com suas teses sobre a importância do processo de formação dos quilombos no Brasil. Concorda-se com Almeida (2005) que o termo inclusive desapareceu da base legal brasileira a partir do período republicano (iniciado em 1889) só voltando a reaparecer como categoria que tinha acesso a direitos, numa perspectiva de sobrevivência e inclusive recebendo o adjetivo de “remanescentes”, na Constituição de 1988.
Dessa forma foi só a partir da promulgação da Constituição Brasileira no ano de 1988, tomando como ponto de partida os Artigos6 2157 e 2168 e a necessidade da construção de um texto para o Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) que o significado de quilombo ganhou novamente visibilidade na sociedade brasileira.
6 Esses artigos fundamentam a aplicação dos direitos quilombolas, Seção II, que tratam da dimensão
cultural e dos direitos de preservação dessa cultura. Aos artigos constitucionais se soma o Decreto 4887 de 20 de novembro de 2003 (que regulamenta a regularização das terras quilombolas); a Instrução Normativa nº 49 do INCRA e as Convenções Internacionais ratificadas pelo Brasil, destacando-se: a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de 27 de junho de 1989 e a Convenção da UNESCO sobre Diversidade Cultural (2007).
7 Art. 215 – O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. O referido artigo possui três parágrafos. Para maiores detalhes consultar a Constituição Brasileira de 1988.
8 Art. 216 – Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória, dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I-as formas de expressão; II- os modos de criar, fazer e viver; III- as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
[...]. Para maiores informações consultar a Constituição Brasileira de 1988.
Parece relevante relatar que na atualidade há várias discussões acadêmicas9 em torno dos motivos que levaram a ressemantização desse termo, que não devem ser ignoradas, entretanto, não serão retratadas aqui por não ser objetivo desta tese discutir esse assunto.
Não obstante, diante do debate e da abrangência do termo “quilombo”, em 1994, o Ministério Público Federal convocou a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) a emitir seu parecer sobre o assunto. Com o objetivo de cumprir essa tarefa, a ABA criou um Grupo de Trabalho que conceituou “terras remanescentes de quilombo” como:
Quilombo tem novos significados na literatura especializada, também para grupos, indivíduos e organizações. Ainda que tenha conteúdo histórico, vem sendo ressemantizado para designar a situação presente dos segmentos negros em regiões e contextos do Brasil. Quilombo não se refere a resíduos ou resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou de comprovação biológica. Também não se trata de grupos isolados ou de população estritamente homogênea. Nem sempre foram constituídos a partir de movimentos insurrecionais ou rebelados. Sobretudo consistem em grupos que desenvolveram práticas cotidianas de resistência na manutenção e na reprodução de modos de vida característicos, e na consolidação de território próprio. A identidade desses grupos não se define por tamanho nem por número de membros, mas por experiência vivida e versões compartilhadas de sua trajetória comum e da continuidade como grupo. Constituem grupos étnicos conceituados pela antropologia como tipo organizacional que confere pertencimento por normas e meios de afiliação ou exclusão (O’DWYER, 1995, p.1).
Além do conceito de comunidade remanescente de quilombos emitido pela ABA, é importante mencionar a definição que consta do Decreto nº 4.88710 (o qual será adotado nesta pesquisa), que afirma seguinte:
Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida (BRASIL, 2007).
3.2.1 O processo de reconhecimento das Comunidades quilombola
9 o autor Fabiani (2005) em seu livro Mato, Palhoça e Pilão, tece uma severa crítica ao processo de ressemantização do termo quilombo, realizado pelos antropólogos da ABA após a Constituição de 1988.
10 O Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003, instrui sobre as normas procedimentais necessárias à implementação do processo administrativo, ajuizado por comunidades quilombola ou outros interessados junto ao INCRA.
O número de quilombos identificados até 2002 pelo Governo Federal não passava de 743. Entretanto, depois de muita luta das comunidades quilombola pelo seu auto-reconhecimento, do fomento à ampliação e qualificação dos serviços disponíveis e da criação do Programa Brasil Quilombola (PBQ), o número de comunidades identificadas aumentou para 3.524, dentre as quais 1.342 já receberam a certificação da Fundação Cultural Palmares (BRASIL, 2007).
Dentre essas comunidades supracitadas, está a comunidade participante deste estudo, que no dia 19 de maio de 2006, foi certificada pela Fundação Cultural Palmares, como REMANESCENTE DAS COMUNIDADES DOS QUILOMBOS11, conforme Livro de Cadastro Geral n.º06, Registro n.º 567, p.77, nos termos do Decreto n.º4.887/2003 e da Portaria Interna da FCP n.º06 de 01 de março de 2004, publicada no Diário Oficial da União n.º43, de 04 de março de 2004, Seção 1, f.07 (BRASIL, 2006).
Ao proceder o reconhecimento dessa e demais comunidades quilombola brasileiras, o Governo brasileiro intenta promover o desenvolvimento sustentável para o meio rural (BRASIL, 2007).
Não obstante, essa tarefa de reconhecimento dos direitos das comunidades tradicionais não tem sido uma tarefa fácil. Tanto a garantia dos direitos dos quilombolas, assim como as políticas de promoção da igualdade racial em contexto mais amplo, estão no meio de uma disputa ideológica imposta pelos setores mais conservadores de nossa sociedade. Esse fato pode ser verificado e acompanhado na imprensa, a partir das contestações à demarcação de terras quilombolas feitas na justiça, das reações da bancada ruralista apoiada pela Rede Globo de televisão e do recrudescimento da violência no campo (BRASIL, 2007).