CAPÍTULO II Histórias Virtuais
2.3 Entre as redes: o Orkut e o Facebook
2.3.2 A comunidade Apaixonados Por Perfumes (ApPorkut)
Segundo Ramos (2011, p.18), quatro elementos são definitivos para a intensidade da interação social nas comunidades. São eles: o números de membros; a duração e o número de tópicos; a quantidade de posts; e a recorrência da participação dos membros nos tópicos”. Na ApP, a primeira coisa que me chamou atenção, assim que fui autorizada a participar da comunidade, era o sucesso da própria comunidade nestes quesitos. Assim, a ideia do término do Orkut enquanto rede social é suplantada quando me deparo com esta comunidade, que tem atualização contínua e interações quase que 24horas por dia. Grasi Silva, em meio a uma negociação, me disse: “é de lá que conheci a Déia, a Bárbara e algumas outras meninas, que estão no „Face‟. a Déia quer que eu faça um „Face‟, mas acho tão complicado de achar as coisas lá...kkk ... mas, quem sabe, um dia me rendo!” Isso mostra que a ascensão do grupo ApP não diminuiu a comunidade, e, pelo contrário, colaborou para a sua expansão, estabelecendo uma relação que pode ser entendida a partir da lógica quase comercial entre “matriz” e “filial”.
Minha história com a comunidade ApP é um pouco diferente. Envolve um pouco do trabalho sobre a conquista da rede24, por parte do antropólogo, bem como as negociações simbólicas que nos permitem circulação em determinados espaços. Para “descobrir” a ApPorkut, precisei recorrer mais uma vez à Renata Quadros, minha influente interlocutora, “apaixonada por perfumes” mas que frequentemente enjoa aquilo que compra, por isso, frequentemente vende muita coisa, e, em certa oportunidade, comentou-me sobre o status de participação que a ApPorkut. Inicialmente, sem pedir ajuda, tentei inúmeras vezes e sem sucesso, entrar na ApPorkut, que tem participação fechada25, pois, me chamava atenção o fato de a comunidade ainda funcionar a “pleno vapor” no Orkut. Passados alguns meses e algumas tentativas, retomei o assunto com a Renata, que me prometeu conversar com uma das moderadoras da comunidade – a Cristina Sampaio. Via Facebook, a Renata, novamente, me sugeriu adicionar a “Cris” no Facebook para com ela, conversar e solicitar a entrada na ApP do Orkut. Foi isso que eu fiz, uma vez que de alguma forma, sentia, como aprendiz de antropóloga, que precisava “viver” aquela comunidade, o que até então, no meu ponto de vista, eu tinha apenas bons contatos que geraram entrevistas em profundidade, mas, para o trabalho de campo propriamente dito, parecia-me que algo faltava no sentido de completar essa jornada que é a etnografia. Então, fui fazendo esforços para conseguir isso. Consegui o contato com a Cris Sampaio, que, por sua vez, conseguiu a autorização de entrada na ApP do Orkut, bem como mencionou a ApP do Facebook, que formam “espaços-irmãos” no sentido de interação entre pessoas com laços a partir do gosto sobre perfumaria.
Eu sou apaixonada por perfumes desde pequena, lembro que minha me levava "na cidade" fazer compras, e nas lojas Brasileiras e Americanas eu sempre fazia escândalos por colônias baratinhas, daquelas Gellu's, Dote e Naturelle. Preferia elas a brinquedos. Meu primeiro contato com importados foi uma história curiosa... estava arrecadando prendas pra escola, pra uma festa junina, e em uma perfumaria ganhei uma amostrinha do Joop! Femme. Tinha eu meus 10 ou 11 anos... por curiosidade abri a ampola, e tá, até parece que o dei pra escola! Foi amor a primeira cheirada, até hoje é um dos meus preferidos! Comecei minha coleção de fato e com seriedade fazem uns 4 anos e meio, e atualmente conto com mais de 200 frascos. Já comprei muito "as cegas" e errei muito. Acabei trocando, doando ou vendendo. Hoje invisto mais nos "vintage", perfumes que fizeram a história da perfumaria e foram marcos de épocas. Minha última aquisição foi um Nocturnes da Caron. Ser aceita na APP (depois de 2 tentativas frustradas) foi muito bom, pois conheci outros "viciados", no bom sentido. Além das amizades conquistadas, tem as
24 No sentido de formar uma rede de contatos a partir dos interlocutores conhecidos durante o trabalho de campo.
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De forma que você precisa sempre pedir permissão, que é concedida somente pelo proprietário ou pelos moderadores da própria comunidade, não sendo de aberta ao livre ingresso.
trocas, as vendas, a generosidade incrível das pessoas daqui, que sempre estão dispostas a trocar, mandam amostras, dividem mesmo! Além das informações e conversas sempre animadas! O ruim é que as vezes a APP "atiça" nossas lombrigas consumistas, e acabo me excedendo no vício... Mas olha, perfume é meu único gasto supérfluo, vamos colocar assim, estou bem com isso. Nunca deixei nenhuma conta ou compromisso de lado pra comprar perfumes, mas assumo que já escolhi perfumes a roupas e baladas, a exemplo. Não gasto em um pra gastar com outro, entende? Sou psicóloga de formação e profissão, atuo na área organizacional, tenho um blog (www.aloucadosperfumes.wordpress.com), lá também fiz contatos incríveis e conheci pessoas maravilhosas! Além do vício, costumo estudar muito sobre perfumaria e afins, vou atrás de bibliografia, estudo sobre matérias primas, métodos de produção, busco textos e informações em geral, sou realmente apaixonada pelo assunto. Não pretendo parar tão cedo. É minha paixão! (Diana Alcantara, 33, analista de RH, SP, postado em tópico na ApPorkut).
Os depoimentos começaram no tópico criado por mim, na ApPorkut. Quase que de forma simultânea, ingressei na comunidade e no grupo, e, aquele momento, foi como se, de repente, um mundo se abrisse diante dos meus olhos. Para mim, como antropóloga, talvez este movimento representasse aquela “busca por carne e sangue”, mencionada por Malinowski, no trabalho de campo, e, de certa forma, conhecer uma comunidade ainda “viva” no Orkut me garantiu esta vivência ou experiência. Na mesma oportunidade, descobri que meus dois outros interlocutores (Henrique e Luiz Alberto) participavam do grupo ApPface, e, por algum motivo, nunca mencionaram nada a respeito, já que eu não tinha ainda descoberto estes espaços de trocas e sociabilidades sobre perfumes que estivessem ativos e mantinha com eles somente conversas Inbox.
Ao contrário da Perfumistas, a APP tem uma série de regramentos, que são controlados das maneiras mais rígidas possíveis, já que o primeiro tópico de apresentação é “regras da comunidade”. Não sei bem perceber se esta organização pode ser percebida como um reflexo da personalidade da própria Elaine, dona da comunidade, mas, de alguma forma, este espaço regrado sobreviveu à possível decadência da rede social Orkut. Sobre isso, tive, logo de início, uma experiência interessante, que me fez pensar sobre os conceitos de campo (BOURDIEU, 2011) e coersão (DURKHEIM, 1978).
Figura 9 – Regras da comunidade ApP
Em um primeiro momento, para não causar “melindres”, contatei Elaine, de quem sou “amiga” no Facebook, para saber se ficaria mais fácil organizar um título com alguns pontos de interesse para minha pesquisa, de forma que as pessoas que se sentissem à vontade e quisessem participar, deixariam ali, respostas para algumas perguntas em torno do consumo de perfumaria de luxo. A proprietária me orientou organizar um tópico na ApP do Orkut, uma vez que, considera ela, haver lá, uma interação maior e mais bem amadurecida das pessoas. Segui seu conselho, e abri um tópico titulado “pesquisa antropológica: consumo de perfumaria de luxo”, apresentando- me como pesquisadora, trazendo uma série de considerações sobre minha pesquisa, e convidando possíveis participantes. Poucos minutos depois da postagem, recebi uma mensagem educada do moderador Jernê Araújo, que me pediu para refazer o tópico, já que a letra do título estava em caixa alta, de acordo com alguma regra específica do grupo. Eu, prontamente, reorganizei a postagem em um novo tópico, mas, de alguma
forma, fiquei me questionando sobre a necessidade de algumas regras, dentro daquela ideia quase jurídica, das leis, regras e lacunas do direito, da teorização dos “freios e contrapesos” postulada por Montesquieu (2000) para os três poderes, e também dos contratualitas – Rosseau, Hobbe e Locke. Observei também que as pessoas interagem bastante sobre este quesito das regras, trazendo informação sobre outras regras e etiquetas de negociações, para aqueles que não estão “familiarizados” com Orkut, ou até internet. Apresentam-se também, neste espaço, opções para quem anuncia algo ou denuncia alguém, definindo modos de fazer muito próprios, que se tornam condicionantes, para que as interações e relações aconteçam. De outra parte, Elaine me comenta sobre as dificuldades de gerência das comunidades.
Eu vejo a ApP como uma empresa ... Diretores, Gerentes e funcionários, a partir do momento que os funcionários não aceitam regras estabelecidas, acho que esse(s) funcionário(s) não podem continuar na empresa..mas nem sempre é assim. Um dia, um rapaz chegou me atacando dizendo que não gosta da minha administração, que ele não concorda com as minhas posturas, e olha que nunca conversei com ele, nenhuma palavra, nada, a única resposta que podia dar é que o que conheço dele era apenas por postar na comunidade e nada mais que somente aquilo me bastava...eu não pude dar outra resposta...tem horas que quero largar tudo..e deixar a com para outras pessoas, mas são tantas as historias...que hoje tenho um grupo de moderadores que são ótimos e gostam das minhas atitudes (Elaine Testa, dona da comunidade, diálogo inbox, Facebook).
Figura 10 – Tópico sobre pesquisa, com letras em caixa alta
Tópico refeito, segui adiante, observando e conversando com diversas pessoas. Ingressei na comunidade em 27 de março de 2013, e de lá pra cá, foram vivências
bastante intensas, algumas trocas que realizei por lá, dando conta das formalidades da própria comunidade, contatando pessoas por e-mail, já que a comunidade é bastante ativa. Conta com aproximadamente 22 mil pessoas que dela participam, e normalmente possui enquetes e atualizações rápidas. É óbvio que deste número, talvez umas 100 pessoas realmente realizem as atualizações e as interações mais freqüentes, e, atualmente, a comunidade está cada vez mais fechada para a participação de novos membros, devido também ao número de perfis falsos que entraram lá, ao longo do tempo, e chegaram, inclusive, a realizar negociações e passar “calote” em alguns membros reconhecidos e assíduos da própria comunidade. Contudo, a comunidade também tem seu tônus democrático e, um moderador estabelece, em um de seus tópicos: “Caso tenham dúvidas, sugestões ou críticas, contatem um dos moderadores”. As trocas por ali acontecem frequentemente, de modo que as pessoas se contatam a partir dos tópicos sobre procura, venda e troca de perfumes. Eu mesma, já participei desta experiência, que é bastante interessante e, devo retomar especificamente como funciona este ritual das trocas nas páginas que seguem.
Sobretudo, no início desta jornada, e, posteriormente durante os processos de inserção em campo, percebi que não estava trabalhando com “nativos” que espelhassem as mesmas relações de poder vividas pela antropologia quando de seu surgimento, de modo que o perfil dos meus entrevistados e interlocutores apresenta-se em torno do nível de escolaridade que tem, de um certo padrão aquisitivo que serve para sustentar o gosto e o poder de troca destes produtos tão peculiares.
Na oportunidade em que me apresentei para a comunidade ApP, lancei uma série de ideias sobre a pesquisa, solicitando a disposição de pessoas que se dispusessem a responder alguns questionamentos em torno do tema, quando minha interlocutora Damaris Batista Silva, psicóloga, mestre e doutoranda na área, reforçou, por meio de um scrap, a importância e o modo sobre como eu deveria elencar as perguntas, e como eu deveria ser clara nas propostas. Tal gesto me surpreendeu, de alguma forma, uma vez que não esperava uma manifestação de interferência tão direta por parte dos “nativos”, o que me levou a perceber e pensar, cada vez mais sobre seus capitais cultural, econômico, social e simbólico e respectivas hierarquias presentes no campo a partir de cada um daqueles membros das comunidades e dos grupos, em suas políticas criativas do corpo, da alma e da vida, na busca por satisfação de sentimentos, prestígio ou sensibilidades muito particulares, que, por vezes, são externalizadas em grupo, sempre
dentro da perspectiva da relação entre o eu e o outro, a partir dos rituais que se desdobram dentro daquela “casa acolhedora” e dos “pequenos retratos do cotidiano” (ROCHA, 2010).