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5. BÚSSOLA DO PENSAMENTO

5.1 A COMPLEXIDADE DO PENSAR PARA TRANSGREDIR

Há algo por trás do olhar sobre o objeto, a paisagem, algo que lhe descobre, no sentido literal de tirar-lhe a cobertura para ver além do que se vê.

A bússola do olhar é a metáfora para o que Morin entende por paradigma61,

são “princípios ocultos que governam nossa visão das coisas e do mundo, sem que tenhamos consciência disso” (2005, p. 10). Um paradigma contém os conceitos fundamentais e categorias dominantes da inteligibilidade dos discursos que se realizam “sob seu império”, junto às relações lógicas de atração/repulsão entre esses conceitos e categorias (MORIN, 2000, 2008).

O paradigma orienta a organização dos raciocínios e sistemas de ideias, os discursos e as teorias. Como um DNA, toma conta do programa das células, “definido na sua característica nuclear e geradora como organizador da organização” (2008, p. 264). Morin situa o conceito de paradigma no leme dos

61 A palavra paradigma tem origem grega do termo paradeigma,à ueà sig ifi aà pad o,à e e plo,à odelo ,àeàdeàparadeiknynai,à ueà ue àdize à ost a ,à ep ese ta ,àlite al e teà ost a àladoàaàlado . Em Platão, gravita em torno da exemplificação do modelo ou da regra. Já para Aristóteles, o paradigma é o argumento que, baseado em um exemplo, destina-se a ser generalizado (MORIN, 2008). De acordo com Morin (2008), a noção de paradigma adquiriu um sentido especializado na linguística estrutural, ao passo que designa sentidos vagos e imprecisos em outras áreas. Recebeu importância decisiva nas formulações do físico e filósofo norte-americano Thomas Kuhn; no entanto, assim como outros vocábulos não há um significado absoluto homogeneamente aceito.

134 princípios de pensamento e no coração dos sistemas de ideias, inclusive das teorias científicas. Diante das brechas e da insuficiência do paradigma clássico para dar conta da complexidade do mundo e da vida, Morin desenvolveu seu próprio paradigma e seu próprio método, ancorado nos princípios da complexidade. Um pensamento transgressor que comporte o “não formalizável,

o não logicizável e o não teoremizável”62 (2008, p. 253), um paradigma que

extrapole os pilares da certeza, um método que não fragmente a realidade complexa e não elimine a priori as incertezas de uma contradição (e nem a própria contradição).

O desafio é amplo e premente: a necessidade de um pensamento que reúna é cada vez maior porque os problemas são cada vez mais interdependentes e cada vez mais globais, e ao mesmo tempo porque sofremos cada vez mais do excesso de parcelização e de compartimentalização dos saberes (MORIN, 2000, p. 136).

A opção pelo Paradigma da Complexidade também se dá por se configurar menos como uma resposta e mais como uma motivação desafiadora para o pensar. E é nesse intuito que também nós nos deixamos contagiar por essa opção paradigmática: por entender que ela nos desafia a ir além da compreensão clássica e instrumental das organizações e da comunicação organizacional e nos oferece a liberdade necessária de pensamento para transgredi-la. Complexidade não é palavra-mestra que nasce para explicar, mas para despertar-nos e levar-nos a explorar para (re)conhecer e (re)pensar. Trata-se de um pensar em que, no lugar da simplificação, a desordem e a incerteza são bem-vindas a perturbar a vontade do conhecimento. O complexo está lá “onde se perdem distinção e clareza nas causalidades e nas identidades, lá onde as antinomias fazem divagar o curso do raciocínio, lá onde o sujeito observador surpreende seu próprio rosto no objeto de sua observação” (MORIN, 2000, p. 132).

Em outras palavras, o pensamento complexo é o pensamento que, para além dos princípios de ordem, leis, algoritmos, certezas e ideias claras, “patrulha o nevoeiro, o incerto, o confuso, o indizível, o indecidível” (MORIN, 2003, p. 231). Tudo que é complexo é não reduzível ou não totalmente

135 diversificável (MORIN, 2000), é tudo que está junto, o que é tecido em comum, que está em comunicação. Um tecido que, formado por múltiplos fios, se transforma em um só, uno e diverso ao mesmo tempo. E é dessa forma que percebemos as organizações e também a comunicação, seja como ciência, como fenômeno, prática social. Fios tecidos simultaneamente na própria antinomia, na diversidade das complexidades que os (re)tecem, em que nós infinitos unem ordem/desordem, uno/múltiplo, todo/partes, objeto/sujeito, claro/escuro, certezas/incertezas.

Quando a complexidade passa a guiar nosso pensamento, como a bússola que orienta o rumo dos caminhantes, passamos a percebê-la nas dimensões da existência: da realidade física à lógica da vida, passando pela sociedade, pela biosfera, pela natureza, pelas organizações, pelas dimensões da comunicação e pelo próprio ser humano.

Não são somente os fenômenos da superfície que são complexos; os princípios que os regem, o inframundo e a retaguarda-mundo também o são, a complexidade não está apenas nas interações, inter-retroações, ela não está somente nos sistemas e organizações. Ela é a base do mundo físico (MORIN, 2000, p. 133).

Por sua natureza, a complexidade recusa deixar-se definir de modo imediato e de maneira simples. Podemos, em algumas várias linhas, buscar dar conta de expô-la ao leitor desta tese e, ainda sim, será insuficiente, pois ela carrega em si a incompletude, a infinitude, a incerteza. O pensamento complexo, adverte Morin (2000, 2005), comporta a consciência do inacabado e qualquer pensamento, ao aspirar a multidimensionalidade, é inesgotável e complexo.

O Paradigma da Complexidade inicia seu desenvolvimento na confluência do que, para Morin (1999), se constituem duas revoluções científicas: a introdução da incerteza com a termodinâmica, a física quântica e a cosmofísica, e a revolução sistêmica nas ciências da Terra e na ciência ecológica. Outras três teorias, que surgiram por volta dos anos 40, são também fundamentais para impulsionar seu pensamento: a Cibernética, a Teoria da Informação e a Teoria dos Sistemas. O paradigma nasce dessa tessitura de conhecimentos fruto da própria trajetória profissional, intelectual e pessoal de Morin (AMORIM, 2009).

136 Para dar conta da complexidade do mundo e da vida, Morin identificou, inicialmente, três princípios complementares e interdependentes que orientam o pensamento complexo e que se tornam guias para o desenvolvimento do nosso estudo. O primeiro deles, o princípio dialógico (grifo nosso), pode ser

ilustrado pelo pensamento de Herálico: “Juntem aquilo que concorda e aquilo

que discorda, aquilo que está em harmonia e aquilo que está em desacordo”, citado por Morin (2000, p. 133). Podemos também ilustrá-lo com outras duas expressões: a maffesoliana “harmonia conflitual” (MAFFESOLI, 1984, 2002) e “equilíbrio de antagonismos”, expressão de Gilberto Freyre (2006) em Casa- grande & senzala.

Tais expressões têm em comum a dialógica, que permite a união de dois ou mais princípios ou noções que, aparentemente, deveriam repelir-se, excluir- se reciprocamente; no entanto, são indissociáveis em uma mesma realidade. O termo dialógico quer dizer que “duas lógicas, dois princípios, estão unidos sem que a dualidade se perca nessa unidade” (MORIN, 2005, p. 189), de onde vem a ideia de "unidualidade" que Morin propõe para certos casos. O homem, por exemplo, é um ser “unidual”, totalmente biológico e totalmente cultural a um só tempo (idem, 2005).

O dialogismo aceita a inseparabilidade de noções contraditórias para conceber um mesmo fenômeno complexo. Morin (2003) nos recorda que desde o nascimento do Universo a dialógica está presente, pois ele foi fruto da ordem/desordem/organização, fenômeno que gerou núcleos, átomos, estrelas. De inúmeras maneiras, a ordem, a desordem e a organização se fazem presentes nos mundos físicos, biológicos e na dimensão humana.

Essa mesma tríade (ordem/desordem/organização) é parte das organizações que são parte da sociedade, que é, em si, dialógica. A sociedade, por sua vez, com seus dialogismos, é parte das organizações. Da mesma forma, os sujeitos, seres dialógicos, são parte essencial das organizações, o que faz com que a dialógica esteja presente no núcleo existencial de qualquer organização. Embora as teorias clássicas tenham, por muitos anos, percebido esses ambientes como espaços de ordem e pleno funcionamento, de

137 previsibilidade e certezas, a desordem, assim como o acaso e a incerteza, são inerentes ao seu cotidiano e à sua natureza.

Organizações podem ser, ao mesmo tempo, para distintos sujeitos, lugares, entre-lugares e/ou não lugares, lugarizantes e/ou não lugarizantes. No universo organizacional, sentimentos, substantivos e adjetivos contraditórios coabitam em um espaço que, em essência, também é social e cultural: a satisfação e a frustração, a cooperação e a disputa, a admiração e a inveja, a força e a fragilidade, o reconhecimento e o esquecimento e tantos outros que nos mostram o quanto as organizações são dialógicas e, por isso, complexas. Os lugares antropológicos e experienciais são também dialógicos, na medida em que congregam, ao mesmo tempo, dimensões materiais e simbólicas, são objetivos e subjetivos, mesmo aparentemente imóveis, são espaços vividos, mutantes.

O fenômeno comunicacional também carrega em si a complexidade dialógica. A certeza do que é dito, da dependência do Outro, traz consigo a incerteza de sermos compreendidos, como nos ensina Wolton (2006, p. 15). A

dialogia também se manifesta na ordem/desordem/organização; “comunicar é

por si um processo de organização” (SILVA, 2008). Qualquer ato comunicativo implica a organização do discurso. Qualquer diálogo exige de nós a capacidade de, em meio à desordem de ideias, organizá-las para, numa sentença ordenada, tentar comunicar e quem sabe iniciar uma nova desordem que nasce de uma ideia organizada (ou desordenada).

Na perspectiva dos sentidos, coexiste na comunicação a finitude e o infinito. Enquanto o texto, no sentido material, do papel, da voz, da fotografia, conclui-se no ponto final e/ou após a fala que silencia, os sentidos, porém, são infinitos e imprevisíveis. De acordo com Sodré (2006a), na relação comunicativa, além da informação veiculada pelo enunciado, portanto, além do que se dá a conhecer, há que se dá a reconhecer como relação entre duas subjetividades, entre os interlocutores. Para o autor, nas experiências comunicativas, de contato direto, mais do que se interpretar semanticamente, se vivem os sentidos, num sentir que implica a conexão corpo e espírito.

138 A comunicação está também relacionada, intrinsecamente, a processos de abertura e fechamento (MARCONDES FILHO, 2010), de (des)encontros, que estão também na essência dos sujeitos que se abrem e fecham para distintas formas de sentir. Por fim, em um fim que não é conclusivo, e tampouco dá conta da totalidade dos dialogismos da comunicação, lembramos que comunicar ao mesmo tempo revela e esconde, é uma escolha que (des)cobre, que compartilha e torna comum ao mesmo tempo em que encobre o que permanece silenciado.

O segundo princípio é o da recursão, ou do anel recursivo (grifo nosso), que vai além do princípio da retroação (feedback) e da noção de regulação de autoprodução e auto-organização. Ele diz respeito a um círculo gerador em que os produtos e efeitos podem ser produtores e causadores do que os produz (AMORIM, 2009). Os indivíduos produzem a sociedade nas interações e pelas interações ao passo que a sociedade, produz a humanidade desses indivíduos, pela linguagem e cultura, exemplifica Morin (2000, 2003). Da mesma forma, organização e comunicação estão constantemente em relações recursivas. A organização se faz por e em comunicação, como nos

revelam os estudos da Escola de Montreal63, e, ao mesmo tempo, a

comunicação organizacional é fruto da natureza da organização que a produz. Organização e comunicação são parte uma da outra e geram uma à outra, cotidianamente.

O mesmo ocorre com a dimensão de lugar, entre-lugar e não lugar no contexto organizacional. A organização enquanto lugar antropológico e experiencial se torna lugar, entre-lugar ou não lugar pelas experiências, relações, vínculos e sentidos que ali emergem e circulam (ou inexistem), e essas mesmas experiências e relações são, ao mesmo tempo, geradoras da própria organização e geradas pela comunicação. Sendo assim, acreditamos que a comunicação é uma das dimensões capazes de tornar as organizações lugares, e, nessas organizações, seu ambiente, clima e suas relações favorecem a fluidez da comunicação. O contrário é verdadeiro. Organizações que se configuram em não lugares costumam dificultar a comunicação

139 organizacional. Ao ser impedida de se desenvolver, a (in)comunicação acaba por reforçar a não lugarização.

O terceiro princípio é inspirado pelo holograma, imagem física cujas qualidades de relevo, cor e de presença são devidas ao fato de cada um de seus pontos incluírem quase toda a informação do conjunto que ele representa (MORIN, 2005). Como exemplo, podemos citar os seres multicelulares, nos quais cada célula contém a totalidade da sua informação genética. O princípio hologramático (grifo nosso) evidencia o aparente paradoxo das organizações complexas de que não apenas a parte está no todo como também o todo está na parte. A dimensão hologramática dos fenômenos complexos poder ser percebida nas dinâmicas entre indivíduo e sociedade (MORIN, 2003).

A sociedade é o todo que contém os indivíduos que também a carregam

em si, por meio da cultura, da linguagem, das normas. Ou seja, o todo – a

sociedade – está presente na parte – os indivíduos. Para Morin (2005), o

princípio hologramático contrapõe-se ao reducionismo, que pretende compreender o todo considerando apenas as suas partes. Contudo, tampouco pode ser confundido com o “holismo”, que não é menos simplificador, acredita o pensador, já que negligencia as partes para compreender o todo. Se Heráclito nos ajuda a compreender o princípio dialógico, Morin (2005, p. 181)

cita Pascal sobre o hologramático: “Só posso compreender um todo se

conheço, especificamente, as partes, mas só posso compreender as partes se conhecer o todo”.

De modo geral, os lugares antropológicos e experienciais (AUGÉ, 2012a, 2012b; TUAN, 1997) também são essencialmente hologramáticos e complexos. Conforme Maffesoli (2008), os lugares fazem os elos, os vínculos, e esses contêm em si os traços do lugar no qual se constituíram. Nós pertencemos a lugares e estes nos pertencem, estão em nós. A relação do homem com seus espaços é essencialmente hologramática, e nesses espaços onde o homem habita e cria relações de pertencimento incluímos as organizações empresariais.

As relações entre sociedade e indivíduos são similares às que ocorrem entre organização e os sujeitos organizacionais. As organizações são o todo

140 que se faz pela atuação e presença dos sujeitos e estes, ao estarem

lugarizados, de certa forma, carregam o todo em si mesmos – a organização –

pelos vínculos que constituem, pela apropriação de sua cultura, seus hábitos e até mesmo de sua linguagem.

Aos três princípios fundamentais, Morin (2000, 2003) adicionou outros quatro que são também interdependentes, complementares, e nos servem de guias para investigar/compreender paisagens complexas. O primeiro deles é o princípio sistêmico ou organizacional (grifo nosso), que se opõe à ideia reducionista, ao defender que o todo é maior que a soma das partes. “Do átomo à estrela, da bactéria ao homem e à sociedade, a organização de um todo produz qualidades ou propriedades novas, em relação às partes consideradas isoladamente” esclarece Morin (2003, p. 92). A soma das partes pode, igualmente, ser menor que o todo quando suas qualidades são inibidas pela organização do conjunto. O princípio sistêmico liga o conhecimento das partes ao conhecimento do todo.

Com base nos processos autorreguladores, o princípio do círculo retroativo (grifo nosso) foi introduzido pelo matemático estadunidense Norbert Wiener, considerado o fundador da cibernética. Conforme Morin (2000), esse princípio rompe com a causalidade linear ao propor que a causa age sobre o efeito, mas também o efeito sobre a causa, como ocorre no sistema de aquecimento, em que o termostato regula o andamento do aquecedor. Outro exemplo citado por Morin é a homeostasia de um organismo vivo, que nada mais é do que um conjunto de processos reguladores baseado em múltiplas retroações. A retroatividade pode estabilizar um sistema e/ou inflacioná-lo e se manifesta em uma série de fenômenos econômicos, sociais, políticos, psicológicos e também organizacionais e comunicacionais.

As relações complexas que dialogicamente são autônomas e dependentes relacionam-se ao princípio da auto-organização (grifo nosso). “Os seres vivos são seres auto-organizadores que se autoproduzem ininterruptamente e gastam energia para salvaguardar sua autonomia” exemplifica Morin (2000, p. 211). Os seres vivos têm necessidade de gastar energia e necessitam também de informação e organização em seu meio

141 ambiente. Por esse motivo sua autonomia é inseparável da dependência. É o que faz deles seres autoeco-organizadores. No caso dos seres humanos, desenvolvemos nossa autonomia, mas somos dependentes da cultura, da sociedade, do ambiente geoecológico.

Nossa vida também se regenera permanentemente a partir da morte e do nascimento de células, exemplo para o qual Morin (1996, 2001) cita

novamente Heráclito: “Viver de morte, morrer de vida”. Metaforicamente

podemos realizar tal associação com o ambiente organizacional, um lugar que,

por ser complexo, também é auto-organizador. Para se manter vivo, “liga” suas

partes por meio de relações de dependência e autonomia e passa por pequenas falências cotidianas de onde emerge vida, emergem novos projetos, novos horizontes. As ideias de morte e vida, claramente antagônicas, são também complementares no universo organizacional.

O sétimo e último princípio é o da reintrodução do conhecimento em todo o conhecimento (grifo nosso). Permite as interretroações do sistema e opera, principalmente, a reintrodução do sujeito cognocente nos processos de produção de conhecimento, a integração entre pesquisador e objeto. A

restauração do sujeito evidencia o problema cognitivo central: “Da percepção à

teoria científica, todo conhecimento é uma reconstrução/tradução feita por uma

mente/cérebro, em uma cultura e época determinadas” (MORIN, 2003, p. 96).

Com esse princípio, Morin reafirma a prerrogativa da presença ativa do sujeito na elaboração de teorias, no desenvolvimento da ciência, na essência de todo e qualquer conhecimento.

Para a análise da paisagem escolhida, partimos com os três princípios iniciais do Paradigma da Complexidade, sem descartar a possibilidade de, no decorrer da análise, encontrarmos a necessidade e/ou a oportunidade de recorrer aos demais princípios. Escolha que nos é possibilitada pelo próprio método, uma vez que a Complexidade nos liberta das rédeas de paradigmas fechados e previamente estruturados e inflexíveis e, como uma bússola para o pensamento, nos permite navegar com pressupostos que inspiram o olhar/pensar/compreender sem cercear o horizonte, sem abrir mão da incerteza e sem privarmos da possibilidade de (re)construir o caminho ao caminhar.

142 Além disso, nos possibilita pensar/estar junto, sem que seja necessário fragmentar e/ou observar a distância uma paisagem que, invariavelmente, também está em nós. Permite-nos, para além da paisagem, uma visão de mundo que nasce da complementaridade, do entrelaçamento, do abraço. O pensamento complexo é o pensamento do abraço, afirma Morin (2007). Cada sujeito contém o múltiplo, como a sociedade, a cultura, as organizações pelas quais passou e/ou na qual está, contém também o antagonismo e a dependência da vida e da morte, a unidade na multiplicidade e isto é a tradução do abraço comunitário que envolve a cada um de nós (MARIOTTI, 2002).

O método complexo reúne o separado, afronta o incerto e supera as insuficiências lógicas. Ele nasce para restituir, (re)constituir e (re)compor os conjuntos/sistemas e unidades complexas como, em nosso caso, as organizações, e operar a (re)emergência dos sujeitos (organizacionais) na sua unidade múltipla. Os lugares também nos abraçam, nos acolhem, e a comunicação é, por vezes, o braço que abraça, já que o abraço tem também sua dimensão simbólica. Abraçamos com a fala, com o olhar, com a compreensão, com o respeito nas relações, com os vínculos que se constituem por/em comunicação.