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2. Capítulo I: De portas abertas para a história: Bibliotheca Nacional e Pública do Rio de

2.2. A composição do acervo da Real Bibliotheca

Ao chegar a terras brasileiras, a Real Bibliotheca já tinha um grande e variado número de livros e uma rica coleção de obras raras. A mudança não fez com que o acervo parasse de crescer, seja por doações de particulares ou benefícios concedidos por leis do Estado.84 Logo em 1811 foi doada à

instituição pública a biblioteca do frei José Mariano da Conceição Veloso, naturalista e especialista em botânica, que contava com aproximadamente 2.500 volumes dentre impressos e manuscritos.85 No ano

seguinte, o crescimento do acervo foi beneficiado pelo decreto das Propinas, pelo qual oficinas tipográficas de Portugal e a Impressão Régia do Rio de Janeiro deveriam enviar um exemplar de tudo que imprimissem às bibliotecas públicas.86

Por intermédio do livreiro português estabelecido no Rio de Janeiro, Manuel Joaquim da Silva Porto, a Real Bibliotheca adquiriu uma das maiores coleções particulares de livros da época, de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, em 1815.87 Schwarcz indica que naquela coleção, um pouco mais de um terço dos livros versavam sobre direito e o restante era “obras gerais”, dentre as quais havia “vários livros que só poderiam ser lidos com autorização da censura, ou eram mesmo proibidos.”88.

As regras de funcionamento da casa de 1821 (que serão expostas a seguir) mencionam a existência de um índice somente para livros proibidos.89 Provavelmente um romance licencioso, lido no 84 SCHWARCZ, Lilia Mortiz; AZEVEDO, Paulo Cesar de; COSTA, Angela Marques da. A longa viagem da biblioteca dos

reis...Op. cit. 2002.

85 SCHWARCZ, Lilia Mortiz; AZEVEDO, Paulo Cesar de; COSTA, Angela Marques da. A longa viagem da biblioteca dos

reis... Op. Cit. 2002. P. 145.

86 SCHWARCZ, Lilia Mortiz; AZEVEDO, Paulo Cesar de; COSTA, Angela Marques da. A longa viagem da biblioteca dos

reis... Op. cit. 2002. P. 281.

87 Livreiro português estabelecido no Rio de Janeiro. SCHWARCZ, Lilia Moritz et allii. A longa viagem da Biblioteca dos

reis... Op. cit. 2002. P.278.

88 SCHWARCZ, Lilia Mortiz; AZEVEDO, Paulo Cesar de; COSTA, Angela Marques da. A longa viagem da biblioteca dos

reis... Op. cit. 2002. P. 278.

89 Estatuto da Real Bibliotheca de 1821. Artigo XV. Consultado em janeiro de 2009 no site:

período de registro nos códices, fazia parte deste acervo de livros proibidos. A história consultada na instituição narra as aventuras de Saturnino90, que é considerado um romance filosófico.

Em 1818, outra coleção significativa foi incorporada à Biblioteca: o acervo do arquiteto português José da Costa e Silva, “composto de estampas, desenhos, camafeus, mapas, esboços de arquitetura, livros de estampas, livros de arte, de literatura, de história, e de arquitetura”91.

A elite do governo também estava entre os benfeitores que faziam suas doações, como o próprio d. João VI, o marquês de Marialva, Tomás Antônio de Vilanova Portugal e Francisco Borja Garção Stockler (marquês de Belas). No período de 1817 a 1820 constam em registros 317 obras doadas para a Real Bibliotheca.92

Sem dúvida, dentre todas essas doações, é importante destacar a dos livros de Antonio Araújo Azevedo, o conde da Barca, que passaram a integrar o acervo da Real Bibliotheca em 1817.93 O

destaque desta biblioteca particular, entre outros aspectos, deve-se à quantidade de obras que compõe o acervo, fazendo dela uma das mais importantes doações recebidas pela Biblioteca na época.94

Em 15 de novembro de 1827, o imperador ordenou que fosse acatada a resolução de 12 de setembro de 1805 da Assembléia Geral Legislativa, assim folhas, periódicos e jornais públicos dirigidos às bibliotecas públicas não pagariam portes de correio, e também os livros encaminhados para as mesmas seriam isentos de direitos alfandegários e portos secos.95 É possível que esta resolução tenha

contribuído para o crescimento do número de doações não somente para o acervo da Real Bibliotheca, 90 Para saber mais informações sobre a história de Saturnino e de romances filosóficos consultar: GALVES, Charlotte &

ABREU, Márcia. “A circulação clandestina de romances e o mistério do ‘anônimo brasileiro’”. Consultado em agosto de 2010 no site http://www.tycho.iel.unicamp.br/~tycho/pesquisa/artigos/GALVES_Cetal-2007a.pdf

91 SCHWARCZ, Lilia Mortiz; AZEVEDO, Paulo Cesar de; COSTA, Angela Marques da. A longa viagem da biblioteca dos

reis... Op. cit. 2002. P. 281.

92 SCHWARCZ, Lilia Mortiz; AZEVEDO, Paulo Cesar de; COSTA, Angela Marques da. A longa viagem da biblioteca dos

reis... Op. cit. 2002. P.281.

93 SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Cultura e sociedade no Rio de Janeiro... Op. Cit. 1977. SCHWARCZ, Lilia Moritz et

como para o de outras instituições públicas de leitura do Brasil96.

A Real Bibliotheca em terras brasileiras herdou o acervo da instituição do velho mundo, ainda que esta tenha sido destruída após o terremoto de 1755. Depois da independência, a instituição ficou no Brasil e, de acordo com dados de Hippolyte Taunay e Ferdinand Denis, foram disponibilizados mais de 60.000 volumes ao público em sua inauguração.97 As compras e doações continuaram e aumentaram

significativamente em menos de dez anos. Segundo a viajante inglesa Maria Graham98, em sua primeira

visita ao Brasil, em 1821, a Biblioteca era composta por 70.000 volumes. Assim, esta biblioteca pública destaca-se também pela sua singularidade, já que era uma instituição real, que possuía uma das maiores e mais preciosas coleções de livros da América99.

Provavelmente foi por causa da lei, mencionada acima, que todos os romances impressos em português chegaram às estantes da Biblioteca, pois o acervo desta instituição era proveniente da coleção de livros da Real Bibliotheca da Ajuda. Logo, a maior parte do acervo da instituição era composta por obras raras, seguida por coleções de grandes eruditos. Documentos da instituição levam a crer que a finalidade inicial da Biblioteca era o estudo de “objectos sérios”, o que permite pensar que dificilmente haveria uma política de compra sistemática de romances em uma instituição com esse perfil. Somados estes fatores é possível notar os limites estabelecidos pela própria pesquisa, uma vez

94 SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Silvestre Pinheiro Ferreira: ideologia e teoria. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 175.

Pp.30-31.

95 SCHWARCZ, Lilia Mortiz; AZEVEDO, Paulo Cesar de; COSTA, Angela Marques da. A longa viagem da biblioteca dos

reis … Op. cit. 2002.

96 Nizza da Silva conta que a Bibliotheca Nacional e Pública recebia e encaminhava as doações duplicadas de livros a

Livraia Pública da Baía. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A cultura luso-brasileira... Op. cit. 1999. P. 142.

97 TAUNAY, Hippolyte; DENIS, Ferdinand. Le Brésil... 1822. APUD: SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A cultura luso-

brasileira ... Op. Cit. 1999. Pp. 145-146.

98 GRAHAM, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil. (Trad. A. J. L.) Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1990. P.

205.

99 SCHWARCZ, Lilia Mortiz; AZEVEDO, Paulo Cesar de; COSTA, Angela Marques da. A longa viagem da biblioteca dos

que esta se interessa pela leitura de Belas Letras, sobretudo do gênero romance, na casa.

Com a independência do Brasil em 1822, a Real Bibliotheca passou a ser denominada de Bibliotheca Imperial e Pública. Nesta época, Portugal reivindicava a propriedade da instituição e a condição de biblioteca do rei. Passados alguns anos, somente quando o Brasil concordou em indenizar a ex-metrópole por meio do pagamento das dívidas portuguesas ao Reino Unido100, Portugal enfim

reconheceu a nova denominação da instituição e atribuiu ao Brasil sua posse em 29 de agosto de 1825.101 Essa mudança de nome e de posse da instituição não afetou o Estatuto de 1821, que não foi

alterado e regeu a Biblioteca por todo período estudado neste trabalho.