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A complexidade dos impactos sobre a comunidade

fenomenológicas do estado iconográfico das imagens relacionando ser humano, sociedade e natureza Neste sentido, Andrade (2002, p 52) diz

9/C Vitória na Luta

16/ Foto J: Tuiuiú – Ave mais citada como símbolo do pantanal de Mato Grosso

5.5. A complexidade dos impactos sobre a comunidade

“Para trabalhar no Sesc precisa ter estudo, e as pessoas da comunidade não possuem estudo”.

(Depoimento oral)

Com o estabelecimento da RPPN Sesc Pantanais, ocorreram vários efeitos sobre a comunidade biorregional de São Pedro Joselândia, como, por exemplo, a constante reclamação da abolição de geração de emprego e renda para os pantaneiros, que dependiam de trabalho gerado pelas três fazendas que foram adquiridas pelo Sesc para a criação da área protegida da sua unidade de conservação, que é considerada uma das maiores do país, com 110 mil hectares. Veja os efeitos disso nos depoimentos dos entrevistados por este estudo:

“Para mim o maior problema da criação da RPPN Sesc Pantanal foi o

desemprego. Antes da criação, os fazendeiros contratavam os trabalhadores na comunidade. Com o Sesc aqui, nós ficamos sem o emprego. Agora é só o Sesc que dá emprego para as pessoas que têm conhecimento e nós ficamos sem emprego”.

“Com a criação da reserva, dificultou muito, pois as fazendas geravam muito emprego. Agora, para trabalhar no Sesc, precisa ter estudo e as pessoas da comunidade não possuem estudo”.

“Não melhorou nada para nós. Lá só pode trabalhar pessoas estudadas e novas”.

“As pessoas que caçavam, agora estão tendo dificuldade para adquirir carne. Pessoas que não têm criação para comer caçavam, pescavam. Agora os rios de mais peixes ficaram presos na reserva. A situação ficou mais difícil”.

Neste sentido, a criação da RPPN, além de coibir a presença da comunidade no espaço ecológico do qual ela sempre dependeu para assegurar a sobrevivência, acabou causando abolição das poucas opções de emprego. Sato e Passos (2002:16) nos alertam “cabe questionar a ausência de opções econômicas que poderiam eliminar posturas de exploração destrutiva num mundo tão civilizado e industrializado”. Para os autores, em outras palavras, as comunidades biorregionais ainda estão longe de um tipo de economia que possa favorecê-las, utilizando-se de seus próprios conhecimentos ou saberem enraizados em suas vivências locais com o ambiente pantaneiro. Todavia, eles alertam: “nem a era dos produtos naturais garantiria a preservação da biodiversidade, já que o capitalismo apenas mudaria de nome para consumismo verde”.

Lima (1995, p.22), numa reflexão da ecologia humana, comenta que “os homens e mulheres ocupam certo espaço da biosfera – o habitat –, o qual evolui para o ambiente na medida em que se estabelecem relações entre os fatores bióticos e abióticos”. Desta forma, a autora assegura que esse processo de interação está condicionado à necessidade que homens e mulheres sentem de explorar a natureza com o propósito de torná-la mais útil à sua sobrevivência e de dominá-la. Desse modo, Max apud Lima (1995) salienta que a produção da vida social dos indivíduos está mergulhada em duas condições: na natureza geral e na sua própria natureza.

“Em decorrência, essa relação entre os indivíduos e a natureza é uma relação ativa em que eles lutam para dominá-la, através de uma atividade que lhes é singular – o trabalho. Ao realizarem trabalho, os indivíduos contraem determinadas relações entre si – relações sociais. São essas relações que constituem o ser social de cada indivíduo. Delas participam, necessariamente, não podendo isolar-se, por serem produto de interação entre eles. É através do trabalho que eles espontaneamente iniciam, regulam e controlam as relações entre si e a natureza, criando dessa forma a sua existência social”.

Nessa perspectiva, a autora alerta, sob o olhar marxista, que quando o indivíduo inicia a produção dos meios de subsistência dá um passo à frente de sua condição de ser biológico. Assim, concebido seu caráter social, o indivíduo é produto de autocriação e, por conseqüência, resultado também da ação humana. Com isso, pode-se afirmar a distinção entre o biológico e o ser social é que este último é produto humano e o primeiro é produto do homo sapiens.

Com base neste pensamento da ecologia humana, Lima (op. cit.) diz que a interação do indivíduo com a natureza se dá através de dois canais: um que define as relações biológicas, e outro, que determinam as relações sociais. Essas relações atuam de modo a promover a transformação do homem em ser humano. A autora comenta que estudos sobre comunidades humanas têm deixado de lado um aspecto de maior importância. Trata-se de posicionamento do ser humano dentro e diante das transformações ecológicas, econômicas e sociais, considerando-o como parte da biosfera, do ecossistema, da comunidade e da sociedade e, como tal, submetido às forças econômicas, sociais e políticas.

“Estas forças não mudam a posição do homem como ser biológico, mas dirigem a interação ser humano e natureza, permitindo a transformação da natureza com o objetivo de desenvolver suas potencialidade e ampliar o ambiente humano. A discussão nessa linha procura evidenciar os mecanismos responsáveis pelas transformações ou aparecimento de novos modos de vida. Exige, portanto, uma visão do homem dentro de um contexto mais amplo, onde deve estar presente a condição de ser biológico integrante da natureza e a de ser social integrante de uma sociedade. Desse modo, suas reações deverão ser explicadas através das leis biológicas e das relações socais”.

(Ibidem, 1995, p. 23)

Nos campos minados da educação ambiental, Sato e Passos (2002:10) nos alertam que “porque somos todos diversos, há uma trilha para construir pontes de comunicação de nossas solidões. Há um espaço para construir a tolerância, a transcendência, o acolhimento, a gratuidade. Há espaço a ser construído com institucionalidades pré-moldadas, recusando-nos às velhas pautas”. Desta forma, os

autores comentam que se “EA é o campo da liberdade, e freqüentemente, da persuasão, a única que faz sentido é aquela que constrói a felicidade pessoal e coletiva”.

Desta forma, acredita-se que as amarguras que sofre a comunidade de São Pedro Joselândia provocam um câncer na vida social, causando carência de emprego que gerava trabalho que fortalecia a dignidade humana daqueles que lá vivem.

“Porque todos somos diversos, é nesse lugar da diversidade que nos cabe conjugar sonhos plurais. Porque diversos, podemos congregar nossa singularidade no plural e no múltiplo, tirando-nos do sofrimento de nossas solidões e (in)diferença, para sentimos a sede solidária e insaciável da comunhão por um projeto de todos...”

(SATO E PASSOS, 2002, p. 10)