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As fronteiras sob a ótica das teorias clássicas e neoclássicas das Relações Internacionais

A COMPREENSÃO DE PODER COMO CATEGORIA OPERATIVA

O poder é um termo amplamente usado e, também, é

“supreendentemente impreciso e difícil de medir” (NYE, 2012, p. 23). Há inúmeras definições postas, todavia o que há em comum entre tantas tentativas de conceituá-lo, é que ao usar o termo “poder” remetemos a capacidade de um ator de conseguir o que se quer (ALLEN, 2003; FIORI, 2014; FOUCAULT, 2008). Podemos concordar com Claude Raffestin (1993, p.53), ao referenciar Michel Foucault, quando apresenta que um caminho para entender o poder está em vislumbrar o seu exercício. “Uma vez que o poder não se adquiri, ele é exercido a partir de inumeráveis pontos”. Bem, se entendemos que o poder é exercido, temos ao menos duas questões básicas entorno deste. A primeira é: quem o exerce? A segunda é: de que forma se exerce?

Os dois questionamentos indicam caminhos metodológicos primordiais. Pois o primeiro aponta para necessidade de pensar atores sintagmáticos, ou seja, aqueles que pode fazer usos de ações ou decisões, que em maior ou menor grau apresentam-se “empoderados”. O segundo questionamento indica o “como”, isso refere-se a maneira, trata-se dos métodos e recursos que esse ator faz uso para desenvolver e demonstrar o seu poder. Porém, o desenvolvimento destas duas respostas estará em entendermos as concepções epistêmicas e contextuais que influenciam os estudos sobre o poder.

Segundo Claude Raffestin é necessário identificar que o poder, enquanto um termo possui ambiguidades. Uma vez que sua grafia com P (maiúsculo) e com p (minúsculo) indica pistas para pensar atores e formas de ação. Segunda ele o “Poder com a letra maiúscula postula, como dados iniciais a soberania do Estado, a forma da lei ou da unidade global de uma dominação” (RAFFESTIN, 1993, p. 51). Essa relação interpretativa vincula a percepção de poder fortemente ligado a figura do Estado-Nação, uma vez que é “visível, maciço e identificável” pois se articula por intermédio de aparelhos complexos que “encerram o território, controlam a população e dominam recursos” (RAFFESTIN, 1993, p. 52). Por sua vez, o poder com a grafia minúscula é mais “perigoso”, pois trata-se não apenas de um ator, mas de uma relação. Ele não se caracteriza apenas no Estado, ele está contido nele e não restrito a ele. Para o Autor ele “está presente em cada relação, na curva de cada ação, insidioso, ele se infiltra em todas as fissuras sociais...”. Trata-se de pensar poderes de poderes.

Estamos falando em um inumerável número de atores, não tão visíveis, que atuam na orquestração do poder, e que podem se tornar um Poder (com letra minúscula).

Assim, ator (quem) e exercício (como) se complexificação ainda mais, pois não podemos restringir a figura do Estado-Nação a condição de único ator a ser considerado nos estudos que envolve a Geografia política e Geopolítica e suas interfaces. Diante de uma multivariedade epistêmica, devemos pensar proposições sobre o poder, que não buscam defini-lo, mas permite refletir algumas maneiras de identificá-lo.

Sobre isso, em Claude Raffestin (1993, p. 54-55) com as leituras de Foucault, poderíamos pensar algumas proposições sobre o poder, que permitem visualizar o poder contido como relação, e não apenas como uma “coisa” que pode ser tomada. Isso propaga possibilidades analíticas.

Assim podemos considerar as seguintes proposições:

[i] se exerce - como dito anteriormente o poder é praticado e exercício por inumerável pontos e formas;

[ii] se expõe na ocasião – trata-se de pensar que o exercício de poder faz com que o ator se exponha e permita identificá-lo, aqui trata-se do contexto em que o poder se manifesta;

[iii] é organizado – aqui partimos da perspectiva de que o poder há uma certa coerência, uniformidade que o vai prosseguir;

[iv] é intencional – trata-se do sentido direcional do poder que é exercício em busca de algo, neste sentido ele não é aleatório;

[v] sofre resistências – estamos indicando que a medida que poder se apresenta há um movimento inerente de contrapoder; e

[vi] é coextensivo a qualquer relação – aqui é uma característica das relações de poder se se manifesta por sua singularidade, em qualquer relação social.

Se ampliarmos a leitura e tomarmos algumas proposições sobre poder de José Luiz Fiori (2014, p. 18-20), perceberemos uma complementariedade com as indicações anteriores, servindo, também, como parâmetros nas análises das relações de poder. Assim, temos as seguintes proposições:

[vii] assimétrico – pois numa relação perceberemos dimensões de desiquilíbrio;

[viii] limitado – uma vez que se “todos tivessem o mesmo poder não haveria disputa”;

[ix] relativo – neste caso ele envolve dimensões hierárquicas e (des)proporcionalidades para validar a expansão e retração da influência de um ator;

[x] heterostático – revela que qualquer ação desencadeia uma série de reações, ou seja, nenhuma manifestação gerará efeito de soma zero;

[xi] triangular – uma vez que o poder se define também em relação com o outro, tendo coerência e unidade (o que lembra a noção de que o poder é organizado);

[xii] fluxo – aqui o poder é entendido com movimentos, ou seja, o poder não é estático e nem neutro;

[xiii] sistêmico – que marca dimensões já tratadas por Raffestin de organização e resistência, uma vez a dimensão sistêmica pressupõem que poder produz outros poderes com certas unidades e organicidades;

[xiv] expansivo – essa que remete a uma infinidade de relações, que superam relações binárias, o que cria complexidade do jogo de interpretação do poder;

[xv] indissolúvel – essa proposição informa que o poder se constitui sobre outro poder, trata-se da forma de perpetuação através da conquista, da reprodução e da expansão;

[xvi] dialético – esse nos lembra que o poder se constitui também por sua negação, é o anti-poder, aqui que está em busca de destruí-lo, dominar ou controlar o poder; e

[xvii] ético – esse pressuposto indica que o poder é auto organizado em torno de valores que guia sua movimentação, seus impulsos.

A partir da releitura das proposições, percebemos que não há uma negação entre elas, mas uma complementariedade que consolida o quão complexas são as relações de poder. Por serem extensivas a qualquer relação, tenderemos a ter n atores, e n formas de exercitar seu poder, mediante o número de relações que busquemos interpretar. Assim, o enquadramento destes pressupostos nos permite ultrapassar a tentativa de definir o que é o poder, e indica um caminho para buscar o quem (ator) e o como (forma de exercício) na leitura das relações e suas múltiplas

escalas modos. Todavia, essa percepção dependerá da forma como olhamos para o poder se ele é com P maiúsculo ou p minúsculo.