Capítulo 3 IDENTIDADE CULTURAL BANTU ANGOLANA
3.4 A cultura Bantu na construção identitária angolana
3.4.2 A complexidade entre a mulher Bantu e a mulher “moderna”
A dimensão imposta pela globalização, ao nível mundial, provocou mudanças nas instituições públicas e no quotidiano dos indivíduos, principalmente nos países ocidentais, o que os leva a libertarem-se do peso da tradição. Entretanto, em outras partes do mundo, inclusive no continente africano, sociedades com um domínio tradicional muito forte, sob influência da globalização, vêem-se obrigadas a abandonar algumas das suas tradições. No entanto, e ainda no seguimento das reflexões de Giddens, sublinha-se que nas famílias tradicionais, a “desigualdade entre homens e mulheres” ainda é um facto (Giddens, 2012: 48).
Nas sociedades africanas a mulher tende a ser vista como um ser cuja “função é reproduzir-se e aumentar os membros da sociedade” (Hountondji, 2012: 213). A maternidade constitui o papel social mais importante atribuído à mulher bantu. O desempenho desse papel é bastante relevante na sociedade africana, ocupando um “lugar específico e honroso”, devido à sua “natureza procriadora”. São os filhos e a actividade agrícola que lhe “outorgam prestígio” e estatuto no meio social e familiar. Nestas sociedades, prevalece a estrutura matrilinear, onde a mulher mãe-agricultura-doadora de sangue-linhagem “goza de posição social”, detém um lugar cimeiro na família e “concretiza a ânsia, a força e o mistério da fecundidade (realiza a vida) e dá continuidade à solidariedade”. Ocupa o centro dinâmico, constitutivo da comunidade. No entanto, a poligamia acaba por ensombrar a dignidade que lhe é atribuída (Altuna, 2006: 255-260).
A mulher, que se tende a distinguir pela sua comprovada fecundidade e produtividade agrícola, possui os atributos que a tornam “desposável”. Contudo, estes atributos “ocasionam a ociosidade do homem”, que acaba por ser sustentado pela mulher, o que reforça, ainda mais, a dignidade e a responsabilidade familiar e social da mesma (Idem, 2006: 260).
Em algumas culturas africanas, as jovens não se podem opor ao casamento ou à maternidade. Caso contrário, são sujeitas a fortes punições. Isto ocorre porque “a procriação não é, para estes povos, uma escolha, mas sim um dever” (Hountondji, 2012: 231). Como tal, uma mulher estéril não só “não consegue a plenitude feminina” como, em alguns casos, é considerada feiticeira (Altuna, 2006: 306).
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Hountondji (2012: 232) afirma que apesar da maternidade conceder prestígio à mulher “ela não goza de nenhuma contrapartida real”, nem tem poder de decisão sobre a “sua própria vida” e de se integrar naturalmente nas esferas sociais, principalmente nos tempos modernos.
Contudo, apesar destas restrições, em algumas sociedades angolanas, o poder atribuído à mulher bantu também se estende à ascensão de lugares de chefias junto das autoridades tradicionais46 (Altuna, 2006: 259).
Fruto dos tempos “modernos”, apesar de existirem discrepâncias visíveis nos papéis sociais de género, as mulheres angolanas têm vindo a assumir timidamente algum protagonismo tanto nas zonas urbanas como nas rurais, desempenhando importantes funções ao nível do aparelho do Estado, da sociedade e, principalmente, da família.
Dados apontados pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE, 2016), indicam que as mulheres constituem a maior franja da população adulta do país com 52%, dos quais 62,4% reside nas zonas urbanas, ao passo que 37,6% encontra-se nas zonas rurais47. A população
feminina angolana é bastante jovem (média etária de 15 anos), apresentando, no entanto, um grau de iliteracia considerável: apenas 5% possui o ensino superior, 22% nunca foi à escola, 33% não sabe ler nem escrever e 31% não terminou o ensino secundário. Pela sua juventude, o território angolano possui uma taxa de fecundidade de 5,7 filhos por mulher. Nas zonas urbanas a taxa é de 5,2 e, nas zonas rurais, é de 6,5. Esta taxa de fecundidade varia, também, em função do nível de escolaridade e da área de residência das mulheres.
Angola é um país com uma das maiores taxas de mortalidade materno-infantil do mundo. Dados do IBEP (INE, 2011) de 2008-2009 referiam para uma taxa de mortalidade materna entre os 400 e 450 óbitos por cada 100 mil nados vivos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, UNICEF; UNFPA, World Bank Group, The United Nations Population Division, 2015), desde 1990 a 2015, a taxa de mortalidade reduziu para 58,9%, passando de 1160 mortes por 100 mil nados vivos para 477 mortes, em 2015. No entanto, em 2015, registaram-se 1078 e, em 2016, 1239 mortes maternas por causas obstetras directas (hemorragias, toxemia, infecção puerperal, rotura uterina, gravidez ectópica, aborto e outras causas com o maior número de casos “191 em 2015; 160 em 2016”) e indirectas (malária,
46Autoridades tradicionais são consideradas “entidades que integram e dirigem as respectivas comunidades, sendo respeitadas por, entre outras virtudes e poderes, serem pessoas com autoridade para decidirem sobre a questão de natureza feiticista” (Feijó, 2012: 42).
47 Importa referir que Angola tem mais de 25 289 localidades rurais comparativamente a 2352 localidades urbanas (MINFAMU, 2017: 46-58).
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hepatite, VIH/SIDA, tuberculose e outras causas também com o maior número de casos “160 para 2015 e 127 em 2016”) (MINFAMU, 2017: 45-46).
Quanto à situação económica das mulheres angolanas entre os 15 e os 64 anos, os resultados apresentados em 2014 (INE, 2016) indicavam uma taxa de desemprego de 24,9%. Segundo os dados do estudo elaborado pelo IIMS 2015-2016, cerca de 36% da população feminina dedicava-se ao sector agrícola. Apenas 8% era qualificada e 2% tinha cargos técnicos ou de gerência. Embora com algumas variações, os dados do Censo 2014 e os resultados do IIMS 2015-2016 mostram que, entre 35% a 38% dos agregados familiares angolanos são chefiados por mulheres (MINFAMU, 2017: 41), cabendo-lhes a tarefa de proverem alimentos para os filhos e garantir a educação dos mesmos. Ora, tendo em conta o fraco nível de escolaridade, as mulheres angolanas encontram barreiras para se integrarem no mercado formal de trabalho, sendo forçadas a recorrer ao mercado informal onde desenvolvem uma actividade de subsistência. Para o caso concreto das zungueiras48, essa actividade tende a ser bastante dura:
não só são forçadas a trabalhar horas a fio, como costumam percorrer vários quilómetros a pé, com mercadorias à cabeça e, por vezes, com o filho às costas. Trata-se de uma actividade sem garantias e direitos, caracterizada pela extrema insegurança e incerteza. Estão sujeitas a todo o tipo de violência: perseguições dos fiscais das administrações municipais, assaltos e risco de serem atropeladas aquando da fuga repentina aos fiscais em direcção à estrada. As condições em que estas mulheres se encontram são consideradas de grande vulnerabilidade, o que de certa forma agudiza, ainda mais, a desigualdade de género dado que “não beneficiam dos direitos aplicáveis na legislação em vigor, tais como licença da maternidade, segurança social e salários dignos, para além de estarem vulneráveis à elevada instabilidade profissional” (MINFAMU, 2017: 68).