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2. Controlo social dos comportamentos e práticas problemáticas na investigação

2.1. A comunidade científica: controlo social informal

Muitos dos trabalhos revistos sobre a investigação científica e o ensino superior, e respetivas práticas e comportamentos problemáticos, chamaram a atenção para a importância da comunidade científica, expressão encontrada também em Kuhn (2000). Em termos gerais, podemos dizer que a comunidade científica parece mediar a relação entre o académico individual e a disciplina científica em que trabalha, fazendo operar efeitos de mudança não apenas sobre o indivíduo mas também no seio das IES e das disciplinas científicas, transmitindo ou materializando normas de conduta profissionais, quadros de valoração e interpretação das atividades, estabilizando sistemas de recompensas, criando redes de comunicação, entre outras tarefas.

É na comunidade científica que se opera uma distribuição funcional de tarefas e posicionamentos e o conjunto de académicos (investigadores e/ou docentes) que dela fazem parte serão essenciais na problematização de comportamentos e práticas, comunicação dessas definições e eventualmente reação negativa aos comportamentos e

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práticas problemáticas. A comunidade científica pode ainda ser determinante na criação dos mecanismos específicos de controlo, que trataremos na secção 2.2.

A reação ao comportamento problemático provém da comunidade científica mais ou menos ampla, e não propriamente de uma reação social sem face ou abstrata. Mais: é através da comunidade científica que se procede à avaliação, revisão, crítica intelectual e atribuição de reconhecimento ou, pelo contrário, de estigmatização e sancionamento dos académicos detetados em comportamentos problemáticos. Razões mais do que suficientes para olharmos para as suas características, atribuições e formas de funcionamento.

A comunidade científica pode encerrar em si indivíduos com tarefas e objetivos potencialmente diferentes. Merton, num artigo seu de 1941, apresenta a classificação elaborada por Znaniecki acerca dos variados papéis sociais dos “homens de conhecimento” (cientistas ou sábios, indiferenciadamente). Estes podem ser (Merton, 1973, pp. 42-3): (a) consultores tecnológicos, incluindo peritos (que definem os dados relevantes, seus componentes e inter-relações para cada situação, esclarecendo ainda as bases teóricas das tarefas planeadas para o grupo) e o líder, o diretor-executivo que traça os planos de ação e os meios para a sua execução; (b) os sábios, que fornecem justificações intelectuais para as tendências coletivas da fação que seguem, podendo ser conservatives ou novationists; (c) os académicos, incluindo o designado académico sagrado (que perpetua verdades através da redução exata das suas expressões simbólicas e que tem a seu cargo a manutenção de um sistema de verdades estáveis e inquestionáveis) e o académico secular, seja um descobridor da verdade (inicia uma escola de pensamento e alega a sua verdade absoluta), sistematizador (testa e organiza em sistemas coerentes o conhecimento já existente), contribuidor (fornece novas descobertas que devem servir como provas para sustentar as teorias existentes ou rejeita, justificadamente, o que for considerado como insatisfatório), lutador pela verdade (garante a vitória de uma escola ou movimento, sobre outro/as, usando da capacidade de convencer os restantes colegas em situação de disputa) ou disseminador do conhecimento (nas vertentes de popularização desse conhecimento ou de ensino). Finalmente, da comunidade científica podem ainda fazer parte os (d) criadores de conhecimento, ou exploradores, incluindo o descobridor de factos (encontra factos empíricos imprevistos e permite a ocorrência de alterações nos sistemas de

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conhecimento existentes) ou o descobridor de problemas, que encontra problemas teóricos não considerados até aí.

Merton procura operacionalizar o que se entende por “comunidade de cientistas”, chamando a atenção para o trabalho em comum, para o facto de a história revelar que as descobertas simultâneas são usuais e para a relevância da consulta aos pares na apreciação do trabalho desenvolvido por cada cientista individualmente. Deste modo, “scientists are bound to the past by building upon a deposit of accumulated knowledge, (…) are bound to the present by interacting with others in the course of their work and having their attention drawn to particular problems and ideas by socially and intellectually accentuated interests, and (…) are bound to the future by the obligation inherent in their social role to pass on an augmented knowledge and a more fully specified ignorance. The community of scientists extends both in time and in space” (Merton, 1973, p. 376).

Ora, para o autor, esta comunidade científica tem, ao longo dos anos, orientado a sua ação em função de um sistema de recompensas institucionalizado há muito. Independentemente das características individuais e psicológicas do cientista uma coisa é certa, “he will be under pressure to make his contribution to knowledge known to other scientists and that they, in turn, will be under pressure to acknowledge his rights to his intellectual property” (Merton, 1973, p. 294). No fundo, a ciência imprime como objetivo fundamental para cada cientista a originalidade do trabalho - aquele deve, por isso, esforçar-se ao máximo para produzir e ser reconhecido.

Existem vários níveis de reconhecimento, desde a eponímia, ou seja, a atribuição do nome do cientista à descoberta (pense-se, por exemplo, no chamado bosão de Higgs ou no cometa Halley) ou à paternidade de um campo científico (por exemplo, Comte como o “pai” da sociologia), a outras formas menos relevantes. Por exemplo, a atribuição de bolsas, prémios e distinções honorárias, ou os convites para pertença a sociedades científicas. O sistema acaba por ser um sistema de estrelato, independentemente da motivação individual do académico:

“Scientists themselves have distinguished the stars from the supporting cast by issuing directories of ‘starred men of science’, and universities have been known to accord honorary degrees to scientists along with the larger company of philanthropists, industrialists, businessmen, statesmen, and politicians” (Merton, 1973, p. 301).

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Daí que a originalidade, o reconhecimento, a eponímia (por oposição ao anonimato) sejam a pedra de toque do sistema de recompensas dos cientistas e o grande objetivo da ciência moderna que os insta ao conhecimento – original.

Paradoxalmente, ou não, os cientistas devem ainda orientar-se segundo um princípio de modéstia e humildade, segundo Merton. Tal acontece, por exemplo, nas habituais revisões de literatura, consideradas não apenas um prática instrumental à investigação, mas ainda uma “prática comemorativa” dos trabalhos anteriores. A mesma modéstia deve ser visível quando um autor reconhece as limitações do seu trabalho. Conclui o autor que a ciência parece impor valores incompatíveis sobre os seus membros, originando uma posição de ambivalência. Esta tensão entre originalidade e humildade poderá originar, nos elementos da comunidade científica em ação, alguma ambivalência e eventualmente dar origem a comportamentos desviantes.

No entanto, estes comportamentos problemáticos são, segundo Merton, raros pois a comunidade científica atua de tal modo, através de um modelo de cooperação competitiva (Merton 1973, p. 339), que virtualmente impossibilita a sua existência: o controlo estrito, o escrutínio pelos pares, a verificação ou (mais raramente) a falsificação de resultados implica um “policiamento rigoroso” (Merton 1973, p. 311) que ajuda a reforçar a tendência que os académicos têm para uma vincada integridade moral. Simultaneamente, foram sendo instituídos mecanismos de registo da prioridade das descobertas e dos escritos: versões prévias que circulam entre colegas, registo da data de receção do manuscrito por parte das revistas científicas, averbamento cuidadoso das atividades diárias de recolha e tratamento de dados, entre outros.

Note-se ainda que, para o autor norte-americano, tal como sucede na restante sociedade, também na ciência os indivíduos ocupam lugares diferentes na estrutura social e, por isso, têm um acesso diferencial às oportunidades para o reconhecimento. Por isso, não será de espantar que alguns cientistas reconheçam ou sintam que estão em desvantagem na corrida pelas descobertas originais. No entanto, ao contrário do que se verifica na situação de anomia (Merton, 1968b), a ciência enfatiza vários valores (e não apenas um – no caso da sociedade dos EUA é a obtenção de riqueza,), como sejam também a procura da verdade de forma desinteressada (Merton, 1973, p. 321), o que significa que os académicos sentirão menos pressão para o desvio, face aos seus concidadãos não académicos.

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Um dos exemplos de acesso diferencial aos recursos na ciência e ensino superior é a clivagem existente por via do que Merton designou como “efeito Matthew” (Merton, 1968a): os cientistas que já ganharam reconhecimento pelos pares recebem sucessivamente mais desse mesmo reconhecimento a cada nova publicação ou trabalho, ao passo que tal é difícil de conceder aos académicos mais novos que realizem trabalho idêntico. Note-se, ainda, que este enviesamento é mais marcado para os homens do que para as mulheres. Historicamente, e ainda nos dias de hoje, a comunidade científica tende a ser altamente discriminatória para com as mulheres. Diferentes estudos mostram que estas veem as suas oportunidades diminuídas face aos seus pares masculinos: “gender regimes in universities have traditionally been profoundly unwelcoming to women and had allowed the unacknowledged exploitation of their work.” (Becher e Trowler, 2001, p. 19)

Por outras palavras, o efeito Matthew significa que “a scientific contribution will have greater visibility in the community of scientists when it is introduced by a scientist of high rank than when it is introduced by one who has not yet made his mark” (Merton, 1973, p. 447). Fenómeno que pode ser considerado disfuncional por penalizar os académicos nos graus inferiores da carreira, aprofundando diferenças na distribuição de honrarias mas também de recursos, isto é, aprofundando a acumulação de vantagens e de diferenças no sistema de estratificação da ciência. Por exemplo, num artigo publicado em conjunto, os leitores tendem a reter apenas o nome do académico mais conhecido; em caso de descobertas simultâneas, a que foi reclamada pelo cientista com mais reconhecimento tende a ser analisada mais seriamente, do que a de outro(s) colegas que tenham chegado à mesma conclusão mas sejam ilustres desconhecidos. Donde se conclui que “[W]hen the Matthew effect is thus transformed into an idol of authority, it violates the norm of universalism embodied in the institution of science and curbs the advancement of knowledge” (Merton, 1973, p. 457).

Existem, portanto, várias instâncias pelas quais, ao longo da carreira, os cientistas adquirem ou recolhem reconhecimento; a partir dessa aquisição, o reconhecimento passa a ser atribuído de forma quase automática pela comunidade de pares (Merton, 1973, p. 477). Este fenómeno pode introduzir enviusamentos no processo de avaliação por peer review onde não exista anonimato, bem como na alocação de bens, regalias e recursos.

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Sintetizando, a ciência quando funciona adequadamente, diz Merton, atribui aos cientistas o reconhecimento e estima devida pelo avanço e do conhecimento, fazendo coincidir a obrigação moral e o interesse próprio do cientista (Merton, 1973, p. 399). No entanto, a ênfase e desejo pelo reconhecimento pessoal, pela validação e aplauso ao trabalho produzido, pode acarretar disfuncionalidades para a atividade científica; a importância da originalidade e prioridade pode motivar comportamentos desviantes cometidos pelos académicos. E tudo isto sucede através do funcionamento da comunidade científica.

Mulkay (1976) vem opor-se à visão funcionalista da ciência e ao conjunto de normas enumeradas por Merton (universalismo, desinteresse, etc.) como implicitamente pertencentes ao sistema científico e necessárias ao evitamento do desvio no seu seio. Mulkay alega que estas normas não são realmente normas sociais mas antes ideologias, construções frásicas ou justificações que podem (ou não) ser usadas pelos cientistas na persecução dos seus interesses. O seu cumprimento ou incumprimento pelos cientistas não determina o tipo e quantidade de recompensas obtidas, pois estas sucedem em função das publicações e da informação científica comunicada por meio dos artigos científicos. São estas tarefas que atribuem reputação e permitem a avaliação dos cientistas, não o maior ou menor cumprimento daquelas normas.

Seguindo o trabalho de Mitroff, Mulkay refere que os cientistas em comunidade podem usar contra-normas, ou seja construções de vocabulário opostas àquelas desenhadas por Merton, negociando assim justificações para os seus comportamentos. Nenhuma sanção parace decorrer do uso destas contra-normas, como quando, por exemplo, o secretismo de um estudo (por oposição ao comunitarismo) é justificado pela necessidade de realizar mais análises, ou quando os investigadores remetem para as técnicas e metodologias particulares do seu campo de estudo (opondo-se assim ao universalismo): “each of the initial set of norms is accompanied by an opposing norm which justifies and prescribes action in complete opposition” (Mulkay, 1976, p.640).

Que interesses procuram então os cientistas servir ao ativar normas e contra-normas ou, segundo Mulkay, quando procuram disseminar determinados tipos de ideologias que são acolhidos pelo público leigo em geral e pelos políticos em particular? Ao rever estudos dos EUA e do RU (Daniels, 1967; Greenberg, 1969; Tobey, 1971; e King, 1968, todos cit. in Mulkay, 1976), o autor conclui que na América do séc. XIX os cientistas tiveram necessidade de se afastar do modelo de ciência popular em voga na

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altura, defendendo a necessidade de autonomia e liberdade na investigação pura. Para tal procuraram merecer um tratamento especial pelos poderes públicos, sendo especialmente poupados a sistemas de regulação exteriores. Após a II Guerra Mundial, dada a necessidade de apoio financeiro público, os cientistas alegaram que o sistema interno de valores da ciência garantiria standards éticos suficientes para que a sociedade nela pudesse confiar sem se imiscuir na sua atividade. A comparação da atividade científica com o modelo ideal de democracia do pós-guerra foi também usada, sublinhando que os valores da comunidade científica eram os mesmos valores fundamentais da América da época e que conduziriam ao progresso, permitindo “to ‘sell’ science, not only to government but also to the Americam public” (Mulkay, 1976, p. 651), tal como sucedeu também no RU.

Donde a necessidade de descrever o cientista como um indivíduo totalmente afinado com os valores da modéstia, simplicidade objetividade, honestidade, altruísmo, paciência, independência, entre outros. Tal parece ter sido conseguido através do discurso dos cientistas de mais alto gabarito, os líderes ou aqueles pertencentes às elites científicas. Conclui:

“what have previously been regarded as components of the dominant normative structure of science are better conceived as vocabularies of justification, which are used to evaluate, justify and describe the professional actions of scientists, but which are not institutionalized within the scientific community in such a way that general conformity is maintained. (…) the leaders of academic science (…) have drawn selectively on these vocabularies in order to depict science in a way which justified their claim for a special political status; and that the biased image of science” (Mulkay, 1976, p. 653-4).

O autor chama assim atenção para este uso de uma “ideologia ocupacional” e não propriamente para um sistema normativo institucionalizado.

Scheff (1995) defende que os grupos académicos se assemelham grandemente a gangs, partilhando códigos que regulam as necessidades materiais e emocionais dos membros. No caso dos gangs académicos, cada grupo pertence a uma “escola” ou linha de pensamento e vários grupos acabam por partilhar o mesmo clã-disciplina. A adequada pertença ao gang faz-se através de um sistema de lealdades que acaba por ter impacto no decurso da carreira de cada um dos elementos, seja em promoções ou na obtenção de bolsas. Esta lealdade e identidade coletiva, por seu turno, são mecanismos necessários

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para ultrapassar o isolamento típico da atividade de académico, progressivamente aprofundada à medida que se especializa num saber que dificilmente consegue partilhar fora do gang.

No fundo, a pertença ao grupo acarreta ganhos materiais, mas também emocionais: “one’s work becomes the key elemento to one’s identity” (Scheff, 1995, p. 159). Isto, por seu turno, irá tornar exigível a diferenciação ou exclusão de grupos diferentes, a criação de identidades negativas através da desvalorização ou desconhecimento de outros grupos e respetivos trabalhos. Comunidade e comunicação com o grupo de pertença. Exclusão e diferenciação com os restantes grupos ou gangs.

Que comportamentos problemáticos podem daqui evoluir? Scheff (1995) considera que as formações académicas funcionam partilhando lealdades, recompensas emocionais, problemas profissionais e linguagem. Para o que aqui nos interessa, vem demonstrar que essa lealdade se sobrepõe a critérios de originalidade ou mérito quando se torna necessário avaliar pares. Quer se trate da atribuição de uma bolsa, de revisão de um artigo, de promoções profissionais ou de recomendações (de uma pessoa, ou de um trabalho), as relações de lealdade sobrepõem-se aos critérios de avaliação e por várias razões: quer porque o avaliador acredita realmente que o candidato tem as qualidades necessárias para uma avaliação positiva, quer porque “in promoting a fellow gang member, one is also helping one’s own cause” (Scheff, 1995, p. 158). Nem o anonimato na avaliação impede a identificação do grupo a que o candidato pertence, pois a literatura citada remente para a escola de pensamento preferida e, portanto, para o grupo de fidelidades.

De forma paralela, Cronin (2001), Cronin et al. (2003) e Cronin, Shaw e La Barre (2004) referem o que consideram ser uma tendência para a hiper-autoria, em áreas (biomedicina ou física) onde se torna essencial a cooperação de um grande número de indivíduos, com diferentes especializações e competências técnicas, eventualmente distribuídos por vários locais. A interdependência estrutural entre grupos, instalações, áreas de saber (Cronin et al., 2003), passa a ser uma característica da atividade científica atual, de modo que a noção de comunidade científica ganha toda uma nova dimensão. A exceção parece pertencer às áreas das Humanidades, nomeadamente a Filosofia. No entanto, o mesmo autor refere que muitas das vezes a colaboração é mais de tipo oportunista do que estratégica, no sentido em que os cientistas publicam em colaboração com os colegas que estão mais próximo, nomeadamente alunos de doutoramento, pós-

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doutoramento ou pares (Cronin, 2008). De tal modo que a proximidade a um grupo tem efeitos na produção académica e no processo de socialização.

Becher e Trowler (2001) dão conta de uma série de mudanças no padrão de atividade dos académicos devido às transformações socioeconómicas que vieram impactar as IES: globalização, mercantilização do ensino superior e da investigação científica, managerialismo. Consideram que os académicos, apesar daquelas mudanças, continuam a defender e a acreditar em valores e práticas do passado, nomeadamente no que toca à especialização e divisão disciplinar, mal se apercebendo que ocorreu uma ‘desprofissionalização’, diferenciação, fragmentação e enfraquecimento dos laços de uniam a comunidade científica. Os contratos são de carácter mais temporário, a divisão de trabalho torna-se mais rígida mas com diferenciações estruturais cada vez mais marcadas: “academics are increasingly stratified, with more internal hierarchies and divisions simulated by the need for managerial flexibility” (Becher e Trowler, 2001, p. 17). A investigação torna-se fragmentária e o ensino desenvolvido para uma clientela cada vez mais massificada, boa parte do tempo é usada em funções administrativas ou burocráticas e as tarefas são no sentido do empreendedorismo ou gestão. Outra das características encontradas por estes autores no ambiente atualmente vivido é a da contínua perda de controlo dos académicos sobre o seu próprio trabalho e ambiente, juntamente com níveis maiores de vigilância e maior responsabilização pelos produtos do trabalho.

Após o processo de socialização, o académico passa a interiorizar o sistema de recompensas e a procurar traçar um percurso profissional relevante, principalmente através do desenvolvimento da sua reputação e contribuição original para a disciplina. Vários estudos, citados por Becher e Trowler, confirmam a centralidade deste aspeto na vida dos académicos e independentemente da disciplina onde exercem: the outcome of one’s work (…) is not an end in itself but a means to the end of one’s own professional achievement” (Becher e Trowler, 2001, p. 76). Efetivamente, o reconhecimento como autoridade na área de estudo é, para a maioria dos académicos (principalmente para os que se dedicam à investigação), mais importante do que o sucesso económico (Sax et al., 1999, cit. in Becher e Trowler, 2001). E este reconhecimento é, para a maior parte das disciplinas científicas, obtido através do crédito conquistado através da publicação da investigação realizada, já que a qualidade na docência tende a contar muito pouco para os pares.

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A importância da publicação no reconhecimento profissional implica uma mudança de ênfase, cada vez mais sentida, da docência para a investigação, bem como alterações na gestão do tempo que passa a ser dedicado cada vez menos aos alunos. Do mesmo modo, a quantidade das publicações (e não a sua qualidade) parece ser o motor, pelo menos para os investigadores mais jovens. No final, “the significance of research has been raised and responsibility for academic development in universities has been centralized with research becoming an institutional rather than individual concern” (Becher e Trowler, 2001, p. 78).

O impact factor como um dos mecanismos centrais na avaliação da relevância das publicações científicas tem sofrido várias críticas provenientes de diferentes campos