Para a análise dos possíveis direitos e benefícios previdenciários do acometido pelas doenças ocupacionais, mais especificadamente a perda auditiva ocupacional, torna-se fundamental o estudo do artigo 169 da CLT, in verbis, tratando da Comunicação de Acidente de Trabalho:
Art. 169 - Será obrigatória a notificação das doenças profissionais e das produzidas em virtude de condições especiais de trabalho, comprovadas ou
objeto de suspeita, de conformidade com as instruções expedidas pelo Ministério do Trabalho. (BRASIL, 2015, p. 1)
O arcabouço legal traz a previsão de inúmeros direitos e benefícios, entre eles os previdenciários, à disposição do cidadão, que incorrendo em situações pré-determinadas pela lei, pode invocar a fruição dos mesmos. Para isso, o pólo ativo não pode permanecer inerte.
É o que trazem Castro e Lazzari (2014, p. 475-476), observando que a concessão dos benefícios previdenciários, via de regra, se dá após o segurado requerer o benefício a que tem direito. Entretanto, em vista das particularidadesenvolvendo o tema acidente de trabalho, esse ônus foi retirado do segurado e seus dependentes, sendo de competência da empresa a comunicação do acidente de trabalho, doença profissional ou do trabalho.
Como traz Amado (2015, p. 36), cabe frisar que com o advento da Lei Complementer 150/2015, a qual estendeu os benefícios previdenciários por acidente de trabalho aos empregados domésticos, o empregador doméstico também passou a ser responsável pela emissão da CAT.
Porém, apesar da obrigatoriedade legal da emissão da CAT pela empresa, sabe-se que há muita subnotificação, principalmente quando se trata da perda auditiva ocupacional.
Ibrahim, (2015, p. 652), traz que há uma natural resistência dos empregadores em emitir a CAT em matéria de doenças ocupacionais, reconhecendo a natureza acidentária de determinada incapacidade. Para o autor, tal fato se dá não só devido à elisão das obrigações legais, como o depósito de FGTS, estabilidade de 12 meses e eventual responsabilidade civil, mas também pela dificuldade de afirmar-se com certeza que a doença tem liame direto com o trabalho.
No caso das perdas auditivas ocupacionais, além dos motivos supra referidos, também merece destaque a forma lenta na qual a perda auditiva se instala, fazendo com que o acometido, não perceba a degeneração de sua audição. A PAIR é uma doença silenciosa.
Cabe salientar a colocação de Ibrahim (2015, p. 653), que apesar da lei prever a possibilidade de preenchimento da CAT por outras pessoas, a mesma não ocorre. Dessa
forma, como a perícia médica do INSS condiciona a concessão do benefício acidentário à CAT, acaba o segurado recebendo o benefício comum (auxílio-doença), quando deveria ser amparado pela prestação acidentária (auxílio-doença acidentário) e suas garantias.
A CAT ao INSS é feita por um formulário próprio, em até um dia útil após a ocorrência, e no caso de morte, deve ser realizada imediatamente, à autoridade policial competente, sob pena de multa variando entre os limites mínimo e máximo do salário de contribuição, aplicada pela fiscalização do INSS. Caso a empresa não faça a comunicação, é permitido que o próprio acidentado, dependentes, entidade sindical correspondente, o médico que assistiu ou qualquer autoridade pública o faça, independente do prazo. Salienta-se que essa comunicação não isenta a empresa da responsabilização pela ausência da comunicação no prazo, conforme §§ 2º e 3º do art. 22 da Lei 8.213/91. (CASTRO; LAZZARI, 2014, p. 476) O mesmo se aplica ao empregador e ao empregado doméstico.
Porém, como já afirmado por Ibrahim, a comunicação, quando não realizada pela empresa, dificilmente acontece. Dessa forma, trabalhadores desconhecedores de seus direitos, deixam de usufruir dos benefícios advindos do auxílio-doença acidentário, como a estabilidade provisória.
Entretanto, em face dos inúmeros casos de subnotificação da CAT, Castro e Lazzari (2014, p. 476) trazem que a jurisprudência tem se manifestado no sentido de que a falta de emissão, não constitui óbice para reconhecer a natureza acidentária da incapacidade, como demonstram a seguir:
ESTABILIDADE PREVIDENCIÁRIA. NEXO CAUSAL ENTRE A MOLÉSTIA PROFISSIONAL E O TRABALHO. Presente o nexo de causalidade, desnecessário se faz a emissão de CAT e afastamento com o percebimento de auxílio doença acidentário, visto que a doença se equipara a acidente do trabalho, ou seja, aquela “adquirida ou desencadeada em função de condições especiais e com ela se relacione”, nos termos do art. 20, II da Lei nº 8.213/91 (TRT da 2ª Região, RO no Proc. 01596-2007- 083-02-00-6, Rel. Sergio Winnik, 4ª Turma, DJ 04.12.2009). (CASTRO; LAZZARI, 2014, p. 476)
Apesar de a jurisprudência reconhecer a natureza acidentária mesmo sem a emissão da CAT, a falta da emissão pela empresa, além do descumprimento do estabelecido na lei, lesa
direitos dos trabalhadores, bem como traz trabalho desnecessário ao judiciário, que precisa resolver lides, já estabelecidas pela lei.
Como já referido, a falta da comunicação ou o atraso na mesma incorre em multa à empresa, elevado em duas vezes o seu valor a cada reincidência e será aplicada, no seu grau mínimo, na primeira ocorrência. A comunicação pode ser feita a qualquer tempo, sendo que a data de início do auxílio-doença será fixada no décimo sexto dia após o acidente. (CASTRO; LAZZARI, 2014, p. 476)
Cabe salientar que as CAT feitas ao serviço médico conveniado à rede pública, contratado ou particular, dentro do prazo estipulado no art. 22 da Lei n. 8.213/91, são consideradas como comunicação feita ao INSS. (CASTRO; LAZZARI, 2014, p. 476)
Importa frisar que a CAT deve ser realizada em qualquer evento que caracterize doença ou acidente de trabalho, independente do afastamento do trabalho. Nesse sentido, também concordam Castro e Lazzari (2014, p. 476). Dessa forma, sendo a perda auditiva ocupacional uma doença ocupacional, verifica-se a necessidade da emissão da CAT quando verificada sua ocorrência.
São responsáveis pela emissão da CAT, segundo Castro e Lazzari (2014, p. 476-477)
a) no caso de segurado empregado, a empresa empregadora;
b) para o segurado especial, o próprio acidentado, seus dependentes, a entidade sindical da categoria, o médico assistente ou qualquer autoridade pública;
c) no caso do trabalhador avulso, a empresa tomadora de serviço e, na falta dela, o sindicato da categoria ou o órgão gestor de mão de obra;
d) no caso de segurado desempregado, nas situações em que a doença profissional ou do trabalho manifestou-se ou foi diagnosticada após a demissão, as seguintes pessoas ou entidades: o próprio acidentado, seus dependentes, a entidade sindical competente, o médico que o assistiu ou qualquer autoridade pública.
Salienta-se que após a Lei Complementar 150/2015, o empregador doméstico também passou a ser responsável pela emissão da CAT. (AMADO, 2015, p 36)
A CAT pode ser inicial, de reabertura ou de comunicação de óbito. A CAT inicial é a que se refere a acidente de trabalho típico, trajeto, doença profissional, do trabalho ou óbito
imediato. Já a CAT de reabertura é aquela utilizada para os casos de afastamento devido ao agravamento de lesão de acidente do trabalho ou de doença profissional ou do trabalho. E, por fim, a CAT de comunicação de óbito é aquela emitida exclusivamente para casos de falecimento decorrentes de acidente ou doença profissional ou do trabalho, após o registro da CAT inicial. (PREVIDÊNCIA SOCIAL, 2015, p. 1)
A CAT de reabertura de acidente do trabalho deve conter as mesmas informações da época do acidente, excetuando-se as quanto ao afastamento, último dia trabalhado, atestado médico e data da emissão, que serão relativos à data da reabertura. Situações de simples assistência médica ou afastamentos com menos de 15 dias consecutivos não são considerados para reabertura de CAT. (CASTRO; LAZZARI, 2014, p. 477)
A expedição da CAT deve ser provada pelo empregador, nunca pelo empregado. (CASTRO; LAZZARI, 2014, p. 477)
Diante do exposto, verifica-se a importância que a Comunicação de Acidente de Trabalho possui. Além de ser uma obrigação legal, cuja omissão ou atraso representa imposição de multas aos responsáveis pela emissão, a sua realização contribui para a obtenção de dados epidemiológicos fidedignos, utilizados para desenvolvimento de ações voltadas à saúde e segurança do trabalhador, bem como garante direitos e benefícios previdenciários diferenciados aos acometidos pelos infortúnios na vida laboral.