CAPÍTULO 1 – PRODUÇÃO E CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS
1.2 Conflito Socioambiental
1.2.2 A complexidade dos riscos
ética, para a garantia desse direito, considerado como um direito humano fundamental, presente no artigo 1º, dos Princípios Fundamentais da Constituição Federal de 1988.
A Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente Humano, realizada em Estocolmo no ano de 1972, enfatiza como seu primeiro princípio:
“O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições adequadas em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna e gozar de bem estar, tendo a solene obrigação de proteger e melhorar o meio ambiente para as gerações presentes e futuras”. (Relatório da Conferência).
As leis existem, mas o povo desconhece sua aplicação e o exercício pleno de sua cidadania. Os projetos de desenvolvimento do governo não consideram o fator humano e não incorpora uma política social sustentável.
Apesar disso, muitos movimentos sociais resistem e lutam contra a crescente privatização dos bens da natureza para uso do mercado global e pela reafirmação do direito a um planeta mais saudável, ao uso da terra de forma a não colocar em risco a vida dos povos e do ambiente, defendendo o acesso e a gestão sustentável dos recursos naturais.
1.2.2 A complexidade dos riscos
Para uma melhor compreensão do momento vivenciado pela sociedade contemporânea, farto em perigos ambientais e inseguranças decorrentes do processo de modernização, a expressão risco passou a designar, também, fenômenos presentes na relação saúde-ambiente. A produção e a distribuição da riqueza são inseparáveis da produção de risco e da sua distribuição nos ecossistemas. A cada avanço na produção tecnológica surge um novo risco imprevisível de degradação dos recursos ambientais, criando demanda para mais produção, “algo como um jogo automantido entre risco e
Os riscos serão abordados a partir dos estudos apontados por Porto (2007), que se refere aos riscos no contexto dos processos de desenvolvimento, dos sistemas tecnológicos e produtivos em suas interações com os seres humanos. Assim, considera que os riscos para a saúde humana são de origem ocupacional e ambiental, em especial os decorrentes dos sistemas produtivos e industriais, que afetam principalmente a saúde dos trabalhadores, no caso de ambientes de trabalho, e das populações em geral expostas a certos riscos nos ambientes onde moram e circulam.
Nessa abordagem, os riscos são gerados em unidades de análise aqui chamadas de sistemas sócio-técnico-ambientais (STAs). Os componentes dos STAs são: os sistemas técnicos (tecnologias produtivas de consumo ou de infra-estrutura); os sistemas humanos (pessoas e comunidades que neles atuam, ou circulam e podem se expor); e os sistemas ambientais (os que produzem ou afetam os mecanismos vitais de suporte à vida, como água, ar e os alimentos). Os riscos presentes nos STAs podem ser demarcados ou extensivos.
Os riscos ocupacionais são comumente considerados riscos demarcados, pois suas fontes de geração de risco e a exposição aos mesmos encontram-se espacialmente próximas, ou seja, em um mesmo sistema STA. Ocorrem nos locais de trabalho, através de processos de trabalho que alteram as condições ambientais e dos seres humanos, com perda de sua integridade física ou psicológica, ocasionando mortes e doenças por acidentes e ambientes de trabalho perigosos. Sendo, então, os problemas de saúde dos trabalhadores, fenômenos desumanos criados por decisões de alguns sem considerar as necessidades de outros seres humanos.
Já os riscos ambientais possuem natureza extensiva, interagem com os territórios e os ecossistemas de forma ampliada (poluição ambiental do ar, solo, água e alimentos), além de afetar as pessoas em suas moradias. Sua análise inclui os sistemas STAs (causador do risco), os mecanismos e vias de propagação e concentração, locais de exposição tanto das populações quanto dos ecossistemas atingidos e seus vários subsistemas ambientais.
A dimensão desses riscos ambientais para grupos e territórios atingidos possui relevância central e deve ser compreendida dentro de uma dinâmica social, econômica e cultural. Os riscos extensivos são complexos em função de vários fatores com múltiplas dimensões dos vários subsistemas envolvidos, ampliados em escalas espaciais e temporais, com uma variedade de grupos e interesses envolvidos, o aumento do número de incertezas e dos efeitos potenciais.
A sociedade passa a reconhecer e a preocupar-se com os problemas ambientais que geraram a crise ambiental contemporânea desencadeada a partir dos anos 70, impulsionada por processos como:
1) A crescente degradação ambiental em várias regiões do planeta e o reconhecimento dos riscos ecológicos globais.
2) O agravamento dos problemas ambientais nos espaços urbano-industriais causados pela superposição dos efeitos da poluição, falta de infra-estrutura e exclusão social.
3) A previsão de escassez de recursos naturais básicos para produção e consumo da sociedade.
4) A crescente pressão dos movimentos sociais, grupos locais em áreas de riscos industriais e grupos ambientalistas organizados a níveis regionais, nacionais e internacionais.
Porto (2007), ao escrever sobre a ecologia política dos riscos, destaca a importância de integrar a saúde humana com a saúde dos ecossistemas em geral, assim como enfatiza que os riscos que geram destruição e morte são causados por estruturas de poder que promovem o desenvolvimento econômico e tecnológico. E conclui que enfrentar os riscos ambientais significa transformar o modelo de desenvolvimento com suas estruturas de poder, os valores e intenções que produzem decisões e ações e, em
Freitas (2000), ao fazer análises técnicas de risco, questiona métodos que subtraem os sujeitos de seus contextos sociais conforme interesses próprios e dando ênfase apenas a avaliações quantitativas, estritamente racionais e aceitáveis, na concepção de especialistas.
Movimentos sociais da Europa e Estados Unidos apontavam para os problemas gerados por usinas nucleares, indústrias químicas, medicamentos e resíduos tóxicos e questionavam os processos que envolviam suas tecnologias e seus riscos. Daí o motivo do surgimento de trabalhos sobre percepção de risco, apresentados em três abordagens, como sintetiza o autor:
z Abordagem Psicológica é baseada na Psicologia Cognitiva (através de métodos psicométricos) e analisada pelas representações quantitativas das atitudes e percepções face aos riscos. Nessa abordagem os fatores que mais preocupam os leigos são: exposição involuntária; associação de problemas de saúde a efeitos imediatos da exposição aos riscos; pouco conhecimento sobre os riscos em saúde; falta de participação direta no gerenciamento dos riscos; falta de familiaridade com os riscos e o medo.
z Abordagem Cultural compreende a percepção de risco como um processo social e a escolha refletem valores, crenças, justiça e moral de um grupo. Os principais aspectos a considerar são: as sociedades selecionam alguns riscos e buscam meios para controlá-los, ignorando outros; a percepção de riscos combina aspectos físicos e sociais; crenças e valores interferem na percepção dos riscos; padrões de cultura similares determinam as escolhas dos riscos.
z Abordagem Sociológica enfatiza aspectos das relações sociais, políticas e econômicas estabelecidas: laços sociais e de fidelidade entre os grupos sociais; legitimidade de instituições envolvidas no gerenciamento dos riscos; características dos processos políticos e dos momentos históricos; preocupações
de ordem econômica; presença ou ausência de evidências perceptíveis, como odores, sabores, fumaças e poeiras.
A análise de Freitas (2000) considera que as estratégias de gerenciamento de riscos devem considerar os aspectos psicológicos, sociais, culturais e morais que conformam à percepção do público. Pois as questões relacionadas a risco, não se restringem apenas a processos físicos, químicos e biológicos, mas inclui, sobretudo, os seres humanos em suas relações sociais.
Assim, a percepção de risco não deve ser tomada de forma isolada das questões concretas relacionadas a situações e eventos de risco, já que interage com inúmeros aspectos sociais.