A COMPLEXIDADE E O SHOPPING CENTER IGUATEMI DE PORTO ALEGRE – A ESTRATÉGIA DE COMPREENSÃO DO JOGO
2 A COMPLEXIDADE E O SHOPPING CENTER IGUATEMI DE PORTO ALEGRE – A ESTRATÉGIA DE COMPREENSÃO DO JOGO
A escolha do Paradigma da Complexidade de Edgar Morin (2001a) justifica-se na medida em que viabiliza a análise dialógica e transdisciplinar do fenômeno shopping center e, especificamente, o Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre, objeto deste estudo, e seus espaços constitutivos – a IESC, a cidade de Porto Alegre e, em escalas mais abrangentes, o estado e o Brasil. De acordo com Morin (2001a),
não é preciso acreditar que a questão da complexidade se põe apenas hoje a partir de novos desenvolvimentos científicos. É preciso ver a complexidade onde ela parece em geral ausente como, por exemplo, na vida quotidiana (MORIN, 2001a, p. 83).
Para este mesmo autor, a mudança de métodos e de princípios para analisar uma dada realidade ou objeto faz-se necessária, pois o conhecimento dá-se na complexidade, tendo a incerteza como mola propulsora na busca da verdade. Não existe para ele uma verdade primeira, portanto não há uma ciência capaz de dar todas as respostas. A complexidade, para o autor, corresponde a uma visão de mundo, na qual o homem se apresenta como um ser complexo, combinação de afetividade e objetividade.
Somos totalmente biológicos e culturais; e não apenas parcelas que se somam de base genética e cultural. Somos sujeitos e, nesse sentido, passíveis de sujeição, de submetermo-nos a variáveis que não são racionais. Somos simultaneamente autônomos e dependentes, pois se temos a possibilidade e a
liberdade das escolhas, estas, por sua vez, estão na dependência da diversidade de contextos socioculturais, da linguagem, da educação e, ao mesmo tempo, do contexto genético que, no conjunto, possibilita-nos fazer as escolhas. Morin enfatiza que:
Todo acontecimento cognitivo necessita da conjunção de processos energéticos, elétricos, químicos, fisiológicos, cerebrais, existenciais, psicológicos, culturais, lingüísticos, lógicos, ideais, individuais, coletivos, pessoais, transpessoais e impessoais que se encaixam uns nos outros. O conhecimento é, portanto, um fenômeno multidimensional, de maneira inseparável, simultaneamente físico, biológico, cerebral, mental, psicológico, cultural, social (MORIN, 2001a, p. 18).
Quando buscamos analisar de modo isolado as diferentes variáveis que constituem um todo, estamos favorecendo os processos de fragmentação e, conseqüentemente, dificultando as possibilidades de compreensão e de construção do conhecimento. Ao longo do século XIX, o conhecimento científico buscava a lei geral capaz de explicar e dar sentido à perfeição existente no Universo e, assim, iniciou-se a busca do “tijolo elementar” (MORIN, 2001a, p. 87). Nesse sentido, o autor refere-se ao paradigma da simplicidade, o qual “quer separar o que está ligado (disjunção), quer unificar o que está disperso (redução)”, com o intuito de “por ordem no universo e expulsar dele a desordem” (MORIN, 2001a, p. 86).
Porém, os avanços do conhecimento, ao longo do século XIX, trouxeram em seu bojo um conjunto de novos conceitos, entre esses, os relativos à Termodinâmica. Até o final do século XVIII, a “teoria do calórico” (TERRA, 2005), a qual partia do princípio de que o calor, como um fluido, distribuía-se igualmente por toda a natureza, propagando-se ou conservando-se em decorrência das características dos diferentes corpos, era a hipótese aceita, tendo sido apresentada
pelo Conde de Rumford (1753-1814)29 e Humphry Davy (1778-1829), com base em conceitos anteriores desenvolvidos por Lavoisier (1743-1794) e Laplace (1749- 1827).
Como não pôde ser devidamente explorada, na época, pela falta de métodos eficientes, somente com a máquina a vapor do escocês James Watt (1736-1819) e os estudos de Rumford, os quais estabeleceram relações entre calor e trabalho, é que surgiram novas hipóteses contrapondo-se às idéias até então existentes.
Nicolas Leonard Sadi Carnot (1796-1832) foi quem lançou as bases para os estudos da Termodinâmica, sendo seguido por Clausius (1822-1888), Julius Robert Mayer (1814-1878), Maxwell (1831-1879), Boltzmann (1844-1906) e Lord Kelvin (1804-1907), que avançaram no estudo das relações entre calor e trabalho, dessa forma, estabelecendo um novo conceito.
Ao contrário do que Carnot imaginava, isto é, todo o calor pode ser transformado em trabalho e vice-versa, sem perdas, os estudos concluíram que, considerados dois sistemas, aquele que dispõe de maior quantidade de energia apresentará uma maior desordem molecular, sendo que parte desta energia pode ser transformada em trabalho, mas, ao se inverter o processo, este mesmo trabalho não se reverte novamente na totalidade de energia utilizada para produzi-lo. A essa desorganização molecular, chamamos de entropia.
No Universo, “todo sistema físico sempre evolui para condições de máxima entropia” (SEARA DA CIÊNCIA, 2005, p. 2). Existindo sempre esta tendência,
29Todas as datas referentes aos anos de nascimento e morte dos cientistas mencionados foram obtidas a partir de um artigo intitulado Nascimentos da Física, de José Maria Filardo Bassalo, do Dep. de Física da UFPA (BASSALO, 1998).
podemos pensar desde uma xícara que cai no chão e se quebra em muitas partes, um sismo, a desestruturação da economia ou do urbano, as tensões sociais, as dificuldades de comunicação em um mundo cada vez mais apto, tecnologicamente, para os processos comunicacionais. e, por que não, a própria realidade que, ao transgredir os limites do mundo criado pelo Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre, desorganiza-o levando a novas (re)organizações.
Apesar da combinação das variáveis anteriormente apresentadas, especialmente aquelas que remetem à condição de “primavera o ano todo”, como amplidão, luminosidade, sonoridade, segurança e busca do isolamento do real, favorecidas não só pela forma, mas também, pelas cores e toda a ambientação construída, essa atmosfera é quebrada de tempos em tempos, pelos assaltos, seqüestros relâmpagos e até mesmo pelas condições climáticas.
Pela dificuldade de trabalharmos com dados oficiais30 fizemos então uma revisão dos jornais Zero Hora e Correio do Povo31, abrangendo o período de 1995 a 2006.
30Ao tentarmos levantar informações referentes às possíveis ocorrências, ao longo dos últimos anos, nos dirigimos, à 9ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, conforme Anexo H, responsável pela área onde se inclui o Shopping Center iguatemi. O Delegado, afirmou que não estava autorizado a disponibilizar informações e que deveríamos agendar um horário na Diplanco, Divisão da Polícia Civil responsável pelo levantamento estatístico das ocorrências encaminhadas pelas Delegacias. Nos contatos telefônicos que fizemos com a referida Divisão, fomos informados que havia uma ordem interna emitida pela Chefia da Polícia Civil, proibindo a divulgação dos dados estatísticos para o público externo. Foi explicado também, que o único setor possível para liberar as informações solicitadas seria o Departamento de Relações institucionais que por sua vez ao ser contatado, encaminhou para o site da Instituição, o qual fornece apenas informações genéricas. Através do programa de Pós-Graduação em Direito da PUCRS, fizemos contato com o Delegado responsável pela Delegacia da Infância e da Juventude, o qual contatou pessoalmente a Delegada de Polícia Elisângela Reghelin, Diretora Adjunta do DDRH/SJS e Diretora da Escola de Gestão da Justiça e da Segurança do RS. Conforme a íntegra dos e-mails no Anexo I, a Delegada afirma ter conversado com o Diretor do Dept. de Relações Institucionais, Cel. Trindade, mas que em função do período de transição de governo e pelo volume de trabalho, não era possível disponibilizar os dados.
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Ao fazermos a revisão dos jornais referidos, observamos que o Jornal Correio do Povo, traz as mesmas notícias do Jornal Zero Hora, porém, de forma mais sucinta. Desse modo, as nossas
Embora o Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre, atue no sentido de transmitir a sensação de segurança, esta já foi desconstruída em alguns momentos. Na pesquisa realizada, encontramos duas referências à tentativa de roubo de carro do estacionamento, uma em 08 de maio de 1995, (Zero Hora, p. 66), tendo o fato ocorrido no dia 06 e outra em 29 de setembro de 1998, ( p. 48),do referido Jornal, relatando o ocorrido no dia 26. A primeira notícia foi apresentada em página inteira, com o título: “Ladrão é morto por segurança de shopping” provavelmente porque o assaltante foi morto pelos seguranças do Shopping Center Iguatemi e o proprietário do carro levou um tiro na mão. De acordo com a repórter,
Um rapaz de 19 anos foi morto às 14h30min de sábado quando tentava roubar um automóvel BMW no estacionamento do Shopping Center Iguatemi, na Zona Norte de Porto Alegre. (...) “Neste momento ele levantou o cano da arma como quem fosse atirar”, conta o proprietário do carro, “eu me abracei nele para tentar desarmá-lo.” O rapaz acionou a pistola, atingindo a mão esquerda do advogado de raspão. O estampido do tiro alertou a segurança do shopping, realizada pela Rudder Segurança Ltda. O segurança mandou o assaltante parar. O rapaz apontou a arma em sua direção (...) o segurança atirou antes e atingiu a cabeça do rapaz, que morreu na hora.(...) o carro se desgovernou, bateu em outros três veículos estacionados e ficou prensado. Como o assaltante continuou acelerando, os pneus deixaram buracos no asfalto. Tudo aconteceu em cerca de dois minutos. Havia cerca de 10 mil pessoas no Iguatemi naquele momento. (...) O gerente-geral do Shopping Iguatemi, Fernando Zilles, lamentou o ocorrido e considerou correta a ação da segurança. “Nós orientamos os seguranças para que só atirem em última alternativa, devido ao risco de atingir outras pessoas”, afirmou. “E naquele momento não havia outro recurso senão atirar.” Segundo Zilles, foi o incidente mais grave dos 12 anos de existência do Iguatemi. Apesar do tiroteio, o shopping continuou funcionando normalmente. Cerca de 65 mil pessoas circularam no Iguatemi durante todo o dia de sábado. BRUM, ELIANE, Jornal zero Hora, 08 de maio de 1997, p. 66.
Ao afirmar que “foi o incidente mais grave”, Zilles, acena com o fato de que incidentes sempre ocorrem, mas, são solucionados no âmbito interno do Shopping Iguatemi, não chegando assim ao público externo.
referências remetem particularmente ao Jornal Zero Hora. As reportagens utilizadas estão reproduzidas em, ordem cronológica, no Anexo J.
Acreditamos que a segunda notícia mencionada obteve destaque na coluna Polícia, pois, estava incluída em reportagem intitulada “PMs envolvidos em furto e roubo”, constando referência a uma tentativa de roubo de carro no estacionamento do Shopping Center Iguatemi por um soldado lotado no 5º Batalhão de Polícia Militar (BPM) somente ao final do texto.
O ano de 2000 foi aquele em que encontramos mais notícias vinculadas a situações de entropia. Em 19 de janeiro de 2000, na coluna Plantão, da seção Polícia, do Jornal Zero Hora, encontramos uma nota com a chamada “Menina abandonada” a seguir reproduzida, na sua íntegra,
Uma menina com cerca de três anos foi encontrada no Shopping Iguatemi e encaminhada pelo conselho tutelar a um albergue da Capital, em 30 de dezembro. A menina tem o nome Franciele estampado na camisa (ZERO HORA, 19 de janeiro de 2000, p. 53).
A nota chama atenção por dois aspectos em particular, a condição de abandono e a data da publicação da notícia. Apesar de sempre haver uma defasagem entre o fato e sua publicação, esta excedeu, pois somente 20 dias após o ocorrido, a nota foi publicada. Os dois aspectos refletem a condição de entropia, pois, o abandono por si só reflete, uma máxima desorganização econômica, social e afetiva, no âmbito da família e da sociedade na qual está inserido. Podemos ainda dizer que, o contexto apresentado faz parte da realidade dos espaços urbanos de modo geral em especial àqueles vinculados aos chamados países “em desenvolvimento”32.
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Grifo no sentido de referir uma expressão comumente utilizada no senso comum e no meio jornalístico, mas, com a qual não concordamos por acreditarmos que a condição de desenvolvimento de um país está na dependência das relações estabelecidas no contexto global, não se constituindo assim em degraus a serem galgados.
O abandono de uma criança no Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre, pode talvez refletir, a expectativa de quem promoveu o abandono de que, as pessoas de maior poder aquisitivo que por lá circulam pudessem de alguma forma reorganizar a vida da menina.
O Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre, por sua vez, “reorganizou” seu espaço interno, que privilegia o Bem-Estar, encaminhando a criança aos órgãos competentes e somente vinte dias depois, passados os festejos de final de ano e iniciadas as férias, teve seu nome referido na nota em questão.
Neste mesmo ano, no dia 04 do mês de maio, o Shopping Center Iguatemi foi palco do desfecho de um seqüestro iniciado no Bairro Bela Vista, na sua área de influência. Em artigo da seção Polícia em quase página inteira, o Jornal Zero Hora do dia 05 de maio de 2000, explica que; ao sair do prédio do Shopping, após tentativa frustrada de saque em caixa eletrônica, o seqüestrador e a refém tiveram o carro bloqueado pela Brigada Militar sendo que o primeiro foi alvejado por um tiro no abdômen e encaminhado ao hospital.
Mas, não são só as entropias sociais que adentram no Shopping Center Iguatemi, as condições atmosféricas da cidade de Porto Alegre se fizeram presentes em 25 de novembro de 2000 e 04 de novembro de 2005. Apesar das datas indicarem, que estávamos no período da Primavera, as condições produzidas internamente de “Primavera o ano todo” não foram fiéis à primavera real que pelo volume de precipitação acabaram derrubando o forro de gesso do Shopping Iguatemi, nas duas ocasiões.
A divulgação da notícia, nos dois momentos foi na seção Geral, do Jornal Zero Hora, porém, enquanto em 27 de novembro de 2000, a nota apresentava um pequeno destaque, com a chamada: “Teto de gesso cai em Shopping”, em 07 de novembro de 2005, apresenta-se como o relato de um internauta, sem nenhuma outra referência no mesmo periódico, como podemos verificar nas transcrições a seguir,
Teto de gesso cai em shopping
Um pedaço do teto da praça de alimentação do segundo andar do Shopping Iguatemi caiu na tarde de sábado, em Porto Alegre. Por volta das 13h30min, um dos horários de maior movimento, o rebaixamento de gesso despencou. Apesar do susto, ninguém ficou ferido. O shopping deve se pronunciar hoje sobre o acidente, e a prefeitura fará uma vistoria (ZERO HORA, 27 de novembro de 2000, p.31).
Você repórter
Cheguei ao aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, por volta das 19h30min, fui direto para o Shopping Iguatemi, por volta das 20h, quando começou o temporal. No Restaurante Riversides, os vidros pareciam que iam quebrar. Um teto desabou, num dos corredores. Na saída, o caos no trânsito. Retornei no sábado para Floripa. Um dia lindo33 (ZERO HORA, 07 de novembro de 2005, p.30).
Nos dias 04 de dezembro de 2003 e 18 de março de 2006, foram registrados assaltos a lojas do Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre, divulgadas no Jornal Zero Hora, nos dias 05 de dezembro de 2003 e 20 de março de 2006, na seção Polícia.
A primeira reportagem relata o assalto a Joalheria Natan, localizada no segundo andar do Shopping, seguido de ameaça de bomba, que se revelou ao final como um “tijolo dentro de uma caixa”. Na reportagem, o gerente geral do Shopping Center Iguatemi, afirmou que, “a estrutura de segurança do shopping foi acionada e
33 Na página classificada como Geral, a notícia aqui reproduzida, da coluna Você repórter do clicRBS, foi feita por Claudia Andréa Assis, de Florianópolis, Santa Catarina.
chegou à loja em 20 segundos34, mas não reagiu para evitar um confronto. Naquele momento cerca de 3,5 mil pessoas estariam no shopping” (ZERO HORA, p.62, 05/12/2003)
Em 2006, o assalto simultâneo a duas joalherias dentro do Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre, seguido pela constituição de três reféns para fuga, assumiu maiores proporções. O presidente da Associação das Joalherias e Ópticas do RS, Claudemir Barreto Bernardo, afirmou, segundo Ermel (2006, p.36) que, “Os lojistas saíram da rua e buscaram o shopping por causa da segurança, que está omissa”. No texto, o presidente da Associação afirma ainda que é “necessário um maior entrosamento das polícias com a segurança dos shoppings”. A gerente de marketing do Shopping Center Iguatemi, Nailê Mariano da Rocha Santos, afirmou, por sua vez, que, “em 23 anos, essa é a primeira vez que ocorre um assalto nessas proporções, nunca houve nada semelhante”, esquecendo-se do ocorrido em 1997, já referido anteriormente.
É nesse contexto que nosso trabalho se desenvolve, através de um estudo de caso. De acordo com Triviños (2001), a pesquisa qualitativa se desenvolve com os primeiros estudos antropológicos, seguidos das análises na área da sociologia, especialmente nos estudos envolvendo pesquisas com comunidades. Esse modelo de pesquisa ganha adeptos, pois, os pesquisadores destas áreas perceberam que havia aspectos na análise que não podiam ser quantificados, particularmente aqueles relativos a contextos culturais. Esse novo modelo, ainda de acordo com o autor originou um conjunto de estudos etnográficos, vindo a constituir de modo geral a base das pesquisas qualitativas.
34 Grifo da autora.
Para o autor (2001, p.74), “o Estudo de Caso é um tipo de pesquisa cujo objeto é uma unidade que se analisa profundamente.” Essa perspectiva confere à pesquisa um grau maior de abrangência e de complexidade, o qual dependerá também, do objeto de estudo e da abordagem teórica a ser utilizada, isto é se estudamos um sujeito ou uma organização, se simplesmente descrevemos “de forma descontextualizada” ou se consideramos “aspectos culturais” ou ainda “relações mediatas e imediatas com o ambiente do sujeito e com o marco econômico e social mais amplo” (TRIVIÑOS, 2001, p. 74-5).
Nessa perspectiva, Yin (2003, p.32), coloca que, “um estudo de caso é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos”.
Com base nestes pressupostos iniciais podemos dizer que, o estudo de caso é um tipo de pesquisa pertinente para a busca da compreensão dos espaços comunicacionais do Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre. Ao analisarmos o Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre buscamos compreender o conjunto de relações, interações e trocas existentes entre o nosso objeto de estudo e a IESC, a cidade de Porto Alegre e o país, refletindo a respeito dos diferentes espaços comunicacionais deste shopping e dos movimentos daí resultantes num permanente processo de construção e (re)construção da organização espacial e comunicacional.
Este perfil de pesquisa nos coloca, enquanto pesquisadores, em uma participação mais ativa, isto é, ele participa da realidade que estuda, assim como dos fenômenos dos quais procura compreender e captar seus significados
(TRIVIÑOS, 2001). Podemos ainda complementar com Yin (2003, p. 33), quando refere Stoecker (1991), analisando a abrangência do estudo de caso, afirma que este, “não é nem uma tática para a coleta de dados nem meramente uma característica do planejamento em si, mas uma estratégia de pesquisa abrangente.”
Ao pensarmos nessas inter-relações com base no Paradigma da Complexidade de Morin (2001a, p.106-9), apoiamo-nos em seus três princípios, ou seja, “a dialogicidade, a recursão organizacional e o princípio hologramático”. Esses três princípios, apesar de apresentados em separado, não podem ser pensados desta forma, uma vez que um remete ao outro e assim sucessivamente. Nossa proposta, neste capítulo, é justamente evidenciar como estão presentes no tabuleiro de relações anteriormente mencionado.
A dialogicidade corresponde a uma combinação de idéias, conforme o autor, “simultaneamente, antagônicas e complementares”. A IESC, a cidade de Porto Alegre, o Shopping Center Iguatemi e seus públicos dialogam, constituindo no Mix de lojas e na heterogeneidade de públicos, mesmo que sua grande maioria insira-se numa condição econômica mais homogênea, diferentes espaços comunicacionais à semelhança do urbano de Porto Alegre.
Conhecer e, especialmente, compreender estes diferentes espaços comunicacionais do Shopping Center Iguatemi implica na busca do conhecimento e da compreensão das demais peças desse xadrez, que não se limitam à cidade de Porto Alegre e ao IESC, mas ao contexto global presente nestas relações. Global e local interagem, e as expressões dessas interações podem ser percebidas nas mudanças ocorridas ao longo do tempo na (re)organização dos espaços
comunicacionais do Shopping Center Iguatemi. Através das relações estabelecidas entre as especificidades dos diferentes públicos e os conceitos desenvolvidos pelo Shopping Center Iguatemi, “Maior”, “melhor Mix”, “Estilo”, ”Atitude”, “Movimento”, a recursão organizacional pode ser observada, pois, como declara Morin em sua obra, “os produtos e efeitos são ao mesmo tempo causas e produtores” (MORIN, 2001a, p. 10), o que nos remete ao princípio hologramático.
Conforme Morin (2001a, p.108), “num holograma físico, o ponto mais pequeno da imagem do holograma contém a quase-totalidade da informação do objecto representado.” Trazendo este princípio para o nosso objeto de estudo, podemos afirmar que o Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre constitui-se no